Ronaldo Caiado: “Nunca houve conversa minha com a base aliada”

Deputado que carrega o favoritismo na disputa pelo Senado elogia Iris Rezende e diz que, se eleito, pretende conduzir o debate na nova Casa

Foto: Fernando Leite / Jornal Opção

Foto: Fernando Leite / Jornal Opção

Favorito na corrida ao Senado depois de cinco legislaturas como deputado federal, Ronaldo Caia­do mostra que será o mesmo de sem­pre também na Câmara Alta do Legislativo, caso se confirme em 5 de outubro o que indicam as pesquisas: o estilo destemido e mesmo desafiador está presente, como mostra nesta entrevista ao Jornal Opção.

Ele rejeita o título de “radical”, que atribui ao fato de não poder ser rotulado de outra forma. “Não têm como me acusar de ‘corrupto’ ou de ‘bandido’, então me chamam de ‘radical’. Mas radical em quê? Em defender Goiás?”, questiona. A polemizada aliança com o PMDB de Iris Rezende foi um dos centros da conversa, que se deu na segunda-feira, 11, portanto antes da tragédia que abalou a política nacional — o acidente aéreo que matou o candidato à Presidência Eduardo Campos (PSB), ocorrido na quarta-feira, 12.

Na fala de Caiado, sobraram críticas para o governo federal — em pontos como o programa Mais Médicos — e para a gestão estadual — principalmente em relação à segurança pública. Uma longa entrevista, carregada de conteúdo, argumentação e alguns picos de discussão mais forte com a equipe de jornalistas.

Cezar Santos — O sr. está na chapa com Iris Rezende, a quem fez seriíssimas e duríssimas críticas no passado. Iris melhorou?
Pelo menos durante os 16 anos em que ele ficou na planície e quando ele assumiu a Prefeitura de Goiâ­nia, não teve nada que o desabonasse.

Cezar Santos — Por isso o sr. se aliou a ele?
Explico minhas razões: eu tenho compromisso com ideias. Não sou seguidor de pessoas, não tenho de seguir pessoas. Tenho independência intelectual, sigo o que acredito politicamente. Estou na política há 20 anos e nunca me envolvi em escândalos. Minha coerência me credencia na vida pública. Não sou tutelado por A ou B. Defendo Goiás independentemente de quem seja o governador. Minhas posições eu as assumo aqui no jornal e na tribuna do Congresso. Defendo princípios e não pessoas.

Cezar Santos — Iris Rezende tem boas ideias para Goiás?
Não só boas ideias, como hoje, pela idade que tem e pela motivação em governar Goiás, mostra que quer fazer algo melhor do que já fez até agora. Quando foi prefeito, ele mostrou isso ao Estado. Compare o tempo em que Marconi está no go­verno e veja sua popularidade e veja o tempo que Iris ficou na Prefeitura, e veja sua popularidade. Es­se é o parâmetro que se deve usar. Iris deu conta de superar grandes dificuldades em Goiânia e poderá implantar um novo momento para Goiás.
Outro fato que me leva a me aliar a Iris é a alternância de poder. Nada pior no regime democrático do que a continuidade. Aproveito para deixar claro, para depois não me colocarem como oportunista: eu me empenho 24 horas por dia para acabar com a reeleição no Brasil. Reeleição é o caos, acabou com a política nacional, pois leva à arrogância, à prepotência, ao uso desenfreado da máquina pública, à perda de limites. Uma pessoa, por estar no governo, pode praticar todos os crimes que, mesmo assim, passa a ser absolvida? Por ser governador, ela passa nas águas do Jordão e aí não tem mais pecado? O governo tira esse pecado? Tem uma carta de um embaixador de Israel que fala uma coisa grave: um governante, quando pratica a corrupção, ele pratica o crime contra seu próprio povo. Quando ele entra em processo de corrupção, o próprio povo é penalizado. É um atentado ao povo de seu Estado, de seu país. Quando um governante rouba, desvia, participa disso, está praticando um atentado contra seu povo.

Euler de França Belém — Concordo que o sr. seja uma pessoa coerente. Mas, quando o sr. fala de coerência, a crítica que se ouve é que sua aliança com Iris Rezende é uma incoerência. Parte do seu partido está com o sr. e com o governador Marconi Perillo, não está com Iris. Quem é incoerente, o sr. ou o DEM?
Mas você não viu o presidente José Agripino e ACM Neto aqui (para apoiar a aliança com Iris)?

Euler de França Belém — Eles não são de Goiás. Já o deputado estadual Helio de Sousa e o prefeito de Quirinópolis, Odair Resende, estão com Marconi.
Mas que “força” é essa (do go­ver­no)? É o Tribunal de Contas dos Mu­nicípios (TCM)? Hein? (questionando)

Euler de França Belém — Mas o sr. acha que eles estão sendo pressionados?
Eu não estou “achando”. Não apelide as palavras: eles estão.

Euler de França Belém — Mas o que eles falam quando conversam com o sr.?
Essas pessoas do DEM estão sendo pressionadas. Você ouviu a entrevista do prefeito de Goiatuba [Fernando Vasconcelos, do PMDB]! (enfático) Ele deu entrevista dizendo que não pode governar mais, porque nenhum convênio é feito com ele, “se eu não apoiar o governador, se não disser que vou para a base não tem como eu governar, vou ficar sem nada”. Não sou eu, Ronaldo Caiado, quem está dizendo, foi o prefeito que disse.

Euler de França Belém — O deputado Helio de Sousa não tem a ver com isso, ele disse que apoia Marconi por achar que é o melhor mesmo.
Se essa é a posição dele, ele deveria tê-la defendido na convenção, concorda? Helio tem voz na convenção, foi um dos últimos a falar. Por que não colocou sua posição? Qual o problema?

Euler de França Belém — A base de Helio de Sousa é Goianésia, onde o prefeito Jalles Fontoura (PSDB) foi o que mais lutou para o sr. não ser candidato a senador na chapa de Marconi. A família de Jales tem um contencioso histórico com a família Caiado…
Isso da parte dele. De minha parte, até lutei muito para o pai dele [Otávio Lage, que foi governador de Goiás] ser ministro da Agricultura.

Euler de França Belém — Jales Fontoura publicou um artigo em jornal contra sua adesão à base.
Não trago isso para minha vida política. Não tenho contencioso. Eu apoiei Jalles quando ele iria ser candidato a governador, depois ele não quis, e foi Marconi. No meu primeiro mandato, trabalhei para que o pai dele fosse ministro da Agricultura. Não levo essas teses para discussão.

Euler de França Belém — E o prefeito Odair Resende? Em nenhum momento ele fala que está sendo pressionado pelo TCM.
Eu não disse que todos os prefeitos estão sendo pressionados. Estou dizendo que é uma questão geral.

Cezar Santos — Há uma realidade histórica, de divisão do DEM com o PMDB, que remonta ao passado, ainda de UDN e PSD, rivalidades de famílias etc. Há eleitor seu, que gosta do sr., mas que não vota de jeito nenhum no PMDB. Como fica essa situação?
Muito simples, eu apoiei Iris para prefeito de Goiânia, em 2004, en­quanto Marconi apoiou Pedro Wil­son (PT). (longa pausa, questionando) Teve essa cobrança toda? Mar­co­ni apoiou um petista, como é que is­so ficou? (nova pausa) O DEM as­sumiu uma secretaria de Iris, com Joel Sant’Anna Braga. Na área da saúde, o DEM assumiu o governo. E então? Quantos prefeitos coligaram com o PMDB na base e eu fui lá fazer palanque para eles, e se elegeram? Quantos? Por que, naquele momento, eles podem e depois não podem acompanhar uma decisão da executiva nacional ou estadual, por quê? Porque são vulneráveis. Porque, no dia de elegê-los prefeitos, o Mar­coni estava trancado dentro de um quarto. Qual prefeitura a que o Mar­coni foi para fazer comício? Cite-me uma. A qual cidade ele foi? (enfático) Ne­nhuma! E Caiado foi a todas. Quem foi no palanque pedir votos? Quem foi ganhar as eleições do po­vo de Quirinópolis? Essa é a diferença. Nós vamos assumir o poder no dia 1ª de janeiro e eu disse a Iris: uma coisa que não admito é retaliação.

Euler de França Belém — O sr. vai conseguir controlar o Iris?
Comigo ele é homem de palavra. Sempre cumpriu comigo.

Euler de França Belém — Em 1983, Iris jogou pesado contra a oposição e jornais?
Estou falando da experiência que tive com ele em 2004.

Euler de França Belém — Há uma frase do escritor Naipaul que diz que só o poder revela o político.
Concordo com você. Não tem outra profissão no mundo em que você identifica com mais rapidez o comportamento das pessoas do que a política. É preciso entender que todos os políticos já cometeram erros, tem de ver como é que é a gradação no decorrer do tempo. Erros, todo mundo os comete. Quantas falhas e injustiças você já não cometeu?

Euler de França Belém — Mas eu nunca fechei jornal nem persegui empresário que anunciou em jornal. Iris Rezende contribuiu para fechar o “Diário da Manhã”.
Mas isso nós estamos vendo hoje. Vi um colega seu derramar lá­gri­mas para mim dizendo que quebrou, que “esse governo me quebrou”.

Euler de França Belém — O sr. pode nominar quem foi?
Ele não me autorizou. Mas essa pessoa chorava copiosamente.

Euler de França Belém — Em 1986, o sr. ajudou no retorno do “Diário da Manhã”. O sr. não é de pressionar jornalista. Mas uma vez se irritou comigo quando liguei para lhe perguntar sobre um livro de Fernando Morais (sobre a agência W Brasil, de Washington Olivetto) e o sr. achou que havia o dedo de Marconi na história, quando não havia.
Sou muito sensível quando se entra na vida familiar das pessoas. E aquilo entrou na vida familiar. Minha mulher é baiana, minhas filhas são “meio” nordestinas. Aquilo foi uma coi­sa que atacava a vida pessoal. En­tão questionei o disparate que aquilo foi. [Caiado processou Fernando Morais, que escreveu que, candidato a presidente da República, ele teria proposto esterilizar as mulheres nordestinas. As fontes de Fernando Morais não confirmaram a história.]

Euler de França Belém — O sr. é um liberal, mas o que é Iris Rezende em sua opinião. Ele é um liberal?
Não estou autorizado a dar uma entrevista em nome de Iris Rezende. Cada um no seu quadrado.

Euler de França Belém — Mas o sr. disse que Dilma Rousseff era autoritária.
Não. Eu falei sobre a governabilidade dela.

Euler de França Belém — Mas Iris é liberal ou não?
[Levemente irritado] Não tenho esta competência para definir qual é a postura ideológica de ninguém. Se ele é liberal, se é estatizante, se é democrata, se é social-liberal, isso tem de ser perguntado para ele. Não é isso que muda o perfil do gestor.

Euler de França Belém — Mas para apoiar um político nós não temos de entendê-lo?
Isso é lá da psiquiatria, eu deixo para você, eu fico só na parte ortopédica (risos). Tenho de ter compromisso com projeto e com ações minhas como senador.

iris rezende deu conta de administrar goiânia, teve 80% de aprovação. não vou definir se ele é liberal ou estatizante, isso não muda a capacidade de gestor” | Fernando Leite/Jornal Opção

Iris Rezende deu conta de administrar goiânia, teve 80% de aprovação. não vou definir se ele é liberal ou estatizante, isso não muda a capacidade de gestor” | Fernando Leite/Jornal Opção

Euler de França Belém — Então vou reformular. O sr. acha que o Iris é moderno e renovador?
Goiânia prova isso.

Euler de França Belém — O que ele fez de tão inovador em Goiânia?
Pergunte ao povo, pois ele teve 80% de aprovação.

Euler de França Belém — Então a Dilma é moderna. O Lula também, pois ele ganhou duas vezes.
A rejeição é maior do que a aprovação.

Euler de França Belém — Mas ganhou eleição.
Estou falando agora, não atrás. Mas quem deu conta de administrar Goiânia como Iris?

Euler de França Belém — Nion [Albernaz, prefeito de Goiânia por três vezes] deu.
Mas ele é discípulo de Iris.

Euler de França Belém — Pela primeira vez estou vendo o sr. fugir de uma questão, ao não querer definir Iris ideologicamente.
Mas eu definir ideologicamente uma pessoa? Com todo o respeito, mas o que é definir ideologicamente uma pessoa quando você tem no Brasil 33 partidos? (enfático). Defina-me, então, a doutrina dos 33 partidos existentes hoje no Brasil.

Euler de França Belém — Nenhuma doutrina.
Você quer que eu interprete de uma pessoa o que ele é, mas não consegue interpretar o que significam os 33 partidos no Brasil.

Euler de França Belém — Mas todos são quase iguais.
Como é que você que eu interprete uma pessoa? Não sou psiquiatra, sou ortopedista (exaltado). Eu disse que ele é renovador — sendo que a gestão de Goiânia foi o que foi.

Euler de França Belém — Então quer dizer que asfalto é renovação?
Mas é qualidade de vida. O sr. tem de fazer uma entrevista com Iris para ele te trazer os dados so­bre Goiânia em sua administração. O que você tem de perguntar para mim é o que farei como senador. A­go­ra, posição ideológica? Você, que é estudioso, de onde vem “centro”, “di­reita” e “esquerda”? (questionando)

Euler de França Belém — Mas isso sempre existiu.
Mas você, como estudioso, me fale qual a origem disso? Pois bem, é da Assembleia francesa, de como se posicionavam, de quem estava na direita ser defensor da aristocracia, de quem estava na esquerda ser defensor dos trabalhadores…

Euler de França Belém — Então, o sr. é um girondino?
Não. Sou um liberal, sabendo das funções do Estado. Acho que temos de ter uma coisa, que é a ter a humildade de não rotular os outros. Já fui vítima demais disso. As pessoas que não me conhecem sempre escreveram minha história como se eu fosse um cidadão truculento, contra a reforma agrária, que realmente não gostasse da área do social. Eu, com 39 anos de medicina, sou um cidadão respeitado na medicina. As pessoas mais humildes nunca me viram negar um tratamento. As pessoas nunca me viram lutar contra a melhoria da qualidade de vida e da tecnologia do campo. Então essas coisas são o quê? “O Caiado não é bandido, não é corrupto, então como é que vamos rotulá-lo?” Co­mo radical. Sou radical em quê? De­fender Goiás, brigar por quem produz? Não tem nada pior do que isso.
Não rotule as pessoas. Isso é nocivo na política. Uma vez fui jantar em Alto Horizonte, numa casa de uma mulher, morto de cansado, porque tinha feito uns dez comícios naquela região do norte de Goiás. Daí eu disse para ela: a senhora não me leve a mal, não, será que eu posso pegar uma comida lá na cozinha? Eu estava quase que desmaiando. Entrei lá peguei a comida e sentei no banco da cozinha e fiquei comendo. Essa mulher ficou me olhando. Daí eu disse: parece que a senhora está querendo falar alguma coisa comigo? Ela respondeu que sim, com os seguintes dizeres: “O que eu já disse de mal do senhor não é brincadeira. O que eu já disse do senhor… disse que o senhor era mal, truculento, autoritário. Hoje o senhor está aqui na minha casa, não sabe quem sou, operou meu irmão e não cobrou nada dele. O que posso fazer para recuperar o tanto que falei de mal do senhor? Porque era o que eu ouvia falar do senhor, e só agora vejo quem é o senhor, comendo aqui na minha cozinha.” Portanto, aprendi uma coisa: não rotular as pessoas. Isso a gente deixa por conta de cada um.

Cezar Santos — O sr. estava inicialmente no projeto de Vanderlan Cardoso (PSB) e foi vetado pela ex-senadora Marina Silva, que se tornou vice de Eduardo Campos…
Ela vetou o setor rural. Os jornais publicaram que ela disse que considera o setor rural “inimigo do meio ambiente”.

Cezar Santos — De qualquer forma, foi um veto pessoal, já que o sr. é um dos grandes líderes dessa área.
Lógico. Naquele momento mesmo, eu me afastei.
Cezar Santos — A partir daí, o sr. ficou “namorando” com a base aliada do governo estadual, para formar na chapa majoritária?
Eu? Não houve isso.

Cezar Santos — Mas teria havido resistência também na base ao seu nome?
Vou deixar claro, nunca houve “namoro”, nunca houve conversa minha com a base aliada. Cite uma, que eu tenha tido com alguém. Onde foi isso? Com quem?

Cezar Santos — O sr. não conversou com o senador Aécio Neves para que ele interferisse no quadro local, facilitando essa composição?
Pergunte para ele.

Cezar Santos — Estou perguntando ao sr., que está sendo entrevistado.
Ele, o senador Aécio, é que veio até mim. Ele disse a José Agripino [presidente nacional do DEM], a ACM Neto [do DEM, prefeito de Salvador], “eu preciso do Caiado, para entrar na área da saúde, no setor rural, preciso do Caiado”. Aécio é que veio a mim. Eu disse: “Uma coisa é sua campanha, Aécio, vou lhe apoiar, mas outra coisa é o processo de Goiás.” Vou deixar bem claro, nunca recorri a Aécio para resolver problema do quadro local.

Euler de França Belém — Mas Aécio queria, não?
Ele queria, fez reuniões com Agripino, com ACM Neto. É preciso deixar claro o que é verdade e o que é ilação. Nunca tratei desse assunto com Aécio. Ele é quem tratou comigo.

Euler de França Belém — Voltando no tempo novamente, o sr. participou da ida de Henrique Meirelles para o Banco Central. Como foi isso?
Primeiramente, eu fui buscar Meirelles para a política, por ele ser de Anápolis. Estive com ele em São Paulo, quando ele decidiu se filiar ao Democratas. Fizemos a primeira reunião depois, com César Maia ainda prefeito do Rio, no Palácio das Laranjeiras [na capital fluminense]. Estava tudo acertado para ele se filiar ao DEM e ser nosso candidato ao Senado em 2002. No dia da filiação, após um pedido de Marconi Perillo, ele foi chamado pelo presidente Fernando Henrique Cardoso para ir para o PSDB, que também lhe garantiria a ele a vaga de candidato a senador. Eu disse a Meirelles que no dia da convenção, Fernando Henrique estaria a mil quilômetros de Goiânia e que só haveria uma vaga. Ele me respondeu dizendo que não poderia negar o pedido de um presidente. Filiou-se e aconteceu o que aconteceu, não preciso ser repetitivo [Henrique Meirelles foi preterido pelo partido em prol da então deputada Lúcia Vânia].
Eleito deputado federal, Mei­relles foi para os Estados Unidos e aí começaram as articulações para assumir postos no governo federal. Havia uma grande preocupação do mercado internacional sobre o que Lula iria implantar em seu governo. Então, houve uma interlocução com Meirelles ainda nos EUA — e Lula também nessa viagem — para ele assumir o Banco Central. Eu, como goiano que sou e conhecendo sua competência, avalizei e disse que este era indiscutivelmente o homem mais preparado para a política do País. Naquele momento, Aloizio Merca­dante [que seria ministro de Lula] assumiu o diálogo e Meirelles foi conduzido à presidência do Banco Central. Na prática, ele acumulou o Banco Central e o Ministério da Fazenda ao mesmo tempo.
O interessante é o que Meirelles disse para mim uma vez: “Ser presidente do Banco Central com Antônio Palocci [então ministro da Fazenda] é muito fácil, ele é médico, de raciocínio rápido, tem uma capacidade de aprender impressionante e em dois minutos entende tudo. O difícil é quando a gente vai tratar com o Mantega [Guido Mantega, então ministro do Planejamento] é uma dificuldade, a ficha não cai, tem dificuldade de entender as coisas, é um mal aluno.”

Euler de França Belém — Seria alguma barreira ideológica por parte dele?
Acho que é uma obturação mental, mesmo.

Euler de França Belém — O sr. está no Congresso há muito tempo. Há pessoas do PT com quem o sr. tenha um diálogo construtivo?
Lógico. Por exemplo, Marco Maia (PT-RS) era o presidente da Câmara e eu era o líder do DEM. Da mesma forma, sou professor em um curso de pós-graduação de José Eduardo Cardozo, ministro da Justiça, na Faculdade Paulista de Direito. Tenho um excelente relacionamento com ele e todo ano dou aula lá, este ano já estive, por exemplo. É uma aula de cinco horas sobre reforma política, das 8 às 13 horas, com intervalo de meia hora.

Euler de França Belém — O PT tem grupos mais democráticos.
Sim, têm também outras pessoas, como Maurício Rands [hoje sem partido, após renunciar ao mandato por conta de conflitos quando decidiu disputar a Prefeitura do Recife, em 2012], Henrique Fontana (PT-RS), que é relator na discussão da reforma política, como eu fui relator.

Elder Dias — E em Goiás, como está seu relacionamento com o PT?
Tenho ótimo relacionamento com o deputado Rubens Otoni, sempre tive. Ele fazia parte da comissão sobre reforma política, de que eu era relator. O ex-prefeito Antônio Gomide é uma pessoa interessante também, já tive algumas reuniões com ele. Uma vez, Gomide me contou que, ao chegar para debates em rádios na cidade, sempre deixava claro: “Pra acertar a conversa no começo da entrevista: eu sou amigo do Caiado, mas ele defende uma tese e eu defendo outra. Está explicado?” (risos) Eu, de minha parte, nunca deixei de apoiar as emendas para Anápolis e de defender, logicamente, o que seria melhor para minha cidade — afinal, eu sou anapolino. Não tenho por que ter qualquer restrição a quem estiver na gestão do município. Foi uma convivência extremamente republicana.

Euler de França Belém — E foi um bom prefeito para Anápolis.
Sim, foi um bom prefeito, uma pessoa ativa. Tem seus méritos e cabe à gente, independentemente de sigla partidária, respaldar as pessoas que estão fazendo um bom governo.

A médica cubana Ramona, que fugiu do programa Mais Médicos, está nos EUa e sempre me liga. Está ótima, alegre. Aquilo lá é o sonho de todo cubano”

A médica cubana Ramona, que fugiu do programa Mais Médicos, está nos EUa e sempre me liga. Está ótima, alegre. Aquilo lá é o sonho de todo cubano”

Elder Dias — O sr. está envolvido, como político e como classista, na questão do programa Mais Médicos. O que o sr. vê realmente de ruim? Outra questão, o sr. consegue enxergar alguma qualidade no projeto?
Preciso de pelo menos cinco minutos para explicar isso a vocês. A carência médica existe e já foi diagnosticada há muito tempo por um levantamento do Conselho Federal de Medicina. Nas regiões Sul e Sudeste há 50% dos médicos nas grandes cidades e 50% no interior. Nas demais regiões, há 70% dos médicos nas grandes cidades e 30% no interior. Isso porque na região Sul há muitas cidades do interior com maior qualidade de vida, mais estrutura, maior renda per capita. Isso faz com que o médico tenha maior estabilidade. Nas regiões Norte, Nor­deste e Centro-Oeste, o profissional depende do humor do prefeito ou das lideranças políticas no comando da cidade. E se não atuar conforme essa visão política, ele é rapidamente substituído. Ele não tem garantias.

Então, quando um médico vai para o interior, quer manter a qualidade de vida da família na capital, a escola boa do filho. E outra questão: se na minha época de recém-formado eu fazia revisão bibliográfica duas vezes por semana, hoje o médico precisa fazer isso quase todo dia, sobre o tema em que é especialista. Isso porque, com a internet, há milhares de técnicas e teses sendo apresentadas, modificando as cirurgias a cada minuto. Ou seja, a globalização mudou a relação do médico com seu conhecimento. E, além disso, ele precisa trabalhar.
Em relação às queixas sobre os médicos, o que há não está no diagnóstico nem no tratamento inicial. A queixa maior é quando se torna necessária uma cirurgia no joelho, no quadril, na coluna, uma cirurgia gástrica, pulmonar, de crânio. Enfim, onde é necessário um especialista. Essa é a grande carência. No Hospital das Clínicas, você vai ver milhares de pessoas esperando para operar de um câncer de próstata, ou câncer de mama, ou intervenção em politraumatismo. Essa, então, é a grande deficiência.
Então, quando o Conselho Fe­de­ral de Medicina apresentou esse quadro, nós iniciamos nosso trabalho no Congresso. Temos R$ 92 bilhões pa­ra ações na saúde. Ora, se o Es­ta­do dá 12% para a área e os munícipios repassam 15%, nada mais justo que a União — que antigamente tinha um repasse de 60% e os municípios e Estados, de 40%, e hoje isso se inverteu —, entrar com 10% de sua receita corrente bruta. Assim, teríamos R$ 92 bilhões mais R$ 45 bilhões da União, o que daria algo em torno de R$ 140 bilhões de financiamento para ações de saúde (médicos, honorários, estrutura de área hospitalar, centros cirúrgicos, UTIs etc.). Então tem uma proposta de emenda constitucional (PEC) de minha autoria que mostra, já que a Constituição garante, no capítulo da Saúde, ser ela direito de todos e obrigação do Estado, a constitucionalidade da criação da carreira de Estado.
Essa matéria está pronta para ser votada e só não foi porque o PT não deixou. Já passou pelas comissões e está pronta para ir a plenário. E por que não foi? Há carreiras federais para Ministério Público, para o Judiciário, independentemente da simpatia da liderança do município, há um concurso, um salário digno e uma aposentadoria garantida. Não há qualquer dependência do humor de quem está no comando da política. Dando essa estabilidade, o ortopedista, o neurocirurgião e o cirurgião gástrico irão para o interior, porque se abre uma janela que, ao invés de dar quatro plantões em Goiâ­nia, ele poderá ter uma carreira de Estado, ganhar a mesma coisa, se atualizar como profissional, participar de congressos e manter seu padrão. Então, para praticar a medicina no interior do Estado, ele não estaria se ausentando de suas obrigações familiares, de maneira nenhuma.
Fiz esse adendo para dizer: isso aqui é o diagnóstico, temos a causa e estamos tratando da solução — mais 50% de financiamento e carreira de Estado. Ocorre que o quadro era caótico e a presidente Dilma Rousseff (PT) tinha dito que a saúde seria sua prioridade número um de seu governo. Quando foi ver, estava com 74% de rejeição na área, em seu governo. O ministro Alexandre Padilha [da Saúde] negou seu lado médico e desviou-se para o lado demagógico, oportunista. O desserviço que ele fez à medicina é algo que me estimula a tentar aprovar uma quarentena para que ministro da Saúde não possa ser candidato a cargo algum por durante quatro anos, no mínimo.
Houve uma manipulação política do ministério que foi impressionante. Ninguém de mente sã é contra médicos, isso não existe. Mas desde o governo de Juscelino Kubitschek, em 1957, há uma legislação semelhante à francesa, pelo qual se criou o Conselho Federal de Medicina, para saber se o médico está cumprindo as regras éticas no exercício da profissão. O que fizeram no governo, agora? Criaram um factoide para instalar o Mais Médicos. Satanizaram a figura do médico para dizer “não é o governo que é ruim, quem é ruim são os médicos brasileiros”. Então, baixaram uma medida provisória para que o médico entre no Brasil sem precisar provar que tem conhecimento — não faz o Revalida — para exercer a profissão. Essa MP cassa a prerrogativa do conselho e quem passa a emitir o CRM para o médico poder exercer seu ofício é o governo. A partir daí, dizem que o conselho pode continuar fiscalizando. Mas, quer dizer que, depois de tudo, de passar por cima do Revalida, é que vão querer colocar o conselho como fiscal? Então, que se dê a primeira condição que se tinha por lei e que foi cassada e não a continuidade da fiscalização.
Com isso, trouxeram os quase 14 mil médicos. Mas esse jogo já sabíamos que não tinha nada de inovador. Era o mesmo projeto que João Santana [marqueteiro do PT] tinha feito quando Hugo Chávez corria risco de perder as eleições na Venezuela. Naquela época, Santana já tinha feito esse acordo com Cuba e trouxeram 30 mil agentes de saúde, entre médicos, laboratoristas, técnicos de raios-X etc., em um programa chamado Bairro Adentro, que é idêntico ao Mais Médicos no Brasil. A diferença é que a Venezuela repassa 100 mil barris de petróleo para Cuba e o Brasil pegava o salário do médico de R$ 10 mil, deixava R$ 972 a ele e o resto mandava para a família Castro. O Tribunal de Contas da União (TCU) então diz que é preciso achar uma explicação, porque tem R$ 1,127 bilhão que não se sabe para onde foi. E isso foi para Cuba. Por que os médicos cubanos vão receber R$ 170 milhões, ao todo, e o governo cubano R$ 1,127 bilhão?
Eu, já sabendo o caso da Venezuela, aproveitei o fim de ano e fui para Miami e conversei com cubanos. Eles entraram no Foro Internacional, mostrando suas condições de trabalho na Venezuela e estão ganhando as ações — naquela época, US$ 50 milhões já haviam sido arrestados da empresa de petróleo venezuelana para ressarcir essas pessoas. Então, corremos o risco de amanhã o Brasil estar no Foro Internacional respondendo por conta desses médicos que estão aqui e que vão fugir e mostrar a maneira com que eles eram trabalhavam, totalmente desrespeitosa e incompatível com o exercício da medicina. Por que o médico português, o ar­gen­tino ou o mexicano recebe R$ 10,4 mil na conta bancária e por que o cubano recebe apenas R$ 972? Es­se é o caso Pasadena [nome da refinaria dos EUA comprada pela Pe­trobrás] de 2014. Agora, me digam: vocês acham que esse montante de R$ 1,5 bilhão vai ficar em Cuba? Claro que isso é dinheiro esquentado para campanha. (enfático) É algo que é inadmissível e inimaginável.
Com esses contatos, consegui com que a ONU chegasse até mim. Então, mostrei que não há convênio algum, que isso era mentira. A casa caiu no momento em que a Ramona [Ramona Matos Rodriguez, médica cubana que decidiu abandonar o programa Mais Médicos descontente com o salário que recebia e procurou Ronaldo Caiado] mostrou seu contrato e disse que era prestadora de serviços e estava fazendo um curso de língua portuguesa em Cuba já havia mais de dois anos — e ministro dizendo que não sabia do caso, enquanto já estava tudo montado. Ramona me disse ainda que estava aqui com um contrato como profissional, enquanto o governo disse que havia um convênio de ensino, extensão e pesquisa com Cuba. Não tem ensino, nem extensão, nem pesquisa: é simplesmente prestação de trabalho. E, assim, a legislação é clara: cumpra-se a legislação trabalhista em vigor no País. E a Constituição não diferencia o cidadão brasileiro do estrangeiro no exercício da medicina. Esse é o desgaste todo que essa questão trouxe, juntamente com o prejuízo à medicina brasileira.

Cezar Santos — O PT justifica dizendo que a Opas…
A Opas [Organização Pan-Americana da Saúde, órgão internacional que se constitui escritório regional para as Américas da Organização Mundial da Saúde] é um navio negreiro.

Cezar Santos — Por que a entidade se presta a esse trabalho?
A entidade é presidida por um sobrinho dos Castros. Quem presidente a Sociedade Mercantil Cubana Comercializadora de Serviços Médicos? Uma mulher dos Castros. É só ir buscando a origem e tudo fica claro. Qual a credibilidade desses organismos?

Euler de França Belém — E como está Ramona hoje?
Está nos Estados Unidos e sempre me liga. Está ótima, satisfeita, alegre. Aquilo lá é o sonho de todo cubano. Está trabalhando já por lá, mas não como médica — até porque não teria como, pois precisaria fazer o exame de revalidação. Ela está prestando assessoria para cubanos que têm empresa.

Euler de França Belém — Outros médicos lhe procuraram?
Sim, outros me procuraram. Mas por que não há uma evasão completa desses médicos? Porque há filhos, pai, mãe, esposa, todos em Cuba. Se você está na rua, mas sua família continua presa, qual é sua liberdade? É uma liberdade relativa. Você pode andar por todos os lugares, mas, se sua família estiver sequestrada, você vai fazer o que o sequestrador mandar.

Euler de França Belém — Uma reportagem no “Estadão” disse que até 2015 os portos brasileiros estarão esgotados, sem capacidade de operação. O governo brasileiro está financiando a reforma do porto de Mariel, em Cuba. O Congresso investigou essa obra, para saber quanto o Brasil está gastando?
É uma reforma, mas antes havia algo muito rudimentar. O porto de Mariel foi 100% bancado com dinheiro brasileiro, o que vai ser anistiado. E aí está uma prerrogativa de ser senador da Repú­bli­ca, que pode interpelar a Presi­dên­cia nesses casos de bancar anistias. Se nós tivéssemos um Senado com independência e que exercitasse sua função, diria “calma lá, presidente, não se pode fazer isso” e se cobrariam informações sobre grau de endividamento, concessões etc. Não haveria como sair fazendo anistia assim para tudo quanto é ditador na África ou em Cuba, não. Onde o Senado atuou nisso? Em nada. Quantos bilhões têm do BNDES aí? Qual é o tamanho desse buraco? E você vê isso acontecer do Brasil para a Venezuela, para Cuba, para os países da África. Vivemos um presidencialismo que acha que o Legislativo está ali apenas para respaldar as ações do Executivo. Esses limites e outras coisas — indicações de ministros, presidentes das agências reguladoras, endividamento dos Estados, política tributária etc. —, tudo isso são prerrogativas do Senado, uma casa que passou a ser covalidadora das ações do Planalto. Não é mais fiscalizadora nem propositiva.

Euler de França Belém — Mas, se o sr. for eleito e o governo reeleito e continuar com maioria…
Eleito e líder da bancada, é outra coisa. Passamos a ter uma bancada e, se fizermos um bloco, temos uma capacidade maior. E se começarmos a exercitar bem a função ali dentro com todas as ferramentas do regime interno da Casa, as coisas não ficarão muito fáceis. Em um universo de 513 é até possível construir certo sentimento, mas, isso é diferente em um universo de 81, contando com uma boa assessoria — temos uma assessoria de primeiro mundo no Congresso, não entramos em nada sem estar com um bom aparato. Podemos fazer com que não haja um rolo compressor.

Elder Dias — Como o sr. viu a divulgação, na semana passada, da invasão de perfis de jornalistas na enciclopédia virtual Wikipédia. O sr. acredita que houve uma determinação do Planalto ou foi uma atitude isolada?

Euler de França Belém — O PT tem uma política de controlar a imprensa. Isso é sistêmico.
São desvios em que a máquina, que tem a função de defesa do cidadão e das políticas do Estado, se transformou em uma máquina partidária. E a partir daí há degraus, mas o objetivo final é o controle. Esse tipo de situação que ocorreu mostra a ousadia deles para usar a estrutura do Planalto. É um sinal, mas o objetivo final é outro, que vem com o decreto da presidente, de número 4.324, que cria as comissões populares, para executar uma política que ditará o que os ministérios vão fazer. É uma maneira de tentar dizer que está atendendo um sentimento da população em determinada política. E o primeiro ponto que será atingido será a imprensa. Esse é o foco principal da criação desse decreto. Eles querem o controle da mídia, por meio desses coletivos que vão determinar ações. Então, se não há uma ação deliberada do governo, por que não apresentar as pessoas que praticaram esse crime, com sua demissão imediata? Por que não uma punição explícita?
Está eleição é uma eleição diferente. Uma eleição, para nós, é só uma eleição. Se eu perder, volto para meu consultório em tempo integral. Mas essas pessoas que utilizaram a estrutura do Estado partiram de um patamar salarial e chegaram a outro patamar— com todos os benefícios, concessões e negócios que praticam — que manter isso passou a ser condição de vida. Para eles, é questão de sobrevivência. Ninguém trabalha para perder eleição, mas para ganhar. Mas perder não vai alterar minha vida. Vou continuar o Ronaldo Caiado, médico e cirurgião. Vou tocar minha vida. Agora, essas pessoas, não. Se perderem a eleição, imagine o que vai acontecer.

Cezar Santos — Dilma já chegou a falar que, para ganhar eleição “a gente faz o diabo”. O sr. acha que o PT tem algum limite?
Não, não tem. Isso vocês mesmos colocaram na mídia. Sabe-se o caso dos “aloprados”, agora essa invasão de perfis de jornalistas. Eles não têm limite, se utilizam de todos os mecanismos não republicanos e criminosos para tentar ganhar uma eleição.

Euler de França Belém — Aécio Neves, apesar de ser jovem e experiente, foi um bom governador em Minas Gerais e conseguiu ajustar a máquina pública no Estado, no tempo que ficou no poder. Está em 2º lugar e muito distante ainda da candidata Dilma Rousseff. O sr. acredita que é por não existir uma campanha eleitoral, ainda, ou pelo PT ter criado muita força no País com suas políticas sociais, por exemplo o Bolsa Família? Como o sr. avalia esse quadro, uma vez que o governo em si, da presidente Dilma, está mal avaliado?
Primeiramente, sou uma pessoa que respeita pesquisas. Sou médico e tenho de acreditar na base científica com que se implantam técnicas. A pesquisa tem uma metodologia, tem de ser respeitada e nós temos de aprender com ela. Ainda assim, existe algo na pesquisa que é impossível de ser detectado. Ela não consegue mensurar o sentimento, a energia da pessoa no momento da campanha. Por exemplo: “Ah, eu vou votar, vou votar nele, porque ele vai ganhar”, dizendo isso com desânimo. Mas a campanha eleitoral, agora, é jogo de meio de campo. Quando chegar 10 de setembro, não será fogo de monturo, mas, sim, fogo morro acima. O cidadão, então, adere a um sentimento espontaneamente pela proporção que a campanha ganha. Isso demonstra a capacidade de crescimento da campanha. A pessoa tem de ter “pele”, sensibilidade, pois quando um politico sai em uma carreata, faz um comício, ele tem de ver o brilho nos olhos do eleitor, seu gesto e espontaneidade. Isso pesquisa nenhuma demonstra. Você compara as carreatas, uma caminhada em uma rua com outra. Quais as chances de Dilma sair, hoje, nos grandes centros para uma caminhada? Onde já se viu uma presidente sitiada no palácio? Portanto, não me preocupo com essa situação, pois quando a campanha ganhar esse movimento de rua, as coisas vão, cada vez mais, empolgando Aécio para ganhar a eleição.

Euler de França Belém — Qual é o diferencial do Aécio? Por que ele é melhor?
Eu estaria até repetindo palavras dele sem estar aqui autorizado a falar sobre esse detalhe, quando ele foi perguntado. O diferencial do Aécio é que, em uma eleição majoritária, o candidato precisa ter carisma. Ele tem de se comunicar com o eleitor. O Aécio tem essa capacidade. É notável. Ele sabe tratar as pessoas e soube como ser governador. A maior virtude de um estadista, de um governante, em minha opinião, é saber escolher seus assessores. Meu professor dizia “meu serviço de ortopedista, meu filho, é uma constelação, pois todos brilham iguais a mim”. Portanto, não adianta querer ter o estilo de Dilma, em que ela entende de saúde, segurança, energia, transporte, política externa, porém não conhece nenhum ministro. Se eu pedir que os senhores citem 10 dos 39 (ministros), ficarão engasgando.

Euler de França Belém — Talvez citaríamos sete.
(risos) Isso significa que as pessoas não têm autonomia para o debate. O que é governar? Se você tem uma cadeira de presidente da República ou de governador, é preciso ter um secretário que seja não só conhecedor maior do que você em determinada área, mas também criativo, com soluções para os problemas. Essa é a diferença entre Aécio e Dilma. Ele sabe como montar uma equipe. Aécio sabe criar uma assessoria que dê a ele uma gestão positiva, inovadora, com resultados na educação, na saúde, na segurança pública, naquilo que a população espera de um governante. É possível ver a avaliação do perfil dele, em Minas Gerais, e a avaliação da presidente Dilma, na Presidência. Ela não soube escolher. A pessoa quando acredita que sabe e é conhecedor de tudo não aceita o contraditório. Como é esse governar? Qual essa diferença? Isso estará na hora do debate. O que está ficando ruim é que estão tentando limitar debates em entrevistas. Isso é muito ruim, nós precisaríamos ter mais debates.

Euler de França Belém — O sr. fala sobre os 39 ministérios, que são muitos.
São 40, com João Santana, o superministro (irônico).

Euler de França Belém — Ele manda em dois países. Quer dizer, em três, pois ele manda em Cuba, também (risos).
Ele que resolve tudo. “Chame o João Santana” (brinca). Na Saúde, na Economia, “chame o João Santana”. (risos)

Euler de França Belém — O sr. é favorável à criação do Ministério da Segurança Pública?
Uma coisa é você opinar sobre um tema, e os senhores estão me entrevistando aqui como candidato ao senado. A prerrogativa de criar ministérios é uma prerrogativa única e exclusiva do presidente da República.

Elder Dias — O sr. criticaria, então, a criação do ministério, da Tribuna do Senado?
Se você tem hoje, uma política em todo Brasil, que recrimina a presença de 40 ministérios, você criaria o 41° ministério?

Elder Dias — E dentro do contexto de uma reforma administrativa?
Dentro desse contexto, você tiraria todas as prerrogativas de um ministro da Justiça? Eu acredito que o ministro tem de ter, exatamente, a capacidade de cuidar dessa área. Seja na área fronteira, política internacional de combate ao tráfico de drogas, contenção da entrada de armas, acordo com os países — pois hoje levam um carro roubado para Bolívia e leva dois meses para ser regularizado. Ou seja, é preciso entender que não é a criação de mais um posto, mas, sim, que o perfil daquele ministro seja o de uma pessoa capaz de ser atuante no combate ao crime. Para ser mais objetivo, não sou a favor. Isso é desviar de um assunto. É aquela tese de criar mais um como se isso fosse resolver. Já existe o ministério da Justiça com essa prerrogativa. Ou pretende-se tirar a prerrogativa da Polícia Federal do ministério da Justiça também?

Elder Dias — Um ministro da Justiça (Iris Rezende) já afirmou que “o crime, muitas vezes, é inevitável”. Não é necessário uma “ajuda” para isso? O Ministério da Pesca, de fato, poderia ser englobado ao Ministério da Agricultura ou algo comum aos recursos naturais. Concordo com o excesso de ministérios. Ainda assim, a criação de um ministério com um foco específico, nesse caso, não é uma necessidade do Brasil, principalmente, quanto à segurança pública?
Com o status de ministério, eu, sinceramente, não posso afirmar o que o próximo presidente vai resolver. Mas, se ele nomear uma pessoa competente, essa pessoa dará conta, tranquilamente, de implantar essa política. Qual seria outra prioridade do ministro da Justiça, hoje, no Brasil?

Elder Dias — Qual a opinião sobre a revisão das leis penais do País?
A grande dificuldade que temos é a bancada do PT. Eu sou a favor da maioridade penal aos 16 anos. Tenho um projeto de alteração do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), pois precisamos encontrar uma solução. Se eles vêm com a tese de PEC [proposta de emenda constitucional], eu venho pela tese do ECA, que seria uma lei complementar e teria um quórum menor. Para que o cidadão, julgado, depois de completar os 18 anos de idade, continuasse a cumprir a pena em penitenciária.

Elder Dias — O ECA, em si, é ruim?
Ele está criando uma situação que, ao invés de ser um fator limitador da criminalidade, passa a ser motivador, para que as pessoas, conhecedoras de suas prerrogativas, ao contrário de usufruir disso pa­ra um lado benéfico, muitas ve­zes descambam para o outro lado.

Elder Dias — É um problema do ECA do sistema como um todo não funcionar?
Se você tem o ECA que limita as ações até os 18 anos e que, nesse período, será mantido em um centro de recuperação, há um julgamento até os 18 anos. Se alguém pratica um crime grave e, amanhã, tem uma pena de 10 anos ou 20 anos, você tem exatamente esses dois anos em um centro de recuperação. Em uma parte dele, você vai para uma penitenciária. Não tem lógica você, com o crime mais hediondo que seja o crime que praticou, por você ter 16 anos só ser julgado quando completar 18 anos.

Cezar Santos — O ECA tem uma formulação demagógica?
Dizem “ah, mas vão ter certas dificuldades”, porque as penitenciárias brasileiras, hoje, não vão proporcionar que ele tenha uma recuperação ou que saia da criminalidade, porque os exemplos são negativos. Mas aí há uma contradição. Estive em Xangai onde, recentemente, 20 presídios foram desativados. A mídia divulgou que, na Austrália, três presídios também foram desativados.

Euler de França Belém — Por qual motivo?
Baixa criminalidade.

Euler de França Belém — No Brasil é o contrário. O ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, disse que, apesar de se ter recursos, o governo não conseguiu construir presídios. Tinham o dinheiro, mas não fizeram.
Pois é. Isso é ou não falta de pulso e comando da política de segurança no País? Você precisa colocar uma pessoa que faça. Se ele está no rótulo da segurança pública ou da justiça, não interessa. Agora, criar mais um ministério para interferir na área do outro complica mais ainda. Para ter uma ideia, na Inglaterra o ministério da Agricultura e o do Meio Ambiente são um só. Aqui, nós temos da Agricultura, do Meio Ambiente, do Agricultor Familiar, da Pesca. E resolveu? Qual a função de cada um? Ou seja, assim, só criará essa ambiguidade.
Uma dificuldade recente e que está “na moda” é roubar caminhões que transportam gado. O bandido diz à vítima para ficar tranquila porque, no dia seguinte, em alguma saída de Goiânia, ele abandonará o caminhão, pois só quer o gado. Isso é todo dia. Por quê? Porque ele já tem um receptador. O bandido pode ter, eu acredito, a pena de dez anos e o receptador, como na Europa, três vezes essa pena. Esse é o cara que motiva o desmonte, o roubo de carga, porque tem um receptador. Ele é quem alimenta toda essa cadeia anterior. Essas pessoas são massa de manobra.

Elder Dias — Então, na verdade, o Brasil está caminhando para trás quando deixa de punir, por exemplo, o consumidor de drogas, pois ele é quem motiva o tráfico.

quem distribui a droga e faz sua receptação é que deveria ter a penalidade três vezes maior. é esse que vai para a porta das escolas”

Quem distribui a droga e faz sua receptação é que deveria ter a penalidade três vezes maior. é esse que vai para a porta das escolas”

Não. O cidadão que consome a droga a está inoculando em seu organismo. Ele está se autodestruindo. Ele é um dependente químico. É diferente. O cidadão que faz a distribuição da droga e sua receptação é o que deveria ter a penalidade três vezes maior. É esse que vai para porta da escola. A criança já ingeriu cocaína na balinha, naqueles docinhos que eles fazem. Portanto, ela foi induzida a uma condição em que, do ponto de vista orgânico, fica com uma dependência funcional da droga. Esse cidadão não ganha nada com isso, ele está se autodestruindo e quem está ganhando dinheiro com a droga é esse receptador e distribuidor. No caso do gado, quando roubam o caminhão, ele vai para uma distribuidora para os produtos serem comercializados. Quem vai com um caminhão vender celular nas ruas de Goiânia? Portanto, esse receptador precisa ter uma pena três vezes maior que o outro. Essa é uma proposta de lei que nós temos e que não passa. As dificuldades são grandes para tramitá-la.
É preciso aumentar a penalização. Cada dia, me passam um número. Uns falam que são 4 mil decisões de prisão judicial em Goiás, outros falam que são 20 mil. Cada hora é um número e não tem como prendê-los, pois a prisão em Goiás tem, agora, um sistema rodízio: para prender um é preciso soltar o outro. Quando o Maguito fala no porquê não admitir a ampliação do presídio em Aparecida, ele tem toda a razão. A estatística mostra que 73% daqueles que cumprem prisão em sistema semiaberto são reincidentes, voltam a assaltar. Qual a condição do cidadão ser empresário em Aparecida, do lado do presídio, se soltam o cidadão durante o dia e 73% são reincidentes, voltam a roubar? Essa é uma situação que deve ser enfrentada. Como você moraria em lugar assim? Ou, ainda, como ter uma estrutura empresarial em lugar desses? Se o governo não tem dinheiro, que privatize as prisões. O que precisamos ter é uma solução para esse quadro. Não podemos é querer achar culpado. Isso não dá, porque, hoje, com a criminalidade que está em Goiás, querer transferir a criminalidade para outro é inadmissível. O Jornal Opção mesmo publicou sobre os R$ 150 milhões que foram transferidos do fundo de segurança do Estado, uns dizendo que para pagar dívida e juros para a Caixa Econômica Federal e outros falando que seria para pagar a publicidade do governo.

Euler de França Belém — Joaquim Mesquita, o secretário de Segurança Pública, aventado como uma pessoa experiente na Polícia Federal, parece que não soube acertar a situação no Estado. Como o sr. avalia a ação dele? É culpa do secretário, do Estado?
Eu não vou fulanizar o debate. O problema é muito complexo. Nós não podemos transferir para os ombros de um secretário de Segurança Pública o momento que estamos vivendo. Isso é querer abrir mão do que é o principal e fazer críticas ao acessório. O processo maior é ter, em primeiro lugar, uma estrutura que resgate o sentimento da Polícia Militar. O que fiz há poucos dias? Trinta e dois policiais militares foram duramente agredidos na porta do Palácio do Planalto e do Supremo Tribunal Federal (STF), quando o Movimento dos Sem-Terra (MST) tentou invadir o prédio. Esses homens foram quase que linchados na defesa por não deixar invadirem o Palácio. No outro dia, Gilberto Carvalho, em entrevista, diz que o culpado do tumulto que existiu foram os policiais, que não souberam reagir. Quer dizer, 32 saíram de lá massacrados, com contusões cranianas, fratura de braço, cortes e tudo mais e, de repente, o ministro da Dilma diz que o responsável era a PM. No outro dia, Gilberto recebeu a liderança do MST.
Qual a situação que se tem hoje, na polícia? É exatamente essa. A polícia do Estado de Goiás está desmotivada da mesma maneira. Não se ascende a cargo por competência ou mérito. É por indicação. Quebrou-se aquela hierarquia na polícia. A ascensão na polícia, como todo e qualquer órgão do Estado, deveria ser por meritocracia e não por indicação. Isso é algo que se tem de resgatar. Em segundo lugar, como eu costumo dizer, a bala do bandido de Brasília não é diferente da bala do bandido do Entorno ou do interior de Goiás. Por isso, o policial militar tem de ter uma igualdade salarial no Brasil inteiro. Aí alguém diz, “ah, Caiado, mas Brasília tem um fundo perdido de R$ 14 bilhões e os Estados não suportariam isso”. Sim, mas a PEC que nós trabalhamos prevê exatamente isso: um fundo complementar para os Estados que não podem arcar com o diferencial. Mas é preciso ter um salário único, se é para priorizar a segurança pública. Em terceiro lugar, você tem de enaltecer os atos de bravura. Não é questão de motivar o policial a colocar sua vida em situação de risco, tratemos da segurança pública. Também nunca fiz concessão para bandidagem em lugar algum. Outra coisa é garantir a segurança do cidadão. Porém, se o policial não está motivado e não tem reconhecimento, ele ao morrer não recebe nada mais. Se atingir o bandido e o bandido morrer, ele vai para corregedoria e está impedido de galgar qualquer escalão superior na polícia. Ele então vai cruzar os braços. Pra que entrar em uma situação assim? Temos um quadro da Secretaria de Segurança Pública de Goiás, com um desvio de R$ 150 milhões do fundo, um efetivo totalmente desmotivado e policiais iniciando com um terço do salário do policial de Brasília, com falta de tecnologia, aparelhamento, armamento para eles. Na minha pequena cidade de Americano do Brasil, já explodiram banco três vezes e os bandidos ainda falam no microfone “se vocês saírem, nós estamos armados com fuzis AR-15”. E os policiais ficam presos, pois qual a capacidade que têm para enfrentar os assaltantes de banco do interior?

Cezar Santos — O sr. considera Goiás como o pior estado em segurança pública?
Não, é o quarto. A estatística não é nossa, está apresentada. Para nossa tristeza, estamos em 4º lugar, ocupando as manchetes dos jornais nacionais na área policial.

Cezar Santos — Gente da cúpula da segurança, como o coronel Divino Alves, afirma que antes o sr. nunca tinha tratado sobre segurança pública e, agora, a extrema presença desse tema. Como o sr. recebe essa afirmação?
Com os meus projetos no Congresso Nacional. Há quanto tempo estou com esses projetos?

Cezar Santos — Sim, mas, no caso, sobre os projetos locais.
A campanha nem tinha começado e eu já estava com o Murilo Polati [diretor-geral da Polícia Civil]. Fiz um requerimento, a ele, faz três meses. Registrei um ofício. Alguma ação, a mais, deve ser feita. “O sr. está dizendo que isso não caracteriza um serial killer, mas, hoje, as pessoas estão apavoradas. Se não é, qual a solução para isso?”, questionei. Mas eu não sou mandatário, sou legislador. Sou uma pessoa que ganhou, do povo de Goiás, um mandato e esse mandato me autoriza, exatamente, a discutir esses temas. Discuto a Celg, a saúde, a segurança pública. Quem indicou o relator da PEC 300 [que estabelece que a remuneração dos PMs dos Estados não poderá ser inferior à da PM do Distrito Federal]? Ronaldo Caiado. Quem luta por ela? Eu. Então, como dizem que estou tratando da segurança pública só agora? Há quanto anos trato a PEC 300, no Congresso Nacional? Qual o outro que já teve a atuação que tive nessa área? Entretanto, é preciso atuar naquilo de sua competência. Eu não sou governador, ainda.

Euler de França Belém — “Ainda”? O sr. tem interesse em ser governador?
Não disse que quero ser. Mas, não se pode cobrar de mim uma coisa para a qual eu não tenho cargo. Esse é o problema. Aí dizem “mas ultimamente ele tem discutido muito esse assunto”. Ora, e eu tenho que ficar calado? Eu tenho uma história com a Celg, uma história com a saúde, com a segurança pública, com os incentivos fiscais de Goiás. Quem teve coragem de enfrentar na Câmara o que não enfrentaram no Senado? Aprovaram a queda dos incentivos. Quem enterrou a medida provisória na Câmara dos Deputados? Quem obstruiu as votações no Congresso Nacional, que saiu de lá já de madrugada e aprovou na Câmara a inclusão de todas as dividas de Goiás na renegociação da taxa de juros, quando queriam atender apenas São Paulo? Recebi ligações de madrugada me dizendo “o que está para Goiás já está bom” e eu dizia que não estava bom, que enquanto Goiás não fosse incluído 100%, a matéria não seria aprovada. Eu obstrui a matéria até 2 horas da manhã. Saiu o acordo, incluíram Goiás, a matéria foi aprovada e está no Senado Federal para ser votada. Se tem algo em minha vida que não existe é oportunismo. Mas, existe sim, coragem para enfrentar os temas, seja quais forem.

Elder Dias — O sr. coloca que não é o problema de segurança em Goiás não é consequência do problema nacional. Existe uma falta de ação do governo estadual em relação a esse problema?
Isso é óbvio, está claro. Dizer que há uma falha nacional é algo que endosso 100%, o Estado não tem de proteger fronteira, por exemplo. Mas, dizer que a situação de Goiás é apenas pela falência da política nacional, não tem sentido. Se você tinha São Paulo e Rio de Janeiro com os maiores índices de violência e eles baixaram, por que Goiás não poderia manter o mesmo? Manter a mesma posição que tinha — em 18° entre 27 Estados brasileiros no ranking dos mais violentos —, e agora está em 4º? Isso é um diagnóstico claro. Quando nós assistimos Goiânia com 80 assassinatos em um mês? Quando tivemos de ver as mulheres se fantasiando de homens para sair de casa, à noite, pelo medo? Elas levantam o cabelo, põem boné, para chegarem em casa. Isso é uma realidade e é preciso assumi-la, sem colocar a culpa nos outros, é necessário solucionar. Um dia, eu estava terminando o plantão e chegou um paciente com o braço esmagado. O outro médico, responsável pelo atendimento, olhou no relógio e faltavam dez minutos para o fim do plantão. Ele perguntou como aconteceu e o paciente respondeu que estava dirigindo com o braço para o lado de fora e um ônibus bateu no carro. Ele disse “moço, o sr. é um irresponsável, como o sr. dirige com o braço para o lado de fora?”. O paciente olhou para ele e disse “ó, doutor, depois o sr. me ensina as leis de trânsito. Primeiro, cura meu braço, pois está doendo demais da conta, está todo quebrado!”. Entende? Não adianta dizer que o paciente estava errado. Ele chegou assim para você. E, agora, tem um problema na sua frente. Esquece que ele infringiu as leis de trânsito, pois você tem de curar o braço dele. É isso o que o governador tem de fazer. Não adianta querer achar culpado, responsável, isso não resolve nada. Os senhores me colocam, “ah, por que você está enaltecendo a segurança pública?”. Eu nunca deixei de defendê-la. Perguntem aos que falam sobre a segurança hoje, se alguém fez uma defesa mais árdua do que eu, nessa área da segurança; eu assumi uma PEC. Quem nomeou o relator, o deputado Major Fábio (Pros-PB), então do meu partido, fui eu.

Deputado Ronaldo Caiado, candidato ao Senado: “Sempre assumi uma defesa árdua da segurança pública”

Deputado Ronaldo Caiado, candidato ao Senado: “Sempre assumi uma defesa árdua da segurança pública”

Euler de França Belém — O sr. já comentou a saúde em plano nacional. E no plano local, como o sr. a avalia? Com esse sistema das organizações sociais, os serviços de atendimento melhoraram ou pioraram?
Foi feita uma grande maquiagem. O sr. tem de entender qual é a falência. A falência é aquilo que seria o fator amortecedor e, ao mesmo tempo, solucionador de grande parte dos casos e que não existe: os hospitais regionais. No dia 7, pedimos um levantamento e tinham 400 pedidos de doentes graves para serem deslocados para Goiânia. O que está acontecendo? Goiânia passou a ter um comando hoje que não autoriza o paciente a chegar. Eles estão morrendo no interior, pois os hospitais não têm condições para atender. Não têm UTI, não têm centro cirúrgico, não têm especialistas e os pacientes são impedidos de serem transferidos para Goiânia. Nós chegamos em São Miguel do Araguaia e a população contou sobre uma senhora, com 36 anos de idade, sofreu uma queda, teve traumatismo craniano e veio a óbito, porque ficou três dias esperando no hospital do município e não teve como ter o atendimento necessário e quando ligaram autorizando, ela já tinha ido a óbito no dia anterior. Essa é a realidade. Estanca Goiânia de receber pacientes, não autoriza o deslocamento deles. Eles vão para onde? Ficam nos postinhos em Mozarlândia, em Posse, onde me disseram assim: “Doutor, pelo amor de Deus, não existe Instituto Médico Legal aqui. Eu não tenho um hospital, eu sou obrigado a fazer hemodiálise em Formosa. Tenho de sair daqui 3 horas da madrugada. Meu parente morreu e eu tenho de esperar três dias para o corpo ser liberado lá em Formosa.”

Cezar Santos — Em caso de traumatismo, como eles seguram no interior? Se a ambulância sair de lá e chegar no Hugo, o paciente terá atendimento.
O problema é que a ambulância não sai. Eles não são autorizados a vir. É a ordem. Confirme com o município de São Miguel do Araguaia. É um caso explícito. O levantamento que foi realizado dia 7 apresenta 400 solicitações de casos de urgência e que não são autorizados. Assim, onde eles serão atendidos? Pois, não existe ne­nhum hospital regional em Goiás. Cadê um único hospital regional? Cadê o de Águas Lindas, o de Santo Antônio do Descoberto, o de Uruaçu, o de Rio Verde, cadê? Qual é a função do governador? Criar os hospitais regionais. Isso é especifico do governador: a regionalização da saúde. (enfático)

Euler de França Belém — O prefeito Paulo Garcia (PT) esteve no Jornal Opção, recentemente, e disse que a rede de Goiânia não suporta a quantidade de atendimentos oriundos do interior. Isso não contradiz sua informação?
Não. São duas discussões. Hoje tem o doente do interior que busca atendimento em Goiânia, geralmente fica aqui em casas de apoio, para consultas, exames e cirurgias de rotina. Isso Goiânia suporta, mas o prefeito Paulo tem razão em reclamar. Estou falando de casos mais graves, de urgência urgentíssima.

Euler de França Belém — O Crer é realmente um hospital de referência em qualidade?
É, sim, importante como referência.

Euler de França Belém — Ele tem o nível de um Sarah Kubitschek [hospital de Brasília, referência no gênero], por exemplo?
Tranquilamente. Ali se instalou um hospital com esse objetivo, tem bons cirurgiões e bons médicos. O que precisamos é ter essas estruturas, como o Crer, em várias regiões do Estado.

Euler de França Belém — O Crer foi um acerto então?
Lógico, ninguém nunca discutiu o Crer, essa realidade que o Sara imprimiu ao Brasil. O Crer é um centro de referência excelente, mas é preciso desafogá-lo. Não se pode deixar que um paciente que saiu da fase aguda, um paciente crônico, fique no centro de referência. Senão esse centro perde a capacidade de resolutividade. Isso que falta em Goiás, unidades que desafoguem o centro de referência.

Euler de França Belém — O governo está construindo o Hugo 2, na região noroeste da capital. Goiânia realmente precisa dele ou seria melhor construir no norte de Goiás, por exemplo?
Não discrimino o hospital da região noroeste. Independentemente desse, o que se gastou com publicidade daria para construir 20 novos Hugos no interior. Apenas isso.

Euler de França Belém — O sr. é contra gastos com publicidade?
Não que eu seja contra. Tenho um projeto de lei que determina que o governante coloque o valor da propaganda no rodapé e o acumulado no mandato dele. O cidadão fica sabendo o que se gasta na propaganda, é simples. Mas não se justifica fazer propaganda onde não se tem competidor, como Celg e Saneago.

Euler de França Belém — Como foi seu posicionamento no Congresso na discussão sobre a transferência de rejeitos radioativos da usina nuclear de Angra dos Reis para o depósito de Abadia de Goiás?
Esse assunto já está em discussão há algum tempo. Quando Angra 1 e 2 verificaram que estavam chegando ao limite de seu depósito de resíduos e identificaram que Abadia de Goiás, por causa do césio, cumpria todas as exigências para a transferência do lixo atômico para as duas usinas nucleares. E tomaram isso como fato consumado, dado como tudo decidido. Ao ser informado desse assunto, iniciei uma movimentação e criei uma comissão dentro da Câmara dos Deputados e, a partir daí, comecei a debater esse assunto, dizendo que nós já havíamos sofrido enormemente com o período do césio, quando nossos produtos agropecuários não eram sequer comercializados e as indústrias fugiam de Goiás naquela época — governo de Henrique Santillo —, e que não iríamos admitir algo que ampliaria ainda mais esse estigma de área comprometida, irradiada, penalizando-nos. Isso sem deixar de ressaltar ainda que nosso Estado tem sua base na produção de alimentos. Levei à comissão os diretores do Conselho Nacional de Energia Nuclear (Cnen) e debatemos longamente. Assim, consegui alterar a decisão, no sentido de que o destino dos resíduos não seja decidido apenas pela comissão, mas tenha de passar por uma consulta plebiscitária da população do município. Os munícipes terão de decidir ou não se aceitarão receber o lixo, de acordo com a compensação negociada. Dessa forma, demos conta de interromper o repasse de 100% do lixo atômico de Angra 1 e Angra 2 para Abadia de Goiás, o que já era fato consumado. Com isso eu mudei a legislação, que deixou de ter prerrogativa do conselho para se tornar prerrogativa dos munícipes do local indicado.

Cezar Santos — Resumindo, isso terá de passar pela consulta dos moradores.
Exatamente.

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