Pela primeira vez na história, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) vai realizar um levantamento nacional específico da população em situação de rua. A iniciativa inédita prevê a divulgação dos dados oficiais a partir de 2028, mas os primeiros testes da metodologia começam ainda em 2026 em cidades brasileiras, entre elas Goiânia.

O objetivo do chamado 1º Censo Nacional da População em Situação de Rua é produzir estatísticas oficiais capazes de orientar políticas públicas voltadas a uma parcela da população historicamente invisibilizada pelo Estado. Até hoje, os censos demográficos realizados pelo IBGE consideravam apenas pessoas que vivem em domicílios fixos.

Segundo o presidente do instituto, Marcio Pochmann, a iniciativa representa uma tentativa de reparar uma lacuna histórica no sistema estatístico brasileiro. “É uma oportunidade de uma espécie de pagamento de uma dívida que o sistema estatístico tem com uma parcela da população do nosso país”, afirmou durante o lançamento da metodologia.

Em Goiânia, onde o debate sobre população em situação de rua se intensificou nos últimos anos, o anúncio do censo é recebido pelo Movimento Nacional da População em Situação de Rua de Goiás (MNPR-GO) como um marco político e social.

Para o coordenador do movimento em Goiás, Eduardo de Matos, a ausência histórica dessa população nas estatísticas oficiais contribuiu diretamente para a falta de investimentos públicos e para a exclusão social.

“Quando a gente fala em política pública, o que determina orçamento, execução e prática é o quantitativo, é o número. Quando não fazia parte do censo, na real mesmo, essas pessoas não existiam para o Estado”, afirmou.

Eduardo Matos, coordenador do Movimento da População de Rua em Goiás | Foto: Guilherme Alves/Jornal Opção

Eduardo explica que o IBGE tradicionalmente realiza levantamentos a partir de residências, o que deixava de fora milhares de brasileiros sem moradia fixa. Segundo ele, isso impacta diretamente o acesso a direitos básicos como habitação, saúde, assistência social e alimentação.

“Uma grande massa da população brasileira já tem dificuldade de acessar saúde de qualidade, cultura, lazer e moradia. Agora imagina as pessoas em maior vulnerabilidade, que estão em situação de rua. Como acessar políticas públicas se elas nem sequer eram contabilizadas?”, questiona.

Goiânia estima quase 4 mil pessoas em situação de rua

Enquanto o censo nacional não acontece, Goiânia trabalha com levantamentos próprios realizados pela rede de assistência social. Dados divulgados pela Secretaria Municipal de Políticas para Mulheres, Assistência Social e Direitos Humanos (Semasdh) apontam que, em 2025, cerca de 3.892 pessoas em situação de rua estavam cadastradas no Sistema Único de Assistência Social (SUAS) na capital.

O número é considerado elevado por entidades sociais e, segundo o MNPR-GO, ainda pode estar abaixo da realidade, justamente pela dificuldade de mapear uma população marcada pela constante migração e pela ausência de vínculos formais.

“O principal desafio é que a população em situação de rua se desloca muito. Existem pessoas que dormem em ocupações, em carros, em abrigos improvisados. Não é uma população estática”, afirma Eduardo.

O próprio IBGE reconhece essa dificuldade metodológica. O critério definido para o levantamento considera pessoas que dormiram em ruas, instituições ou ocupações não residenciais por pelo menos uma noite nos sete dias anteriores à coleta de dados.

Além disso, o instituto utilizará cruzamento de informações com bases administrativas como CadÚnico e Sistema Único de Assistência Social (SUAS).

Críticas a políticas “higienistas”

Na entrevista, Eduardo de Matos também critica o que chama de políticas higienistas adotadas em Goiânia nos últimos anos, tanto na gestão do ex-prefeito Rogério Cruz quanto na atual administração de Sandro Mabel.

Segundo ele, o foco em retirar pessoas das ruas sem enfrentar as causas estruturais da pobreza aprofunda a exclusão social.

“Há alguns meses vimos reportagens mostrando prefeitos querendo tirar pessoas das praças. Isso fere o direito constitucional de ir, vir e permanecer. Muitas vezes essas pessoas nem conseguem se defender, não conseguem nem olhar para frente de tanta violência e humilhação que vivem”, disse.

O coordenador do movimento afirma que existe forte estigma social contra pessoas em situação de rua, o que também pode impactar a própria execução do censo.

“A sociedade já trata essas pessoas com preconceito. Agora imagina quem está executando política pública. Muitas vezes o preconceito é ainda maior. Por isso a gente precisa acompanhar esse processo de perto”, alerta.

Movimento cobra participação da população de rua no censo

Uma das principais preocupações do MNPR-GO é que pessoas em situação de rua participem diretamente da construção do levantamento nacional.

Eduardo relembra experiências anteriores em outras cidades brasileiras, como Florianópolis, onde pessoas que já viveram nas ruas participaram da contagem e da abordagem social.

Segundo ele, em Goiânia houve experiências frustradas no passado, marcadas por ausência de capacitação adequada e até presença de policiais nas equipes de campo, o que teria afastado pessoas durante as abordagens.

“Os caras viam a polícia chegando e desapareciam. Porque muitas vezes é a mesma polícia que bate, que agride. São detalhes mínimos que podem comprometer totalmente o processo”, relata.

Para o movimento, a participação ativa da população em situação de rua é essencial para garantir credibilidade aos dados e reduzir a subnotificação.

“Estamos há 500 anos sem contar essas pessoas”

Apesar das críticas e desafios, Eduardo considera o início do censo um avanço histórico.

“O importante é que está começando. A gente está há 500 anos sem contar essas pessoas. Talvez daqui a algumas décadas a gente consiga ter políticas públicas realmente estruturadas”, afirmou.

Os primeiros testes da metodologia nacional começam em agosto deste ano. Além de Goiânia, cidades como Salvador, Belo Horizonte, Manaus e Florianópolis também participarão da fase experimental do levantamento.

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