Como falar sobre a crise climática sem transformar o assunto em uma sucessão de catástrofes? E, ao mesmo tempo, como evitar que a gravidade do problema seja minimizada? Essas questões estiveram no centro do painel “Narrar a crise climática: entre o alarmismo e a paralisia”, realizado durante o Fórum Horizonte, dentro da programação do Festival Internacional de Cinema e Vídeo Ambiental (Fica), na cidade de Goiás. O debate reuniu a jornalista Paula Scarpin, da Rádio Novelo, o comunicador indígena Ray Baniwa e o jornalista Italo Wolff, com mediação de Marcilon Almeida.

Segundo Wolff, o reconhecimento está relacionado ao trabalho que desenvolveu no Jornal Opção, especialmente na cobertura de ciência, meio ambiente e universidade. Nos últimos anos, o jornalista atuou em espaços dedicados à divulgação científica e ambiental, incluindo a coluna de Ciências, a editoria Todo Ambiente e a cobertura de pautas da Universidade Federal de Goiás (UFG), áreas que ampliaram sua atuação no jornalismo especializado.

Ao invés de discutir apenas os efeitos das mudanças climáticas, os participantes refletiram sobre a forma como essas histórias são contadas e os impactos que diferentes narrativas produzem sobre o público.

Paula Scarpin apresentou a experiência da Rádio Novelo na cobertura da pauta climática, especialmente por meio do podcast Tempo Quente. Segundo ela, a estratégia da equipe é conquistar a atenção das pessoas pelo entretenimento e mantê-las pela informação.

A proposta, explicou, é aproximar um tema complexo do cotidiano dos ouvintes e provocar engajamento social. Mais do que informar, o objetivo é sensibilizar as pessoas para que pressionem por mudanças nas políticas ambientais e participem do debate público.

Já Ray Baniwa trouxe ao painel a perspectiva dos povos indígenas da região do Rio Negro. Cofundador da Rede Wayuri de Comunicação, ele relatou como as comunidades indígenas convivem diariamente com os impactos das mudanças climáticas e das pressões sobre seus territórios.

Segundo ele, os povos originários estão entre os grupos mais vulneráveis aos efeitos da crise climática. Ao mesmo tempo, possuem formas próprias de narrar essas transformações, construídas a partir da observação direta do território, da memória coletiva e das tradições culturais.

Italo Wolff procurou abordar a questão a partir da história e das características do jornalismo ambiental. Durante sua participação, ele argumentou que a percepção de que a cobertura ambiental é excessivamente alarmista não surge por acaso. Para entender esse fenômeno, explicou, é preciso observar as particularidades do próprio campo do jornalismo ambiental.

Wolff citou conceitos desenvolvidos pelo professor Roberto Villar Belmonte, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e um dos criadores da Rede Brasileira de Jornalismo Ambiental. Segundo essa visão, o jornalismo ambiental trabalha frequentemente com quatro elementos centrais: risco, limite, processos longos e incerteza científica.

São temas que envolvem riscos futuros, como o aumento da temperatura global ou a contaminação de rios; limites ambientais relacionados ao uso de recursos naturais; processos que se desenvolvem ao longo de décadas, como o desmatamento da Amazônia; e incertezas inerentes à própria produção científica.

O problema, observou o jornalista, é que esses elementos costumam contrariar a lógica tradicional da notícia. “O jornalismo gosta de acontecimentos concretos, objetivos e atuais. Já o jornalismo ambiental frequentemente trata de algo que ainda não aconteceu, que pode acontecer ou que está acontecendo de forma lenta e gradual”, explicou Italo Wolff ao Jornal Opção.

Para Wolff, essa característica ajuda a entender por que muitas reportagens acabam recorrendo a tons mais dramáticos.

“Quando o assunto envolve algo abstrato, distante ou incerto, existe uma tendência de compensar isso na linguagem. O jornalista tenta transmitir ao leitor a gravidade do problema e, muitas vezes, acaba apostando no alerta”, afirmou.

Segundo ele, essa escolha pode produzir um efeito colateral: afastar parte do público.

Ao ouvir repetidamente mensagens associadas ao colapso ambiental, algumas pessoas podem desenvolver uma sensação de impotência diante do problema. Em vez de mobilização, surge a paralisia.

Por isso, um dos desafios da cobertura climática contemporânea é encontrar um equilíbrio entre informar com responsabilidade e evitar narrativas que levem ao fatalismo. “O objeto do jornalismo ambiental não precisa ser apenas o desastre. Ele também pode ser usado para contar histórias antes que o desastre aconteça”, defendeu Wolff.

A discussão realizada no Fica mostrou que comunicar a crise climática talvez seja tão importante quanto compreender suas causas. Afinal, a forma como as histórias são contadas influencia diretamente a maneira como a sociedade reage aos desafios ambientais.

Em um momento em que eventos extremos se tornam cada vez mais frequentes e as evidências científicas se acumulam, o debate apontou para uma conclusão comum entre os participantes: não basta falar sobre a crise climática. É preciso encontrar formas de narrá-la que informem, sensibilizem e, sobretudo, incentivem a ação.

Fica 2026

A 27ª edição do Festival Internacional de Cinema e Vídeo Ambiental, o Fica 2026, encerra sua programação neste domingo, 21, na cidade de Goiás, com a cerimônia de premiação das produções vencedoras, reapresentação dos filmes premiados no Cine Teatro São Joaquim e show de Marcelo Falcão, marcado para as 20h, no Palco Beira Rio.

Realizado desde a última terça-feira, 16, o festival reuniu produções nacionais e internacionais, debates, oficinas, atividades formativas e apresentações culturais gratuitas. Neste ano, o evento teve como tema “Água e Clima no Brasil das Nascentes”, com foco na preservação dos recursos hídricos, na segurança hídrica e nos impactos das mudanças climáticas.

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