Fabrício Nobre: “Não é uma coisa impossível que uma aglomeração como o Bananada, da forma como aconteceu, não aconteça nunca mais”

Fundador e produtor do Festival Bananada diz que ações seguem voltadas para atividades feitas da casa de cada um dos envolvidos com os eventos realizados

Fabrício Nobre entrevista 28-5-2020 - Foto Augusto Diniz Jornal Opção (10)

Fabrício Nobre, produtor cultural e fundador do Festival Bananada | Foto: Augusto Diniz/Jornal Opção

Desde 2018, o fundador do Festival Bananada e produtor cultural Fabrício Nobre fala sobre o dia em que o evento pode, talvez, deixar de existir. Como seria isso? “Dependendo do formato e do jeito que for viável, é melhor não fazer. É melhor falar que o Bananada aconteceu por esses 21 anos com esses altos e baixos e, como diria meu amigo Raphael, dos Boogarins, “tchau obrigado” (risos).”

Como qualquer pessoa que está há três meses em isolamento social, Fabrício dá sinais de altos e baixos. Em uma hora, o momento é de empolgação máxima na busca por novos formatos e experimentar a oferta de cultura nas plataformas virtuais. “Dá uma canseira, dá um déjà-vu, dá uma vontade de chorar, dá uma dor no peito, mas faremos isso. É missão na Terra.” No dia seguinte, nem parece a coisa mais animadora pensar na manutenção de um festival em vez de deixar o corpo e o bolso descansarem.

Na entrevista concedida ao Jornal Opção, Fabrício Nobre comenta o momento vivido pela cadeia produtiva da cultura, com todas as casas de shows fechadas, agendas de artistas e festivais adiados. O que esperar do Bananada e como o setor urge para que a Lei Emergencial da Cultura seja sancionada pelo presidente Jair Bolsonaro (sem partido), político que o produtor cultural não poupa críticas.

Fabrício, você está em Goiânia?
Sim. Estou na casa dos meus pais. A gente [eu e Daianne Dias] veio ficar com os meus pais porque eles estavam sozinhos e ficar com a Mônica, mãe da Dai. Estamos os cinco na casa do meu pai e da minha mãe.

Todo mundo quarentenado aí.
Fiquei 15 dias em São Paulo quando foi decretada a quarentena. Esperei 15 dias para vir para Goiânia. Antes de encontrar a família, eu, Dai e Giovanna [Villefort, produtora] ficamos na fazenda da família da Giovanna mais 15 dias. E agora tem mais de 50 dias que nós estamos aqui.

O primeiro dia que eu fiquei em casa foi dia 13 de março. Estávamos produzindo um show com participação do João Donato que seria na Sala São Paulo. Seria João Donato, Marcos Valle e Jazz Sinfônica. Fui ao ensaio do dia 12. Já não fui ao ensaio do dia 13, a Giovanna que foi acompanhar o Donato. Dia 14, que era o dia do show, decretaram a quarentena e o Donato voltou para o Rio. Nem teve show. Estou quarentenado desde o dia 13 de março.

A Sala São Paulo é uma experiência fantástica. Seria um showzaço.
Um show superespecial. João Donato e Marcos Valle fazendo repertório dos dois junto com a Jazz Sinfônica. Os ensaios não foram na Sala São Paulo. Os ensaios foram em uma escola porque a Jazz Sinfônica tem 90 membros. Ainda tinha participação do Donatinho na guitarra, Douglas Antunes, do Bixiga 70, no trombone, Jessé Sadoc no trompete. Um show foda! Está parado. E não recebemos tudo. Recebemos só metade. Só vão pagar depois que tiver o show. Falei “vocês tem de tomar cuidado, porque o Donato não é uma criança, tem uma saúde boa, mas está com 85 anos”.

Você viu as lives do João Donato? Na casa dele. É muito doido, porque o Donato não está acostumado. É muito íntimo. Entrar na casa do Donato. Ele toca dois pianos. E conversa pra caralho, conta um monte de história. O povo: “Ah! Tá doidão”. Nem sabem que o cara nem bebe mais. Tem alguns artistas que não estão preparados para algo tão íntimo. Principalmente os mais velhos, é bem louco isso.

Vi um do Cultura em Casa SP do Lô Borges. O cantor colocou a câmera virada para um canto da sala, ele, voz e violão em um ambiente mais escuro. Ficou um clima legal. Não mostrou muito da casa, só apareciam dois quadros.
Donato fez o Cultura em Casa SP e fez um show do Sesc também. Foi bonito. Teve um da Tulipa Ruiz com o Emicida. Estamos trabalhando. Montamos um escritório aqui na garagem, eu e a Dai, a Giovanna remoto, Lucas Manga [sócio do Bananada], os meninos do Coletivo Centopeia. Estamos tentando fazer ações virtuais do Bananada. Lançamos mais uma no final de maio com uma grana internacional que conseguimos para auxílio às pessoas. É o que temos feito.

Como funciona a parceria com o In Place of War?
Era legal você entrar no site para ter uma noção maior. É um grupo baseado na Inglaterra, tem um board internacional, eles criam oportunidades de música e arte em zonas de conflito permanente, em zonas de guerra. Fui para a Palestina montar um estúdio e participar de uma conferência em um campo de refugiados palestinos. Só para você ter uma ideia. Fomos para a Colômbia, nas favelas, dar suporte para uma ação de hip hop.

Nós, que vivemos em uma bolha de classe média branca no Brasil, não conseguimos entender que o Brasil é considerado uma zona de conflito permanente. O Brasil é um dos países do mundo onde possivelmente tem mais latrocínios, onde a polícia é mais violenta e mais mata. Na Inglaterra, a morte por policial é em torno de uma ou duas por ano, quando é a polícia sendo violenta. Latrocínios na Irlanda são cerca de 20 por ano. No Brasil a incidência é muito maior.

O Brasil é o país onde mais morre preto e pobre fora da África. É o lugar onde tem mais violência contra mulheres, homossexuais e transexuais. É considerada uma zona de conflito permanente. Na pandemia, caminhamos para ser o epicentro mundial da Covid-19. Alguns países africanos estão lidando muito bem com a pandemia.

Mas parte dos países africanos, da América Central e o Brasil vão ser os últimos a saírem da pandemia. Porque o governo está lidando com a pandemia como se fosse uma… Na verdade o governo federal é a favor da pandemia. Tocam o negócio com a necropolítica num nível máximo.

O In Place of War consegue algum recurso internacional que você aplica um projeto criativo e recebe o dinheiro. Levantamos US$ 1,5 mil, que precisa ser investido em uma ação de arte para transformar em dinheiro. Esse dinheiro não vai para os artistas, vai para as pessoas mais vulneráveis.

Vamos pegar US$ 1 mil, que são quase R$ 6 mil, com o qual conseguimos comprar de cem a 130 cestas básicas e levar para os lugares mais atingidos de Goiânia. Carlos Brandão tem feito um trabalho junto com o pessoal do Chorinho do Grande Hotel para identificar quem está passando fome na rua para usarmos essa grana.

Convidamos só artistas goianos para realizar o BanaLive na terça-feira, 9. Durante a live, as pessoas puderam doar dinheiro. Metade da grana vai para os artistas, que obviamente estão precisando. Vivem de música. Ainda mais Bruna Mendez, Brvnks, Boogarins e Niela, que são profissionais do ramo e dependem dessa grana. Acho que o Beto Cupertino (Violins) e Victor Rocha (Black Drawing Chalks) estão doando o cachê inteiro porque têm outra fonte de renda.

Metade do que foi arrecadado nas doações será usado no In Place of War. Conseguimos, no total, quase R$ 20 mil em doações e vendas de obras de arte, com R$ 10 mil para os artistas e R$ 10 mil para doações. O BanaLive foi também uma ação transversa de arte. Convidamos a Renka, que doou obras. Cada artista doou de duas a três obras. A Renka são o Bicicleta Sem Freio – Douglas Pereira e Renato Reno -, Danilo Itty, Mateus Dutra e André Morbeck.

Os artistas da Renka perguntaram por que não convidávamos mais artistas goianos. Eles mandaram uma lista e convidamos mais artistas, como Fabíola Morais, Eleonora Hsiung, Santa Blasfêmia (Ana Smile), Owcalaboca (Karollez Viana), Be Perini, Marcelo Solá, Selon, Maurício Motta, Márcio Júnior, Diogo Rustoff, Victor Rocha, Camila Roriz, Danillo Butas e Rodrigo Flávio. A galera doou obras de arte e fizemos um leilão, que abriu no dia da live fica aberto por cinco dias.

Usamos o Twitch pela primeira vez para fazer as lives, além do Instagram. Nossa expectativa, que foi superada, era de no mínimo dobrar a grana que o In Place of War nos deu. É uma grana que não vai ficar com a produção do Bananada. Vamos doar a grana para fazer quentinhas no Centopeia para a galera do Centro. Dai fez uma pesquisa muito massa de cesta básica, que é uma cesta que tem comida e também tem itens de higiene e saúde: pasta de dente, sabonete, álcool gel etc.

Doamos algumas cestas hoje [no dia da entrevista]. Fico até desconfortável em falar, mas com você eu tenho liberdade. Não acho que isso é filantropia. Fica parecendo uma ação de publicidade. Mas temos de fazer ação de publicidade para poder levantar a grana e fazer isso depois. Não vai ter fotinho da gente entregando comida para as pessoas ou uma contagem. Vamos ajudar o máximo que a gente conseguir. Esse é o nosso plano. Vamos manter a galera do Bananada ocupada. A ação do dia 9 foi isso que fizemos.

Como foi a opção pelo local em que os artistas musicais se apresentaram?
Cada um fez de casa. Nosso principal mote ainda é fique em casa. Para mim tem dois tipos de live: a consequente e a inconsequente. A gente quer ser o mais consequente possível para que as pessoas não corram risco, para que a gente não coloque os artistas em risco e nem os técnicos. A gente está pagando os artistas e espera-se que eles paguem a equipe deles.

As lives que fizemos para a Devassa conseguimos pagar uma equipe de 80 pessoas do Bananada. Pagamos salários de R$ 800, R$ 1 mil. Equipe de segurança, limpeza, carregador, bilheteiro, equipe de produção, designer, assessor de imprensa. Pagamos uma galera com uma grana que levantamos de marca. A gente se pagou um salariozinho, dois meses de salário para mim, Dai, Giovanni e Manga. Seguramos a onda de fazer as coisas acontecerem.

E adiamos o Bananada para o ano que vem porque não dá tempo de produzir, não dá tempo de negociar o que precisa ser negociado. A gente tentou fazer da maneira mais responsável possível. Enquanto isso, vamos usar nossas redes sociais em pesquisa, em divulgação dos artistas daqui, fazer lives, colocar conteúdos inéditos. Estamos testando o Zoom, o Twitch, fazendo ações no Instagram, testando o Meet. Lidando com as possibilidades. Estamos atrás de marcas que querem dar algum suporte. É isso que estamos fazendo.

Você anunciou no dia 14 de maio que o Bananada de 2020 seria adiado para 2021. Quando foi o momento que vocês sentaram e decidiram que o festival precisava ser adiado?
A data estava marcada para agosto. Nós já fechamos maio. O ideal é produzir com oito meses. Fizemos uma conta de trás para frente e entendeu que conseguíamos produzir com quatro meses. Quando chegou em quatro meses a gente falou “cara, é muita irresponsabilidade a gente tentar fazer isso”. Fora a realidade que falei. Do ponto de vista sanitário, se não aparecer uma vacina milagrosa feita no Brasil. Porque se for feita em outro lugar com esta política internacional maravilhosa que o governo federal vem desenvolvendo (risos).

Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, já avisou que não vai quebrar patente de vacina se for desenvolvida por norte-americanos.
É um imbecil completo. Quase empata com o nosso jumento. A Secretaria de Saúde de São Paulo anunciou no final de maio as cinco etapas de liberação das atividades. Na etapa cinco não tem cinema, casa de show e grandes aglomerações. É inviável [realizar o Bananada em 2020]. Em agosto é impossível. Esse ano é inviável.

No começo do ano que vem tem Carnaval, que não é uma coisa muito salutar de se fazer. O que a gente tem de fazer para acontecer o Bananada de novo? Primeiro se adequar a uma realidade nova e entender como vão ser os eventos. Do mesmo jeito que 2001 mudou o mercado da música pela entrada violenta do Napster (1999) e do mp3 – para mim não acabou com a indústria da música, mudou, transformou. Essas coisas não deixam de existir, elas se transformam -, estamos vivendo uma transformação absurda no tal do showbusiness.

Lá mudou o music business, aqui vai mudar o showbusiness, que é evento. A gente que trabalha diuturnamente com o showbusiness vai ter de pesquisar, estudar, entender. Essas coisas demandam tempo. O Bananada, mesmo em uma crise financeira desde 2016, está num auge de produtividade e de popularidade.

O Bananada, sem sombra de dúvida, é uma das plataformas de música mais populares e importantes do País. Não sou eu que falo isso, até porque sou muito suspeito para falar isso. A imprensa brasileira entende isso e o mercado entende isso completamente. Tanto é que 15 pessoas do time do Bananada foram para São Paulo. Os 15 estão empregados nos lugares mais legais de São Paulo.

O Bananada virou uma marca?
O Bananada é a maior marca que a gente tem, talvez uma das marcas mais importantes do mercado de música alternativa do tamanho ou maior do que foi o Goiânia Noise há um tempo. Não consigo ver um festival que não seja um festival de uma marca gigante, como a T4F ou a C3 Presents, uma marca alternativa que seja maior do que o Bananada.

Tem festivais do mesmo tamanho, com a mesma importância. Mas o Bananada é uma marca muito importante nesse mercado. Faz muita diferença o festival não acontecer no ano. O vamos tentar fazer é concentrar nossos esforços para que a marca aconteça da maneira possível, que é virtual, em ações menores, nas redes sociais e nas TVs.

Primeiro estamos ficando em casa para não ficar doente, cuidando e sendo cuidado pelas nossas famílias. Cuidando e sendo cuidado pela rede que compõe o evento e trabalhando por quem nos paga. Ainda estou trabalhando no Grupo Vegas. Não exatamente fazendo programação, que é o que eu fazia, mas desenvolvendo projetos, debatendo a volta. Para quem fazia 98 shows por mês – nos últimos meses era a média que a gente fazia em São Paulo -, não ver ninguém no palco é muito estranho.

Você foi lá ver show com a gente e viu a intensidade do trabalho que é realizado. Mas também pesquisar e estar preparado para uma volta é uma coisa que depende de muito trabalho, muita pesquisa, muita ciência. E trabalhamos com essa criatividade. Sou pago pelos meus chefes para ajudá-los a pensar um modelo novo do negócio. Estamos discutindo o modelo novo para o negócio neste momento.

E o Bananada, que é o meu outro negócio, a minha ação muito mais autoral, é mais política e cultural do que um negócio em si, porque é um negócio que não dá um retorno financeiro, também está sendo pensado como arte. Eu e a Dai estamos o dia inteiro um sentado na frente do outro pensando o que fazer. Conversamos com o Manga e a Giovanna todo dia. Conversamos com o Edimar Filho pelo menos uma vez por semana. Edimar é o programador da nossa equipe, é fundamental.

Lucas Manga também está pesquisando como fazer, testando coisas autorias também. Os projetos autorias que fazemos também servem para o Bananada. Aquele “Um CD por dia” foi uma pesquisa, as discotecagens do Manga são outra pesquisa, a ação de leilão de artes visuais também é pesquisa, porque não temos isso de uma forma empírica. Não tem uma fórmula. A gente não sabe como fazer. Na verdade, tudo funcionou e tudo não funcionou.

As ações são testes?
É. Nós estamos testando. Estamos em ação Beta. O Bananada neste ano é uma versão Beta do que pode ser nos próximos 20 anos ou pode não ser. Não tem problema nenhum. Quer dizer, tem um problema. Não é uma coisa impossível que uma aglomeração como o Bananada, da forma como aconteceu, não aconteça nunca mais. É uma possibilidade real.

É algo que você já vem trabalhando como possível desde 2018, antes mesmo da pandemia.
É uma coisa que está na minha cabeça a todo tempo. Pode ser que não aconteça. A gente quer que aconteça, a gente conversa para que aconteça, estuda para que aconteça, trabalha para que aconteça, trabalha com outras coisas para que aconteça. Mas também estou preparado para não acontecer. Não é a minha vontade, não é a vontade da Dai, não é a vontade do Manga, não é a vontade do Centopeia, não é vontade da nossa equipe.

Estamos em um grupo da equipe de 40 pessoas, que hoje é a equipe principal do Bananada. Todo mundo quer que aconteça. Já tem data: vai ser em agosto do ano que vem. Mas a gente não sabe se eu vou estar lá em agosto do ano que vem. Espero que sim (risos).

“Para mim tem dois tipos de live: a consequente e a inconsequente”

Fabrício Nobre entrevista 28-5-2020 - Foto Augusto Diniz Jornal Opção (11)

“A gente quer ser o mais consequente possível para que as pessoas não corram risco, para que a gente não coloque os artistas em risco e nem os técnicos” | Foto: Augusto Diniz/Jornal Opção

Quando você falou da questão de pensar “ano que vem”, temos o Carnaval, que é um evento cultural e turístico brasileiro muito grandioso. Mas dá para pensar no Carnaval ano que vem com aglomeração como foi nos últimos anos?
Não sei. Acho bem difícil. É um problema que vai ter de ser resolvido ao longo deste ano. Espero muito que o governo não dure até o final do ano. Acho muito difícil, porque acredito que vão continuar. Espero que alguém aponte uma direção.

Infelizmente, o Brasil não tem um investimento em produção de ciência. Mais ainda, não tem um investimento em produção de tecnologia nas áreas de cultura. Esse governo menos ainda. Acho muito difícil que a solução parta de nós. Acredito que vamos imitar coisas feitas no exterior. Vamos dar uma tropicalizada na guitarra dos caras. Acredito que as soluções virão da Ásia, da Nova Zelândia, da Europa, de Portugal.

Portugal está levando muito a sério a pandemia. O governo argentino, por exemplo, está levando muito a sério a pandemia. O governo português tem algumas soluções. A Lei Emergencial da Cultura é algo que pode dar algum fôlego para a gente pensar, porque a gente precisa comer primeiro e não ficar doente para poder pensar. Pensar sem comer e pensar doente não é a melhor coisa do mundo.

Como nasceu o manifesto dos 130 festivais pela aprovação da Lei Emergencial da Cultura?
A gente tem se encontrado em conferências, como a Porto Musical e a SIM São Paulo. Fizemos a ação #FicoEmCasaBR inspirada no português #FicoEmCasa. Foram quase 200 produtores juntos ao mesmo tempo, com a Mídia Ninja superenvolvida. Deu vontade de fazer coisa junto. Depois fizemos o Devassa Tropical, que foram oito festivais envolvidos: Bananada, DoSol, Radioca, Se Rasgum, Guaiamum Treloso, Wehoo, Carambola e Sarará. Foi superlegal e as ações coletivas funcionaram.

A gente tem o desejo de voltar com uma associação institucional nos moldes do que era a Abrafin [Associação Brasileira de Festivais Independentes], da qual eu fui presidente de 2005 a 2010. Voltamos a nos encontrar, formamos um grupo, estamos discutindo uma refundação da entidade, da Abrafin. Não sei se com esse nome.

Imediatamente a gente colocou nas redes sociais e aglutinou. O grupo de Telegram tem 260 pessoas e 130 festivais que se manifestaram. Na hora que a gente viu a emergência da Lei Emergencial da Cultura, debatemos mais um pouco e falamos “vamos correr e vamos nos posicionar”. Cada um procurou os deputados.

Eu liguei para o Virmondes Cruvinel (Cidadania), que é um deputado estadual que dá sempre suporte para a cultura, liguei pra a vereadora Dra. Cristina (PL). Falei com a deputada federal Flávia Morais (PDT) por WhatsApp, mandei o manifesto para a líder dos goianos na Câmara dos Deputados. Flávia não me respondeu, mas sei que o manifesto chegou até ela. E vi que os goianos votaram em massa a favor.

Só teve um voto contra, que foi o pessoal do Novo, o novo velho. Salvem os banqueiros!

O Novo até argumentou que o setor cultural não poderia ter privilégios porque todos os brasileiros que precisam de ajuda estariam incluídos no auxílio emergencial, mas o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) vetou o trecho que os profissionais da cultura tivesse direito a receber os R$ 600 da Caixa.
Exato. Depois da aprovação na Câmara, a SIM São Paulo fez uma publicação explicando exatamente isso. O empreendedor cultural e o mercado de cultura ficaram de fora do auxílio emergencial, como quase tudo que o governo Bolsonaro faz.

A deputada Benedita da Silva (PT-RJ) e Jandira Feghali (PCdoB-RJ) fizeram o projeto e a galera se imobilizou. Inclusive a direita votou a favor, com discurso do Rodrigo Maia (DEM-RJ) se posicionando a favor. A coisa é muito real. Primeiro que a maioria das pessoas são autônomas ou MEI [Microempreendedor Individual]. Segundo que é um mercado que tem como matéria-prima a aglomeração de pessoas. Os shows e os eventos são feitos para que o máximo de pessoas se encontre para ouvir música, celebrar, se emocionar, namorar, tomar uma cerveja etc.

Tirando o circuito médico e hospitalar, que foi impactado imediatamente, que aumentou o trabalho, o risco, tudo, mas também aumentou os ganhos na área privada. Nada mais justo. Acho que deveria aumentar e muito os ganhos nos setores público e privado da saúde. A educação privada se resolveu mais ou menos com ensino a distância. As pessoas não deixam de pagar escola.

O setor cultural foi impactado imediatamente. A gente tinha agenda de show marcada até agosto. Só para dar o meu exemplo, o Blue Note tem 12 shows semanais em uma operação que ocupa 150 pessoas. Dessas 150 pessoas, 140 foram demitidas no primeiro mês. Desde 1º de abril que eu não presto mais serviço para o Blue Note. Devo voltar a prestar se a casa voltar a funcionar.

Eu não ganho nada pelo serviço. Esse serviço não existe. Quem trabalha em cima do palco, que é técnico, rodie, quem faz agenciamento artístico, músico contratado perdeu o ganho de maneira imediata, no dia. Tem pessoas que dependem daquela aglomeração. Essas pessoas normalmente são informais, algumas são MEIs. A lei, do jeito que passou, sem a emergência cultural, não abarca esse tipo de profissional. São pessoas que estão desempregadas, à míngua.

O cara que toca no barzinho por diária, o cara que carrega equipamento, está fodido, cara! Pergunte para o Chrisley [Ximenes], que fazia dez shows por diária, quanto ele faturou em maio. Zero. Pergunte para o Edimar, que vendia 50 shows por mês, quantas lives ele vendeu em maio. Duas. Em um valor muito inferior, com uma comissão reduzidíssima.

Se eu ganhava x com a minha família, eu e Dai, hoje ganhamos 20% de x. E as contas não diminuíram. Eu ainda pago pensão, ainda pagamos aluguel. Felizmente agora estamos aqui com os nossos pais, temos um suporte, mas não deixamos de pagar o aluguel em São Paulo. Não posso perder o apartamento no qual estou lá.

Fora as pessoas que estão em risco máximo. Nas empresas especializadas em limpeza de evento, as faxineiras estão ganhando zero. Tem gente que tem família de nove a dez pessoas. Uma empresa igual ao Galpão da Promix, ao Studio K, ao Anderson Cardoso [Espaço Musical]…

O que está envolvido na realização do Bananada durante a semana do festival?
A gente tem carregador, limpeza, engenheiro elétrico, rodie, técnico de áudio, técnico de luz, equipe de reprodução, equipe de receptivo, motorista de van, motorista de caminhão, pessoal que faz mershandising, camiseta e uniforme, pessoal que faz a comida, pessoal que serve a comida, venda de ingresso, tiqueteiras, que é a indústria que vende o ingresso. São centenas de pessoas.

O Bananada, ao longo do ano inteiro, a equipe fixa é formada por 13 pessoas. Quatro produtores mais o Centopeia, que são cinco pessoas envolvidas, um designer que trabalha o ano inteiro, um assessor de imprensa que trabalha o ano inteiro, um advogado e um contador. A equipe de 13 a 15 pessoas vira uma equipe de 60 pessoas nos quatro meses de pré-produção. Na semana anterior ao festival, os 60 viram 600.

No ano passado, tivemos 998 pessoas trabalhando contando os artistas. Dessas 998 pessoas, 300 vivem exclusivamente desse tipo de serviço. Não fazem evento de moda, não atendem TV, não fazem limpeza de hospital. O responsável pelo nosso frete, que carrega nossas coisas, que faz a montagem da pista de skate, trabalha no Galpão da Promix desde quando eu era adolescente. É isso que ele faz. O cara fazia três diárias por semana e agora faz zero.

Como é que faz? A profissão já é marginalizada como um todo. As pessoas já não entendem isso. E tem um detalhe: as empresas não são grandes. Claro que tem empresas maiores. O fornecedor de equipamento de som é uma grande empresa. O fornecedor de gerador é uma grande empresa. O hotel cinco estrelas é uma grande empresa. Esses caras podem pleitear um apoio em um banco privado, podem negociar com o governo.

Mesmo assim, tenho conversado com essas empresas e elas estão tendo ultradificuldade. Uma empresa grande igual ao Studio K, que tem 30 funcionários, que atende todo mundo e que tem a sua contabilidade toda organizada está tendo dificuldade em levantar dinheiro no banco. Imagine o cara que faz camiseta para o uniforme do Bananada e tem quatro funcionários!

Imagine a Renka, que são cinco artistas plásticos que fazem as ilustrações para os eventos! Esses caras estão trabalhando para quem, Augusto? Imagine o nosso escritório, que somos eu, Giovanna e Daianne! Qual serviço a gente tem se não tem palco, se não tem aglomeração? Qual trabalho nós vamos fazer? A gente tem de inventar um trabalho novo. Oferecer serviço para as empresas de tecnologia, criar lives e tentar monetizar o nosso negócio.

Isso não vai acontecer de um dia para o outro. A gente não vai desenvolver esse mercado de uma hora para outra. Bananada é um negócio que movimenta R$ 2 milhões a R$ 3 milhões por ano. Vai fazer muita falta não ter.

O Grupo Vegas, que é o grupo para o qual eu trabalho em São Paulo, emprega aproximadamente 300 pessoas. Movimenta só com bilheteria, show e bar R$ 2 milhões por mês. E está com todas as casas fechadas.

Isso pensando em eventos de pequeno e médio porte?
Pequeno e médio porte. Imagine a Feira Agropecuária que não vai ocorrer este ano! Imagine o Carnaval do ano que vem que está em risco! Imagine os eventos de final de ano daquelas firmas especializadas em atender eventos corporativos! Fora os artistas.

Imagine o circo que vive de cidade em cidade, que aglomera pessoas para vender pipoca e ver o palhaço! Como é que faz? Você que escreve sobre música, seu projeto 365 Shows neste ano vai ser 365 Lives (risos).

A pessoa que teve o contrato suspenso por dois meses vai falar o que para o patrão? Vai obrigar a retomar a atividade do funcionário? O trabalhador vai falar para o patrão “você está sendo um sacana”? Diminuiu o faturamento.

Em uma live do Centro Cultural da Universidade Federal de Goiás (CCUFG), você comentou que Goiás foi pioneiro, na indústria da música, ao perceber o potencial do YouTube e Instagram para as transmissões ao vivo de música a partir do início da adoção de medidas restritivas. Tivemos artistas que bateram 3 milhões de visualizações no YouTube enquanto estavam ao vivo.
A gente é a vanguarda do mainstream brasileiro hoje. As empresas AudioMix e outras são minhas vizinhas de bairro. Perceberam e foram. Foi incrível a ação de arrecadação, de manter grana etc. Foi um tanto inconsequente em juntar algumas pessoas. A gente tem um problema real noticiado em tudo quanto é canto que foi a live do nosso querido Zezé [Di Camargo].

Tem dois jeitos de fazer ações ao vivo: a consequência e a menos consequente ou mais inconsequente. Temos de tentar ter o mínimo de deslocamento possível, o mínimo de ensaios possíveis, o menor uso de transporte público possível. Tudo é dentro da possibilidade.

É claro que o cara que é jardineiro e precisa cuidar do jardim das pessoas vai ter de pegar a moto ou um ônibus, se preparar e ir lá cuidar do jardim das pessoas. É claro que a limpeza não pode parar. É claro que o motorista de ônibus não pode parar.

Mas o baixista tem que ir ao ensaio? Não dá para fazer com uma base pré-gravada e mesmo assim o dinheiro daquela live pagar o salário daquele baixista ou daquele técnico? Precisa de um carregador? Será que o artista não pode fazer o sacrifício de carregar o equipamento para o cara que trabalha para ele o ano inteiro não ter que pegar um ônibus e carregar o equipamento? E mesmo assim o artista conseguir monetizar e conseguir pagar pelo menos um pouco aquele cara?

Precisa na live da Brahma passar um cara servindo a cerveja. Não dá para o entregador entregar a cerveja, a água ou o Red Bull e o próprio artista colocar na geladeira dele, sentar e na hora que for pegar a cerveja ele levantar, buscar a cerveja e servir para o garçom não ter de pegar o ônibus ou um mototáxi e se encontrar com a pessoa? E mesmo assim, o artista levantar o dinheiro e pagar aquele garçom?

Na ação que fizemos com a Devassa, conversamos o tempo inteiro sobre essa responsabilidade. Os artistas receberam um técnico em casa. Teve artista que não quis receber nenhum, a gente falou “beleza”. “Eu vou montar meu próprio equipamento.” O artista montava.

Os Boogarins estavam em dois, o Raphael [Vaz] e o Dinho [Almeida] quarentenado com as parceiras. Eles quiseram fazer melhor? Beleza. A Maria Joana, que é a namorada do Dinho filmou, ajudou com uma câmera, foi um técnico, e a Alejandra [Luciani], namorada do Rafa, que é técnica de estúdio, ajudou a montar. Por isso ficou um som melhor, incrível. Mas as pessoas têm de entender que não dá para fazer uma estrutura de DVD para fazer uma live. Não dá para colocar as pessoas nesse nível de risco.

Tem gente que acha que tem que voltar tudo. Eu não acho. Entendo o que a OMS [Organização Mundial da Saúde] tem falado. Infelizmente não temos um governo federal sério no que diz respeito à saúde pública e à cultura. Tanto é que não tivemos ministro da Cultura o tempo inteiro. Não temos um direcionamento institucional federal. Estamos há 28 dias sem ministro da Saúde, devemos ficar mais tempo.

Tem um jeito certo de fazer. E aí vai da cabeça de cada um. Nós, dos festivais de música, entendemos que as pessoas têm de ficar em casa e manter uma quarentena. O jeito de fazer é cada um se desdobrando, fazendo on-line. Para mim seria maravilhoso fazer um brainstorming sobre o novo Bananada, pegar um voo, trazer o Edimar, colocar o Edimar, a Giovanna, a Dai e o Manga sentados aqui perto, contratar um consultor de game, sentarmos ao redor de uma mesa, fecharmos em uma sala, igual fizemos, fazer aqueles scrolls maravilhosos que o Centopeia faz na parede. Mas não é seguro.

Estamos desenvolvendo outro jeito. Coloca tudo em um lugar, faz um, usa ferramenta. Na nossa profissão, conseguimos fazer isso. Estamos tentando desenvolver. Infelizmente, a pessoa que carrega o lixo reciclável tem de sair de casa, pegar e levar o lixo reciclável para onde vai reciclar o lixo. Essa pessoa tem de sair de casa.

O programador, o stake manager da banda não precisa agora sair de casa. Ele pode fazer por telefone e o artista pode levantar, pegar a cadeira dele, colocar em uma posição e perguntar “está bonito aqui?” e vamos fazer a cenografia de outro jeito. Cada um entende como fazer as coisas.

Eu gosto de conversar e dar entrevista nós dois sentando junto. Você sempre prefere que a gente se encontre. Só que tem jeito de fazer essa entrevista com a gente se encontrando agora? É seguro para você? É seguro para mim? Meu pai e minha mãe têm perto de 70 anos. Não posso encontrar outras pessoas. Eu peso 130 quilos, tenho apneia do sono. Não é o ideal. Tenho 41 anos, não sou uma criança. Quero encontrar com minhas filhas em breve. Essas sim são crianças.

“Shows e eventos são feitos para que o máximo de pessoas se encontre para ouvir música, celebrar, se emocionar, namorar, tomar uma cerveja”

Bananada 2019 - Foto Fernanda Leonor 365 Shows - tamanho site

“O setor cultural foi impactado imediatamente. A gente tinha agenda de show marcada até agosto” | Foto: Fernanda Leonor/365 Shows

As lives estão, de alguma forma, financeiramente viáveis ou é o possível por enquanto?
É o possível por enquanto. As lives são, mesmo quando pagas por marcas, os valores estão bem reduzidos. Primeiro porque as marcas também estão experimentando. Os resultados são excelentes. Por exemplo, a live do Bananada no dia 3 de maio teve 80 mil pessoas assistindo uma média de 40 minutos. Nunca tivemos um público de 80 mil pessoas em nenhum show nosso (risos). 

Nem cabe.
Não tem um lugar para receber 80 mil pessoas. A primeira live que eu vi foi a do Kiko Dinucci na Casa de Francisca, que é um espaço com 120 lugares, com 1,2 mil pessoas assistindo ao mesmo tempo. Foi o maior público do Kiko Dinucci o ano inteiro (brinca). E cabia dez Casas de Francisca.

O formato da monetização ainda não está acertado. Do mesmo jeito que não existiu o formato quando foi criado o mp3. Era tudo pirata. O dinheiro existe. O dinheiro não some. Está na mão do banqueiro agora guardadinho, estão explorando, capitalizando. Mas uma hora o dinheiro vai ter de voltar para a mão das pessoas. E as pessoas vão gastar com aquilo que for mais prazeroso, conveniente ou necessário.

Gilberto Gil quando entrou no Ministério da Cultura (2003-2008) falou assim: “Cultura é uma coisa ordinária, é arroz com feijão. Tem que estar na mesa do povo todo dia”. A gente está vendo isso. Quantas séries você viu? Quantos discos você ouviu? Hoje eu acorde de manhã, ouvi música. Ontem eu vi um show do Black Pantera, paguei um PicPay para eles. Achei da hora.

Aquele show do Bananada de 2019?
É. Mandei R$ 20 lá. Era o que eu tinha. Vi um set do DJ Marky no Twitch, assinei o canal do DJ Marky por R$ 22,90 porque eu quero ver tudo que ele tocar. Beleza. Era o dinheiro que eu tinha agora. Black Pantera e DJ Marky foram as minhas extravagâncias culturais. Quero comprar o jogo novo da NBA para jogar no computador na hora que me entrar um dinheiro.

Você falou da NBA, viu a série “Last Dance” (“Arremesso Final”) na Netflix?
Vi todos os dias. Acordava e assistia. Foi a coisa mais linda deste ano para mim.

Eu chegava atrasado na escola para ver a reprise dos jogos.
Eu era muito fã dos Bulls. Muito fã. Foi muito legal ver. Depois, passaram o jogo seis da final com o Utah Jazz no Twitch. Eu vi o jogo inteiro duas vezes.

É isso. A gente está pensando no que vai fazer.

As lives têm surgido com vários formatos e tempos diferentes. As lives de festivais e alguns canais têm durado de 40 minutos a pouco mais de uma hora. Mas temos visto artistas que entram sem limite de tempo, muitos chegando de três a cinco horas de show. E tivemos uma live do Emicida que durou mais de oito horas. Há a discussão de um formato que consiga viabilizar minimamente essas lives no ar?
Depende do interesse de cada um mesmo. O negócio da internet, do virtual, é que o limite é muito mais largo do que o limite físico. Não sei quantas pessoas viram oito horas de live do Emicida, talvez oito pessoas, mais 20 pessoas viram quatro horas. Mas tenho certeza que 350 mil viram 15 minutos. Será que 15 minutos já foi suficiente para o cara atingir o propósito dele? Legal.

A gente ficava satisfeito com uma música tocada na rádio. Ligava para a rádio e ficava esperando o dia inteiro para tocarem uma música. Aqueles quatro minutos salvavam o meu negócio. E já li livro de 500 páginas que eu ficava duas semanas só me aventurando naquela história. O tempo é relativo para essas coisas.

O lance é que ser virtual, estar no mundo da internet, como produto cultural dá liberdade total do formato. As lives têm de acontecer e sair do ar, as que se propõem a substituir o show ao vivo. E as lives de conhecimento, como palestras, têm de ficar no ar. Deveriam virar documento históricos, livro, do momento. Cada caso é um caso.

Estamos elocubrando por um futuro que ainda não existe. Estamos viajando aqui.

Fabrício Nobre entrevista 28-5-2020 - Foto Augusto Diniz Jornal Opção (2)

“Estou cansado. E cansar dói. Cansar faz você chorar às vezes. Ninguém está mais triste de adiar o Bananada do que eu” | Foto: Augusto Diniz/Jornal Opção

Na live do CCUFG, você ficou bastante emocionado ao responder uma pergunta de uma pessoa que perguntou por que dar importância para uma festa, sem ver no Bananada uma ação cultural ou um trabalho, algo que pareceu lhe incomodar um pouco.
Na verdade, eu tenho me emocionado várias vezes por dia. A minha família inteira é uma família emotiva. A gente chora à toa. Estou com saudade da minha casa. Estou com saudade das minhas filhas, que não vejo desde o Carnaval. Elas estão com a mãe delas.

E é muito ruim quando alguém tem uma percepção errada, pelo menos segundo o meu ponto de vista, de um trabalho que você desenvolve há anos. Claro. Tem um monte de gente que pode enxergar o Bananada como uma grande festa de um dia, onde ela vai lá, fica doidona, curte, acha a bebida cara porque o corote que é vendido na rua é mais barato do que a Colombina ou a Devassa que está a venda no festival.

Comprou aquele ingresso na última hora por R$ 60, foi para ver um show só e não aproveitou a dinâmica do festival inteiro, não é igual você que vai ver todos os shows do meio de semana, e não entende. 30% das pessoas do País que votaram no governo atual não entendem que o que a gente faz é um trabalho. Tenho de contar para a minha filha todos os dias que o que eu faço é um trabalho. Que no meu trabalho é legal pintar o cabelo, ter brinco, discutir sobre o aborto ou as drogas abertamente, ser amigo de todas as pessoas que dão liberdade para as pessoas.

E que a gente é muito mais progressista do que conservador, e que criar esse tipo de ambiente faz as pessoas evoluírem. E isso me irrita! E, às vezes, responder isso… Tem 23 anos que eu faço isso, Augusto. Eu já fiz palestra literalmente em todos os Estados brasileiros e na Europa, no Oriente Médio, em vários países da América do Sul, no South by Southwest (SXSW), que é a principal conferência de música do mundo para mais de mil pessoas falando sobre a música de Goiânia e sobre o Bananada.

Falando sobre o Bananada e o trabalho transformador que o mundo inteiro ligado nisso percebeu que a gente faz. Quando uma pessoa que não entende ou não concorda com isso faz esse tipo de pergunta, respondo de maneira emocionada algumas vezes, irritada de outras e didática de outras. Estou cansado. E cansar dói. Cansar faz você chorar às vezes. Ninguém está mais triste de adiar o Bananada do que eu.

Quando a pessoa diz que aquele trabalho que você faz durante 21 anos, que tem seriedade, que te faz ter reunião com o governador, que te faz ter reunião com o comandante da polícia do seu Estado, que te faz ter que vender todo ano uma história que é seu sonho, que você quer que outras pessoas sonhem junto com você e faz um esforço para que as pessoas entendam e paguem por aquilo, a pessoa às vezes vai lá e não entender ou se sentir enganada é muito triste para mim. É muito ruim.

Eu não gosto de enganar as pessoas. Não acho que o Bananada é feito para enganar as pessoas. Acho que o Bananada é feito para libertar as pessoas, para fazer as pessoas se sentirem bem, para arrumar namorado, para transar, para beijar na boca e ouvir música. É para isso que a gente faz as coisas.

A Lei Emergencial da Cultura, batizada de Aldir Blanc, precisou se tornar um substitutivo da Jandira Feghali para ser aprovada na Câmara, depois no Senado e agora aguarda a sanção presidencial. Mas chegou a ser retirado da pauta do plenário da Câmara em acordo de líderes no dia 21 de maio. A pressão fez a diferença na aprovação no Congresso. Esse trabalho seria o mesmo se a gestão da Secretaria Especial da Cultura fosse diferente?
Com certeza absoluta. Já fui superintendente estadual de Cultura e sei que se o projeto não tem um dono no ministério ou na secretaria, se uma pessoa não bota debaixo do braço e se não é uma pessoa que realmente está ligada e entende as necessidades do setor é muito difícil. Porque os deputados e senadores têm as pautas mais diversas.

É preciso que a cultura tenha um especialista no município, no Estado e no governo federal. E que entenda, que dialogue com o setor organizado. Por isso estamos tentando voltar a organizar o setor para brigar por uma secretaria especial atuante, que possa chamar os deputados e conversar com alguém. Com quem a Benedita, a Jandira ou qualquer outro deputado poderia conversar na Secretaria Especial da Cultura que não um técnico de carreira para falar sobre a Lei Emergencial da Cultura?

Com a Regina Duarte ou com os assessores diretos da ex-secretária, que não são de carreira, com certeza não, porque tenho certeza que discordam da pauta. É por isso que a gente tem de se articular. Por isso estamos tentando nos articular novamente. Se tivéssemos um ministério sério, com gente…

A gente já teve a política de cultura mais avançada do mundo. Tivemos um momento em que existia Fundo, Lei, Ancine, Ponto de Cultura e estava sendo estudado e desenvolvido um sistema nacional de cultura, que nós chamávamos de SUS da cultura.

Agora estamos vendo o quanto é necessário o SUS de cultura para o País todo, alinhado entre governo federal, estadual e municipal. A gente esteve quase lá, está na hora de retomarmo esse debate. Temos de assumir certas responsabilidades. E estamos tentando debater de novo. Dá uma canseira, dá um déjà-vu, dá uma vontade de chorar, dá uma dor no peito, mas faremos isso. É missão na Terra.

Como que o setor ficou no contato com a cultura no governo federal? Você disse que há uma dificuldade porque não tem alguém da área da cultura lidando com a gestão da cultura. Pensando nos secretários que passaram em 2020 pela pasta, Roberto Alvim e Regina Duarte, que tentaram transferi-la para a Cinemateca Brasileira, em São Paulo.
E acho que Regina Duarte não vai ser admitida lá também.

Fabrício Nobre entrevista 28-5-2020 - Foto Augusto Diniz Jornal Opção (8)

“Tem dia que a gente acorda superanimado e faz as coisas. Acho que a maioria das pessoas que está vivendo esse momento agora está assim, pensando no que fazer. Estou pensando no que fazer também” | Foto: Augusto Diniz/Jornal Opção

Qual diálogo o setor cultural tem com o setor da cultura na gestão federal?
O setor dos festivais e o setor de médio porte têm pouco ou nenhum diálogo com o governo federal. Alguma interlocução com os funcionários de carreira da Funarte [Fundação Nacional de Artes]. O que estamos tentando fazer é organizar com uma entidade séria, que é o Fórum de Secretários e Dirigentes Estaduais da Cultura. É um fórum que existe há muito tempo e acredito que vai ser a articulação principal do setor;

Tentar tratar com esse fórum, as lideranças que estão no governo e com a Secretaria Especial da Cultura ou então com os deputados e senadores do campo progressista, que não são poucos. Tem muitos deputados e senadores do campo progressista com quem a gente pode falar. Mesmo aqui no Estado. Deputados estaduais e vereadores do campo progressista não são tantos, mas alguns.

Deputado federal Rubens Otoni (PT), deputado estadual Virmondes Cruvinel e vereadora Dra. Cristina foram a público defender a Lei Emergencial. Postaram a Lei completa, comemoraram a vitória na Câmara. Quando os caras vão a público, eles estabelecem um compromisso de que são nossos representantes públicos. Estabelecer esse tipo de compromisso faz com que a gente possa demandar outro compromisso. O cara que estabelece o compromisso é o primeiro com que a gente vai falar para cobrar e para defender o mandato.

Se o parlamentar não estabelece uma interlocução com o setor, por que vamos demandá-lo? Fica se escondendo do setor e vem ganhar o voto. Então não. Se os deputados goianos votaram todos a favor da Lei Emergencial da Cultura, vão ser cobrados para não aceitar o veto do presidente se isso acontecer e que implantem a Lei. Estamos tentando organizar o setor, porque estava bem desarticulado. A nova articulação dos festivais, que foi colocada no manifesto é bem para isso.

Os festivais movimentam milhares de pessoas. Representam muita gente. As pessoas têm sensação de pertencimento do festival. Você demanda o Bananada como se fosse dono. A pessoa tem acesso ao Bananada, reclama e posta porque se acha dona. E é isso mesmo. Agora, na crise, é que nós vamos entender quem é dono. Porque o dono tem ônus e bônus.

Você falou do contato com técnico da Funarte, mas a fundação chegou a ser presidida por pouco tempo pelo Dante Mantovani. Quando o setor tem representantes públicos que falam coisas como “o rock ativa as drogas, que ativam sexo livre, que ativa a indústria do aborto, que ativa o satanismo, o próprio John Lennon disse que fez um pacto com o diabo”, como é possível ter diálogo e fazer a cultura ser levada a sério?
Com esse tipo de pessoa não tem diálogo. Você consegue dialogar com um neofascista ou com um terraplanista? Não tem interlocução. Infelizmente os funcionários de carreira estão sofrendo. Temos vários amigos funcionários de carreira que prestaram concurso para a Funarte ou o extinto Ministério da Cultura e que infelizmente têm que trabalhar para esses líderes. Isso faz uma diferença.

Precisamos entender que nós temos de votar melhor, porque a pessoa que coloca um cara desse para presidir a Funarte está falando por ele. Nem consigo raciocinar em um nível de ignorância ou estupidez dessa. Eu devo ter lido os livros errado, ouvido os discos errados. Ou de cabeça para baixo. Eu discordo frontalmente com todas as idiotices. Esse cara é um idiota. Não tem o que falar. Cumprimentaria porque sou um cara gentil. Mas tudo que pratico e pratiquei a minha vida inteira, o cara é contra.

Sou realmente a imagem do que ele acha do humano mais execrável. Ele me odeia muito, mesmo sem me conhecer. Só não quero que seja presidente da Funarte. Pode continuar vivendo, acreditar nas doideiras dele.

Por mais que hoje você tenha sócios que cuidem mais da programação do festival do que você propriamente, você acaba por ser a imagem do Bananada. Como é lidar com o adiamento do festival em 2020? Qual é o impacto financeiro da não realização do Bananada?
A gente não vai conseguir renegociar e contratar os fornecedores que dependiam da realização, alguns que inclusive estamos devendo. Algumas vezes pagamos a conta do ano passado com o próximo. O impacto com o público foi superpositivo. Como as pessoas têm esse pertencimento e um alinhamento político parecido com o nosso, entendem que não é a hora de fazer e estão tentando aproveitar as entregas virtuais que estamos fazendo.

Até agora o público entendeu muito bem. A maior parte dos fornecedores entendeu também. É claro que tem gente que não. Mas também acho que estamos tendo problemas maiores para lidar do que o adiamento de um evento. O impacto é com a gente, ter de dar um monte de entrevista que às vezes a gente não quer, ter de falar sobre isso e esse assunto conviver no nosso dia a dia, ter de pensar tudo de novo, ter de renegociar todos patrocinadores de novo, ter de pensar um novo jeito de fazer programação.

Por exemplo, tem gente que funciona no palco, mas não funciona no virtual. Tem artistas que são geniais no virtual e no palco. E trabalho pra caralho. Dá canseira só de pensar. E é um trabalho que a gente ainda não sabe como vai ser remunerado. A gente não sabe se está disposto a fazer também. Não sei.

Dependendo do formato e do jeito que for viável, é melhor não fazer, entendeu, Augusto? É melhor falar que o Bananada aconteceu por esses 21 anos com esses altos e baixos e, como diria meu amigo Raphael, dos Boogarins, “tchau obrigado” (risos).

Você pensa no que ocorreria se o Bananada deixasse de existir?
Acho que num primeiro momento teria uma certa comoção dos fãs. E que depois ficaria na história da música marginal brasileira. Bem no cantinho. Com o tempo seria esquecido, substituído. Não acho que vai matar ninguém. As pessoas vão continuar fazendo. (Para e pensa) Não é o primeiro nem o último festival de música.

Não queria que o Bananada acabasse por esse motivo agora, entendeu? Mas desde quanto te falei, em 2018, estou preparado para que ele não aconteça para sempre. Talvez seja até melhor para a minha saúde física, financeira e mental. Mas agora estou a fim de lutar para fazer o próximo e para fazer virtualmente, mas pode ser que eu desista também em breve e alguém continue fazendo ou pare de fazer também. Não sei.

Estou na pilha de fazer as coisas que estou fazendo, mas também estou na pilha de dar uma descansada. Estou na pilha de voltar a trabalhar quando for possível voltar a trabalhar. Não sei também. Tem dia que a gente acorda superanimado e faz as coisas. Acho que a maioria das pessoas que está vivendo esse momento agora está assim, pensando no que fazer. Estou pensando no que fazer também.

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