Novo secretário de Agricultura e Pecuária, Ademar Leal diz que “momento é de aproveitar o que foi feito e reforçar a interlocução com o setor produtivo”
09 maio 2026 às 21h00

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Novo titular da Secretaria de Estado de Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Seapa), Ademar Leal chega em um momento importante de fortalecimento da relação entre o Executivo estadual e o agronegócio goiano: dar continuidade às políticas públicas que deram certo durante a gestão de Ronaldo Caiado e renovar o diálogo com o setor, agora na gestão de Daniel Vilela.
Zootecnista formado pela Pontifícia Universidade Católica de Goiás (PUC Goiás), Ademar também é empresário do setor de nutrição animal e já presidiu a Associação Brasileira das Indústrias de Suplementos Minerais (Asbram). Segundo ele, o desafio de gerir a pasta veio após entender que poderia contribuir, depois de anos na iniciativa privada, para estreitar o laço entre o setor produtivo e o poder público.
Nesta entrevista ao Jornal Opção, o secretário destaca que já começou a fortalecer o diálogo com as principais entidades do agro e afirma que o trabalho é de continuidade, mas que também ajudará na construção de uma identidade própria da gestão de Daniel Vilela. Uma das suas apostas é intensificar os trabalhos desenvolvidos na secretaria e incentivar, inclusive, o plantio de novas culturas no Estado para diminuir a dependência da monocultura.
Na sua avaliação, Goiás pode se tornar um grande produtor de café, tem potencial de expansão das fronteiras agrícolas, como no Vale do Araguaia e no Paranã, além do objetivo de expandir os mercados internacionais para exportação, tendo como principal alvo o Japão, por causa da valorização da carne bovina brasileira.
Ademar também fala sobre os principais desafios do segmento, as motivações do endividamento dos produtores e o aumento na quantidade de pedidos de recuperação judicial no agronegócio. Além disso, diz que é um sonho ver Ronaldo Caiado eleito presidente da República e Daniel Vilela reeleito governador de Goiás.
Ton Paulo – O governador de Goiás, Daniel Vilela (MDB), definiu sua chegada na Seapa como “um novo momento de diálogo”. Eu queria que o senhor explicasse o que exatamente significa essa declaração: entidades têm sido chamadas para conversar, assim como grandes, médios e pequenos produtores, tendo em vista que o agro é uma vitrine para o nosso Estado?
Eu venho fazendo um diagnóstico para conhecer melhor toda a estrutura do governo e suas jurisdicionadas, como Agrodefesa, Emater e Ceasa, já que eu estou vindo do setor privado. Mas adianto que eu encontrei, e não era de se esperar por menos, um governo que sai com 88% de aprovação e, consequentemente, tudo muito organizado.
E esse novo momento é de aproveitar tudo o que foi feito e reforçar uma interlocução maior com o setor produtivo, para aproximá-lo ainda mais do nosso negócio, em virtude da importância. Então, é um desenho de aumento do protagonismo, que sempre foi muito bem cuidado pelo então governador Ronaldo Caiado (PSD), até porque ele é um representante nato do agronegócio no Brasil. E, agora, com o governador Daniel Vilela, não podemos deixar a peteca cair e temos que promover avanços e aumentar esse diálogo. Essa é a minha missão.
Ton Paulo – Em Goiás, temos importantes entidades no ramo do agronegócio e, pelo que eu entendi, esses diálogos já estão acontecendo…
Sim, sim. Tivemos reuniões com o presidente da Federação da Agricultura e Pecuária de Goiás (Faeg), Eduardo Veras. Eu estive na abertura da feira da Cooperativa Mista Agropecuária do Vale do Araguaia (Comiva), assim como na abertura da Tecnoshow Comigo.
Também tenho feito reuniões com a Sociedade Goiana de Pecuária e Abastecimento (SGPA). Tenho encontros com entidades de pequenos produtores já agendados, e está no meu radar, pois quero visitar, o mais breve possível, o projeto de irrigação do Vão do Paranã, que é um projeto só de pequenos produtores, onde também já realizamos a entrega de maquinários nos últimos dias por parte da Seapa. Enfim, eu aceitei o desafio e agora é trabalhar.
Ton Paulo – Apesar de o governo sempre ter sido próximo ao segmento do agronegócio, não podemos deixar de falar de alguns momentos de desgaste que existiram, como a aproximação da Taxa do Agro para sustentar a criação do Fundeinfra. Essa taxa já foi extinta, e eu queria ouvir do senhor se o desgaste sofrido por causa da criação dessa taxa está sendo redimido, também com a abertura desse novo diálogo?
Eu acho que o Fundeinfra teve o seu momento de importância. Por exemplo, eu estive em Mineiros, que é um município que necessitava de estradas e que recebeu um volume expressivo de obras dessa envergadura. Como prova disso, nos deparamos com o agradecimento do prefeito e, acima de tudo, da população local. E não foi apenas lá. As obras foram para os municípios goianos que mais precisavam. O dinheiro da taxa do agro está sendo muito bem utilizado, juntamente com o dinheiro do Tesouro Estadual, e essa prestação de contas tem sido feita diariamente pelo governador Daniel Vilela, como também foi feita pelo governador Ronaldo Caiado.
Acho que a minha chegada é muito mais de evolução, de crescimento, de desenvolvimento, para destravar os possíveis nós que existem na cadeia. Esse é o objetivo do diálogo: fortalecer o desenvolvimento do Estado. É óbvio que toda taxa, e eu falo até como produtor rural, não vai ser bem-vinda, mas era uma necessidade do momento. Não é uma pauta da minha secretaria, mas vejo que é um assunto que foi muito bem cuidado pelo governador Daniel Vilela, e a intenção dele ao me convidar para esse novo momento é muito mais de pensar no futuro.

João Paulo Alexandre – Apesar de ainda estar se inteirando sobre tudo na secretaria, eu queria que o senhor comentasse sobre como será o seu plano de trabalho dentro da Seapa. Além do reforço no diálogo, quais foram os outros pontos que o governador lhe pediu para dar uma maior atenção neste momento?
Nós temos vários programas em andamento na Secretaria da Agricultura, na Emater e na Agrodefesa, principalmente, e o pedido que o governador Daniel Vilela me fez foi o de proporcionar mais celeridade à execução desses programas. Desse modo, não vamos criar nenhum programa novo dentro destes próximos meses, até porque não dá tempo, mas, acima de tudo, estamos falando de belos programas que terão a sua continuidade garantida no futuro governo e que atendem aos anseios, principalmente, dos pequenos e médios produtores.
Nós temos o Programa de Aquisição de Alimentos, temos o Crédito Social, temos os programas de empreendedorismo, o Aconchego Rural, de capacitação feita pela Emater… São inúmeros programas, cursos, treinamentos e dinheiro investido.
No Vão do Paranã, que eu já citei aqui, nós vamos inaugurar, ainda este ano, uma agroindústria de processamento de polpas de maracujá e manga. Foram investidos mais de R$ 15 milhões do Tesouro Estadual para auxiliar os médios produtores que estão em uma região que precisa muito.
Não é por menos que o governo está com essa aprovação para cima de 80%, e, no segmento do agronegócio, está muito bem aprovado também. É óbvio que nós tivemos esse impasse realizado à taxa do agro, mas que já está resolvido, pacificado, e vamos olhar para a frente, pensar em aproveitar toda essa qualidade do serviço público.
Esse é um trabalho que eu vou fazer de imediato: dar visibilidade. Nós temos programas que as pessoas talvez nem imaginem. Por exemplo, a Plataforma Aroeira, da Secretaria da Agricultura, que é um BI de dados altamente robusto e atualizado em tempo real. Quem precisar de qualquer informação, seja da imprensa ao produtor rural, é só procurar.
É um banco de dados referente a todo o agronegócio goiano disponível gratuitamente. Isso é uma riqueza para o Estado. Para vocês terem uma ideia, nós temos o fechamento dos números de exportação, de produção, de comercialização por município, de todas as cadeias do agronegócio.
João Paulo Alexandre – O conflito do Oriente Médio ainda se arrasta, e sabemos que é uma região muito importante para a exportação de produtos goianos. Como está o atual cenário de impacto para Goiás? De alguma forma, estamos conseguindo reverter essa situação?
O que o Estado tinha condição de fazer, do ponto de vista da reversão automática, o governador Daniel Vilela fez, que foi a isenção do ICMS, acompanhando todo o país, para poder diminuir o custo do diesel. O principal impacto no agronegócio é o custo dos fertilizantes, principalmente os nitrogenados, que, em sua grande maioria, são importados, já que o Brasil não é produtor; ou seja, nós importamos 100%, e grande parte dessa importação vem da região que está em conflito, no Estreito de Ormuz.
Ainda que pese muito, nós temos uma pequena chance de essa guerra ser resolvida o mais rápido possível, para que possamos, na hora da real necessidade, quem ainda não comprou e não travou a compra de fertilizantes, possa adquirir mais próximo do plantio.
Agora é um momento em que usamos menos fertilizantes, a não ser na agricultura irrigada e em outras situações, mas, a partir da nova safra, que ocorrerá em outubro, já há um risco maior em virtude dos altos custos dos fertilizantes, e as commodities não acompanharam. O preço das commodities, principalmente milho e soja, se mantém. Isso realmente está difícil, e nós vamos ter que lutar, junto aos produtores, para tentar encontrar viabilidade para fazer o plantio. Mas é um momento muito complicado.

Ton Paulo – Apesar do bom relacionamento do agro com o ex-governador Ronaldo Caiado e agora com o governador Daniel Vilela, ainda havia produtores que reclamavam de falta de incentivos ou subsídios por parte do Estado. Por exemplo, quando, por motivos alheios, como o clima, a safra acaba não sendo boa, o Estado acaba socorrendo esse produtor. Como está isso atualmente?
Nós temos que separar muito bem esses momentos: a agricultura brasileira é zero subsidiada. O desenvolvimento do agronegócio brasileiro se deu pelo empreendedorismo, pelo trabalho e pela dedicação dos produtores rurais do Brasil e de Goiás.
O que estamos nos esforçando é tentar minimizar esses impactos para as cadeias dos pequenos e médios produtores. Como isso tem sido feito? Volto a citar o Programa de Aquisição de Alimentos, que é um excelente exemplo. Só em 2025, mais de R$ 35 milhões foram destinados a compras feitas com pequenos produtores. Esses alimentos foram adquiridos e beneficiaram pessoas de baixa renda que possuem cadastro na Organização de Voluntárias de Goiás (OVG). Esse é um dos trabalhos.
O governo também realiza a cessão de uso de máquinas. A Seapa já cedeu, nesses últimos sete anos, mais de 1,2 mil máquinas para os municípios goianos. A aquisição e a gestão dessas máquinas são feitas pela Secretaria da Agricultura por meio de recursos de emendas da bancada federal.
Nós temos mais de 800 máquinas sob a nossa gestão ainda, porque, a partir de um certo tempo, elas são doadas para o município. E todos esses maquinários e equipamentos, necessariamente, são de alto valor, pois estamos falando de carregadeiras, motoniveladoras, caminhões, tratores, entre outros. Todos esses equipamentos são obrigados a trabalhar apenas na zona rural.
Ton Paulo – Mas há uma iniciativa da Seapa, em parcerias com outras pastas, como a GoiásFomento, por exemplo, para disponibilizar linhas de crédito para produtores?
Existem linhas de crédito e essas, sim, são subsidiadas pelo Estado para pequenos e médios produtores. Não tem como o governo subsidiar o agronegócio goiano. O que é possível é o governo apoiar ações de pequenos e médios produtores, situação que o então governador Caiado olhou como ninguém nunca tinha olhado até então. E o governador Daniel Vilela nos orientou a dizer que o governo de Ronaldo Caiado é o piso do governo dele. Desse modo, não podemos perder em nada do que estava acontecendo e temos que avançar.
Cautela dos produtores e nova fronteira agrícola
Ton Paulo – Recentemente, nós tivemos a Tecnoshow Comigo, em Rio Verde, e eu queria que o senhor explicasse como foi a participação da Seapa, na prática, no evento.
A Tecnoshow é um evento que, neste ano, serviu muito mais como um momento de encontro, de difusão de novas tecnologias do que, necessariamente, para aquisição de maquinários, porque realmente estamos atravessando um nível de endividamento no agronegócio muito alto. Nós estamos passando, no agronegócio, por um momento de muita dificuldade por dois fatores: queda do preço mundial das commodities e, em contrapartida, um aumento brutal da taxa de juros.
Por causa disso, a comercialização de máquinas e equipamentos foi muito menor do que nos anos anteriores, em virtude desse momento. E essa cautela realmente é exigida.
Ton Paulo – Qual o motivo do endividamento desses produtores?
O setor do agronegócio, em geral, é muito dependente de crédito, e nós vivemos momentos muito bons no pós-pandemia. Primeiro, porque vínhamos de um ciclo muito bom de expansão da lavoura da soja, assim como na comercialização do preço do grão. O pico desses preços se deu em 2022. De lá para cá, nós vemos uma queda por uma série de fatores: aumento da produção mundial, redução da demanda da China, entre outros pontos.
Ao mesmo tempo, nós tivemos boas produções, produtividade e até mesmo crescimento da área plantada no Brasil, o que culminou em grandes safras. Para se ter uma ideia, na safra passada — porque esta ainda não terminamos de colher —, registramos um recorde tanto na produção goiana quanto na nacional. Porém, a demanda por essas commodities não foi tão grande. Esse endividamento, então, ocorreu pela queda do preço e pelo aumento da taxa de juros. O produtor que vinha crescendo, dando certo, se alavancando, ao renovar os seus financiamentos com essas novas taxas de juros, realmente viu a sua dívida crescer assustadoramente.
João Paulo Alexandre – Uma das consequências desse endividamento é o aumento no número de pedidos de recuperação judicial, ano após ano. Apesar de não ser uma atribuição da Seapa, há algo que pode ser feito para ajudar o produtor neste momento, como, por exemplo, levar educação financeira a esses empresários?
Cabe a nós apoiar muito mais na parte educacional, na parte pedagógica da gestão do negócio, do que realmente na parte financeira. É claro que o governo está preocupado com a questão financeira também, tanto que, na medida do possível, tem apoiado ações junto aos bancos, que é outro segmento com o qual estamos estreitando ainda mais o nosso diálogo, para que o produtor possa evoluir, diluir o seu fluxo de caixa e, assim, conseguir passar por esse momento extremamente delicado, já que o custo cresceu muito com a alta da taxa de juros.
Desse modo, vamos buscar fazer treinamentos, palestras, cursos, reflexões, enfim, tudo o que for possível para tentar minimizar o impacto neste momento.
João Paulo Alexandre – Qual é a principal demanda no agronegócio goiano atualmente?
São três temas, mas o principal deles, que ainda trava o crescimento do nosso negócio e que está sendo muito trabalhado, é a energia.
O segundo ponto é relacionado à gestão: a profissionalização da gestão, como de pessoas e até mesmo financeira. Isso é um trabalho que tem que estar passando e vai passar por uma evolução muito grande para continuar seguindo no caminho que a gente viu até aqui.
E o terceiro são as dificuldades ambientais. Então, esses três pontos são os que mais trazem dificuldades para o agronegócio goiano. E eu os apresentei, inclusive, ao governador Daniel Vilela, e ele tem cuidado pessoalmente desses três assuntos, que são extremamente sensíveis.
Eu vou exemplificar a questão da energia: o Vale do Araguaia goiano, que passa por municípios como Mozarlândia, São Miguel do Araguaia, Nova Crixás, Jussara, Britânia, entre outros, tem se tornado a nossa nova fronteira agrícola, mas falta energia para um desenvolvimento mais célere dessa região. E não é algo exclusivo de lá. O então governador Ronaldo Caiado se esforçou bastante e conseguiu uma subestação e uma rede nova de transmissão de energia para chegar a Matrinchã, que atende a região do médio-Araguaia. E a região do baixo-Araguaia vai ser contemplada com uma subestação em Mundo Novo, com três grandes redes de energia.
Ton Paulo – E são investimentos estruturais?
Sim, de infraestrutura, com valores absurdos e que não serão feitos pelo Estado, até porque existe uma concessionária para isso. A nossa missão é acelerar esse processo. Por isso, estão sendo feitas reuniões regulares com grupos de trabalho, inclusive de produtores, para avançar nessa pauta, porque vamos trazer essas melhorias, mas o agronegócio anda muito mais rápido do que os governos. E isso é uma realidade no Brasil como um todo.
Estamos falando de gente muito trabalhadora; o agronegócio é de sol a sol, é aguerrido, trabalhado e lutado. Ele acelera muito rápido, e o governo acaba não acompanhando. Para você ter uma ideia, o Vale do Araguaia foi aberto com pecuária. Em uma fazenda de 5 mil hectares, existiam de dois a três transformadores de 10 KVA, o que atendia à necessidade existente naquela época. Na agricultura, isso não significa nada, nem na pecuária de hoje.
Então, são problemas estruturais que estão sendo resolvidos. Tivemos bastantes avanços na questão do meio ambiente. A Semad, sob a gestão do governador Caiado e da nossa secretária Andréa Vulcanis, fez e vem fazendo um trabalho brilhante. Mas há questões que ainda precisam ser pontuadas, que buscaremos entender para encontrar as melhores resoluções, ao mesmo tempo em que também buscaremos saber se os produtores estão fazendo a sua parte da melhor forma possível. E isso acontece com muito diálogo e, claro, treinamentos, palestras, reuniões e muito mais.

Ton Paulo – O governo de Daniel Vilela vem sendo tratado como uma gestão de continuidade, com o intuito de pleitear a reeleição com o aval do ex-governador Ronaldo Caiado. Mas, é claro que é normal que ele imprima também a sua própria marca. O seu nome foi muito interessante na escolha, porque vem do mercado, é zootecnista de formação e empresário do ramo de nutrição animal. Diante de tudo isso, qual deve ser o legado que a Seapa vai deixar no governo sob sua gestão?
A marca será de muito trabalho. Eu sou uma pessoa apaixonada pelo que faço e, desde que aceitei entrar nessa pasta, vou entregar os resultados que o nosso governador espera para o governo dele e que contribuam para a construção dessa identidade própria. E esse trabalho é estar próximo; eu fiz sete viagens em pouco mais de 12 dias desde que estou à frente da pasta. E esse ritmo é da iniciativa privada, que eu trago e vou implementar.
O que eu posso garantir é muito trabalho e continuidade. E os resultados advindos do meu trabalho e dessa continuidade, com essa base muito bem feita e deixada pelo governador Ronaldo Caiado, serão a minha marca à frente da Secretaria da Agricultura.
Ton Paulo – Como disse anteriormente, Daniel Vilela pleiteia a reeleição e há uma discussão muito forte sobre o nome ideal para compor a posição de vice. Há quem diga que seria melhor uma pessoa ligada ao segmento evangélico, outros afirmam que a escolha mais prudente seria um nome atrelado ao agronegócio e, com isso, nós temos José Mário Schreiner, Luiz do Carmo e Paulo do Vale. Qual é a sua avaliação? Um nome ligado ao agro seria ideal para compor com Daniel? E, se sim, qual nome vem à cabeça do senhor?
Em virtude da minha trajetória, eu não consigo responder a essa pergunta, porque realmente eu não venho do meio político. Por ora, eu estou como agente público e, obviamente, não tem como não participar dessas pautas. Porém, realmente essa decisão é muito pessoal do governador Daniel Vilela, juntamente com o apoio, a parceria, o respeito e a admiração que ele tem pelo trabalho que o governador Caiado desenvolveu. Acredito que é uma decisão entre eles. Eu realmente não sei te falar qual seria melhor e não há um nome que venha à minha cabeça.
Ton Paulo – O ex-secretário Pedro Leonardo continuou na Seapa, agora na posição de subsecretário. Como o senhor avalia a herança deixada por ele?
Da melhor forma possível. Chegar do setor privado e entrar no setor público, tendo a condição de conhecer e fazer esse diagnóstico na velocidade em que eu conheci, é algo que me deixou muito impressionado. Houve uma qualidade no trabalho prestado pelo Pedro junto à pasta. Ele conhece tudo, é um servidor de carreira da Agrodefesa e fez um belo trabalho na Emater. Depois, foi nomeado secretário da Agricultura.
Ele esteve três anos e três meses no governo Ronaldo Caiado à frente da secretaria e fez um trabalho brilhante. Agora, nós vamos formar uma dupla: o Pedro irá continuar fazendo esse trabalho diário da pasta, que é muito intenso, o que me dará tempo e liberdade para pensar estrategicamente o agro goiano, alinhado ao pensamento do governador Daniel Vilela e à marca que ele quer deixar à frente do Executivo estadual.
Ton Paulo – E o senhor tem alguma pretensão política fora da Seapa?
Nenhuma pretensão política. Estou aqui porque eu confio no governador Daniel Vilela. É um prazer poder chegar a um lugar que está tão organizado. Tanto as contas da secretaria quanto as das demais jurisdicionadas estão todas aprovadas. Isso valoriza muito.
Nós temos uma qualidade de servidores fantástica. Eu estive em uma reunião da Agrodefesa que, entre todos os órgãos do governo, é a que tem o maior número de doutores dentro do quadro de efetivos. Isso nos orgulha muito e protege o agronegócio goiano. Isso nos envaidece ao saber que há tanta gente boa trabalhando nessas pastas: na Agrodefesa, na Emater, na Ceasa e na própria Secretaria da Agricultura.

João Paulo Alexandre – Antes de deixar o governo, Ronaldo Caiado assinou um memorando de intenções selando uma parceria com os EUA em relação às terras raras. Recentemente, tivemos o anúncio da aquisição da Serra Verde, uma das principais mineradoras de Goiás que faz o manejo desses minérios. Essa negociação acaba sendo atrativa ao Estado, tendo em vista que Goiás foi pioneiro em tratar o assunto quando pouco se falava sobre isso?
Do meu ponto de vista, e eu já tive a oportunidade de conversar rapidamente com o governador Daniel Vilela, o que o governo precisa fazer é garantir que essas terras raras sejam beneficiadas dentro do Estado, gerando empregos, impostos e desenvolvimento. Quem vai operar isso é uma questão de mercado que o governo não tem como regular.
O que eu tenho certeza de que o governador Daniel Vilela vai fazer é pleitear o máximo possível da manufatura e da industrialização desse material em Goiás, para que deixe o maior volume possível de recursos, através de impostos, empregos e desenvolvimento para o nosso Estado.
Ton Paulo – O Governo de Goiás, por meio da Seapa, já concretizou um investimento de cerca de R$ 80 milhões na agricultura familiar aqui no Estado. Inclusive, boa parte desse investimento veio do Programa de Aquisição de Alimentos. O senhor já tem uma estimativa de quanto deve ser investido nessa área neste ano, tendo em vista a importância da agricultura familiar para Goiás?
Ano passado, se não me engano, foram R$ 36 milhões investidos, totalizando R$ 80 milhões desde o início do programa. E, para 2026, nós temos empenhados R$ 40 milhões para fazermos parte do Programa de Aquisição de Alimentos e do Agro é Social, que é um programa de incentivo conduzido pela Emater, em que os pequenos agricultores fazem cursos de uma determinada atividade e ganham um cartão para comprar produtos necessários para dar andamento na produção.
Por exemplo, fazem um curso de apicultura e ganham um cartão com crédito de até R$ 5 mil, dependendo da atividade, para comprar caixas, Equipamentos de Proteção Individual (EPIs), fumigadores, enfim, os utensílios para empreender naquele ramo. Esse é um trabalho que iremos continuar.
A previsão é de R$ 40 milhões no orçamento, e já foram realizadas compras na ordem de R$ 10 milhões. Temos mais R$ 10 milhões para fazer compras agora, tudo isso de acordo também com o nível de receita do Estado. Nós estaremos fazendo o máximo possível e aproveitando que é um grande programa.
Nós estaremos fazendo o máximo possível e aproveitando que é um grande programa.
Ton Paulo – Algumas ações chamam atenção pelo fator do ineditismo, como a Casa do Mel, que foi inaugurada em Flores de Goiás. Não faltam mais incentivos e iniciativas por parte da Seapa para esse tipo de ação, que engloba uma maior participação da comunidade local?
Olha, eu nem chegaria a dizer que deveria ter mais. Eu posso dizer que deveria ser melhor divulgado. Esse é um trabalho que eu vou fazer. Em virtude da alta carga de serviços que o Pedro trazia consigo no dia a dia das atividades da Secretaria, talvez isso o tenha impedido de fazer um trabalho que eu estou fazendo aqui agora com vocês e que quero realizar com toda a imprensa goiana, com todos os entes das cadeias, para explicar e dar visibilidade, porque isso é importante. Pois, por meio dessa visibilidade, outras pessoas podem passar a procurar e conhecer essas atividades. Isso é uma cadeia que tem que ser retroalimentada.
Por exemplo, nós vamos ter a agroindústria do Vão do Paranã, que é um investimento robusto, tocado pela cooperativa de pequenos produtores locais e que vai precisar de mais produtores, inclusive. Eu quero ir lá para poder fazer o incentivo, mas se trata de um trabalho educacional para fazer com que as pessoas entendam o quanto o Estado está dedicado a fazer. É levada a informação por meio dos treinamentos, da educação e do recurso para que ele possa iniciar o seu trabalho, além do apoio na comercialização.
Isso existe em quase todos os municípios do Estado. Esse trabalho foi desenvolvido pela ex-primeira-dama Gracinha Caiado, que fez uma atuação brilhante. Realmente, nós temos que parabenizar o que vinha sendo feito. É muito bonito de ver.
Ton Paulo – Qual vai ser o investimento feito nessa agroindústria do Vão do Paranã?
Entre R$ 15 milhões e R$ 20 milhões.
João Paulo Alexandre – Há algumas culturas que, por anos, não eram trabalhadas no nosso Estado, com até certo ceticismo de que o solo goiano não seria fértil para elas. Recentemente, fizemos matérias sobre duas: café e mirtilo. Qual é a visão da Seapa em relação a essas novas culturas? Goiás acaba tendo espaço para novos tipos de plantação, para além de soja e milho, por exemplo?
Sim. A visão da Secretaria da Agricultura é de que, quanto mais a gente puder diversificar, mais se reduz o risco. Quanto mais você participa de várias cadeias, automaticamente está diluindo o risco da monocultura. E Goiás é muito propício a isso. Nós estamos no centro do Brasil, com um mercado consumidor enorme, no eixo Goiânia-Brasília, onde milhões de pessoas possuem alto poder aquisitivo para consumir esses alimentos que aqui são produzidos.
Você citou o mirtilo, e eu não sabia. Mas a Emater está super envolvida no programa de cultivo de café, que já ocorre em cidades como Montividiu e Nova Crixás. Temos a uva também: quantas vinícolas abriram no Estado, na região de Pirenópolis, Corumbá e Jaraguá… Isso é maravilhoso!
Tem banana, melancia, que é uma fruta que nos coloca como campeões nacionais na produção. Uruana leva o título de capital, mas temos muitas plantações de melancia em Jussara, Britânia e Santa Fé de Goiás.

João Paulo Alexandre – Goiás pode virar um grande produtor de café, na sua visão?
Sim. O café é uma cultura de alto valor agregado, que gera muito emprego, porque ainda é muito dependente de mão de obra, e isso é muito bom. Além disso, é uma bebida que cresce mundialmente em uma velocidade absurda.
Uma das coisas que mais me impressionam é que Goiás tem potencial para virar um grande produtor de café.
O Estado tem algumas vantagens competitivas muito grandes. Nós estamos no centro do Brasil, com uma logística inigualável, um clima maravilhoso, terras férteis, gente trabalhadora e uma estrutura de governo que não atrapalha em nada.
Nós temos que regular. Um exemplo que eu tive foi na Agrodefesa, onde passei por uma aula de defesa sanitária e sobre a sua importância. Isso eu vou divulgar muito, porque a defesa sanitária é uma questão de sobrevivência no mercado internacional. Nós investimos na erradicação da febre aftosa e, agora, vamos trabalhar na erradicação da brucelose, em que teremos um dia D de vacinação contra a doença.
São várias ações que o governo está desenvolvendo, mas já adianto que é um Estado que dá gosto de morar e viver.
Ton Paulo – Uma das marcas da gestão de Daniel Vilela será essa conexão com o mercado internacional. Enquanto vice, ele liderou diversas missões diplomáticas para outros países. E uma das propostas que devem ser mandadas à Assembleia Legislativa será o InvestGO, que pretende abrir escritórios representativos de Goiás em outros países. A Seapa vai buscar a abertura de novos mercados?
Com certeza. Um dos mercados que buscamos muito adentrar é o do Japão para vender carne bovina. É um mercado para o qual o Brasil ainda não vende, e isso exige um esforço nacional, junto ao Ministério das Relações Exteriores, para que consigamos iniciar a comercialização de carnes para o Japão.
Não é um mercado gigantesco, mas é o que possui uma maior remuneração, ou seja, paga-se muito bem pelo preço da carne. E, ao conseguirmos a certificação para vender ao Japão, automaticamente vários outros países para os quais ainda não vendemos, como as Coreias, que também são muito rígidas, passarão a comprar.
É um grande passo que nós queremos dar com a carne bovina do Estado de Goiás e do Brasil. Isso já está em negociação, e uma das exigências do Japão é comprar carne apenas de lugares onde a febre aftosa foi erradicada sem vacinação, e esse status nós já conseguimos.
Ton Paulo – Queria uma avaliação sua agora como profissional da área de nutrição animal. Ano passado, Goiás apresentou um episódio horroroso que culminou na intoxicação que matou dezenas de cavalos por meio de feno. Como evitar esse tipo de situação? Aumentar a fiscalização ou o controle de qualidade?
Devido à complexidade das indústrias de suplementos, de rações e de alimentos, a regulamentação acontece única e exclusivamente pelo Ministério da Agricultura. Só o ministério certifica, fiscaliza e inspeciona. Os estados não entram nas indústrias de suplementos e de rações. Esse é um serviço de inspeção federal.
A empresa em questão tinha o Selo de Inspeção Federal (SIF), mas não sei se estava regular ou não. Acredito que o trabalho do Estado, nesse ponto, é, ao entender que há algum risco — por meio da fiscalização feita pela Agrodefesa — ao nosso rebanho, fazer a denúncia ao Ministério da Agricultura. Esse é o trabalho que cabe ao Estado.
Ton Paulo – Daniel Vilela trabalhando para ser candidato à reeleição e Ronaldo Caiado devendo tentar o cargo de presidente da República. Como o senhor enxerga, enquanto empresário e secretário, esses projetos de duas figuras politicamente importantes do Estado?
É um sonho que tem tudo para se tornar realidade, porque, com Caiado presidente e Daniel governador, nós temos a certeza de que vamos estar com o país e o Estado nas mãos de duas pessoas que já provaram que dão certo, que sabem o que estão fazendo. E daríamos passos largos rumo ao desenvolvimento do país, do Estado e do agronegócio. Esse é um sonho que eu quero ver concretizado e para o qual vou trabalhar.


