Antônio Caiado*
Especial para o Jornal Opção

A integração entre forças armadas de diferentes nações é uma prática comum em todo o mundo, constituindo um aspecto importante da política internacional e da segurança coletiva. No caso das relações militares entre o Brasil e os Estados Unidos, essa colaboração tem raízes que se aprofundam no século passado, estendendo-se até os exercícios em curso na Amazônia. É fundamental reconhecer que esses exercícios, apesar de sua novidade pela localização e pela magnitude, não representam um precedente isolado, nem devem ser interpretados como uma incursão na soberania nacional ou uma tentativa de influência indébita nos assuntos internos do Brasil.

As interações militares entre o Brasil e os Estados Unidos remontam à Segunda Guerra Mundial, quando o Brasil se alinhou com os Aliados e permitiu que tropas americanas operassem em bases aéreas e navais em seu território, como parte dos esforços de guerra. Essa colaboração foi crucial para a patrulha do Atlântico Sul contra submarinos do Eixo e estabeleceu um precedente de cooperação militar.

Com o fim da guerra, essa parceria se transformou em alianças estratégicas mais formalizadas durante a Guerra Fria, refletindo-se em múltiplas iniciativas conjuntas e programas de treinamento. A década de 1950, por exemplo, viu o estabelecimento do “Exercício Pan-Americano”, o primeiro grande exercício militar conjunto entre as nações americanas, simbolizando um esforço de colaboração hemisférica.

Na virada do século, os exercícios militares conjuntos tornaram-se ainda mais frequentes e sofisticados, englobando desde operações de combate simulado até missões humanitárias e de paz. Os exercícios UNITAS, por exemplo, são um conjunto de manobras navais que ocorrem anualmente desde 1959, nas quais o Brasil tem sido um participante ativo, demonstrando o longo histórico de interações militares no contexto marítimo.

No que diz respeito aos exercícios terrestres, o Brasil e os EUA têm participado conjuntamente de manobras que buscam aumentar a interoperabilidade entre as forças, partilhar conhecimentos técnicos e táticos e aprimorar a capacidade de resposta a crises. O “Atlasur” e o “Southern Exchange” são exemplos de exercícios que fortalecem a cooperação bilateral em diversas frentes, incluindo o intercâmbio de informações e a coordenação de operações conjuntas.

Foto: Acervo Pessoal / Antônio Caiado

A novidade dos exercícios na Amazônia reside na sua localização estratégica e na participação direta das tropas americanas em território brasileiro nesta região específica, algo que não havia ocorrido até então. No entanto, os exercícios atuais devem ser entendidos como uma extensão da cooperação defensiva histórica entre as duas nações, e não como uma manobra de ingerência.

Certas facções da esquerda brasileira, particularmente as mais radicais, frequentemente expressam apreensão em relação aos exercícios militares conjuntos, vendo-os sob uma ótica de ceticismo e desconfiança. Para esses grupos, tais iniciativas são frequentemente pintadas como um pretexto para os Estados Unidos estabelecerem uma presença militar permanente no Brasil, na forma de bases ou outras instalações. Contudo, essa perspectiva tende a ser um reflexo de um antiamericanismo arraigado, mais do que um entendimento baseado em evidências concretas e no histórico de relações bilaterais.

A preocupação com a soberania nacional é válida e essencial em qualquer país, mas é importante distinguir entre cautela e teorias sem fundamentação. O histórico de colaboração entre o Brasil e os Estados Unidos não apresenta casos em que tais exercícios tenham resultado na criação de bases americanas em solo brasileiro, nem há indicativos oficiais de que essa seja uma intenção futura. O Brasil sempre foi meticuloso na proteção de sua soberania e tem políticas firmes contra a presença militar estrangeira permanente em seu território.

É essencial, portanto, para uma análise equilibrada e construtiva, avaliar esses exercícios conjuntos dentro do contexto da cooperação internacional legítima e do fortalecimento da capacidade de defesa nacional. Movidos por uma visão equivocada, os argumentos da esquerda radical subestimam a capacidade do Brasil de definir e proteger seus próprios interesses estratégicos e ignoram os benefícios tangíveis desses exercícios para as forças armadas brasileiras e para a segurança regional como um todo. Assim, os exercícios em curso na Amazônia representam um capítulo mais na robusta narrativa de cooperação militar entre o Brasil e os Estados Unidos, destacando-se não por sua novidade em essência, mas pela sua contribuição contínua para o fortalecimento das capacidades defensivas e a segurança coletiva nas Américas.

Antônio Caiado | Foto: Acervo Pessoal

*Antônio Caiado é brasileiro e atua nas forças armadas dos Estados Unidos desde 2009. Atualmente serve no 136º Maneuver Enhancement Brigade (MEB) senior advisor, analisando informações para proteger tropas americanas em solo estrangeiro.

@oantoniocaiado
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