Empresas esperam ações de Michel Temer

Reequilibrar as contas públicas é imperativo, mas líderes empresariais lembram: os produtores urbanos e rurais também precisam de atenção

Euclides Barbo (Acieg): “Retomada do crescimento” | Pedro Alves (Fieg):  “Cortar e conter gastos” | José Mário Schreiner (Faeg):  “Sem tempo a esperar”

Euclides Barbo (Acieg): “Retomada do crescimento” | Pedro Alves (Fieg):
“Cortar e conter gastos” | José Mário Schreiner (Faeg): “Sem tempo a esperar”

Cezar Santos

O desemprego no país continua aumentando, reflexo da crise que a gestão da petista Dilma Rousseff impôs aos brasileiros nos últimos anos. Foi noticiado na semana passada que o desemprego atingiu, em média, 11,2% nos três meses até abril – são 11,4 milhões de pessoas.

Desemprego é o reflexo direto do processo de colapso em que entram milhares de empresas privadas. É óbvio que postos de trabalho são eliminados quando as empresas diminuem seus quadros de pessoal. Ou, no limite, quando fecham as portas, o que está acontecendo cada vez mais nos últimos anos.

A nova equipe econômica de Michel Temer tem pregado a recuperação do governo com medidas que visam controlar os gastos públicos, que saíram de controle nos últimos anos do governo Dilma Rousseff. Mas, tirando o foco apenas do governo, e mirando a economia real, tocada por quem efetivamente produz riqueza, que são os empresários e os trabalhadores, algumas questões ficam no ar, como o que o novo governo deve fazer para a recuperação das empresas, como estimular as parcerias público privadas e os investimentos em infraestrutura.

Por fim, e se as medidas do governo demorarem a surtir efeito, como ficam as empresas, que à medida que o tempo passa, com o agravamento da crise, têm de demitir, perdem patrimônio e fecham?
Presidente da Associação Comercial, Industrial e de Serviços de Goiás (Acieg), Euclides Barbo Siqueira diz que para a recuperação das empresas, um bom começo seria ter um projeto para retomada de crescimento do País. Ele lembra que o empresariado sofreu com um abandono do governo federal, que jogou a toalha para recuperar a dinâmica econômica do País há mais de três anos, e ficou dedicado apenas a salvar seus membros envolvidos em escândalos e corrupção.

Segundo Euclides, o descompasso econômico ficou claro. O PIB trimestral, divulgado na terça-feira, 1º, confirma novo número negativo, acumulando cinco trimestres seguidos de recessão, ou seja, dois anos. “Temos mais de 58 milhões de consumidores inadimplentes e 11 milhões de desempregados. Para corrigir essas deformidades, precisamos recuperar não as empresas diretamente, mas sim o poder de compra do consumidor e voltar estas pessoas para o mercado de trabalho. Se isso ocorrer, recuperamos nosso poder econômico.”

O presidente da Federação das Indústrias de Goiás (Fieg), Pedro Alves, começa dizendo que é realmente fundamental que o governo promova o equilíbrio nas contas públicas, mas adverte: aumentar impostos não é a solução, é necessário cortar e conter gastos.

Dito isso, Pedro Alves faz uma consideração de cunho mais amplo: é necessário recuperar o ambiente de negócios, reativar o setor produtivo e reconquistar a confiança dos empresários e investidores, tanto internos quanto externos. Além disso, diz o líder, é primordial o encaminhamento das reformas trabalhista, tributária e previdenciária.

Pedro Alves afirma que apenas com reformas estruturantes é possível avançar e retomar a competitividade do setor produtivo, gerando mais condições de investimento, criação de empregos, incremento da renda e aumento do consumo. “Crise se combate com produção”, crava o presidente da Fieg.

O líder afirma também que é urgente a necessidade de regular taxas de juros. “Para viabilizar investimentos, são necessárias taxas de juros mais baixas. Elas sugam os recursos da população e das empresas, com taxas de 287% ao ano no cheque especial, por exemplo, e de 431,4% ao ano no cartão de crédito. O cidadão que cai nisso não consegue sair mais, fica quebrado. Isso tira dinheiro que poderia estar no consumo e na produção e vai para os bancos. No ano passado, os três maiores bancos brasileiros tiveram lucro de R$ 46 bilhões”, reclama Pedro Alves.

As lideranças do agronegócio também pedem atenção — o setor, que até então continuava em crescimento, teve queda de 0,3% no Produto Interno Bruto (PIB) da agropecuária nos primeiros três meses deste ano, em relação ao trimestre anterior. O presidente da Federação da Agri­cul­tura de Goiás (Faeg), José Mário Schreiner, diz que o aumento da produtividade é o ponto chave para a re­cuperação das empresas, que têm perdido competitividade tanto no mercado interno quanto na exportação. Ele repisa a necessidade de reformas.

Segundo Schreiner, fazem-se necessários programas governamentais que estimulem a adoção de tecnologias e treinamento da mão de obra. Principalmente diante da possibilidade de redução dos estímulos fiscais. “A empresa rural é um bom exemplo de ganho de produtividade e aumento da competitividade do setor”, diz, também batendo na tecla das reformas tributária, trabalhista, previdenciária e redução das taxas de juros, para que as empresas saiam do sufoco financeiro e avancem em ganhos de produtividade.

Para as PPPs darem certo, o investidor precisa de segurança

Assim que assumiu, o presidente interino Michel Temer, cuja equipe econômica é comandada pelo goiano Henrique Meirelles, anunciou que quer flexibilizar a execução de Parcerias Público-Privadas, as PPPs, na área de infraestrutura e acelerar a privatização. Nesse sentido, foi enviada uma medida provisória ao Congresso Nacional para criar o Programa de Parcerias de Inves­timentos (PPI). De fato, em todos os países de economia dinâmica, a parceria entre o Estado e a iniciativa privada é pedra de toque para o desenvolvimento.

Euclides Barbo é entusiasta das PPPs e diz que é necessária uma boa regulamentação jurídica, para dar segurança aos investidores. “Temos de reconquistar parceiros, com projetos que não sejam modificados depois que os investimentos são realizados. O Brasil está em descrédito, pois o governo anterior quebrou contratos, rompeu regras e isso afasta o investidor. O maior estímulo é reconquistar a confiança e ter bons projetos para quem vai investir, e para a sociedade, que é quem paga a conta das concessionárias, independentemente do setor.”

José Mário Schreiner, da Faeg, endossa as críticas ao modelo de parcerias que o governo Dilma tentou implementar. Segundo ele, as PPPs são fundamentais para as atuais condições financeiras do Governo. “Sem estas os investimentos, principalmente em infraestrutura, não vão avançar. Porém, faz-se necessário destravar as exigências excessivas, com forte intervenção estatal, que foram estabelecidas no governo anterior.”

Investimentos

Em relação ao incremento dos investimentos, o presidente da Acieg não tem dúvida da necessidade, porque ajudariam a destravar, gerar empregos e melhorar localmente a economia. Mas, observa, não têm efeito tão amplo, pois são obras de longo prazo, incapazes de ser o motor da economia. E pergunta de onde viria o dinheiro, uma vez que as maiores empreiteiras estão enroladas com a Lava Jato, e as demais, em sua maioria, com caixas limitados.

José Mário Schreiner diz que os investimentos em infraestrutura por si só não resolvem o problema da economia como um todo, principalmente no tocante as empresas privadas, mas é um ponto fundamental, que tem elevado muito os custos da logística das empresas, diminuindo sua competitividade. “Porém, as reformas estruturais são tão importantes quanto a melhoria da infraestrutura. Ação governamental, para recuperação da economia, tem que envolver, simultaneamente, reformas estruturais, menor taxa de juro e infraestrutura.”
Mas, se as medidas do governo demorarem a surtir efeito, como ficam as empresas, que à medida que o tempo passa, com o agravamento da crise, têm de demitir, perdem patrimônio e fecham?

Euclides Barbo resume a situação, lembrando que o governo precisa urgentemente baixar os juros, estimular a geração de empregos com menos encargos, desburocratizar a exportação e reduzir a carga tributária. “Nada disso está na pauta do governo. Caso não haja uma mudança estratégica, as empresas continuarão demitindo, e, nos piores casos, fechando as portas.”

José Mário Schreiner, por sua vez, diz que economia brasileira está no limite e a condição das empresas não é diferente, condição que está sendo expressa nos níveis de demissão da mão de obra. “Não temos muito tempo a esperar, as medidas governamentais têm que ser consistentes para mudar de imediato as expectativas do empresário e evitar que as demissões se transformem em fechamento das empresas e desarticulação do setor produtivo.”

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