Nesta sexta-feira, 5 de junho, quando o mundo volta os olhos para o Dia Mundial do Meio Ambiente, iniciativas comunitárias espalhadas pelo Cerrado brasileiro reforçam que conservar a natureza vai muito além da proteção da biodiversidade. Em diferentes territórios do bioma, redes de coleta de sementes nativas vêm mostrando que restaurar áreas degradadas também significa fortalecer comunidades, gerar renda, ampliar a autonomia de mulheres e reconstruir vínculos entre pessoas e território.

Considerado o “berço das águas” do Brasil por abrigar oito das doze principais bacias hidrográficas do país, o Cerrado enfrenta um cenário de perda acelerada da vegetação nativa. Ao mesmo tempo, cresce a urgência por soluções capazes de unir conservação ambiental, enfrentamento das mudanças climáticas e desenvolvimento social.

É nesse contexto que as redes comunitárias de sementes têm ganhado protagonismo. Um diagnóstico socioambiental realizado pela Articulação pela Restauração do Cerrado (Araticum), com apoio do Instituto Clima e Sociedade (ICS), da Rede de Sementes do Cerrado (RSC), do Redário e do WWF-Brasil, mostra que a coleta de sementes nativas vem se consolidando como uma das principais estratégias de restauração ecológica no bioma.

O estudo ouviu sete organizações comunitárias distribuídas em diferentes regiões do Cerrado entre abril e julho de 2025, revelando impactos que vão além da recuperação ambiental. Mais do que sementes destinadas à restauração, o trabalho realizado por coletoras e coletores têm fortalecido a permanência das famílias nos territórios, valorizado conhecimentos tradicionais e criado novas possibilidades econômicas para comunidades rurais, quilombolas e povos tradicionais.

Responsável pela coleta e sistematização dos dados, a pesquisadora Yasmin Tavares explica que o diagnóstico buscou compreender a realidade vivida pelas comunidades envolvidas na atividade. “O trabalho buscou ouvir as pessoas que estão na ponta, entender seus desafios, motivações e o que precisa ser fortalecido. Mais do que números, o estudo revela histórias de transformação e resistência”, destacou.

Meio ambiente e pertencimento

Em meio às discussões globais sobre crise climática e conservação ambiental, o estudo chama atenção para um aspecto muitas vezes invisível: a restauração ecológica também atua diretamente na saúde emocional, no fortalecimento comunitário e no sentimento de pertencimento das pessoas que vivem no Cerrado.

Para muitas coletoras, a relação com o território vai além do trabalho. “Minha depressão foi basicamente curada dentro do Cerrado. Eu aprendi a sentar, respirar e entender que eu podia vencer e foi através da coleta que eu encontrei esse bem-estar pra minha vida”, relata Emellyn Ribeiro de Souza, da Associação dos Produtores Agroecológicos do Alto São Bartolomeu (APROSPERA – Rede Cora).

Outro dado que chama atenção no levantamento é o protagonismo feminino nas redes de sementes. Segundo o diagnóstico, as mulheres representam 66,7% das pessoas envolvidas nas organizações comunitárias, atuando desde a coleta até a gestão das iniciativas.

Além da autonomia financeira, a participação feminina tem ampliado espaços de liderança e fortalecido processos de organização comunitária nos territórios. “A semente gera renda, mas também fortalece autoestima, pertencimento e conexão entre as pessoas. Muitas mulheres encontram nesse trabalho uma forma de reconstrução pessoal e comunitária”, destaca Anabele Gomes,  Presidente da Rede de Sementes do Cerrado (RSC).

Ao mesmo tempo em que gera renda, a coleta de sementes fortalece laços comunitários, resgata saberes tradicionais e cria alternativas econômicas ligadas à sociobiodiversidade. A dimensão desse trabalho também se revela na forma como os próprios coletores percebem sua contribuição para o meio ambiente. “A gente sabe que o nosso trabalho é importante, mas quando para pra refletir, a gente entende o tamanho do que faz. É como se a gente estivesse escrevendo a nossa própria história, restaurando a natureza e a nós mesmos”, reflete Claudiane Ferreira Sousa, coletora de sementes da Rede de Sementes do Oeste da Bahia (ARSOBA).

Crise climática

O estudo também reforça o papel do Cerrado para o equilíbrio climático e hídrico do país. Diante do compromisso brasileiro de restaurar 12 milhões de hectares de vegetação nativa até 2030, experiências de base comunitária desenvolvidas no Cerrado mostram que a restauração ecológica pode se tornar também uma estratégia de inclusão produtiva, geração de renda e fortalecimento dos territórios. Neste 5 de junho, o trabalho realizado pelas redes comunitárias do Cerrado reforça uma mensagem cada vez mais urgente: proteger o meio ambiente também significa cuidar das pessoas que mantêm o bioma vivo todos os dias.