“Crise na Prefeitura de Goiânia é forjada para ajuntar dinheiro para soltar obras às vésperas das eleições”

Rival de Iris Rezende no segundo turno afirma que o prefeito quer ser candidato ao governo em 2018 e diz que a política arcaica faz com que ele tenha preferido usar o secretariado visando a sucessão

Vanderlan Cardoso concede entrevista ao Jornal Opção | Foto: Fernando Leite/Jornal Opção

Vanderlan Cardoso está, como ele mesmo diz, “dando um tempo” dos embates políticos mais diretos. Empresário de sucesso, dá prioridade no momento a cuidar de seus diversos investimentos, mas, com bom humor, disse que não podia recusar o convite para estar na mesa de entrevistas do Jornal Opção. “Só vocês mesmos para me tirarem de meu sossego”, brincou.

O pessebista não poupou críticas à gestão de Iris Rezende, que tachou como exemplo da “política arcaica”, citando como exemplo a formação do secretariado. “Tudo está sendo feito para fins eleitoreiros, para soltar as obras quando estivermos mais perto das eleições do ano que vem. Pode anotar.” Mais do que isso, ele acredita que Iris mais uma vez está pensando em se lançar candidato ao governo. “O projeto dele é ele, depois ele de novo e, então a mulher dele [a ex-senadora e deputada Iris Araújo]”, vaticinou. Do lado da base aliada, ele considera normal que a disputa por espaço político na chapa majoritária de 2018 esquente os ânimos.
Nem mesmo a disputa em Goiânia fez o ex-prefeito de Senador Canedo se es­quecer da cidade que o elegeu. Vanderlan aposta na posse de Zélio Cândido (PSB) como desfecho da batalha jurídica que se tornou o pleito de 2016 naquele município. “Não reconheço o prefeito [Divino Lemes, do PSD] que está lá. Se alguém olhar no site do TSE vai ver que o prefeito eleito chama-se Zélio Cândido”, afirma.

Elder Dias – O sr. enfrentou Iris Rezende (PMDB) na disputa pela Prefeitura de Goiânia no ano passado, contrapondo projetos e ações. Como o sr. classifica esse início de gestão do peemedebista?
É uma gestão devagar, sem que o prefeito saiba o que está acontecendo, sem tomar providências para os problemas, sem apresentar ações. São 90 dias nessa situação, algo lamentável para quem disse que já no primeiro dia de governo as máquinas iriam roncar, que a saúde iria ter médicos nos Cais e nas UPAs [unidades de pronto atendimento], que iria resolver o problema do lixo. Até agora, só vimos acordos políticos. A administração de Iris Rezende é ultrapassada.

Elder Dias – Nos bastidores comenta-se que quem manda na Prefeitura não é de fato o eleito, mas sua mulher, a primeira-dama Iris Araújo (PMDB). Seria isso um sinal de que Goiânia hoje está realmente desgovernada?
Se ela estiver comandando a gestão, isso é pior ainda, mostra que nenhum dos dois tem capacidade de administração.

Marcos Nunes Carreiro – O que está faltando na gestão de Iris Rezende?
Falta ao prefeito pulso para resolver os problemas. Pelo que estamos ven­do, a definição de secretários e di­re­tores visa somente à eleição de 2018. Embora eu não estivesse diretamente envolvido com a política neste início de ano, até agora o que percebi foi que Goiânia está em rumo.

Cezar Santos – A justificativa do Pa­ço é de que está faltando dinheiro.
Essa má gestão não é por falta de dinheiro, mas por falta de administração mesmo, de comando. Seguem aquele modo antigo de juntar dinheiro para só depois começar a trabalhar e isso está totalmente ultrapassado. Goiânia não pode esperar o prefeito ficar amealhando receitas, porque já tem um caixa bom. Claro que já devia ter médicos nos postos de saúde, claro que a cidade já poderia estar limpa, com os buracos das ruas tapados, com as avenidas iluminadas. Era para haver mais ações efetivas na cidade, já que o poder de recuperação de caixa da Prefeitura é muito grande. Creio que deva haver no mínimo uns R$ 500 milhões, um montante que já deveria estar sendo usado em prol da população.
Lembro-me de que isso foi debatido na campanha em 2016. Tanto Iris como eu sabíamos da situação fi­nan­ceira da Prefeitura e também que havia totais condições de recuperá-la. Apresentei projetos para serem implementados a partir do primeiro dia de gestão. Nada a ver com essa forma de juntar dinheiro, como estão fazendo, para depois querer mostrar serviço com os tais “mutirões” para ano eleitoral. Goiânia não merece isso, nem a política de hoje comporta mais coisas assim. A população não aceita, tanto que está alta a desaprovação da administração do PMDB em Goiânia.

Elder Dias – Diferentemente de outras cidades, o eleitorado goianiense escolheu um candidato de perfil tradicional. O sr. teria um perfil muito mais parecido ao do empresário João Doria (PSDB), que ganhou em São Paulo, ou Roberto Naves (PTB), vencedor em Anápolis, que fazem uma administração arrojada. Teria sido o carisma de Iris, então, o diferencial que convenceu o eleitor?
Infelizmente, muitos eleitores não observam as propostas e são contagiados pela emoção. Em Goiânia aconteceu isso. Já que João Doria foi citado aqui, quero dizer que ele está implantando na saúde em São Paulo aquilo que também estava em nosso projeto, que foi debatido no rádio e na TV no horário eleitoral. Nossa proposta continha essas parcerias, a compra de parte do serviço da rede existente na saúde, dos hospitais, dos laboratórios. Dória fez isso já no primeiro dia. Li uma reportagem na “Folha de S. Paulo” informando que 99% da demanda reprimida por exames médicos tinha sido atendida em três meses do novo governo paulistano. Doria contratou a rede existente, cujos hospitais estavam ociosos, em situação financeira precária. Ele comprou parte do serviço por preço justo – cirurgias, exames, leitos normais e de UTI. Doria faz uma administração moderna, buscando – como falamos aqui também, em nossa proposta – parcerias com o Ministério Público, nos termos de ajustamento de conduta para investimentos em meio ambiente, no trânsito etc. Goiânia tem mais de R$ 200 milhões para executar só em compensação ambiental e isso poderia ser investido em escolas, em creches, em trânsito.

O que João Doria está fazendo não é coisa do outro mundo. Ele, com sua visão de empresário, decidiu buscar o que dá resultado. E muitas vezes o resultado é simples, está logo ali na esquina, como é o caso em Goiânia, onde em quase todo bairro ou região tem um hospital particular que está quase fechando as portas e precisando de parcerias.
Euler de França Belém – Na campanha, houve um confronto entre dois projetos: um moderno, puxado pelo sr., e outro antigo, o de Iris Rezende, que saiu vencedor. Vamos ter essa gestão convencional durante os quatro anos?

Patrícia Moraes Machado – É bom ressaltar ainda que, na campanha, Iris conseguiu convencer a população com o mote do “pulso forte” e dizendo que iria realizar ações imediatamente, como o sr. bem lembrou. A marca da vida pública dele realmente tem sido de um gestor eficiente. Essa característica não existe mais?
Não diria que não exista, mas as amarras políticas impedem que ele possa fazer suas ações. Na composição do secretariado de Iris, ao contrário de seu início em 2005, não se vê quase nenhum técnico. Tudo foi feito apenas para atender um projeto eleitoral para o próximo ano. Isso amarrou a administração. Na campanha do ano passado eu falei que Iris estava num projeto para 2018, e não para a Prefeitura.

Patrícia Moraes Machado – E qual é exatamente esse projeto de Iris Rezende?
É o governo do Estado, obviamente.

Cezar Santos – O sr. diz, então, que Iris Rezende quer ser candidato a governador?
Pelos sinais dados pela composição de seu secretariado, pela inércia que a gestão passa no momento, pelo ajuntamento de dinheiro à espera de um momento mais próximo da eleição para colocar o bloco na rua, percebe-se que a meta é 2018. Aguarde e verá que algumas ações vão ser tomadas mais perto da eleição, com dinheiro em caixa. É o que vamos observar, mas Goiânia não merece mais isso, seus problemas tinham de ser resolvidos já a partir do primeiro dia de governo. Repito, Iris disse em 2016 que as máquinas iriam roncar no primeiro dia. E sabia da situação da Prefeitura. Nós dois tínhamos a informação sobre o poder de recuperação do caixa da Prefeitura.

Patrícia Moraes Machado – O sr. parece falar de armações políticas que Iris Rezende estaria fazendo. Pode citar alguma?
Basta ver a composição do secretariado. Por exemplo, ele foi buscar meu coordenador de campanha [Macxuwell Novais Ferreira, que assumiu a Secretaria de Desenvolvimento Econômico, Trabalho, Ciência e Tecnologia – Sedetec] para ser secretário.

Patrícia Moraes Machado – E o que esse coordenador representa no jogo, politicamente?
Representa um segmento social, uma igreja que me apoiou [Igreja Luz para os Povos]. E outros nomes, de outros partidos, também se deram em composição política.

Cezar Santos – O sr. está dizendo então que a gestão de Iris Rezende começou já como um trampolim eleitoral para a sucessão estadual de 2018?
Exatamente. A montagem do secretariado já foi visando isso. A administração de Goiânia em si não começou. É coisa da política antiga, em que os governantes assumem o cargo no Executivo e então ficam de seis a oito meses juntando dinheiro, deixando a cidade em caos e pedindo a compreensão da população. Isso para, quando chega mais perto do momento da próxima eleição, começar a lançar obras. É isso que vai acontecer aqui, podem escrever. Em 90 ou 120 dias começam os mutirões de olho na eleição ao governo.

Augusto Diniz – O déficit que Iris Rezende diz ter herdado de Paulo Garcia (PT), então, não existiria?
O déficit que Paulo Garcia deixou, segundo nosso levantamento, não chega a R$ 150 milhões. O que está sendo colocado por Iris é fantasioso. Ele está vendendo o caos para depois aparecer como o salvador da pátria. Isso é política arcaica. Ele foi eleito sabendo como estava o caixa e o que iria herdar, mas também sabia do poder de recuperação da Prefeitura de Goiânia.

“A prefeitura não pagou dívida. o fornecedor do serviço de semáforos parou, porque não recebeu uma dívida de R$ 1 milhão, e estabeleceu-se o caos no trânsito”

Elder Dias – Esses R$ 150 milhões de déficit são uma dívida contornável?
Não seria para Senador Canedo ou Trindade. Para Goiânia, é tranquilamente contornável.

Elder Dias – Então o prefeito, se quisesse, poderia começar a gestão literalmente “passando o trator”?
Poderia, sim. Mas o fato é que não se pagou nada dessa dívida. Há poucos dias, o fornecedor do serviço de semáforos resolveu parar, porque não recebeu uma dívida de R$ 1 milhão, e estabeleceu-se um caos no trânsito. Isso com a Prefeitura tendo milhões em caixa. Desafio a mostrarem o saldo do caixa da administração e digo que está chegando a R$ 500 milhões.

Elder Dias – Num país sério isso seria crime de responsabilidade.
Ocorre que o povo elegeu um prefeito e ele é quem define suas prioridades estratégicas para governar. Como vai aplicar as verbas nas obras é um critério dele. O que estamos vendo é a diferença em relação a um governo responsável, que quer realmente uma administração desde o primeiro dia. Resumindo, Iris Rezende continua no palanque.

Patrícia Moraes Machado – Um dos maiores questionamentos que seus adversários impuseram contra o sr. na campanha foi o de que sua gestão seria bastante ligada à do governador Marconi Perillo (PSDB). Esses ataques, segundo avaliações, foi um dos fatores que trouxeram uma inversão da tendência de crescimento e tiraram a perspectiva de vitória. Sua candidatura se sentiu intimidada com isso?
Vamos voltar 12 anos atrás, para falar de quando a administração de Goiânia passou a ser feita com rancor. Não tem como a cidade caminhar sem parceria com o governo estadual. Como discutir segurança pública, por exemplo, sem a participação do Estado? Qualquer prefeito vai ficar sempre muito amarrado se não fizer essas parcerias, para qualquer setor, especialmente a segurança. Como melhorar a qualidade de vida sem parcerias para construção de moradias, de viadutos, de infraestrutura em geral?

O que foi feito para Goiânia se desenvolver nos últimos 20 anos? Onde estão os distritos industriais? Cadê os polos de desenvolvimento? Foi em cima disso que nós martelamos durante a campanha inteira: sem distritos, sem polos, sem uma ação efetiva de qualificação profissional, Goiânia vai ficar na berlinda (enfático). Em uma entrevista aqui, ainda na pré-campanha do ano passado, eu trouxe números e dados sobre qual era a participação da capital no índice dos impostos arrecadados em Goiás há duas décadas. Tínhamos uma indústria de confecção que era a terceira maior do Brasil e recebia gente de todos os lugares do País. Mas veja o que aconteceu: não houve investimentos por parte do poder público e a Feira Hippie hoje é uma vergonha, há um tratamento desumano a vendedores e compradores? Não temos polos de confecção, nada foi feito. Agora busquem os dados oficiais de hoje: caiu pela metade a participação de Goiânia.

Veja o que eram Aparecida de Goiânia, Senador Canedo, Bela Vista, Trindade, Goianira? Não eram nada, apenas cidades-dormitório. Todas essas cidades viviam às custas da capital, a população vinha trabalhar aqui. O cidadão tinha vergonha de dizer que morava em Aparecida e hoje tem orgulho, porque lá eles deixaram para trás a política arcaica e incentivaram a geração de empregos e os polos de desenvolvimento. Na capital, as indústrias da capital, que estavam sendo sufocadas pela política equivocada, saíram daqui.

Em Goiânia, ao contrário, o próprio Iris Rezende disse, nos debates eleitorais – está gravado, basta procurar –, que não teria de ter polos de desenvolvimento. Mas como uma cidade pode crescer sem geração de empregos? Alguém explica? Não vai crescer! (enfático) O que vamos ter é essa política de “mutirãozinho”, de entregar praças de qualidade vergonhosa e de enganar a população dizendo que vão colocar médicos nos postos de saúde. Já se passaram 90 dias e o que vimos acontecer? Será que vamos ter administração apenas em um ano dos quatro dessa gestão, por questões eleitoreiras? Quero saber de questões efetivas, planejadas: onde queremos estar daqui a 20, 30 anos? Mas quem ganhou a eleição não pensa assim, tanto é que estavam perdidos durante a campanha, sem projeto algum, copiando nossos projetos. Estavam perdidos, não sabiam o que iriam fazer.

Patrícia Moraes Machado – Qual avaliação fazer, depois das críticas recebidas por ter uma parceria eleitoral com o governo, do fato de o prefeito ter procurado o Estado para um trabalho conjunto no dia seguinte após a posse?
O prefeito usou isso como mote eleitoreiro, mas sabia e sabe que, para fazer qualquer coisa, precisa buscar o governo do Estado. Aí o discurso tem de mudar. Basta ver o que ele falava do senador Ronaldo Caiado (DEM) tempos atrás, e vice-versa: no discurso de um, o outro era bandido. Essa era a briga dos dois, mas, de repente, os dois se abraçam em prol de um projeto benéfico para ambos e o povo achou isso bonito.

Em 2016, eu recebi o apoio do governador Marconi Perillo (PSDB) para um projeto de resgate de Goiânia e fizeram o maior alarde no horário eleitoral. É para esse tipo de política antiga que o povo precisa se alertar. Eu fui adversário de Iris e Marconi em duas eleições e nada tenho de pessoal contra qualquer um deles. Tive o apoio do governador na última eleição, mas antes discutimos os projetos e os compromissos com as questões mais críticas da capital: segurança, trânsito, parques e outras parcerias efetivas. É lamentável ver como se leva uma eleição para enganar o povo, mas nem por isso torço para que a administração fracasse, mas não vejo nada de moderno no jeito de Iris conduzir sua gestão.

Marcos Nunes Carreiro – Por que sua campanha não conseguiu anular esse discurso eleitoral da oposição que atacou sua parceria com Marconi?
Talvez o marketing deles tenha sido um pouco mais esperto do que o nosso. Conseguiram levar a mensagem que queriam para o eleitor e nós, não. Queríamos uma Goiânia não somente para quatro anos, mas para os próximos 30 anos e talvez não tenhamos tido sucesso em passar essa mensagem. Do lado deles, pelo contrário, tiveram êxito, levando a campanha de uma forma até mesmo desrespeitosa com o governador.

Patrícia Moraes Machado – Seu projeto para a Prefeitura continua?
Eu sou um ser político. Gosto de discutir a boa política, bons projetos, ideias de visão. E um político, para colocar suas ideias em prática, precisa se candidatar. Meu nome está à disposição do partido e, se acharem conveniente, não teria por que não me candidatar. Eu gosto, realmente, desse mundo, de ficar atento à política, seja local ou nacional, mesmo estando trabalhando no momento em minhas empresas.

Cezar Santos – Como o sr. vê certos ruídos dentro da base aliada, como o da presidente de seu partido [a senadora Lúcia Vânia], que vem se destacando por elevar o tom nas questões visando as eleições de 2018?
São vários os motivos – busca por espaço, questões de momento, nervos à flor da pele em certas situações. Mas quem sabe da história política de Goiás e, principalmente, de como se dá a relação entre a senadora Lúcia Vânia e o governador Marconi Perillo percebe que ambos se apoiam desde antes de 1998 e sempre tinham essas discussões. Não vejo como ela estar fora da base, isso para mim é algo que não acontecerá. Algumas coisas realmente poderiam ser discutidas sem ir para a imprensa, somente entre os líderes, mas algumas situações são pintadas com cores muito mais vivas do que realmente ocorreu de fato. É o caso de quando fazem um alvoroço por ela tomar o mesmo avião que o senador Ronaldo Caiado para vir a um evento em Goiás com ministros. Ora, isso é natural no mundo da política, não tem nada de excepcional. É só voltar um pouco atrás para ver os embates de Lúcia com Caiado na questão da venda da Celg, cada um defendia um lado. E ninguém pode negar que ela ajudou muito na resolução do caso.

Euler de França Belém – Tendo a con­cordar com quem vê algo a mais nessas relações. Se esses fa­tos ocorressem frequentemente se­ria normal, mas estão começando a acontecer agora, quando se discute o próximo ano eleitoral.
É que agora começam a surgir essas oportunidades, pelo governo Temer. É natural que o ministro da Educação [Men-donça Filho], que é do DEM, convide a senadora para seus eventos, já que ela é presidente da Comissão de Educação do Senado. Ainda mais para vir a Goiás, que é o Estado dela. Como também é muito natural que ele convide para o mesmo voo o senador Caiado, que é do partido dele e também goiano.

Euler de França Belém – A disputa seria natural se o momento político não estivesse tão acirrado.
Mas é também um momento em que todos estão conversando com todos. Vilmar Rocha [presidente estadual do PSD e secretário do Estado de Cidades e Meio Ambiente] está conversando com Maguito e também conversa com Daniel Vilela – não sei se está conversando com Caiado. Jovair Arantes [deputado federal e presidente estadual do PTB] também busca conversas. É algo muito natural.

Euler de França Belém – Nas eleições passadas não havia essas conversas. Por que agora existem? Por que agora todo mundo conversa com todo mundo?
Acredito que seja o momento, motivado por essas falas. Em meu modo de ver, o governador er­rou em seu discurso quando disse que o voto dele seria para o se­nador Wilder Morais (PP) em 2018, sendo que temos muitos pré-candidatos a senador. Foi um erro e falei isso diretamente a ele.

“Ao final, Lúcia e Marconi sempre se entendem”

Fotos: Jornal Opção

Cezar Santos – O governador admitiu que errou?
Marconi ficou pensativo. O fato é que estamos muito longe da eleição. O caso de José Eliton é diferente, ele é o vice-governador, vai assumir e concorrer à reeleição. Mas, para o Senado, nós temos vários nomes: além dos que falei, tem Magda Mofatto [deputada federal pelo PR], João Campos [deputado federal pelo PRB], entre outros. Tenho certeza de que não desagradou apenas a Lúcia Vânia, desagradou aos outros também. Alguns deles podem ter ficado calados, mas a vontade era de falar.

Euler de França Belém – O fato de todos estarem conversando com todos tem a ver com a fadiga de material de um governo que está há muito tempo no poder?
Pode ser. E é natural que o projeto, com o passar do tempo, como nós vimos em Goiás e outros Estados, chegue a um processo de desgaste ou de descontentamento. Afinal, a base aliada está no poder há quase 20 anos.

Euler de França Belém – Há uma premissa na história de que uma eleição nem sempre é ganha pelo melhor ou por quem faz um bom governo; o cansaço às vezes faz a mudança – e pode mudar, inclusive, para pior. Simplesmente, em um determinado momento, as pessoas resolvem mudar.
Isso é natural. O povo é assim. O governo pode estar bom no momento da eleição, a avaliação da administração pode estar excelente e mesmo assim acontecer de o povo entender que é preciso mudar. É a vontade de experimentar outro. E então, se não der certo, volta-se para o projeto antigo. É natural e não precisa ser nem pela fadiga dos anos. Já vi projetos que seguiam muito bem em um mandato e foram trocados.

Patrícia Moraes Machado – O sr. falou sobre a política arcaica de Iris durante a eleição e agora, à frente da gestão. E, observando a fala da senadora Lúcia Vânia, o que mais chamou a atenção nela foi a declaração de que o governador teria de mudar sua prática política, que estaria repetitiva. Quando a senadora conversa com Caiado ou procura um adversário ela não está também praticando a velha política, enquanto apontando esse “defeito” no governador?
Todos eles começaram esse projeto juntos em 1998: Lúcia, Caiado e Marconi. Eles se conhecem muito bem. Pelo que eu ouço falar, mesmo antes de entrar para a política, a relação dos dois sempre foi assim. E quem tentar interferir nesse relacionamento, pode sair machucado. Ao final, Lúcia e Marconi sempre se acertam.

Patrícia Moraes Machado – Independentemente de Lúcia e Marconi, essa prática não deveria começar a mudar?
Os políticos nunca deixaram de conversar em véspera de eleição. Vamos voltar a 2016, quando o governador, já perto das eleições, conversava com Iris. Isso nunca deixará de acontecer. Se qualquer um dos pré-candidatos da base – e todos são meus amigos – quiser conversar assunto político comigo, não vou fechar as portas. Definir um projeto e caminhar juntos é completamente diferente. Existir o diálogo não quer dizer que a pessoa estará no projeto de um ou de outro.

Graças a Deus, sempre fui respeitado pelas posições políticas que eu tomo. Em 2006, era prefeito de Senador Canedo e nosso grupo resolveu apoiar a reeleição do governador Alcides Rodrigues (PP). E eu apoiei Marconi Perillo para o Senado. Em 2010, fomos adversários políticos, mas nunca deixei de conversar com ele.

Patrícia Moraes Machado – E se Lúcia decidir romper com Marconi e apoiar outro candidato, como ficaria o PSB?
Respeito muito a senadora, que é nossa presidente. E tenho certeza que ela ouvirá todos. Hoje o PSB não é simplesmente a senadora Lúcia Vânia. O PSB hoje tem três deputados estaduais, tem muitos vereadores. É diferente. Desde que ela assumiu o partido, a senadora não tem tomado qualquer posição sem ouvir as lideranças do partido. Tenho certeza de que ela não decidirá nada sem ouvir o partido. Nós temos conversado toda semana, seja pessoalmente ou por telefone. Mas, até lá, muita água vai passar debaixo da ponte. O PSB pode vir até a ter candidato a governador – ou a governadora. É um partido que já teve candidato a governador e a vinda da senadora fez o PSB crescer.

Cezar Santos – O sr. tem sentido no partido uma posição majoritária de permanência na base?
Nenhum dos três deputados estaduais tem pretensão ou trabalha para ir contra um projeto dentro da base aliada. É o que eu sinto de Marlúcio Pereira, de Diego Sorgatto e de Lissauer Vieira.

Marcos Nunes Carreiro – Nesse cenário, o PSB não teria como lançar candidato a governador.
Pode ser. Tudo é possível. Depende do diálogo e de como estará o momento em 2018. Em 2016 o PSDB nos apoiou para a Prefeitura de Goiânia e ainda indicou o vice, que foi o Thiago Albernaz.

Cezar Santos – O sr. avaliou a gestão de Iris em Goiânia. E como está a administração do prefeito Divino Lemes (PSD) em Senador Canedo.
Eu não reconheço o governo que está no poder em Senador Canedo. O prefeito eleito por Senador Canedo chama-se Zélio Cândido. Se abrir o site do TRE [Tribunal Regional Eleitoral], lá estará escrito “eleito: Zélio Cândido”. O atual está lá por uma liminar que a qualquer momento pode ser derrubada. Ou teremos novas eleições ou Zélio vai assumir a prefeitura.
Portanto, a meu modo de ver, há um governo ilegítimo, que está destruindo a cidade. Voltou-se àquela prática antiga do “toma lá, dá cá”. Soube que áreas que foram compradas para instalação do polo universitário e estão sendo vendidas a toque de caixa. Houve também um retrocesso na saúde em Senador Canedo. A cidade está suja, com muito mato. Isso não pode acontecer em uma cidade rica como aquela. E, se isso acontece, é porque vem de um governo ilegítimo.

Patrícia Moraes Machado – Mas não haveria como vetar essas vendas?
Isso depende da Câmara e do Ministério Público. E creio que o Ministério Público não vai deixar isso acontecer.

Patrícia Moraes Machado – Na semana passada, 12 cidades passaram por novas eleições. O sr. acha que será o mesmo caso de Senador Canedo?
Eu creio que Senador Canedo seja o mesmo caso de Petrolina de Goiás. São situações parecidas e lá quem assumiu foi o segundo colocado. No caso, eu creio que em Senador Canedo o que vai ocorrer é Zélio Cândido tomar posse.

Euler de França Belém – Há quatro pré-candidatos à disputa do governo, lembrando que Lúcia Vânia pode ser candidata a governadora, já disputou o cargo em 1994, e talvez se Caiado a tivesse apoiado ela venceria as eleições. Agora, são quatro nomes postos para a vaga: José Eliton, Ronaldo Caiado, Daniel Vilela e Maguito Vilela. O que diferencia esses quatro políticos? O sr. está muito próximo de José Eliton hoje. Por que continuar com Marconi e José Eliton?
Eu sou muito grato às pessoas que me ajudam. Se pegarem minha história política, nesses 13 anos, verão que eu sempre prestigiei quem me ajudou. Foi o caso do ex-prefeito Misael Oliveira (PSDB), quando ele era deputado. Eu o apoiei para prefeito de Senador Canedo. Assim foi também com Simeyzon Silveira [deputado estadual pelo PSC].
No caso de José Eliton, ele nos apoiou na eleição para prefeito. Mesmo tendo sofrido aquele atentado, fez reuniões em sua casa, e eu observo muito esse companheirismo. Da mesma forma, ressalto o companheirismo que eu tive do governador Marconi Perillo. Têm certas coisas que marcam. Eu não teria dificuldade de apoiá-lo, de forma alguma, mas eu sou de respeitar a hierarquia. Nós temos uma presidente no partido e essa presidente já me disse que não teria dificuldade em apoiar José Eliton.

Têm algumas divergências, assim como aconteceram antecipações de discurso e palavras mal colocadas. Essas discussões aconteceram dentro do partido, com os deputados, os vereadores de Goiânia e do interior. Sou amigo e tive projeto com Ronaldo Caiado em 2014, para o governo de Goiás, o que acabou não ocorrendo por causa de Marina Silva [o senador goiano é desafeto político da ex-senadora, que apoiava Vanderlan].

Daniel Vilela é um amigo. Dentro do PMDB, andou o Estado inteiro comigo fazendo reuniões e outras ações. Mas hoje, pelo que aconteceu na eleição passada, tenho uma proximidade maior com José Eliton, pela ajuda que me foi dada. Mas o partido é que vai definir. Isso se o partido não tiver candidato.

Patrícia Moraes Machado – Qual deles tem o melhor perfil político-administrativo para Goiás?
Entre esses quatro nomes que foram citados, o vice-governador é um que tem ótimo perfil administrativo, por ter assumido o governo várias vezes. Mas, Caiado não teve experiência em gestão, só esteve no Legislativo; Daniel, da mesma forma, não esteve no Executivo. Já Maguito Vilela tem experiência. É completamente diferente. Vejo o nome de Maguito também como conciliador. Ele não entra em bola dividida, não se vê Maguito brigando com ninguém, sempre respeitoso com todos. Veja, por exemplo, o relacionamento dele com Marconi. Embora tenham sido adversários políticos ferrenhos em eleições passadas, sempre houve respeito mútuo. Vejo Maguito como alguém que sabe fazer o jogo político e que sabe administrar. Ele transformou Aparecida de Goiânia. A cidade é muito diferente do que era antes de sua gestão. É claro que isso também é fruto de outras administrações, mas foi Maguito quem soube, diferentemente da gestão de Goiânia, captar recursos do governo federal e canalizar para a cidade. Então, Maguito tem perfil administrativo comprovado. Porém, vejo que José Eliton está bem qualificado para assumir o governo, haja vista que já a experiência que já teve, por várias vezes.

Euler de França Belém – O sr. percebe como possível uma aliança entre Maguito Vilela e Marconi Perillo já para 2018?
São duas pessoas que entendem de política e pensam nisso 24 horas por dia. Então, digo que é possível. Mas vai depender do momento. Maguito já concedeu entrevistas dizendo que apoiaria Marconi em um projeto nacional. Isso são sinais. Tudo é possível. Todos achavam irreal uma composição entre Iris e Marconi e isso quase aconteceu em 2016. Como dizer então que dois políticos que se respeitam e que já demonstraram passara por cima de qualquer questão pequena, como são Marconi e Maguito, isso não seja possível de acontecer?

Augusto Diniz – Há alguma chance de José Eliton não ser o candidato do governo em 2018?
Tudo dependerá do momento. O próprio José Eliton está muito tranquilo quanto a isso e está trabalhando muito para viabilizar sua candidatura. É alguém que tem os pés no chão e que tem vontade e determinação. Isso é um fator essencial.

Marcos Nunes Carreiro – O sr. falou da estrutura política que o PSB tem, com prefeitos e deputados, o que torna possível para o partido lançar um candidato ao governo. Observando o cenário por esse contexto, Ronaldo Caiado é viável para uma disputa assim? Afinal, o DEM, em Goiás, se resume quase que exclusivamente à pessoa dele.
Uma possível candidatura de Ronaldo Caiado depende muito do apoio de outros partidos, pois o DEM em Goiás realmente é apenas ele mesmo. Então, ele vai depender muito do PMDB ou de outro partido que tenha certo porte. Uma candidatura sem estrutura é difícil. Passei por isso, veja a dificuldade que tive em minha campanha de 2014 [ao governo, pelo PSB], em que eu estava praticamente só, com pouca estrutura partidária e pouco tempo de TV. Portanto, seria muito difícil. É impossível? Não, vai do momento. São exceções, mas há candidaturas que não têm estrutura alguma e conseguem avançar.

Patrícia Moraes Machado – O sr. diz que Iris Rezende trabalha para ser o candidato ao governo pelo PMDB, mas, se ele não conseguir se viabilizar, ele pode, por causa das divergências que tem no partido com Maguito e Daniel Vilela [deputado federal e presidente estadual do partido], sacrificar a candidatura peemedebista para apoiar Ronaldo Caiado?
Não. Iris não vai deixar de apoiar um candidato do partido para apoiar o de outro. O que Iris vai tentar fazer – e já está fazendo – é atrair Ronaldo para o PMDB.

Patrícia Moraes Machado – A ida de Caiado para o PMDB pode acontecer?
Não creio que o senador vá cair nesse conto, como caíram Henrique Meirelles [pré-candidato ao governo em 2010], Júnior Friboi [pré-candidato ao governo em 2014] e eu [Van­derlan se filiou ao partido para disputar o governo em 2011, mas saiu no ano seguinte]. Seria ingênuo demais e isso ele já mostrou que não é.

Patrícia Moraes Machado – Mas Iris não preferiria apoiar Caiado a Daniel Vilela, que lhe tirou o diretório estadual?
Iris prefere apoiar a ele mesmo. Depois dele, ele de novo. E depois disso, a mulher dele. Ele já deu entrevista dizendo que apoiará o candidato do partido e já até admitiu que apoiaria Maguito Vilela. Então, nesse caso, Caiado já está fora.

Empresário Vanderlan Cardoso: “Temos no governo federal um goiano que faz a diferença: Henrique Meirelles” | Foto: Fernando Leite / Jornal Opção

Elder Dias – Mas o sr. confirma que, em sua opinião, o candidato prefeito de Iris ao governo é ele próprio?
Exatamente, ele mesmo.

Patrícia Moraes Machado – É por isso que o governador Marconi está com uma re­lação tão próxima a Maguito Vi­lela, vislumbrando essa possibilidade?
Marconi tem esse bom relacionamento com Maguito não é de agora. Basta lembrar que ele venceu a eleição que disputou com Maguito em 2002 e logo em seguida já conversava com o então senador.

Cezar Santos – Como empresário, o sr. percebe alguma melhora na economia do País, em relação a como estava antes?
Bastante. Quando temos uma inflação em tendência de baixa é porque existe credibilidade, sobretudo na equipe econômica. Temos no governo um goiano que faz a diferença: Henrique Meirelles [ministro da Fazenda]. A inflação alta estava destruindo o País e agora está a 4% ao ano, com previsão de chegar a 2%. Os juros estão em queda e isso permitirá que a população comece a fazer compras. Já falam em juros competitivos para investimentos em máquinas e equipamentos do agronegócio. Com o empresário comprando, empregos são gerados. Tivemos um mês de março excelente para todos. Veja o setor automobilístico, por exemplo, que estava há 20 meses em queda e que voltou a vender veículos novos. Fora isso, a indústria voltou a empregar. Todos esses são bons sinais.

O governo pode estar mal avaliado, mas, estando bem na economia, muito dificilmente sairá do poder. Se esse julgamento [o Tribunal Superior Eleitoral julga a legalidade da chapa Dilma-Temer, que venceu a eleição presidencial em 2014] tirar o presidente, o País volta à estaca zero, depois de enfim conseguir entrar no caminho correto. Não conseguiram, por exemplo, parar a Operação Lava Jato. O País está sendo passado a limpo. A imagem do Brasil começou a melhorar. Passei quase 30 dias no exterior e vi isso: os investidores voltaram a nos observar, estão comprando empresas e investindo em terras. Temos também o leilão dos aeroportos. Veja como o poder público é ineficiente: por que o governo tem de administrar aeroportos? Só para colocar indicados políticos nos cargos? A gente percebeu esse problema agora, com a Operação Carne Fraca [ação da Polícia Federal que fechou frigoríficos e causou transtorno à exportação de carne]. Enquanto houver indicação dos chefes da Vigilância Sanitária de uma regional, eles vão trabalhar para os deputados que os indicaram [os superintendentes regionais da Agricultura nos Estados de Goiás e Paraná foram envolvidos nas investigações e acabaram exonerados dos cargos] (enfático). Esses cargos têm de ser preenchidos por técnicos. O País paga muito caro pelas indicações políticas, enquanto técnicos são pessoas que passaram em concurso público e que não vão colocar seus cargos em risco; eles têm estabilidade, mas também podem ser exonerados em situações como a que ocorreu.

Marcos Nunes Carreiro – A Operação Carne Fraca trouxe consequências graves para algumas empresas. A JBS, um dos maiores grupos do País, foi uma das mais afetadas, tanto que deu férias coletivas de 20 dias em muitas de suas unidades, inclusive em Senador Canedo. Qual o impacto dessa medida, tanto na cidade quanto no Estado?
A Operação alardeou em demasia os fatos investigados. Os envolvidos, que foram poucos, deveriam ter sido punidos, mas houve uma generalização dos fatos que acabou envolvendo empresas como a BRF [empresa das marcas Sadia e Per­digão, com unidade em Mineiros], que é exemplo de processamento de carnes no mundo inteiro. A própria JBS é muito rigorosa com qualidade. De repente, tudo isso foi jogado para o ar. Isso mostra a capacidade de autodestruição que o Brasil tem. Mostraram para o mundo todo que a vigilância estava descontrolada, ao invés de punir os envolvidos.

Alardearam, por exemplo, que há a utilização de carne de cabeça de porco na linguiça. O que é a carne da cabeça de porco? É o músculo, como existe também na mão e no pé. Isso virou motivo de chacota no mundo inteiro. Nessa brincadeira, outros setores foram afetados, como o de ração. Só aqui em Itaberaí a Super Frango tinha praticamente um milhão de frangos para abater. O problema é que e esses animais não podem passar da hora do abate, senão morrem.

Veja o caso de Mineiros, uma cidade que lutou para ter a BRF, onde tem um dos melhores frigoríficos do mundo, que produz 150 mil perus. Por uma decisão tola de interdição, tiveram que transferir todos os perus. Isso acarreta um prejuízo enorme para a empresa e para o País, que gera, só nesse setor, mais de 6 milhões de emprego.

Marcos Nunes Carreiro – Em Senador Canedo, quantos empregos são gerados diretamente pela JBS?
Uma média que gira em torno de 1,2 mil a 1,4 mil funcionários. Quan­do uma fábrica fecha e dão férias co­letivas, por 10 ou 20 dias, isso já gera uma instabilidade muito grande nas pessoas, todas ficam muito abaladas.

Elder Dias – Agora, desta vez, tivemos a criminalização de um setor fundamental para a economia brasileira. A ação contra os frigoríficos ocorreu de forma espetaculosa, como tem acontecido também de maneira frequente na Operação Lava Jato, no que diz respeito à criminalização dos políticos. O sr. não acha que, da mesma forma, a Lava Jato às vezes tem passado dos limites quando tem de buscar os seus alvos?
É verdade, sim. Toda operação desse tipo tem seus excessos, com a Lava Jato não é diferente.

Elder Dias – E isso não tem causado, também, um efeito colateral. Não propriamente no âmbito econômico, mas no sentido de se pegar o político para a “malhação do Judas”, muito mais do que já foi feito no passado.
Com certeza. Quando chega a época de doações para a campanha, não há como pedir a um empresário que ele dê todas as certidões para mostrar de onde veio aquele dinheiro. Fica complicado. Teve aquele caso corrido em Rondônia em que um empresário fez uma doação legal para a campanha de um senador e o senador foi punido por receber esse recurso. Então, a pergunta é: o que realmente pode, em uma campanha? As regras não estão exatamente claras. O político já não sabe mais o que fazer. Se há uma empresa que quer fazer uma doação, o político terá de dizer, então “não aceito sua doação enquanto você não comprovar de onde veio esse dinheiro, mostre-me todas as certidões que você tiver”? Isso não existe! Está cada vez ficando mais difícil. Só fica fácil para quem não tem nenhum tipo de compromisso. Mas quem tem compromisso com a moral e com a seriedade vai se afastando. Talvez, daqui a algum tempo, se ainda não houver regras claras, o espaço político vai ficar ocupado somente pelos malandros. Porque malandro não se preocupa com nada, ele não tem o que perder.

Trecho exclusivo Opção Online

Elder Dias – Vivemos em um país muito desigual e essas desigualdades não estão sendo observadas na proposta de reforma da Previdência. Como o sr. avalia esse projeto do que está no Congresso?
Nenhuma reforma que fosse proposta nunca seria ideal, precisaria ser reajustada. O mesmo vai ocorrer com todas as outras reformas – tributária, trabalhista, política etc. Se formos esperar surgir uma proposta ideal nunca vai haver reforma. Semanas atrás, tivemos a regulamentação da terceirização, que, a meu ver, vai abrir milhares e milhares de postos de trabalho no Brasil, porque as regras ficarão mais claras. Chegamos, com o texto aprovados, mais próximos do que ocorre nos países desenvolvidos. Até então, as empresas têm de achatar o salário do trabalhador porque o governo leva outro salário. O trabalhador acha que está levando vantagem com o sistema atual, mas é justamente o contrário.

Com a nova regra de flexibilização da contratação, a empresa poderá aumentar o número de funcionários durante determinado período. Hoje, ela se segura, se retrai, pois o custo para contratar e demitir é altíssimo. Eu tive empresa nos Estados Unidos e lá o salário é muito mais alto, mas o custo em porcentagem de tudo o que é produzido lá é a metade do custo daqui, o que o governo levaria para seu caixa é repassado diretamente aos trabalhadores.
A reforma da Previdência precisa ocorrer. Vamos ter de fazê-la por bem ou por mal, porque, caso contrário, chegará o momento em que todo mundo terá o direito, mas não terá o dinheiro, porque o País vai quebrar.

Patrícia Moraes Machado – Michel Temer (PMDB) poderia ter optado por fazer a política do bom político e ficar acomodado depois de assumir a Presidência, sem sofrer desgastes. Mas, ao contrário, está tendo a coragem de fazer o que nenhum antes dele ousou. Ao fim, como o sr. considera que constará o nome de Temer na história do Brasil?
Se fosse para pensar somente como político, certamente o presidente não estaria propondo uma reforma como a da Previdência, porque quem pensa só em eleição joga para a plateia, não encara problemas de frente. Temos um problema a ser resolvido e disso depende o crescimento do País. Por isso, acho que Michel Temer será reconhecido sim, mais à frente.

Vamos nos lembrar de Fernando Collor [presidente da República de 1990 a 1992, quando foi cassado, e hoje senador]. Seu governo teve problemas sérios, acabou sendo retirado da cadeira de presidente, mas fez uma coisa que ninguém tinha tido coragem: abriu a economia do País. Se não fosse ele ter levado isso à frente, o que teria acontecido? Basta ver como eram nossos carros e nossas máquinas agrícolas no começo da década de 90. Depois, os empresários se modernizaram e o País cresceu. Só para dar um exemplo, em 1991 o que produzíamos de tomate por hectare não era 20% do que conseguimos na mesma área hoje. A diferença disso quem fez foi a tecnologia.

Deixe um comentário