“O Estado não tem recursos e nem condições de retomar a Celg”

Senador Vanderlan Cardoso diz que a Enel está cumprindo acordos e, sobre eleições, sinaliza que traçará caminhos diferentes ao do presidente do PP, Alexandre Baldy

Vanderlan Cardoso, senador, na sede do Jornal Opção | Foto: Fábio Costa / Jornal Opção

O senador Vanderlan Cardoso (Progressistas) é, hoje, uma peça importante nas articulações políticas para as eleições de 2020 e 2022. Tanto que, nos últimos dias, causou desconforto a declaração do presidente do partido, Alexandre Baldy, de que a legenda poderá apoiar a reeleição do prefeito Iris Rezende (MDB), em Goiânia. Isso porque Vanderlan costura uma aliança para o ano que vem com foco em 2022, quando pretende disputar, mais uma vez, o cargo de governador. As estratégias diferentes podem, inclusive, fazê-lo migrar do PP para o PSD.

Mesmo com o projeto eleitoral em andamento, o senador não se furta a remar contra a maré no caso Enel. Vanderlan diz que a empresa está cumprindo acordo firmado com a bancada federal goiana e critica o projeto de encampação em tramitação na Assembleia Legislativa. “É um absurdo e perda de tempo”, resume. Eleições e Enel, inclusive, foram os principais temas da entrevista que ele concedeu ao Jornal Opção. Leia:

Augusto Diniz – Como o sr. vê a proposta de encampação da Enel, em discussão na Assembleia Legislativa, e a atuação da empresa em Goiás?
Fui um dos primeiros a questionar a Enel em Goiás, não pelo trabalho de distribuição, mas quando houve o aumento da [tarifa de] energia. Antes mesmo de tomar posse, entrei com ação contra a empresa.

Quando houve a privatização, um plano de trabalho foi elaborado. Quando assumi [o mandato de senador], a bancada federal de Goiás e o governo do Estado estiveram com o Ministério de Minas e Energia. A Enel fez um plano de ação de curto, médio e longo prazo, que foi apresentado para a bancada. E ele foi aprovado. De lá para cá, estamos fazendo esse acompanhamento. A Enel antecipou os investimentos previstos para até 2024 para 2020.

As linhas de transmissão e as subestações [da Celg] foram sucateadas. Já sabíamos que quando ela fosse vendida, ou quando foram passados 51% das ações para o governo federal, que precisaríamos, no mínimo, de quatro a cinco anos para poder recuperar essa malha. A malha estava muito ruim, digo até que estava podre.

As linhas eram muitas velhas, a distância entre os postes era muito longa em alguns locais, foi colocado carga em subestações que não tinham mais capacidade. É preciso que se faça investimentos rapidamente. Para isso, é necessário ter mão de obra qualificada. Havia um problema sério em Goiás, com relação à falta de mão de obra. Houve, se não me engano, três ou quatro mortes de eletricistas em pouco tempo. Com isso, teve de ser fazer um teste para verificar a capacidade desse pessoal que estava trabalhando nessa rede. Centenas foram tirados para serem requalificados.

“Quem vai querer comprar a Saneago sabendo que o Estado não vai honrar o compromisso que foi feito?”| Foto: Reprodução

No plano de ação, a Enel se comprometeu a requalificar em torno de 2 mil eletricistas, que é o necessário para se dar conta de tudo que está acontecendo em Goiás. São muitos quilômetros de redes de energia. A empresa teve de trazer 600 eletricistas de fora, até qualificar [os que já estavam na Celg]. Esse esforço está sendo feito em parceria com o Senai. Todas as ações que nos foram passadas estão sendo cumpridas.

Com relação à encampação, vejo que é um absurdo. Quem fez a privatização foi o governo federal, não foi o Estado. O Estado não tem condições nenhuma de assumir uma empresa que está com esses problemas, que vão demandar dois ou três anos para serem resolvidos e com muito investimento. São coisas de bilhões. O Estado não tem recursos e nem condições de fazer isso. É uma discussão que é uma perda de tempo.

Temos CPI de Enel, CPI de incentivos fiscais e o governo anuncia que tem interesse de vender 49% das ações da Saneago. Está faltando água em Anápolis, em Rio Verde e em vários locais do Estado. Indústrias de Anápolis deixaram de operar por falta de água. A obra da adutora de Anápolis levaria de dois a três anos – fiz 10 quilômetros de adutora em Senador Canedo, quando foi prefeito, e foi uma obra que levou dois anos.

O Estado está querendo encampar a Celg. Quem vai querer comprar a Saneago sabendo que o Estado não vai honrar o compromisso que foi feito? Está faltando uma análise melhor do que está acontecendo, tanto na Enel como em relação à venda de 49% das ações da Saneago. Se, por um lado, o governo está cobrando que a Enel faça em dois anos o que tinha de fazer em cinco, como vai querer vender a Saneago, que está nas mesmas condições?

Augusto Diniz – Como o sr. avalia as declarações do governador Ronaldo Caiado, que engrossou o discurso em relação à Enel? E o lado do consumidor?
Eu sou um grande consumidor. É terrível. Mas até a Enel assumir a Celg, nossa situação era muito crítica, em relação às empresas de Senador Canedo. Houve uma melhora. Tem regiões em que esses investimentos ainda não chegaram e que após a privatização, a linha de transmissão piorou.

Quando se vê produtor jogando leite fora, frangos morrendo em grandes, são situações muito complicadas. Para nós, que representamos como parlamentar, é doído ver essa situação. Há indústrias parando suas máquinas por falta de uma energia mais equilibrada. Isso e péssimo.

Mas a classe produtiva em Goiás foi conivente com os anos de desmandos na Celg. A classe empresarial, a classe política, todos [foram coniventes]. Eu me insiro nisso, porque tivemos uma paciência tão grande durante esses anos.

Muitos créditos outorgados feitos em benefícios de empresas tiraram recursos da Celg. Esses recursos fizeram falta para [investimentos] as linhas de transmissão e para as subestações.

A cada dia que passa, pode ter certeza que algumas regiões vão melhorando porque os investimentos estão chegando. Mas são quase 190 mil quilômetros de rede que tem de ser melhorada, tem de trocar postes de energia e uma série de outras coisas.

Estou bem a par desse assunto porque fui o primeiro a entrar com uma ação [contra a Enel]. Fui candidato duas vezes ao governo de Goiás. Em 2009, que fosse feita a negociação que estava em andamento no governo Alcides [Rodrigues]. Naquela época seria uma das negociações mais benéficas para o Estado. Já são dez anos, já teria resolvido [o problema].

Não sou de ficar floreando e dizendo que a situação vai melhorar em alguns meses, porque não vai. A questão da energia de Goiás é de dois ou três anos ainda.

Rodrigo Hirose – Então é melhor manter o contrato com a Enel?
Não temos outra saída. O governo está quebrado, sem recursos para nada, nem para investir em energia, nem para investir em água. Está falando em vender parte da Saneago porque não tem dinheiro para investir. A questão da energia não se faz só com discurso, se faz com recurso. E recurso o governo não tem.

Governador Ronaldo Caiado (DEM) | Foto: Eduardo Pinheiro/Jornal Opção

Ton Paulo – O discurso do governador pode afugentar investidores da Saneago?
Acho muito difícil ter alguém interessado em comprar a Saneago se a empresa que foi privatizada em Goiás, que está honrando o contrato feito com a bancada e com o próprio governo, está passando por processo de CPI e de encampação. Quem vai investir?

Os homens públicos têm de entender que o empresário, seja estrangeiro ou brasileiro, não investe em nada pela cor dos olhos do prefeito, do governador ou do presidente. Ele vem quando é vantajoso e que tenha segurança jurídica. A partir do momento em que não haja segurança jurídica e ele não vê possibilidade de obter êxito, que são os ganhos [ele não investe]. Quem faz a parte social é o governo, não as empresas. Os projetos sociais que elas fazem são separados, mas a obrigação é do governo. Governo não visa lucro, o que ele arrecada tem de ser revertido em retorno para a população. A empresa, quando adquire [uma estatal] está visando o lucro.

Ficou muito fácil bater na Enel, por causa do clamor pela falta de energia. Tem coisa mais complicada que animais morrerem uma grande, em que a pessoa está pelejando, às vezes tem um financiamento? O mesmo em relação a um bar, um restaurante ou indústria.

A Enel se tornou a Geni de Goiás. Quando entrei com a ação contra ela foi por causa de um reajuste na tarifa de 25% sem justificativa. O que nós, políticos, temos de fazer é pegar o contrato e ver como estava a situação da Celg quando ela foi comprada e qual é o tempo necessário para se resolver. Milagre ninguém vai fazer.

Rodrigo Hirose – Acho que o sr. é o primeiro político que vejo não atacar a Enel…
E seria muito mais fácil eu chegar aqui e encampar o coro. Mas sou realista.

Rodrigo Hirose – Mas então o consumidor não tem mais o que fazer senão esperar? Não é possível cobrar mais rapidez na solução do problema?
A bancada toda defendeu as ações emergenciais, como trazer eletricistas de fora. Mesmo em regiões deficitárias para ele, como o oeste goiano, e onde há indústrias de ponta, como Rio Verde, Jataí, Quirinópolis e região, que se dê prioridade nas linhas de transmissão. Elas são as veias principais.

Houve essa concordância, inclusive do Ministério de Minas e Energia. O ministro Bento Albuquerque participou dessa reunião. A empresa já anunciou que está trabalhando com helicóptero nas regiões de mais difícil acesso. As coisas não tão simples. Há locais em que o carro da Enel chega e o acesso está fechado, pois é área privada. Há casos em que o proprietário não deixa a linha passar.

Ton Paulo – Na questão política, como está seu diálogo com o PSD? O sr. será mesmo candidato a governador pelo partido em 2022?
Está havendo muita confusão em relação aos diálogos que estão acontecendo. Estamos conversando com o PRB, PSD, PSDB, MDB com relação às eleições municipais. Em Goiânia, intensifiquei muito a conversa com o PSD, porque o Francisco Júnior me apoio no segundo turno [em 2016, quando perdeu para Iris Rezende a eleição em Goiânia]. Mas estamos conversando também com o Elias Vaz, que está no PSB. O PRB não mostrou candidato, mas mostrou interesse em discutir. O MDB tem o Iris, que é candidato.

“Não teve esse diálogo [com Baldy] porque ele sabe qual é meu posicionamento [sobre apoio a Iris]” | Foto: Fábio Costa / Jornal Opção

Eu apoio um projeto novo, por isso tive uma fala em relação ao presidente [do Progressistas, Alexandre Baldy]. Não é que não apoio o Iris, mas defendo que seja um projeto novo para Goiânia. Se o presidente do partido diz que, se eu não for candidato, o Progressistas vai apoiar [o Iris], então eu coloco minha opinião.

Minha conversa no PSD é que para fechar um apoio agora em 2020, tem a questão de 2022. Quero ter a oportunidade de colocar meu nome em 2022 para governador. Isso é natural, já disputei o cargo duas vezes [em 2014 e 2010]. Se houver condições, conforme o cenário, esse grupo de partidos está discutindo estar junto agora em 2020 e em 2022.

A partir do momento em que o Progressistas diz “se o fulano não for candidato nós vamos apoiar o projeto tal”, nós fechamos a porta para os outros partidos com quem estamos dialogando. Sempre combati isso, como o próprio MDB em 2010 e 2014. O MDB só aceitava discutir de vice para baixo, para governador já estava definido. Eu não achava boa essa prosa. Então não posso aceitar que no Progressista exista esse discurso. Essa é minha opinião.

Rodrigo Hirose – Quando o Alexandre Baldy hipoteca um possível apoio ao prefeito Iris Rezende, é uma decisão pessoal dele? Ele não conversou com o sr. sobre o assunto?
Não teve esse diálogo porque ele sabe qual é meu posicionamento. Não houve essa conversa sobre Goiânia, de que, se eu não for candidato, o PP estará caminhando com o Iris. Até mesmo porque estou conversando com os outros [partidos]. Seria desleal da minha parte fazer um acordo nesse sentido e continuar conversando com o Francisco Júnior e os outros pré-candidatos.

Da mesma forma, sempre foi bem claro em relação ao Progressistas estar participando do governo do Estado. Meu posicionamento é de independência. Estou ajudando o Estado sem ter cargos e sem participar da administração do governo. Tenho ajudado Goiânia sem ter participação [na administração].

Há pouco acertei com o prefeito Iris uma UBS [Unidade Básica de Saúde] na Região Noroeste. A bancada colocou uma UTI pediátrica na Santa Casa de Misericórdia, coloquei R$ 1 milhão em recursos [de emendas parlamentares]. A bancada se reuniu, sob a liderança da deputada Flávia Morais [PDT], destinar R$ 6 milhões para aquisição de um aparelho de ressonância magnética.

A partir do momento em que ajudo a Santa Casa, as Apaes, a Universidade Federal, a Associação de Surdos Mudos, estou ajudando Goiânia. E a partir do momento em que coloco recursos para a Polícia Militar, Polícia Civil, Corpo de Bombeiros e pontes em GOs, estou ajudando o Estado sem ter participação efetiva no governo do Estado.

Sempre procurei ter essa independência, pois quero me sentir à vontade de chegar a Goiânia, quando for candidato, e dizer que defendo um projeto. Assim como em relação ao Estado, que posso concordar ou discordar de medidas.

Então, não vou me sentir à vontade fazendo indicação [a cargos] no governo, para o governador Ronaldo Caiado.

Augusto Diniz – A relação do sr. com o Alexandre Baldy está boa ou não?
Falo com o presidente do partido de duas a três vezes por dia. Tivemos reunião longa em Brasília recentemente, até a madrugada. Sempre coloquei meu posicionamento a ele, inclusive, no meu modo de ver, a candidatura natural para ele é para o Senado. Ele terá meu apoio.

Augusto Diniz – E esse também é o desejo dele?
É uma candidatura natural. Ele já foi ministro e deputado federal. Já ajudou muito Goiás. Já demonstrou que é um político articulado. Com certeza ele almeja uma candidatura a senador ou a governador nas próximas eleições.

É tudo colocado às claras. Por isso me sinto à vontade, porque houve essa conversa quando me filiei ao partido: de colocar minha independência e minhas opiniões. Pode até ser que esteja errado em algumas e sei reconhecer quando estou, mas gosto de pontuar.

“Não tenho pensamento nenhum de me candidatar em Goiânia” | Foto: Fábio Costa / Jornal Opção

Rodrigo Hirose – A chance de uma candidatura sua a prefeito de Goiânia ano que vem é zero?
Não tenho pensamento nenhum de me candidatar em Goiânia. Estou no Senado Federal, assumi uma comissão que tem contribuído com o Estado e com o País. Aprovamos um projeto que estava parado há muitos anos, que é o da banda larga, das teles, que é de autoria de um goiano, o Daniel Vilela. Já estão sendo anunciados bilhões em investimentos no País após aprovação dessa lei.

Fomos fundamentais também na aprovação da Reforma da Previdência. Estão sendo discutidos o pacto federativo, a reforma tributária e a reforma administrativa. Essa legislatura é a mais produtiva do Senado nos últimos 25 anos. Em 30 anos não se conseguiu aprovar uma reforma da Previdência tão profunda. Já passou no Senado a PEC dos Estados e Municípios, inclusive com os destaques. Está agora com a Câmara dos Deputados.

Tenho uma admiração pelo Iris. Quem não reconhece tudo o que ele já fez por Goiás? Só que precisamos agora de um projeto inovador para Goiânia.

Ton Paulo – O deputado Bruno Peixoto (MDB) disse que gostaria de ser candidato a prefeito caso Iris não seja. O sr. o apoiaria?
Vai depender muito do projeto e de agrupar esses partidos com os quais já conversei. Mas ele tem meu respeito, é um parlamentar que tem experiência. Todo parlamentar quer contribuir com a cidade de onde ele é. E o cargo de prefeito dá condições, quando a pessoa tem essa vontade, de ajudar a população a população e ficar na história. Quem não quer ficar na história de seu município?

Em 2016, tivemos uma conversa inclusive dele me apoiar para a Prefeitura de Goiânia, caso o Iris não fosse candidato. Estava tudo caminhando para isso. Então, por que não o apoiar?

Augusto Diniz – O sr. acredita que os deputados podem travar essa PEC?
Vai depender muito da ação dos governadores. Goiás tem três senadores e 17 deputados estaduais. O governador Ronaldo Caiado vai ter de trabalhar muito com os deputados para que se aprove. Não depende simplesmente do Congresso, depende também da aprovação de um Projeto de Lei na Assembleia Legislativa.

Os governadores, a princípio, fizeram corpo mole na reforma da Previdência. Se eles tivessem entrado, os municípios já teriam sido incluídos lá atrás. Tudo o que está acontecendo é culpa dos próprios governadores.

Agora é oportunidade de eles se apresentarem e dialogarem com suas bancadas de deputados para que se aprove. Os três senadores de Goiás fizeram a sua parte. Eu, Kajuru e o Luiz Carlos do Carmo votamos e aprovamos, inclusive os destaques.

Estou vendo três ou quatro governadores que sejam contrários, mas o restante é favorável.

Augusto Diniz – O Congresso terá um papel importante na avaliação dos projetos enviados recentemente pelo governo federal, que está sendo chamado de Mais Brasil. Um dos assuntos é a redução do número de municípios. O sr., que já foi prefeito, é a favor dessa redução?

Não basta dizer que se é contra, mas, sim, dizer o porquê e apresentar uma solução. Vai ter de se encontrar um meio termo. Estou estudando e fazendo reuniões com prefeitos. Não tem justificativa um município com menos de 2 mil habitantes ter nove vereadores, dez secretários e o prefeito ter um salário incompatível com a arrecadação do município, o repasse da Câmara de Vereadores ser maior que o investimento em saúde e educação.

É o momento de todos darem a sua contribuição. Talvez diminuir o número de vereadores de municípios com até 5 mil habitantes, com salários deles, dos prefeito e do vice, além do repasse à Câmara de Vereadores, serem mais condizentes com a realidade.

Tem Câmara de Vereadores que fica sem saber o que fazer com tanto recurso, 8% [percentual do duodécimo]. Assim faltam recursos para educação e para a saúde enquanto sobra dinheiro na Câmara. O momento, já que todos estão dando sua contribuição, é de reduzir [os gastos públicos] de acordo com a realidade.

Não sou favorável que chegue e tire os municípios, isso não existe. Mas qual é a alternativa? Não precisa mais de cinco vereadores em um município com até 5 mil habitantes. Sou favorável que o mesmo seja feito no Senado, na Câmara dos Deputados e nas Assembleias Legislativos. Vamos aproveitar e fazer uma reforma ampla.

O ministro Paulo Guedes quer que os recursos da saúde e da educação sejam juntos, para se usar naquilo que é mais necessário. Isso não vai tirar dinheiro de nenhuma dessas áreas. Tudo depende da realidade de cada município. Tem município que tem de inventar o que fazer para dar os 25% [investimento obrigatório em educação], aí falta dinheiro na saúde.

Se, dependendo do município, 18% resolvem o problema [da educação], vamos aplicar a diferença na saúde ou em outras áreas. Tem município que, no final do ano, o prefeito fica desorientado porque só gastou 20% em educação. Daí sai dando gratificação, comprando notebook, fazendo um monte de coisa para dar os 25% da educação. Enquanto isso, na saúde está faltando remédio. Isso tem de ser revisto e encarado.

Rodrigo Hirose – Entre as propostas do ministro Paulo Guedes, está a cobrança de contribuição previdenciária sobre o seguro-desemprego. Qual sua opinião sobre isso?
Sou contra. Há várias maneiras de se melhorar a arrecadação. A situação de quem está desempregado é complicada. A contribuição de 7,5% não vai resolver muito [o rombo da Previdência], mas vai atrapalhar quem já está no fundo do poço.

Rodrigo Hirose – E sobre a proposta de “desmame” do Bolsa Família, como está sendo chamada a ideia de diminuir paulatinamente o benefício de quem consegue um emprego?
Sou favorável. A Bolsa Família foi criada para que a pessoa tenha o benefício até ter a condição de viver. Ela é um remédio, um paliativo, mas no Brasil está se tornando definitiva. Há pessoas que se acomodam porque na família tem quatro ou cinco pessoas que recebem. Assim ele não procura melhorar, estudar e se qualificar, porque já tem o mínimo do mínimo. Qualquer bico que fizer, vai levando.

Então, se a pessoa consegue um emprego, tem de sair para, se for o caso, entrar outra. O projeto do Bolsa Família fugiu muito, a qualificação profissional ficou em segundo plano. Não se vê quase ninguém que recebe a Bolsa relatar que fez um curso profissionalizante e que, a partir dele, teve a oportunidade de conseguir uma vaga de emprego. Muitos empresários têm dificuldade [de encontrar mão de obra].

“Os investidores estão chegando com muito dinheiro no bolso” | Foto: Fábio Costa / Jornal Opção

Rodrigo Hirose – O sr. faz parte da Comissão de Ciência, Tecnologia, Inovação, Comunicação e Informática. Os Estados Unidos estão pressionando o Brasil quanto á entrada da chinesa Huawei no mercado de 5G. Como o País tem de se posicionar nessa questão?
O Brasil tem de fazer como o presidente [Jair Bolsonaro] está fazendo agora: nem pender para um país nem para o outro. O maior parceiro comercial nosso é a China. Os Estados Unidos são o segundo ou terceiro. Quem tem interesse de investir no País tem de ser bem tratado, independentemente do regime é comunista ou socialista, pois está trazendo recursos, divisas e emprego. Essa postura do presidente na viagem à China foi exemplar.

A Huawei anunciou bilhões em investimentos no País, porque a licitação do 5G será já em março. Nós aprovamos o PLC 69, que deu clareza para os investidores em banda larga. A Huawei é uma grande fornecedora para operadoras como a Tim e a Claro. Da mesma forma, a AT&T, que é norte-americana, já anunciou investimento no Brasil. A mexicana [América Móvil, dona da Claro, Embratel e Net], do megainvestidor Carlos Slim, anunciou investimento de R$ 30 bilhões em três anos. É quase R$ 1 bilhão por mês.

Tudo porque foi marcada a licitação do 5G no País, que vai atrair bilhões em investimentos. Da mesma forma, a banda larga, que estava parada porque a concessão foi aprovada ainda no governo Fernando Henrique [1995-2003], e agora tem regras claras. Todas as operadoras vão anunciar bilhões em banda larga e telecomunicações, porque agora não é mais concessão. Começou a clarear isso no País e os investidores estão chegando com muito dinheiro no bolso.

Temos de respeitar os Estados Unidos, mas temos de respeitar aquele que está dando maiores oportunidades para o Brasil exportar e, além disso, está mandando recursos para cá. Nesse ponto, hoje são os chineses e não os Estados Unidos.

 

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