Manifesto Cerrado Vivo: a Rede de Vida como horizonte filosófico e político na defesa da Chapada dos Veadeiros
15 junho 2026 às 13h30

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Álvaro De Angelis
O Cerrado brasileiro é, há décadas, um território paradoxal: bioma mais negligenciado pela política ambiental nacional e, simultaneamente, matriz hídrica continental, mosaico de povos indígenas e quilombolas em escala civilizatória, e reservatório de carbono fóssil em volumes que a ciência apenas recentemente começa a mensurar. Em um momento ainda recente da COP30 sob presidência brasileira em Belém, o caso da Chapada dos Veadeiros – onde o avanço de processos minerários sobre Unidade de Conservação reconhecida pela UNESCO como Patrimônio Natural da Humanidade e sobre o Sítio Histórico e Patrimônio Cultural Kalunga, primeiro Território e Área Conservada por Comunidades Indígenas e Locais (TICCA) reconhecido pelas Nações Unidas no Brasil, expõe a fragilidade institucional do regime de proteção brasileiro – torna-se ocasião privilegiada para pensar de modo renovado as bases ontológicas, jurídicas e políticas da defesa da vida no Cerrado.
É nesse horizonte que se inscreve a presente palestra. O Manifesto Cerrado Vivo articula, sob o nome filosófico de Rede de Vida, uma proposta ontológica que recusa a tradicional separação entre sujeito humano e natureza-objeto e propõe, em seu lugar, o reconhecimento de uma rede de actantes que nos atravessa a todos, sem distinção de naturezas. Não se trata de extensão metafórica do estatuto de sujeito a entidades não-humanas, nem de antropomorfização sentimental de territórios. Trata-se, antes, de seguir consequentemente os caminhos abertos por uma constelação de pensamento contemporâneo – a sociologia da actância de Bruno Latour, o perspectivismo ameríndio sistematizado por Eduardo Viveiros de Castro, as companheirias multiespécies pensadas por Donna Haraway, o pensamento de Ailton Krenak sobre as alianças entre povos e montanhas, a pluriversa proposta de Arturo Escobar, a metafísica de processo de Alfred North Whitehead – para reconhecer que o Cerrado, antes de ser objeto da defesa humana, é sujeito que se defende, com humanos e com outros actantes.
Essa formulação tem três consequências articuladas. A primeira é ontológica: o Cerrado é territorialidade viva, dotada de agência, identidade interespécie e memória — não pano de fundo neutro de ações humanas. As veredas e demais áreas úmidas, os cupinzeiros, o pequi, o lobo-guará, os rios das três grandes bacias continentais que a Chapada articula como divisor de águas, os solos com mais de mil toneladas de carbono fóssil por hectare em acumulação de vinte milênios, as comunidades quilombolas Kalunga, o povo Avá-Canoeiro em situação de extrema vulnerabilidade demográfica — todos esses são actantes da mesma rede, e nenhum deles é mera paisagem para os demais. A segunda consequência é jurídica: em diálogo com a tradição emergente dos Direitos da Natureza (presente nas constituições do Equador e da Bolívia), o reconhecimento do Cerrado como sujeito de direitos demanda repensar os instrumentos legais que regem a proteção territorial — entre eles, justamente, o regime das Unidades de Conservação do Sistema Nacional de Unidades de Conservação. A terceira consequência é política: a defesa do Cerrado vivo exige modos de articulação institucional que não reproduzam a hierarquia tradicional entre sujeitos humanos e objetos naturais, e que reconheçam, na prática operacional cotidiana, a co-actância de todos os participantes da rede.
O caso da Chapada dos Veadeiros, com a articulação institucional em curso por meio da Coalizão em Defesa da Chapada dos Veadeiros, fundada em 20 de maio de 2026 durante audiência pública na Assembleia Legislativa de Goiás, oferece amostra concreta dessas três consequências em movimento. Apresentarei na quarta-feira, dia 17, palestra ao público do NuSacer e do PPGTECCER da Universidade Estadual de Goiás -UEG, com apresentação do arcabouço filosófico da Rede de Vida, uma arquitetura conceitual e seus principais interlocutores teóricos, propondo um exercício articulado de pensamento sobre o que significa, em termos teóricos, jurídicos e políticos, defender o Cerrado vivo na conjuntura brasileira contemporânea.
A proposta é, simultaneamente, ousada e necessária. Ousada porque articula tradições filosóficas distintas em torno de uma proposição ontológica original. Necessária porque o tempo do Cerrado — esse tempo lento de bioma que demorou milhares de anos para se constituir e que pode ser desfeito em décadas — exige da pesquisa acadêmica brasileira um gesto de pensamento à altura da urgência territorial e existencial que enfrentamos. O Manifesto Cerrado Vivo se oferece como contribuição a esse gesto, e a presente palestra como convite ao diálogo, ao contraditório qualificado, e à construção coletiva de horizontes de defesa da vida no Cerrado, em chave que articule rigor filosófico, ancoragem territorial e compromisso institucional com os povos e comunidades que habitam o bioma.
Álvaro De Angelis é filósofo popular-ativista socioambiental brasileiro, com mais de quatro décadas de atuação na defesa do Cerrado e da Chapada dos Veadeiros. É Coordenador do Movimento SOS Chapada dos Veadeiros e Diretor de Relações Institucionais da Organização Natureza Inclusiva, com sede em Cavalcante (GO). Em maio de 2026, articulou a fundação da Coalizão em Defesa da Chapada dos Veadeiros, que congrega originariamente sete organizações da sociedade civil e pesquisadores de instituições de ensino superior e pesquisa em torno da salvaguarda do mosaico Chapada dos Veadeiros — Parque Nacional reconhecido pela UNESCO como Patrimônio Natural da Humanidade, Área de Proteção Ambiental do Pouso Alto, e Sítio Histórico e Patrimônio Cultural Kalunga.
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