Cristiana Toscano: “Em menos de 12 meses, do início ao fim da pesquisa, impossível termos uma vacina para Covid-19”

Única brasileira escolhida para integrar comitê de avaliação de vacinas candidatas para novo coronavírus, professora da UFG diz que prazo de 12 meses é otimista, mas factível

Cristiana Toscano - Foto Colin Poitras Yale University

Chefe do Departamento de Saúde Pública (DSC) do Instituto de Patologia Tropical e Saúde Pública (IPTSP) da Faculdade de Medicina da UFG (FM-UFG), médica epidemiologista Cristiana Maria Toscano Soares | Foto: Colin Poitras/Yale University

Chefe do Departamento de Saúde Pública (DSC) do Instituto de Patologia Tropical e Saúde Pública (IPTSP) da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Goiás (FM-UFG), a médica epidemiologista e infectologista Cristiana Maria Toscano Soares começa nesta semana os trabalhos de análise de vacinas candidatas para o tratamento da Covid-19.

A paulista foi a única brasileira convidada pela Organização Mundial da Saúde (OMS) a fazer parte de um grupo de 10 a 15 especialistas que se dedicarão a avaliar a eficácia das pesquisas desenvolvidas para fabricação de uma vacina contra o novo coronavírus. “Para mim foi uma surpresa positiva, mas de fato não é novidade porque já faço parte de grupos assessores de especialistas de organizações mundiais há algum tempo.”

Com experiência em comitês de avaliação de vacinas para outras doenças, como as pneumonias pneumocócicas, Cristiana Toscano tem no currículo passagens pelo Centers for Disease Control and Prevention (CDC) – a agência norte-americana de saúde pública -, Ministério da Saúde, Organização Pan-Americana de Saúde (Opas) e Organização Mundial da Saúde (OMS). “O Sars-CoV-2 já tem uma plataforma de vacinas contra o coronavírus, que estavam em desenvolvimento em função da Sars e da Mers, que estão sendo aproveitadas. Em menos de 12 meses impossível termos uma vacina para Covid-19”, destaca.

Em Goiás, a chefe do Departamento de Saúde Pública do IPTSP divide com os também professores da UFG José Alexandre Felizola Diniz Filho e Thiago Fernando de Britto Rangel o trabalho de projeção dos cenários de avanço da Covid-19 no Estado em infecções, mortes e ocupação de leitos de UTI. “É preciso sentar à mesa, discutir, ter um planejamento, fazer todos os setores entenderem de fato onde estamos e por que precisamos das medidas de distanciamento social, quando seria um momento factível para se considerar, eventualmente, uma flexibilização com inúmeras medidas preventivas.”

A UFG divulgou na quinta-feira, 28, que a sra. foi a única brasileira convidada a participar do comitê da Organização Mundial da Saúde responsável por analisar o desenvolvimento de vacinas candidatas para o tratamento da Covid-19. Foi uma novidade bem-vinda, mas não chega a ser uma surpresa, já que a sra. trabalha no comitê de análise de vacinas da OMS há mais de uma década.
É sempre uma boa notícia porque trata-se de uma doença nova, um grupo novo. Para mim foi uma surpresa positiva, mas de fato não é novidade porque já faço parte de grupos assessores de especialistas de organizações internacionais há algum tempo. Tanto da Organização Pan-Americana da Saúde (Opas) quanto da Organização Mundial da Saúde (OMS).

Qual o trabalho a sra. desenvolve junto à OMS? Quais foram as doenças e vacinas com as quais a sra. trabalhou?
O trabalho é semelhante. É um trabalho de assessoria técnica. Eu, enquanto pesquisadora da UFG, sou convidada a participar como assessora técnica em grupos técnicos específicos de assessoramento. Na Organização Pan-Americana da Saúde existe um grupo que se chama TAP [Technology Access Pool], um grupo assessor técnico para vacinas para as Américas. Fazemos reuniões físicas a cada dois anos e a distância pelo menos duas vezes por ano.

Por meio do TAP, fazemos todas as recomendações de políticas e estratégias de vacinação com metas para região das Américas. O trabalho de programa de vacinação inclui todas as vacinas. O amplo trabalho do grupo, com os relatórios, está disponível na internet.

Na OMS, o comitê que faço parte desde 2016 é um grupo de trabalho de vacina antipneumocócica, voltada para o pneumococo: pneumonite, otite, meningite. Uma vacina para várias síndromes clínicas causadas pelo pneumococo. Avaliamos os estudos, as evidências e, em função disso, fazemos recomendações para estratégias de vacinação, doses, formas de se atingir melhor cobertura, esquemas e tipos de vacinas a serem usadas.

É uma questão bastante programática em abordagem de orientação de políticas e programas de vacinação. São vacinas que têm um tempo de vida mais longo, são bem sólidas em termos de segurança, eficácia e são bem conhecidas.

O tempo da notícia é muito mais veloz do que o tempo da ciência. As pessoas têm sido bombardeadas diariamente com novidades em publicações científicas iniciais com testes de medicamentos e vacinas para a Covid-19. É possível dizer qual trabalho dá mais esperança hoje com relação a uma possibilidade de tratamento para a doença causada pelo novo coronavírus?
É positivo o fato de já existir uma rede bem estruturada de pesquisadores trabalhando na área e existiam plataformas de vacinas para coronavírus em função da Sars e do Mers. As pesquisas começam um pouco adiante.

Outra coisa positiva é a existência de um consórcio internacional de financiamento de instituições e parcerias público-privadas que está estabelecido para promover e avançar rapidamente nessas pesquisas em função do interesse global humanitário para o desenvolvimento da vacina contra a Covid-19.

São dois fatores que favorecem o andamento do desenvolvimento das vacinas especificamente para a Covid-19.

Quando olhamos para a pandemia do H1N1 em 2009 e para o Sars-CoV-2 hoje, qual é a grande diferença, tanto na busca por um tratamento quanto na forma de lidar com a doença?
É bem diferente. A semelhança está em serem vírus pandêmicos que emergem de animais e passam para humanos, além de serem doenças transmitidas por gotículas, principalmente transmissão respiratória.

Na pandemia de H1N1, já existia o oseltamivir. Existia um tratamento específico e a previsão de que viria uma pandemia. Os países já tinham planos de preparação anteriores. Vários países, inclusive o Brasil, tinham estoques de oseltamivir (nome do medicamento) ou tamiflu (nome comercial) para a ocorrência de uma eventual epidemia.

Tivemos alguns subtipos e cepas virais da Influenza anteriores ao H1N1 que foram ameaças, mas não chegaram a se cumprir como cepas pandêmicas, morreram antes. Tivemos a Influenza aviária e outras.

Outra diferença é que já existia a vacina contra a Influenza. Não contra essa cepa pandêmica específica, mas a vacina já era estabelecida, segura, eficaz. O desenvolvimento de uma vacina para uma nova cepa, um novo subtipo pandêmico, obviamente é muito mais rápido do que se começar uma vacina para um novo agente.

Atualmente não existe uma vacina para o novo coronavírus. Mas existem sim algumas pesquisas iniciadas em função da Sars e do Mers. A situação é diferente nesse sentido.

O que já se sabe em relação à possível mutação do Sars-CoV-2? Vemos sempre notícias sobre a taxa de transmissão e letalidade diferentes em cada país. Há uma diferença do vírus de região para região?
O coronavírus é um vírus RNA. Como todo vírus RNA, o novo coronavírus é propenso a mutações. Isso ocorre e é esperado. Mas o vírus da Influenza muda muito mais. O coronavírus tem menos alterações de subtipos. Não tem a variação que a cada ano é preciso fazer uma vacina nova porque tem uma variação importante que uma vacina contra outro subtipo.

Para o coronavírus, existem vários estudos que fizeram o mapeamento dos vírus circulantes. Foram detectadas variações, mas não são tão importantes. Isso é importante porque dá certa segurança, provavelmente não será necessário desenvolver vacinas diferentes para essas cepas.

Estou aqui com a figura de um artigo recente que faz o mapeamento e conseguimos identificar que o coronavírus é uma família de vírus com linhagem única e variações bem pequenas que circulam no mundo. Provavelmente não irá requerer vacinas diferentes para cepas diferentes.

Quando a sra. começa a trabalhar no novo grupo da OMS que acompanhará o desenvolvimento das pesquisas de vacinas para a Covid-19?
Na sexta-feira, 5 de junho. Foi confirmada na sexta-feira, 29 de maio, que a primeira reunião será realizada às 7 horas da próxima sexta-feira. Amanhã já receberemos todo material que precisamos ler e preparar com todas as orientações. Na segunda-feira, 2 de junho, começamos o trabalho preparatório para a reunião da sexta.

O trabalho será todo feito de forma remota?
Por enquanto sim. Será um trabalho momentaneamente todo virtual porque vivemos todos a situação da pandemia globalmente.

A OMS e o grupo de trabalho têm o entendimento da necessidade de compartilhamento global dos avanços científicos e novas descobertas?
É uma questão muito bem estabelecida que não vem de agora. Tanto nos grupos de pesquisa quanto o nosso trabalho como pesquisadores é feito com a publicação e disponibilização na literatura acadêmica para o mundo todo o conhecimento, a exemplo do sequenciamento do vírus, que foi publicado algumas semanas depois que o novo vírus foi identificado na China.

O compartilhamento de informação, de novas evidências e pesquisas para nós do mundo acadêmico é normal. Claro que existem questões ligadas a novos produtos, novas tecnologias, que envolvem patentes. Mas para o desenvolvimento de vacinas e medicamentos, isso já está articulado. Por isso que existem parcerias internacionais que fazem a estruturação do processo.

Geralmente há um laboratório de pesquisa que desenvolve a molécula e faz uma parceria com uma empresa privada, um laboratório farmacêutico ou um instituto de saúde pública de um país. Existem essas parcerias porque cada um faz o seu papel. Até porque precisará ser registrado e passar pelo processo regulatório. E precisa sim da aprovação da OMS e das autoridades regulatórias nacionais de cada país. Isso precisa ser compartilhado para que esse processo caminhe, senão para na metade e não tem sentido.

Quando pensamos na questão das patentes e a exploração comercial por parte dos laboratórios, qual é o prejuízo para o trabalho que a sra. começará a fazer junto ao grupo de trabalho da OMS de consulta de possíveis vacinas para a Covid-19 o anúncio dos Estados Unidos de saída da Organização Mundial da Saúde?
Não entramos muito nas questões políticas. É uma questão financeira e política importante. O nosso trabalho não muda nada. O comitê tem representantes e pesquisadores dos Estados Unidos, continuará a ter, por ser estritamente técnico.

Continuaremos a avaliar todas as evidências e manter nosso trabalho independente das nuances e ventos políticas que sopram. A independência entra ciência e a política é fundamental para que ocorra de maneira neutra e isenta. É isso que nós pesquisadores pregamos. É assim que trabalhamos.

Se os Estados Unidos saírem mesmo da OMS e a primeira vacina eficaz contra o novo coronavírus for uma descoberta norte-americana, pode atrapalhar o uso no mundo inteiro?
Não acredito. Do ponto de vista técnico do comitê, avaliamos todas as vacinas independente do país, se é pública ou privada. O interesse é técnico: ter uma vacina que possa ser usada em ampla escala pela população.

A sra. já atuou no Ministério da Saúde. Qual era a sua função na pasta?
Atuei pouco mais de um ano no Ministério da Saúde quando voltei dos Estados Unidos. Fiz um treinamento e depois trabalhei um tempo na agência de saúde pública americana, o CDC [Centers for Disease Control and Prevention]. Quando voltei, trabalhei na Secretaria de Políticas de Saúde na gestão do ministro José Serra (1998-2002). Meu papel era desenvolver estudos para avaliar o impacto de políticas de saúde.

Foi um trabalho muito interessante, muito gratificante, com uma equipe muito boa. Na sequência, fui convidada pela Organização Pan-Americana da Saúde para trabalhar no Haiti na investigação de um surto de poliomielite entre 2001 e 2002. Foi quando entre na carreira internacional de organização internacional. A partir de então, trabalhei quase dez anos na Opas pela Organização Mundial da Saúde.

A sra. foi ao Haiti trabalhar com o surto de poliomielite?
Fiquei quase três meses em trabalho de campo, investigação do surto, vacinação. Trabalhei em alguns outros países. Fiquei na Organização Pan-Americana de Saúde baseada no Brasil durante aproximadamente cinco anos. Era responsável por imunizações na Opas no Brasil.

Trabalhava muito proximamente com o Programa Nacional de Imunizações brasileiro. É uma equipe fantástica, com a qual aprendi e admiro muito. É um dos programas de vacinação de longa mais fortes do mundo.

Como a sra. vê a unificação do trabalho das esferas federal, estaduais e municipais no combate à pandemia, tendo em vista que tivemos três ministros da Saúde em menos de 30 dias?
Situações como essa infelizmente não são prerrogativas do Brasil. Outros países vivem situações políticas difíceis como essa. Do ponto de vista técnico e da minha experiência na investigação de surto, inclusive vivência com pandemias anteriores, temos muito claro que a coordenação entre os poderes e entre os níveis de gestão é fundamental. Tem um impacto direto na efetividade, na eficiência, do manejo, da prevenção e da mitigação de danos relacionados a qualquer epidemia e pandemia.

É uma pena, mas vamos trabalhar da forma que temos estruturado a situação. Vamos fazer o melhor no nosso Estado e no nosso município. Conheço muitas pessoas que trabalham da mesma forma como eu, nos comitês de operações de emergência para a pandemia da Covid-19 em outros Estados. Técnicos com formação em epidemiologia em saúde pública sólida que também têm feito o melhor em seus respectivos Estados.

O trabalho tem sido gerenciado basicamente pelos Estados e municípios, até pela decisão do Supremo Tribunal Federal de algumas semanas atrás, que dá autoridade aos diversos níveis de gestão para tomada de decisão. E cabe a nós técnicos assessorar, apoiar e gerar evidências para que essas decisões sejam feitas da melhor maneira possível.

Como a comunidade médica, acadêmica e os pesquisadores da área de saúde têm visto a discussão sobre o uso da hidroxicloroquina e da cloroquina no tratamento da Covid-19?
Não é nem um posicionamento pessoal, até porque houve o pronunciamento recente de diversas sociedades médicas e conselhos de classe. Hoje em dia temos evidência acumulada e estamos em fase diferente, por exemplo, de um mês atrás. Toda droga que tem um potencial de ser utilizada ou alguma hipótese que possa sugerir que aquele medicamento possa ser efetivo no combate à Covid-19 tem de ser testado, assim com tem sido feito. Temos inúmeras drogas, antigas e novas, sendo testadas.

Temos de acumular evidência. Com os níveis rigorosos de pesquisa que geram segurança e evidência em relação a sua eficácia. Até recentemente, fazia sentido todos os usos de todas medicações, inclusive da cloroquina, enquanto parte de um protocolo de pesquisa clínica sendo avaliado.

A partir do momento em que temos quatro estudos inequívocos, bem desenhados, em relação a não efetividade do medicamento para casos graves, casos leves e casos moderados, e, ao contrário, alguns estudos enfaticamente indicam um maior risco em relação a eventos adversos relacionados a cloroquina, a posição de todas as sociedades tem sido baseada nas evidências atuais que conseguimos acumular.

Agora é bola para frente. Vamos atrás de outros medicamentos que estão sendo testados. Espero que sejam geradas evidências positivas. Assim que forem geradas evidências positivas, vamos atrás desses.

“Como todo vírus RNA, o novo coronavírus é propenso a mutações. Isso ocorre e é esperado. Mas o vírus da Influenza muda muito mais”

Cristiana Toscano - Foto Pedro Toscano Soares

“Para o coronavírus, existem vários estudos que fizeram o mapeamento dos vírus circulantes. Foram detectadas variações, mas não são tão importantes” | Foto: Pedro Toscano Soares

A sra., os professores José Alexandre Diniz Filho e Thiago Fernando Rangel chefiam o trabalho de projeções da pandemia em Goiás que ajudam a basear as decisões do governo estadual. Até o momentos, os três cenários de óbitos apresentados no estudo bateram com o que ocorreu no Estado. O que foi usado de conhecimento para chegar a um nível de precisão tão certeiro nos dados?
É um grupo da UFG que foi constituído com este fim específico, que é trabalhar com projeções. Atuamos muito proximamente não só da Secretaria Estadual de Saúde, mas também da Secretaria Municipal de Saúde. Eu e outro professor do departamento fazemos parte do COE [Centro de Operações de Emergência em Saúde Pública] estadual e também do COE municipal.

Fazemos as projeções para o Estado, para o município, apresentamos os dados para Goiânia, discutimos no COE para o Estado. As projeções consideram em todo o Estado o conjunto de municípios. Para que os dados sejam tão precisos, trabalhamos com muito rigor metodológico, conhecimento epidemiológico profundo. O modelo depende de dos parâmetros que consideramos. Precisa se valer de parâmetros epidemiológicos robustos.

Precisa se valer também de dados locais. A sequência de óbitos, a data do início dos sintomas. Quanto maior a série de casos e de dados locais que conseguimos usar para calibrar o modelo, mais qualidade conseguimos nas estimativas geradas. Por fim, depende também da qualidade do modelo em si. Depende da parte de programação do modelo, para a qual temos dois especialistas de renome internacional, que são os professores José Alexandre e Thiago Rangel. Os dois são os responsáveis por essa parte, em particular o professor Thiago, que desenvolveu um modelo fantástico.

Realmente é um modelo ímpar em sua robustez, complexidade e funciona muito bem. O professor Thiago comentou na quinta-feira, 28, em uma reunião surpreendeu até a nós pela capacidade e a precisão das estimativas do modelo.

A calibragem do modelo sofre algum prejuízo nos dados pela subnotificação muito alta, com mais de 20 mil casos suspeitos não testados?
Não. No modelo, estimamos infecções, não casos. O modelo estima o número de infecções e, a partir de vários parâmetros, geramos o número de pessoas que precisarão de hospitalizações. Do ponto de vista de serviço de saúde, o desfecho mais importante é a hospitalização em UTI e óbito.

O que é importante para nós é o número de óbitos e o número de hospitalizações. Isso tem uma precisão maior. Não só em Goiânia, mas em qualquer sistema de vigilância. É inerente ao sistema de vigilância. O modelo é estruturado para captar a ponta do iceberg porque não dá para captar tudo. Enquanto estrutura de vigilância, tem de se objetivar desfechos clínicos que sejam mais relevantes em determinados momentos da epidemia. Usamos esses dados, que são significativamente robustos para nos permitir a calibração adequada.

Qual é o desafio na hora de explicar aos agentes públicos a preocupação com a projeção de crescimento rápido dos casos? Goiás demorou mais de 60 dias para chegar a cem mortes por Covid-19, mas os novos dados apontam que chegaremos aos 200 óbitos nos próximos 15 dias, com quase 6 mil mortes até o final de julho. Como os gestores públicos olha para os dados que o grupo da UFG apresenta?
Os COEs são comitês que foram instituídos em fevereiro e envolvem profissionais que atuam na área. Não necessariamente na saúde, mas são profissionais que já estão cientes, acompanham e participam do projeto de planejamento até antes do primeiro caso em Goiás. É um comitê técnico. Apresentamos nas discussões do comitê, recebemos feedback, com sugestões.

Uma reunião como a de quinta-feira não é do comitê. Foi uma solicitação do governador. Também é nosso trabalho tentar transformar os resultados de uma modelagem que são, do ponto de vista técnico e metodológico, bastante completos em uma informação que seja útil e passível de ser entendida por pessoas que não são da área. Tentamos fazer esse trabalho da melhor forma possível. Quando apresentamos as informações, ficou bastante claro para todos os presentes de qual é a gravidade da situação e quais são as questões que nos preocupam mais em relação às projeções.

Mesmo assim, a Prefeitura de Goiânia anunciou que a partir de segunda-feira, 1º, começa a flexibilizar atividades consideradas não essenciais durante a pandemia. Teremos mais gente a circular nas ruas em um momento no qual a taxa de isolamento está abaixo de 35%. Qual é a preocupação que o nível baixo de isolamento gera?
É uma informação veiculada na mídia [a entrevista foi concedida antes da publicação do novo decreto municipal]. Ainda não ouvi essa confirmação da Prefeitura de Goiânia. As discussões não têm sido nesse sentido junto à Secretaria Municipal de Saúde e ao COE em Goiânia. Trabalhamos junto e o entendimento é o mesmo. A secretária de Saúde [Fátima Mrué] é muito comprometida, muito envolvida, muito técnica. Não sei se isso é algo que de fato irá ocorrer.

O que tenho ouvido e entendido é que há uma articulação para que, em parceria com os setores, a flexibilização seja planejada a médio prazo. De fato, o planejamento tem de ocorrer. É preciso sentar à mesa com os diversos setores da economia porque realmente é uma situação delicada que estamos vivendo, que é uma situação epidemiológica importante e, em função de estarmos no fechamento econômico por um tempo prolongado, é uma situação econômica e social também importante.

É preciso sentar à mesa, discutir, ter um planejamento, fazer todos os setores entenderem de fato onde estamos e por que precisamos das medidas de distanciamento social, quando seria um momento factível para se considerar, eventualmente, uma flexibilização com inúmeras medidas preventivas. Entendo que o diálogo da prefeitura com os setores produtivos tem ocorrido dessa forma. Me surpreenderia se fosse diferente.

O que pode se dizer que hoje é eficaz para ajudar a diminuir a quantidade de contágios da doença? Existe algo além do isolamento social?
Infelizmente é o isolamento. Como é uma doença de transmissão respiratória, se dá por contato próximo. É preciso diminuir o contato e, obviamente, todas as outras medidas que estão relacionadas à higiene pessoal e medidas de prevenção da transmissão: lavagem de mãos, álcool gel, evitar o contato próximo, uso de máscara.

E qualquer paciente sintomático não pode sair do quarto. Porque até dentro de casa, um contato próximo com familiares, que é inevitável, com o paciente sintomático a transmissão é maior.

Há diferença entre a carga viral na rua e em casa?
Vários estudos, não só para Sars-CoV-2, mas também para outros vírus respiratórios, mostram que se tiver um ambiente fechado e uma proximidade maior de pessoas, a transmissão ocorre de maneira mais fácil. É indubitável que varias situações são situações de risco, como um ambiente fechado, um grupo grande de pessoas.

Tanto que as aglomerações grandes de pessoas são uma das primeiras coisas a serem proibidas em situações de pandemia e epidemia. As oportunidades de transmissão em que se agrega mais gente, são ambientes fechados e têm uma proximidade maior entre as pessoas são as de maior risco.

O momento de entubação em um leito de hospital é uma situação de grande risco para um profissional de saúde?
É um momento de risco maior ainda. Além da proximidade, é um momento que gera aerossol. Além da transmissão por gotícula, a aerossolização, que são partículas bem menores e que ficam suspensas no ar. Por isso, neste momento existem outros tipos de máscaras e proteção que são necessários.

Obviamente, no ambiente intra-hospitalar o risco sempre é maior em função não só desses procedimentos, mas em função do espaço fechado, do contato próximo, que é inevitável e necessário entre os provedores de saúde e os pacientes. Estamos acostumados. Inclusive, todas as medidas de prevenção e precaução à transmissão de infecções hospitalares para todos os agentes de várias formas de transmissão são rotina. Agora, com o Sars-CoV-2, mais ainda.

Toda vez que temos uma novidade, isso gera curiosidade e estranheza. Com uma pandemia com a da Covid-19, a doença gera muito medo. Alguns locais são inevitáveis, como farmácias e supermercados. São lugares que requerem um cuidado maior? São locais que representam risco para as pessoas?
Com certeza são. Por isso existem os protocolos já padronizados. Em Goiás e no município, foram definidos protocolos em relação a número de pessoas, espaço. É uma proporção de número em função do espaço. Sabemos que dois metros de distância é uma medida de segurança. O ideal é manter a distância porque quanto mais próximo maior a possibilidade de transmissão, que pode ocorrer.

A máscara gerou algum tipo de relaxamento na preocupação das pessoas? Há quem acredite que colocar a máscara a libere de lavar as mãos, de manter o distanciamento? Já se sabe o nível de eficácia da redução do contágio com o uso da máscara, mesmo a máscara caseira?
Isso ainda não foi documentado. Existe essa dúvida. Existem estudos que sugerem que a máscara de pano caseira poderia gerar o relaxamento em função de uma falsa sensação de proteção adicional do que de fato a máscara pode prover. Alguns estudos estão em andamento e sugerem o contrário. Ainda há controvérsias na literatura em relação a isso.

O que tem de ficar claro é que na verdade a máscara de pano não protege totalmente. A máscara de pano reduz a chance de uma pessoa infectada transmitir a infecção para o outro. Como no coronavírus existe o infectado assintomático, que também transmite por via respiratória, existe um fator adicional. Vamos supor que alguém esteja infectado assintomático, essa pessoa não usaria a máscara sendo infectada, mas como todo mundo tem de usar, a pessoa usará de qualquer forma e reduzirá o risco de infecção de outras pessoas.

De maneira geral, vários estudos são feitos, mas ainda não há uma evidência contundente. Mas acredita-se que o uso de máscara pela população também ajuda a diminuir a infecção, e não o oposto, como inicialmente era pensado. Hoje em dia se recomenda em muitos países o uso de máscara pela população.

Os setores da iniciativa privada têm aumentado a pressão para que seja feita logo a liberação do funcionamento das atividades. Há também uma pressão crescente no setor da educação privada. A preocupação com os infectados assintomáticos preocupa em relação à volta das escolas?
O papel do assintomático, inclusive o papel das crianças, ainda há muito que ser estabelecido. Acredita-se, e há evidências, que as crianças se infectam, mas a maior parte das crianças são oligossintomáticas ou assintomáticas. O assintomático não tem sintoma. O oligossintomático tem sintomas muito fracos.

Estudos recentes sugerem que as crianças transmitem menos. É preciso entender um pouco melhor tudo isso. O retorno às aulas dos países europeus tem ocorrido agora e gerará evidências que vão nos ajudar a entender melhor e orientar melhor as políticas e estratégias de retorno às aulas no Brasil.

É fácil explicar para as pessoas que os países europeus que estão liberando aos poucos a volta das atividades estão em um momento diferente do Brasil na pandemia?
Acredito que sim. É um momento epidemiológico diferente. Os países europeus começaram a epidemia antes, chegaram no pico antes, começaram a fazer a inflexão da curva antes e, neste momento, também antes, começam a fazer a flexibilização. O que é difícil é a comunicação articulada, contínua e transparente de todos os setores produtivos, com a população, com a sociedade como um todo.

Não é uma situação fácil, vivemos um momento de exceção. É um estresse financeiro, emocional, físico importante. Nestes momentos, a informação e a comunicação claras são ainda mais importantes para conseguir o apoio de todos, porque é um papel social de cada um de nós que vai fazer a diferença.

Das projeções feitas pela UFG, o cenário mais preocupante de avanço da doença e de mortes é o que tem se confirmado em Goiás. Qual é a expectativa que podemos ter de um momento de possível reabertura mais segura ou que as pessoas terão uma proximidade da normalidade da vida novamente no Estado?
A normalidade é uma coisa difícil de definir. Sabemos que quando formos voltar, voltaremos de uma forma um pouco diferente. Não é uma coisa rápida, tende a ser esticada lá para frente. E algumas coisas ainda vão ocorrer de forma diferente, talvez intermitente. Não se sabe ainda.

Países asiáticos, que foram os primeiros a serem acometidos, e os primeiros a fazerem o fechamento e que fizeram a flexibilização, também foram os primeiros a apresentar uma segunda onda. Não sabemos ainda como isso vai ocorrer na Europa, muito menos na América do Sul. Fica difícil dizer quando voltar ao normal porque não sabemos como as coisas vão evoluir.

Com toda movimentação, comunicação e evidências recentes, realmente acredito que a população irá se conscientizar e não continuaremos na linha vermelha da projeção. Sou confiante em relação ao esforço, ao entendimento e ao empenho de todos. Nós todos queremos que isso passe e que fiquemos todos saudáveis.

O que é importante lembrar também é que não dá para simplesmente fechar tudo, manter o distanciamento social e só quando não tiver mais nada voltamos às ruas. Não é assim. É um trabalho contínuo de discussão, de avaliação das evidências. No planejamento, começamos, inclusive, a incorporar no modelo flexibilizações com medidas preventivas, com protocolos de segurança implementados para avaliar como e se isso impactaria e se seria seguro em algum momento voltar com algumas dessas atividades.

Em uma resposta mais simples, não dá para dizer que “em agosto volta tudo”. Talvez algumas coisas voltem antes com segurança, outras voltam depois. Obviamente um show com 30 mil pessoas não vai voltar tão cedo. São muitos aspectos a serem considerados. Também muito localizado, muito regionalizado. A situação de São Paulo é diferente da situação agora de Goiás e diferente de outros Estados.

Tentamos descobrir a melhor estratégia a medida que caminhamos. Não é que tem uma medida certa e temos de seguir por ali. Estamos tentando ajustar e considerar a melhor evidência possível para tentar fazer o planejamento da flexibilização com segurança e preparo adequados.

Ouvimos algumas expectativas muito otimistas com relação à possibilidade de termos uma vacina para o novo coronavírus em um curto espaço de tempo. Chegou-se a falar que pouco depois de setembro poderíamos ter a primeira vacina para o Sars-CoV-2, mas isso é praticamente impensável.
Impossível.

Qual costuma ser o tempo mínimo, considerando a média de pesquisas com outras doenças, para se ter uma vacina disponível no mercado para utilizar na população?
É muito difícil comparar com outras doenças. Depende da doença. O Sars-CoV-2 já tem uma plataforma de vacinas contra o coronavírus, que estavam em desenvolvimento em função da Sars e da Mers, que estão sendo aproveitadas. Em menos de 12 meses impossível termos uma vacina para Covid-19.

O trabalho de vacinas contra o coronavírus foi retomado e, mais especificamente, contra a Covid-19 foi iniciado em janeiro e fevereiro. No cenário mais otimista possível, assumindo que, de todas as moléculas candidatas, alguma vá passar por todas as etapas e ser aprovada, desde o início da bancada até a disponibilização de uma vacina, a produção em escala e todos os aspectos regulatórios que são envolvidos envolvidos, 12 meses é um tempo otimista, mas factível [janeiro ou fevereiro de 2021]. Menos de 12 meses, do início ao fim, é infactível.

A sra. não é goiana.
Não. Sou paulista.

O que motivou a vinda para Goiás?
Meu marido é goiano. Logo depois que nos casamos, nós nos mudamos para Genebra (Suíça) pelo trabalho na Organização Mundial da Saúde. Meu primeiro filho nasceu na Suíça. Por questões familiares e pessoais, resolvemos voltar para o Brasil. Foi nossa opção vir para Goiânia pelo fato da família dele ser daqui. Quando voltamos, abriu concurso na UFG. O timing deu certo e assumi como professora na UFG em 2010.

Professora da UFG, Cristiana Toscano é indicada para compor comissão da OMS sobre vacina contra Covid-19

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