Lucimar das Neves foi encontrado morto em Aparecida de Goiânia, a causa da morte não foi divulgada e o falecimento foi confirmado pela família. Ele era irmão de Leide das Neves, a menina de 6 anos vítima do acidente com o Césio-137, ele tinha 14 anos na época e, em 2026, completava 53 anos de vida.

O sepultamento ocorre neste domingo às 10h em Abadia de Goiás. O acidente do Césio-137 decorrente da negligência no descarte de materiais radioativos é o maior acidente radiológico da história ocorrido fora de usinas nucleares.

O Jornal Opção entrevistou Lucimar e sua mãe, Lourdes, em março deste ano. Ele compartilhou parte da sua vivência após a tragédia do Césio e do falecimento de sua irmã. Sua rotina, ainda na adolescência, foi substituída por internações, isolamento e incertezas. Segundo ele, os profissionais de saúde ainda aprendiam a lidar com os efeitos da contaminação, e muitas das experiências vividas naquele período permaneceram marcadas em sua memória.

Lucimar contou que jamais conseguiu retomar a vida plenamente. As lembranças do acidente voltavam de forma inesperada, acompanhadas por períodos de profunda tristeza e mudanças bruscas de humor. Ao longo das décadas, descreveu uma trajetória marcada por dificuldades emocionais e pela tentativa constante de reconstruir a própria vida após o trauma.

Mesmo diante de tamanho sofrimento, Lucimar mantinha a compaixão e afirmou, na entrevista de março, que nunca cultivou ressentimento contra as pessoas envolvidas na tragédia. Para ele, muitos também foram vítimas das circunstâncias e da falta de conhecimento sobre os riscos da radiação naquele momento.

Quase quatro décadas depois, Lucimar seguia como uma das vozes que mantinham viva a memória do Césio-137. Em seus relatos, buscava mostrar que os impactos da tragédia não terminaram com o fim da contaminação, mas continuaram presentes na vida de quem sobreviveu e conviveu com suas consequências.

O acidente do Césio-137

O acidente com o césio-137 teve início em setembro de 1987, quando um equipamento de radioterapia abandonado em uma clínica desativada, em Goiânia, foi retirado por catadores de materiais recicláveis. Sem saber do perigo, eles desmontaram o aparelho e encontraram uma cápsula que continha césio-137, substância altamente radioativa. O brilho azulado do material despertou curiosidade e fez com que ele fosse compartilhado entre parentes, amigos e vizinhos, espalhando a contaminação por diferentes regiões da capital.

A tragédia rapidamente ganhou proporções inéditas. Centenas de pessoas precisaram ser monitoradas por suspeita de exposição à radiação e dezenas apresentaram contaminação. Quatro pessoas morreram em consequência direta do acidente: Leide das Neves Ferreira, de seis anos; Maria Gabriela Ferreira; Israel Batista dos Santos; e Admilson Alves de Souza. Muitos dos sobreviventes passaram a conviver com sequelas físicas, tratamentos prolongados e impactos que se estenderam muito além dos primeiros meses após a contaminação.

O desastre também transformou a vida de famílias inteiras. Além da perda de parentes e dos efeitos na saúde, muitos enfrentaram anos de preconceito, dificuldades para retomar a rotina e o peso psicológico de carregar a lembrança de um episódio que mudou suas vidas para sempre. O trauma atravessou gerações e permaneceu presente no cotidiano de quem viveu aqueles dias.

Passados quase 40 anos, o césio-137 continua sendo o maior acidente radiológico do mundo ocorrido fora de uma usina nuclear. Mais do que um marco na história brasileira, ele permanece como uma lembrança dolorosa para as vítimas e seus familiares, que ainda convivem com as consequências de uma tragédia causada pela negligência no descarte de material radioativo.

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