“O mundo se deu conta de que existe um nível de dependência perigoso da China”

Superintendente de Negócios Internacionais da Secretaria Estadual de Desenvolvimento e Inovação afirma que avanço do novo coronavírus acendeu alerta para capacidade de produção de insumos dos outros países

Superintendente de Negócios Internacionais da Secretaria Estadual de Desenvolvimento e Inovação (Sedi), Edival Lourenço Júnior, comenta situação da China em entrevista ao Jornal Opção | Foto: Fernando Leite/Jornal Opção

Superintendente de Negócios Internacionais da Secretaria Estadual de Desenvolvimento e Inovação (Sedi), Edival Lourenço Júnior, comenta situação da China em entrevista ao Jornal Opção | Foto: Fernando Leite/Jornal Opção

Edival Lourenço Júnior teve a experiência de morar mais de oito anos na China e conheceu o lado chinês das negociações. Aprendeu a visão do chinês de foco na prosperidade, diferente de como o oriental olha para o país asiático. No cargo de superintendente de Negócios Internacionais da Secretaria Estadual de Desenvolvimento e Inovação (Sedi), o administrador com MBA na Escola Nacional de Desenvolvimento da Universidade de Pequim reforça a importância das relações com a China na balança comercial goiana: crescimento de 58% em março puxado pela venda de minérios, soja e carne para os asiáticos.

Quando o assunto é dependência dos produtos fabricados pela China, Edival Júnior se mostra preocupado com a situação brasileira e de todo o mundo diante da falta de insumos para o sistema de saúde. “No processo de industrialização da China, a migração das cadeias globais de valor levou tudo para o país asiático. A China se tornou a indústria do mundo. Inclusive de equipamentos hospitalares em um patamar que sabemos que hoje é perigoso para o resto do mundo. O grande desdobramento é a revisão disso.”

Quem é a China hoje no mundo dos negócios?
Me mudei para a China com um projeto de longo prazo. Eu olhava para o mundo e via uma tendência no mundo que ainda não era tão clara em 2008. Fui para a China em 2011. A China já vinha em uma crescente, não via aquela locomotiva frear e deixar o eixo comercial global deixar de passar por lá. Isso me motivou a apostar que era uma relação que precisaria de pessoas que entendam os dois lados. No meu projeto de vida de longo prazo entrou a decisão de fazer parte desta ponte, uma vez que a distância cultural, a distância geográfica e a distância linguística muito grandes.

A China é uma locomotiva. A China apresenta hoje um dos fatores mais relevantes, principalmente comercialmente, que tentar menosprezar ou tentar ir contra é estar desassociado da realidade. A China é muito relevante no comércio internacional. Perceba que na balança comercial do mês de março 58% do que o Estado vendeu para um fluxo internacional foi para a China. Como posso desprezar ou virar as costas para um cliente desse nível de importância?

E não há viés ideológico, apenas do ponto de vista mercadológico. Quem é o principal parceiro comercial dos Estados Unidos? É a China. O principal parceiro comercial da União Europeia é a China. Uma coisa são as ideologias, outra coisa são os negócios e complementariedade que existe nos negócios. A demanda chinesa é um fator muito importante que não pode ser desprezado. Gosto da ideia de trabalhar com a reorganização e compreensão de que essa é a realidade.

É preciso saber lidar com essa parceria comercial, obviamente com foco na defesa dos nossos interesses. Dos mais de oitos anos que morei na China, um ano e meio foi dedicado ao meu MBA e os outros setes anos me sentei ao lado chinês da mesa. Em uma mesa de negociação internacional que envolva chineses, cada empresa de uma nacionalidade senta de um lado da mesa. Tive a oportunidade de construir esse diferencial de entender como é a mentalidade dos chineses na hora de fazer negócio funciona.

As teorias da conspiração falam bastante em uma tentativa de controle comercial a partir de um vírus criado em laboratório. Como se dá o conflito entre um partido que controla o poder na China e uma nação que se abre para o capitalismo para ser uma grande potência internacional?
No WhatsApp, muitas correntes mostram chinês comendo morcego, barata e outros animais. Isso não é percentualmente representativo, não faz parte do cotidiano do chinês comum. Por oito anos, sentei em restaurantes de rua diariamente para almoçar e jantar. O que é cultural de fato é prezar pela beleza do prato no ocidente.

O chinês preza muito pelo frescor do prato. Encontrar peixe, camarão e outras coisas vivas para ser preparado na hora é comum. Você entra em redes de supermercados como Wallmart ou Carrefour, que têm na China inteira. Tem a sessão dos bichos vivos, inclusive sapo e outros animais.

Em oito anos na China, nunca vi ninguém comer morcego. Não estou dizendo que não exista. Sempre gostei de ir para a rua e me expor ao diferente. Nunca gostei de ficar trancado ao universo do imigrante. Nem tinha amigo brasileiro por opção de me expor à cultura local. Fico até um pouco abismado com os vídeos porque nunca vi uma pessoa comer morcego na vida.

Por outro lado, se a China fosse disseminar um vírus por que o país faria isso em seu território? Por que não levaria para outro país do Sudeste asiático, que têm hábitos muitas vezes mais diferentes de consumo, como a Indonésia, por exemplo? Por que os documentaristas que se apegam tanto às teorias conspiracionistas têm tanta verdade no que dizem e a CIA, dos Estados Unidos, não tem, mesmo com todo recurso de investigação e espionagem à disposição?

Não acredito na teoria da conspiração de que o novo coronavírus foi algo planejado para enfraquecer o mundo e a China tirar proveito da situação. Mas acredito em uma negligência em expor os fatos, em especial os iniciais, ao mundo. A China tem um controle de mídia e de informação muito grande, uma censura muito grande.

Na ótica ocidental, prezamos muito pela liberdade. A liberdade de poder falar mal do meu governo, do meu presidente. Na relação do cidadão comum chinês com o governo, não há uma demanda de ir contra o governo. Isso não é mérito do Partido Comunista da China. É algo que vem do confucionismo, que data de 500 anos antes de Cristo. Confúcio organizou a sociedade de uma forma na qual a figura do governo está colocada no alto e a figura do governado fica embaixo.

A China teve imperadores até o século passado. A relação do povo chinês não é de um contra o outro. Gosto de dizer que na China quando o governo decide “vamos ao Norte”, todos vão ao Norte. A mesma proposta no Brasil não teria a mesma eficácia. Uma questão que chama muito a atenção do ocidental em relação à China é a questão do controle. Sempre me perguntam sobre o Facebook, o YouTube e o Instagram serem bloqueados na China.

Sim. São bloqueados. Se quiser usar é possível, basta colocar VPN, que a pessoa consegue acessar mudando o IP de região geográfica. O chinês não tem necessidade de acessar essas redes porque eles têm as próprias plataformas, as próprias redes sociais. Que, diga-se de passagem, são tão boas quanto ou até melhores!

WeChat é um superaplicativo que, em questão de funcionalidade, é muito melhor e mais completo do que o WhatsApp. Tem muito mais funções que atendem o cidadão no seu dia a dia. De uma forma geral, o chinês, com as redes sociais, se sente muito livre. Sempre me senti muito livre na China. Na China eu posso tudo, menos falar mal do governo. O conceito de liberdade é o direito de ir e vir. E para poder ir e vir preciso ter infraestrutura que me possibilite ir do ponto A ao ponto B e ter segurança da minha integridade física, que ninguém vai me matar para eu poder ir e vir.

Sendo assim, a China é um país muito livre. Primeiro que a infraestrutura é a melhor do mundo. Você vai de carro, ônibus, trem lento, de média velocidade ou trem-bala. Tem aeroporto em todo lugar. É muito fácil ir e vir. Segundo que os níveis de criminalidade são baixíssimos, um dos mais baixos do mundo. É o conceito da liberdade na plenitude de pode ir e vir. Posso tudo, menos falar mal do governo.

Como se dá a relação entre a proibição de criticar o governo e a abertura econômica para se tornar uma grande força no mercado?
Gosto muito de negócios, é a minha área de atuação. Deng Xiaoping tem uma citação de 1978 que diz o seguinte: “Não importa se o gato é branco ou se o gato é preto, desde que o gato cace rato”. É uma referência a “não importa se é comunista ou capitalista, não pode ser pobre, enriquecer é glorioso”. Deng Xiaoping segue a dizer que “enriquecer é glorioso e não tem problemas que alguns enriqueçam antes, pois assim eles vão poder ensinar o caminho do enriquecimento”.

O chinês quer trabalhar, enriquecer, quer dinheiro. Enquanto o chinês tiver chance de enriquecer, trabalhar e prosperar… A China ascendeu mais de 600 milhões de pessoas da pobreza nos últimos 40 anos. A China tende a zerar a pobreza em 2021. Os 30 milhões que ainda estão na pobreza devem sair até o ano que vem. A China vai eliminar a pobreza. A pessoas que ascende de uma classe baixa para a classe média não tem como prioridade ir contra o governo, a prioridade é prosperar. Continuar a ter condição de melhorar de vida. O chinês leva isso muito a sério.

O dia que o chinês começar a ter problema para prosperar será o dia em que o governo começará a ter dificuldade a gerir o povo. A China é um país muito difícil de se gerir. São 56 etnias na China. Cada uma fala um língua, se veste de uma forma, canta uma música, come um tipo de alimento. A história mostra que tempos de império fraco na China foram tempos de desordem e retrocesso. Em tempos de governos fortes, muitas vezes autoritários – ao longo de 5 mil anos de história -, vieram tempos de progresso.

O chinês tem muito orgulho dos 5 mil anos de história do país. A China foi invadida, destroçada, viveu cem anos de humilhação. Nos tempos de governos fortes vieram tempos de uma China forte. É nisso que o chinês se apega. É uma pergunta muito interessante, mas é um questionamento ocidental. Ao ponto de dizer, com muita tranquilidade, que a maioria do povo chinês não está preocupada em ir contra o governo. Até porque, de uma forma geral, há um sentimento de prosperidade e o povo está contente.

Como se deu o processo de transformação de uma China que começou sua industrialização com produção de bugiganga, com cópias de produtos de outros países,  e hoje briga pela ponta do avanço tecnológico no mundo, inclusive no 5G?
Deng Xiaoping foi quem iniciou as zonas econômicas especiais na costa Leste chinesa, que é onde fica Shenzhen, divisa com Hong Kong. Shenzhen era uma vila de pescadores há 35 anos. Hoje Shenzhen tem 12,5 milhões de habitantes e a região é considerada o Vale do Silício chinês. É uma região supermoderna e superdesenvolvida. Intencionalmente, Deng Xiaoping começou a atrair empresas, em especial americanas e europeias, para a região.

O secretário especial de Comércio Exterior e Assuntos Internacionais do Ministério da Economia, Marcos Troyjo, gosta muito de usar a definição cadeias globais de valor. Na costa Leste da China, houve uma migração de empresas internacionais que estavam da exploração de uma mão de obra muito barata e em alto nível de disponibilidade. Com isso, a China desenvolveu a costa Leste e começou a trazer os avanços para a Região Central chinesa.

Uma contradição é o fato de a China pregar muito o liberalismo econômico, mas é um país extremamente protecionista. Prega o liberalismo para todo mundo fora, mas dentro do país há um protecionismo muito grande. Há um entendimento de que a chegada de uma fábrica da Ford, por exemplo para fabricar em território chinês dará a oportunidade de aprender como fabricar uma peça. Do coxim que é usado na suspensão começam a brotar fábricas de coxim na vizinhança.

O funcionário da indústria começa a montar um negócio próprio e começa a copiar a peça. Esse exemplo se aplica a tudo. A Embraer teve um grande problema na China, porque surgiram fábricas de aviões chineses com o mesmo modelo de aeronave produzida pela Embraer. Peças que eram iguais. A partir do momento que se tem o know-how, o país começa a fabricar por conta própria.

Nos padrões internacionais, trata-se de plágio, de uma cópia. Só que enquanto defesa dos interesses nacionais, fizeram o dever que consideram o dever de casa. Aprenderam a fazer. E hoje em dia melhoram. Chegaram em um nível de fabricar celulares como os da Huawei. Quem tem um aparelho da Huawei dificilmente volta para um Apple. É um aparelho muito bom.

A primeira vez a pessoa copia. Depois que aprende a fazer, começa a fabricar um produto próprio. Imagine que 10% da população chinesa seja muito inteligente. São 140 milhões de pessoas em um universo de 1,4 bilhão. São duas Argentinas. Tem muito espaço para ter pessoas a chegar em um nível educacional muito avançado.

Eu estava em São Francisco, na Califórnia, em novembro. A quantidade de chineses em São Francisco é grande. Nas melhores universidades americanas, australianas e europeias, os chineses dominaram. A co-diretora do Centro de Inteligência Artificial da Universidade de Stanford, Fei-Fei Li, é chinesa. A China chegou a um nível de maturação tecnológica em que o ecossistema da área está tão interessante que os chineses que foram buscar uma melhor educação no ocidente estão voltando porque agora têm muito para colocar em prática do que antes só ocorria em determinados lugares, em particular o Vale do Silício. Será mais um grande salto.

Dizem que a guerra comercial, iniciada como guerra cambial, migrou para uma guerra tarifária até chegar a uma guerra comercial, tem um lado mais forte em seu desdobramento que é a guerra por cérebros, por talentos, quem passa a ter condição de atrair os melhores cérebros do mundo.

O crescimento de mais de 30% da balança comercial goiana em março se beneficiou da alta na venda de minérios, carne e soja para a China. Qual é a importância da relação Brasil e China para a balança comercial do Estado?
Fazemos negócio com o mundo inteiro. E negócio se faz sem viés ideológico. Isso é muito importante deixar claro. O nível de complementariedade com a China é muito grande. Temos tudo que os chineses precisam, que são os alimentos e os minerais. Nossa relação com a China é historicamente superavitária. Vendemos muito mais do que compramos. A relação é próspera, traz excelentes resultados para o que temos como carro-chefe, que é o setor agro-alimentar e de mineração.

Os Estados Unidos são grandes parceiros comerciais, mas são concorrentes. Também são grandes produtores do agronegócio. Não estão interessados em comprar o nosso agro-alimento. Fazem nos Estados Unidos. A China precisa do nosso produto.

Enquanto governo, há de se reduzir o nível de dependência. Ter todos os ovos na mesma cesta não é bom. Mas não é um processo simples. Estamos de olho no mercado indiano e da Indonésia. Têm bom nível de complementariedade e espaço para crescer. Assim como no mercado árabe e africano, que está em crescimento. Temos espaço para melhorar mundo afora.

Essa melhora passa por uma industrialização do produto que é vendido? Ou o que importa agora é ampliar a cadeia de parceiros?
Quando eu pego a soja, processo e a transformo em ração, alimento um pinto que vira um frango e vendo, já há um processo de agregação de valor, foram gerados vários empregos dentro da cadeia de produção. Houve geração de ICMS com o consumo de energia.

Temos de partir de algo para agregar valor. E o que temos hoje é um agronegócio muito forte. É o orgulho nacional, é responsável por grande parte do que prospera no Brasil. A partir disso, pode se partir para a venda de alimento processado e a diversificação da produção.

Um ponto é a diversificação para ampliar a pauta exportadora. Por que planto tudo em soja? Podemos fazer parte de fruticultura. Cristalina está indo bem na fruticultura. Vamos plantar goiaba, uva, pêssego. A ministra da Agricultura, Tereza Cristina, bate muito na tecla da diversificação e da prospecção de novos mercados.

Uma outra vertente é a atração de investimento em plantas de processamento de alimentos. Quando trago uma empresa indiana para processar alimento aqui, passo a entender o gosto daquele mercado. Qual tempero sairá daqui para lá, quais produtos os indianos consomem muito, como lichia e ervilha. Começamos a aprender sobre o mercado do outro. Isso serve para o indiano, chinês, americano, para onde eu for vender.

Isso se dá em várias indústrias e setores. Na tecnologia, por exemplo, os chineses investiram em 2018 na compra da startup de mobilidade 99. A atração de investimento não só no setor de alimento. Também na área de tecnologia.

“Nossa relação com a China é historicamente superavitária. Vendemos muito mais do que compramos”

“A relação é próspera, traz excelentes resultados para o que temos como carro-chefe, que é o setor agro-alimentar e de mineração” | Foto: Fernando Leito/Jornal Opção

Vimos o embaixador da China no Brasil, Yang Wanming, reagir com as declarações do deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), do ministro da Educação e o das Relações Exteriores. As declarações que incomodaram a embaixada influenciam até que ponto as relações comerciais entre Brasil e China?
É preciso ser um pouco mais polido com as palavras para falar contra uma outra nação, qualquer uma delas. Não podemos fazer piada com um povo. Muita gente trabalhou por uma boa relação entre Brasil e China por muito tempo. Não acredito que sejam pessoas que respondem pelo governo, mas sim pela opinião de cada um deles, o que não deve ameaçar que tudo o que foi construído seja levado ladeira abaixo. Não vejo essa hipótese, a menos que isso se intensifique. A não ser que outras pessoas do alto escalão do governo tenham o mesmo entendimento. Acredito que seja uma página virada.

O ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, fez uma publicação na quarta-feira, 22, em que ele relaciona o coronavírus a uma espécie de “comunavírus”. Ernesto tem artigo publicado no qual diz que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, é o salvador do ocidente. É uma pessoa muito a favor da democracia nos moldes norte-americanos e bastante contrário ao modelo político chinês.

Já estive com Ernesto Araújo e disse que precisávamos melhorar o relacionamento com a China pela quantidade de parcerias que podem ser firmadas no comércio. Nitidamente, o ministro não gosta do assunto. Era um evento grande e não foi uma conversa apenas com o ministro. Mas já estive em evento em que Ernesto Araújo discursou e também o embaixador da China no Brasil, Yang Wanming. O ministro brasileiro não alisa em sua fala. Deixa claro que o discurso ideológico é contrário à China.

Sobre o comunismo na China, o presidente Jair Bolsonaro esteve na China em 2019 e disse que estava em um país capitalista. Para quem vive na China, a vida segue os moldes capitalistas. Só que a China é gerida por um partido de nome comunista: Partido Comunista da China. Foi quem expulsou os nacionalistas. A história diz que os nacionalistas foram para o front de guerra e ficaram debilitados por conta da guerra com os japoneses, quando expulsaram os japoneses. Em função de estarem no front debilitados, o Partido Comunista conseguiu tirá-los. Os nacionalistas fugiram para Taiwan.

A China é gerida por um molde político próprio. E o ocidente, de uma forma geral, não reconhece e não quer reconhecer os pontos positivos. O que sempre digo é que o que serve no modelo chinês não quer dizer que é replicável em outros lugares. Para o modelo chinês, é um caso de sucesso indiscutível. É um país que tirou 600 milhões da pobreza e se tornou a segunda maior potência do mundo em um intervalo de 40 anos. Os números são muito gritantes.

Toda discriminação traz um risco muito grande. Quando falamos para um parceiro comercial de tamanha relevância para os negócios do Brasil, o risco é intensificado. Ao ver um ministro ou um deputado federal fazer piada com outro povo, você ofende aquela nação. Sou muito pragmático, sou da área de negócios. Interessa a quem? Colocar lenha nessa fogueira é do interesse de quem? Não encontro resposta.

Não faz sentido usar isso como instrumento para fomentar ideias e ideologias anticomunistas ou qualquer que seja vindo de uma autoridade, como a piada do Cebolinha e da língua presa. Me estranha o fato de o presidente não repudiar as ações do primeiro escalão do governo com relação a essa questão.

Como é a repercussão a partir do momento em que um deputado federal, que é filho do presidente, os ministros da Relações Exteriores e o ministro da Educação endossam o conteúdo das declarações contra a China?
A pessoa se sente empoderada para fazer isso na rua. Se o ministro faz isso lá no Palácio do Planalto, quando alguém um chinês que vende roupa no Brás, em São Paulo, ou na Rua 44, em Goiânia, a população desce a um nível que não é do interesse do Brasil. O alto escalão do governo tem de dar exemplo, não pode se dar ao luxo de dar esse exemplo negativo. Não consigo entender a quem interessa um comportamento assim vindo de um ministro da Educação.

No caso do ministro das Relações Exteriores, até consigo entender porque Ernesto Araújo tem uma inclinação ideológico ligada aos Estados Unidos e coloca o risco do comunismo. Não concordo. A China não está interessada em implantar comunismo. Está aqui fazendo negócio de compra e venda como qualquer investidor do mundo. Como o apetite por investimento e o recurso usado são maiores, a China aparece mais.

Independente da discussão sobre onde e como novo coronavírus surgiu, a negligência da China é passível de julgamento em cortes internacionais. Os números chineses de casos e mortes abaixo do que os principais países com contágio da Covid-19 apresentaram chamam atenção por uma possível ofuscação de dados. Se a teoria de que o vírus teria sido fabricado em laboratório ganha força, podemos ir para uma situação ainda mais complicada.

Temo muito que o mundo caminhe para esse tipo de questionamento e que o presidente dos Estados Unidos se aproprie desse discurso para se posicionar como inimigo da China, o que não é. China e Estados Unidos são grandes parceiros internacionais. Mas isso pode ser usado para tentar barra a expansão do 5G chinês. Se caminhar para esse lado, teremos dias muito piores do que tempos hoje depois da pandemia.

China e Estados Unidos retomaram as relações comercias e os norte-americanos são concorrentes dos produtores de soja brasileiros. O Brasil se beneficiou na exportação quando houve a crise da carne suína na China. Além disso, a forma agressiva como os Estados Unidos foram atrás de equipamentos de proteção individual e maquinário hospitalar pode interferir na relação Brasil-China?
Pode interferir. Tende a interferir mais na balança comercial do que o próprio coronavírus. Nossa pauta exportadora tem um nível de interferência do coronavírus menor nas vendas do que se comercializássemos mais produtos processados. Um exemplo são lácteos processados, como iogurte ou queijo especial, que são os primeiros itens a serem excluídos em momentos de crise. Como são produtos considerados supérfluos, sofrem maior impacto do que os primários.

Já a soja é matéria-prima para ração no setor de alimentos. Por isso a elasticidade – alteração percentual – é menor em relação à crise do coronavírus. Quando há um acordo firmado de compra com outro player, como no caso dos Estados Unidos, a chance de importar menos daquele player é menor. O acordo comercial China-Estados Unidos pode afetar sim nossa balança comercial.

Há uma demanda do mercado chinês pelo nosso produto. Estamos bem posicionados. Ao longo do período de guerra comercial entre China e Estados Unidos, o Brasil foi muito bem em se mostrar como um fornecedor confiável, com cumprimento de prazos, preços, com boas relações. Nosso gargalo é a logística, que tem melhorado bastante. A Ferrovia Norte-Sul tende a entrar em operação em um ano. Isso acumula pontos para que a relação não sinta por outros fatores.

Com a forma como o novo coronavírus atingiu os Estados Unidos, o presidente Donald Trump não tem conseguido ser o grande líder mundial no combate à Covid-19. Há uma preocupação com uma tomada de poder da China no cenário internacional. A leitura de analistas de que os Estados Unidos não conseguem mais se sustentar como o grande líder isolado das decisões internacionais é uma realidade?
Sem dúvida. De acordo com a Armadilha de Tucídides, a nação dominante começa a ser dominada pelo rising power [poder ascendente]. Nos últimos 2 mil anos, isso ocorreu 15 vezes. Em 11 vezes tivemos guerra militar, foi usada a força. Muitos discutem se na 16ª vez, entre Estados Unidos e China, quando os chineses ultrapassarem os norte-americanos do ponto de vista econômico – isso é questão de tempo, não é mais “se”, mas “quando” – chegaremos a uma guerra militar.

A China tem ambições em usar mais a sua moeda, o Renminbi, em operações internacionais. Tem ambições em liderar organizações internacionais. China tem ambições em liderar a questão dos fatores climáticos, que, inclusive, Ernesto Araújo cita em seu artigo. Desde a saída dos Estados Unidos com Trump do Tratado de Paris, Xi Jinping [secretário-geral do Partido Comunista da China] ganhou muito mais influência nos últimos três anos. Os chineses têm intenção em liderar inovação, tecnologia. Mas, acima de tudo, liderar economicamente.

A China sabe que culturalmente é muito difícil o país liderar. No chamado soft power, o chinês ainda é muito fraco. Não é algo fácil de assimilar. Não consumimos cultura chinesa. São muito ruins de vender cultura. Nós consumimos Hollywood, consumíamos a MTV, consumimos YouTube. Não cultura chinesa. Por isso, é questão de tempo a China ultrapassar economicamente os Estados Unidos e se tornar o maior PIB do mundo, seguir a ganhar influência nas outras questões, mas não vejo na nossa geração os Estados Unidos perderem liderança de domínio cultural.

A China não chegou no mesmo patamar de venda de sua cultura como a Coreia do Sul hoje faz muito bem?
Não. Inclusive a cultura coreana é dominante entre jovens chineses. O cool asiático é o coreano. As séries de TV, os artistas, as boy bands de adolescentes masculinas e femininas são dominantes os coreanos. Estive em Seul. A cena cultural de Seul não fica atrás de Nova York, por exemplo, ou de cidades como Nova Orleans, onde morei. Fiquei hospedado em um bairro universitário de Seul. A cada esquita tem uma pessoa tocando ou encenando toda noite. É uma cena cultural muito forte na música coreana. Eles são dominantes na Ásia. Recentemente algumas músicas ganharam o mundo.

Nova Orleans é uma cidade muito musical, onde nasceram o blues e o jazz. Onde você anda em Nova Orleans tem banda. Você entra no MCDonald’s toca blues. Você fica sempre naquela atmosfera que a música traz. Em Seul, tive a mesma percepção, de ter sempre cultura ao redor.

Um dos pontos que sempre ganha força nas teorias da conspiração que envolvem a China é o de que o país asiático trabalha para comprar toda a infraestrutura das outras nações. E grupos chineses têm aplicados recursos na construção de ferrovias, usinas e outras obras. Até que ponto é conspiração e quanto é realidade sobre o interesse da China em outros países?
A China tem um projeto chamado One Belt One Road – Belt and Road Initiative -, que poderíamos chamar em português como “Nova Rota da Seda”. É um programa lançado em 2013. Eu já estava na China, vi a migração do Hu Jintao para o Xi Jinping [15 de março de 2013]. Um dos primeiros grandes programas é de fato esta “Nova Rota da Seda”, que é o masterplan de expansão chinesa através de infraestrutura. Investimento pesado em infraestrutura para ligar o mundo inteiro com portos, aeroportos, dutos, vias, ferrovias e hidrovias. A China prevê investir US$ 1,3 trilhões em dez anos desde o lançamento.

O presidente vai mundo afora para assinar acordos com outros países. A ideia é exatamente escoar a produção chinesa industrial e trazer matéria-prima para a indústria da China. Tem a presença de vários países, que assinaram projetos para receber investimentos do governo chinês dentro do programa Belt and Road Initiative.

Uma coisa é a teoria da conspiração e a outra é receber investimento. Na ótica de domínio, quando se constrói uma ferrovia ou porto, você define padrões. Padrão é algo que não se quebra com facilidade. Quando se define o padrão de locomotiva que transitará naquela ferrovia e quem opera isso, para mudar é muito difícil. É uma expansão de padrões quem passam a seguir o padrão chinês.

“Chineses têm intenção em liderar inovação, tecnologia. Mas, acima de tudo, liderar economicamente”

“A China sabe que culturalmente é muito difícil o país liderar. No chamado soft power, o chinês ainda é muito fraco. Não é algo fácil de assimilar. Não consumimos cultura chinesa” | Foto: Divulgação

Até que ponto isso é vantajoso para os países que recebem investimentos chineses e até que ponto é uma forma de a China expandir seus poderes dentro de outros países?
Há casos de países que contraíram empréstimos dos bancos chineses, que são estatais, não conseguiram pagar e a obra foi colocada como garantia. Todo mundo cita o caso do porto no Sri Lanka, no Oceano Índico. O Porto de Hambantota fica em uma ilha perto da Índica, é um local muito estratégico, foi entregue a operação aos chineses.

Na ótica dos que são contra, o programa é uma armadilha financeira. A China promete mundos em investimentos, o país não consegue pagar e empresas chinesas tomam conta. A crítica é de soberania nacional, defesa do território.

Uma coisa é a crítica, outra são alguns fatos. Estamos há 36 anos na tentativa de colocar em funcionamento uma ferrovia que serve como espinha dorsal para cruzar o Norte e o Sul. A China construiu a primeira linha de trem-bala em 2008 e hoje tem 30 mil quilômetros de trem-bala em operação após 12 anos. Uma coisa são as críticas, outra é a capacidade de execução.

Os 30 mil quilômetros de trem-bala que operam na China são benéficos para a população e a economia chinesa? Não precisamos nem discutir. Se tivéssemos ferrovias cruzando o Brasil seria benéfico para o País? Reduziria custo logístico? Nossa estrutura atual nos dá condição de construir linhas ferroviárias pelo Brasil inteiro e portos para escoar nossa produção? Temos de entender nossas limitações.

Os maiores investidores no mundo em infraestrutura são os chineses. A melhor infraestrutura do mundo já foi a de outros países, hoje é a dos chineses. Dos dez melhores portos do mundo, ao menos seis estão na China, os melhores aeroportos. Os chineses adquiriram um know-how em infraestrutura que o resto do mundo não tem. Quantas linhas de trem-bala os Estados Unidos têm? Pouquíssimas. Na China, são chamadas de trens de média velocidade, que operam a 160 km/h.

São dois lados da mesma moeda. Em um momento no qual falar mal da China está em voga, o lado negativo fica mais evidente.

Está em curso um movimento chinês de colonização ou recolonização do território africano?
Já não é de hoje que a África se abriu comercialmente para receber investimentos chineses. Isso ocorre há vários anos. A China foi com muita força para a África porque o continente tem muitos territórios que podem ser usados para o alimento, que é uma das principais prioridades da China na manutenção da estabilidade de fornecimento alimentar. E também tem muito minério. Por isso, a China investiu bastante na África.

Outro ponto é que os Estados Unidos, como país dominante desta era desde a Segunda Guerra Mundial, nunca olhou para a África. Olhou sempre com outros olhos. A China vai para o continente africano, faz investimentos, constrói ferrovias. Obviamente as ferrovias beneficiam os chineses, porque se planta e auxilia no escoamento. Mas beneficia localmente. Qual é a linha do que se chama de colonização e da atração de investimentos?

Em um momento no qual falar mal da China está muito mais fácil do que defender uma estratégia que pode ser vista como benéfica. todo mundo vai dizer que é uma colonização da África. Receber investimento sempre fez parte do mundo globalizado. Povos vão para outros lugares e fazem investimentos.

Muito diferente da abordagem norte-americana, que na maioria das vezes troca rodadas de investimentos pela instalação de uma base militar. São dezenas de casos. Troca a possibilidade de rodada de investimento por aliança em instituições internacionais, com votações na qual a outra nação passa a ser a subalterna dos Estados Unidos.

A habilidade do norte-americano em contar a história, o chamado soft power, é algo que o chinês não domina tão bem. Até as derrotas militares são transformadas em grandes narrativas vitoriosas, como no caso do Vietnam. E é isso que fica na cabeça de todo mundo.

Como a China conviveu primeiro com a pandemia da Covid-19, além do histórico da Ásia de lidar com outras epidemias virais, hoje começa a lidar com a diminuição dos novos casos da doença e passou a exportar equipamentos hospitalares, de proteção individual para o mundo e insumos. Por que vai todo mundo atrás da China independente do preço que for cobrado?
O mundo se deu conta de que existe um nível de dependência perigoso da China. Maior potência do mundo, os Estados Unidos não têm capacidade de produzir as máscaras, respiradores e EPIs necessários para atender. O sistema de saúde entrou em colapso. Começou a enviar avião para buscar tudo na China.

Um dos desdobramentos da Covid-19 é o questionamento de setores em que o governo tem de atuar e interferir para definir o que é estratégico para um país. Porque quando houver uma nova pandemia, a nação estará melhor preparada para a demanda que surgir, daqui dez ou 20 anos, e diminuir esse nível de dependência.

No processo de industrialização da China, a migração das cadeias globais de valor levou tudo para o país asiático. A China se tornou a indústria do mundo. Inclusive de equipamentos hospitalares em um patamar que sabemos que hoje é perigoso para o resto do mundo. O grande desdobramento é a revisão disso.

A partir disso, dá para imaginar como os outros países vão passar a lidar com o rompimento de fronteiras da expansão chinesa?
Na teoria da conspiração, dizem que a Chine fez isso intencionalmente por entender que estava bem posicionada para obter vantagens dessa posição. Uma questão que preocupa é nível de controle da população. Me assusta quando comparo com o nível de controle no Brasil. Na China, a cada quarteirão, estação de trem, metrô, prédio comercial, o nível de vigilância com scanner, termômetro, checagem, verificação por aplicativo é muito alto.

Em função de uma sociedade mais organizada, de ser a indústria do mundo, de ter todos os produtos produzidos no seu quintal, a China está muito bem posicionada para ser o primeiro país a sair da pandemia com um distanciamento de tempo muito grande dos outros. Não é o primeiro país a sair e outro sairá no mês seguinte. A menos que saia uma vacina para a Covid-19, viveremos essa situação por meses.

Entendo que o mundo irá rever pontos que passarão, mais do que nunca, a ser tratados como estratégicos e de interesse nacional. Os países não abrirão mão de ter indústrias fortes nesses setores. Descobrimos nós que o setor de medicamento farmacêutico, EPI e equipamentos hospitalares passou a ser uma das coisas mais importantes do mundo. O povo não quer dinheiro, o povo quer máscara.

Diariamente, ouvimos que tem determinado fornecedor na China para um produto específico. O que está na China não resolve meu problema agora. Quem tem o produto aqui tem oferecido por um preço específico neste momento, infelizmente. Precisa ser agora, hoje. Há um déficit de teste, de EPI, de máscara e de respirador no mundo. Não é em Goiás. Isso é algo que os governo vão rever.

O sr. chegou a visitar a província de Hubei e a cidade de Wuhan, onde o novo coronavírus foi verificado pela primeira vez? Chegou a visitar o Mercado Atacadista de Frutos do Mar de Huanan, que é apontado como o possível local da primeira transmissão?
Conheço Wuhan de passagem, não cheguei a dormir um dia na cidade, por ser uma região muito central. Eu morei na província de baixo. Era vizinho de províncias. Morei em Hunan, que é ao Sul do lago. Já vi muita especiaria na China, cachorro, sapo, escorpião, cobra. Cobra na minha região era bem comum. Nunca visitei o que os chineses chamam de wet market, o mercado molhado, onde animais são abatidos sem regras sanitárias.

Nunca visitei um do nível dos vídeos que já recebi no WhatsApp. Não digo que não existam. Em um país com 1,4 bilhão de habitantes, povos que passaram por miséria, pode existir. Mas não é percentualmente representativo comer morcego. Eu nunca vi. Já outros animais que consideramos o consumo bem estranho, como carne de cavalo, em algumas regiões chineses é bem comum. Restaurantes específicos servem cobra. Geralmente são restaurantes no qual você vai a um grande jantar para comer uma especiaria.

Costuma ser um prato caro?
É uma especiaria. Quantas vezes você comeu no Brasil carne de capivara no último ano? Foi assim que convivi com essas especiarias na China, em momentos muito específicos. O dia a dia da comida chinesa não é isso.

Estamos acostumados a ver na TV cenas de pessoas de máscara em países asiáticos. Qualquer sinal de gripe motiva a pessoa a colocar máscara ao sair de casa. Isso pode aos poucos entrar no hábito do brasileiro, ainda mais agora com o uso obrigatório de máscara em Goiás?
Enquanto o assunto do novo coronavírus estiver quente sim. E acredito que ainda falaremos bastante sobre a Covid-19 por vários meses. Vamos sobreviver, vamos sair dessa. Superada a pandemia, que gosta do contato físico, do beijo, do abraço, não vai aderir. Muito das máscaras na China é por causa da poluição. No Japão, o uso de máscara é por questão de higiene.

Durante a luta contra o vírus, o uso da máscara é nítido. Em março, quando ia ao supermercado de máscara as pessoas me olhavam como se fosse um estranho. Uma semana pessoa aumento o uso de máscara entre as pessoas em um supermercado. Agora a maioria das pessoas sai de casa de máscara. Mas não acredito que depois da pandemia o uso de máscara vai virar moda no Brasil.

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