Adriano da Rocha Lima avalia que Daniel Vilela vai ser reeleito governador de Goiás no 1º turno
18 abril 2026 às 21h00

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Engenheiro por formação, Adriano da Rocha Lima tem longa atuação na área de tecnologia e gestão. Foi engenheiro da Nortel, multinacional de tecnologia, na Flórida, e na Promon Eletrônica; professor de pós-graduação em Telecomunicações da PUC-RJ; diretor de Engenharia da Claro Brasil, responsável pelo projeto e implantação das redes 2G e 3G no Brasil.
Em Goiás, foi secretário de Desenvolvimento e Inovação e, depois, titular da Secretaria-Geral de Governo. A atuação, técnica e ao mesmo tempo moldada nas articulações intrínsecas da política, não passou despercebida aos olhos do então governador Ronaldo Caiado, que fez de Adriano seu braço direito.
O agora ex-secretário se desincompatibilizou do cargo no início deste mês e hoje é um dos principais cotados para ocupar a vaga de vice na chapa com o governador Daniel Vilela, que tentará a reeleição. Nesta entrevista, Adriano da Rocha Lima elenca os feitos da SGG, que incluem eventos históricos e inéditos em Goiás, como o MotoGP, realizado em março deste ano, a revitalização do Parque Serrinha (ainda em andamento), o processo de digitalização do Estado, que ocorre em conjunto com outras secretarias, e outros.
Adriano, que tem a precisão e a dedicação também em seus hobbies (ele toca piano e é piloto de kart), faz duras críticas a Marconi Perillo e Wilder Morais (refere-se ao senador como um “preguiçoso” e ao ex-governador como um nome que sempre está envolvido em escândalos) e garante: está totalmente integrado ao projeto de Daniel e Caiado e conseguiu associar sua imagem ao do atual pré-candidato à Presidência da República justamente pelo trabalho realizado ao longo da parceria.
Euler de França Belém — Dentro do governo, você foi bem-sucedido devido ao seu perfil técnico, mas apenas isso não adianta quando falamos em política. E você tem dado um salto para entrar nesse campo político, já que seu nome está entre os cotados para ser vice de Daniel Vilela. Você tem interesse no cargo e, se houver o convite, você aceitaria?
Na minha vida inteira, eu nunca fui atrás de emprego; sempre fui convidado, e só vou para onde vejo que posso ser útil, contribuindo de alguma forma. Já me convidaram para outras posições dentro do poder público, que não faz sentido mencionar aqui, inclusive na área legislativa, na qual eu disse que até atuaria bem, mas o que sei fazer, de fato, é ser gestor. Minha formação, ao longo de toda a vida, foi voltada à gestão. Apesar de ter perfil técnico e de conhecer bem a tecnologia, essencialmente, eu gosto de gerir.
Estou com o governador Ronaldo Caiado desde a transição de governo, e ele sempre me delegou toda essa condução interna, enquanto fazia o respaldo político, intervindo diretamente sempre que necessário. No dia a dia, ele sempre confiou muito em mim. Não tenho dúvida de duas coisas: que posso contribuir no novo governo na posição de vice — até mesmo porque ela oferece mais abertura para atuação — e que podemos ir muito além da continuidade, trazendo ainda mais iniciativas inéditas.
E, deixando a modéstia de lado, não há ninguém dentro da estrutura de governo que tenha passado por todas as fases da gestão de Ronaldo Caiado e estado à frente dos principais projetos. Eu tenho essa legitimidade. Se eu for convidado, aceitarei e terei muito orgulho de poder representar o Estado de Goiás como vice-governador.
Sempre tive uma trajetória de sucesso no setor privado, mas esse reconhecimento fica limitado a um grupo. Quando se está no poder público, você é abordado por um usuário do transporte público que sente, no dia a dia, a transformação realizada nessa área — que, inclusive, se tornou referência no Brasil — e ele relata que o tempo de deslocamento diminuiu, que os terminais, antes sujos e mal conservados, hoje estão diferentes. As pessoas se emocionam.

A recompensa que isso proporciona é impagável. Por isso, se eu puder contribuir para o Estado de Goiás — e acredito que posso —, estou completamente disponível.
Euler de França Belém — Você já conversou com Ronaldo Caiado e com o governador Daniel Vilela sobre essa questão da vice?
Já conversei. Nunca na forma de pressioná-los, mas sempre me posicionando após provocações feitas por eles — não fui eu quem levou esse assunto. Reforcei que estou à disposição, respeitando, claro, a decisão política. Já conversei tanto com um quanto com o outro e aguardo a decisão do grupo político.
Euler de França Belém — Você sente que, no meio político, não há resistência ao seu nome?
Sinto bastante. Algumas pessoas do meio político têm a visão de que é necessário alguém que traga votos; por outro lado, há várias que dizem que não há ninguém que represente melhor esse perfil dentro do governo de Ronaldo Caiado do que eu, porque minha imagem está muito associada à dele. E isso não foi resultado de um esforço deliberado para que acontecesse, mas, sim, do trabalho realizado em Goiás e da parceria que tive com ele ao longo de todo esse tempo.
Por outro lado, o grupo político que represento é o do ex-governador Ronaldo Caiado, e percebemos, dentro desse meio, pessoas que preferem alguém considerado “mais neutro”, que represente o grupo do governador e que tenha origem técnica. Apesar disso, se eu fosse apenas técnico, não teria permanecido por esses sete anos. Não dá para ser somente técnico; é preciso saber lidar com o meio político.
Não há ninguém dentro da estrutura de governo que tenha passado por todas as fases da gestão de Ronaldo Caiado e estado à frente dos principais projetos. Eu tenho essa legitimidade
Não sou um político profissional, mas sei como funciona o jogo e sei lidar com todas as esferas da política. Ainda assim, o que sei fazer é gestão, muito focada na modernização do Estado.
Acredito que ela deve trazer mais qualidade de vida para as pessoas, e foi isso que busquei fazer ao longo desses anos, com iniciativas como a inteligência artificial, o transporte público, a questão das terras raras, o MotoGP, os biocombustíveis e o biometano — que foi outra antecipação nossa —, um combustível mais atrativo e barato, que não sofre, por exemplo, com o fechamento de um estreito, já que chega até a sede da Metrobus, vindo de Guapó, por meio de um gasoduto.
Euler de França Belém — Nos bastidores, o que se comenta é que, se Daniel Vilela estiver bem colocado nas pesquisas, você pode ser o vice; caso contrário, essa vaga pode ser de José Mário Schreiner (PSD), Luiz do Carmo (PSD), Paulo do Vale (PSD), Bruno Peixoto (UB) ou Gustavo Mendanha (PRD). O que pensa disso? Acredita que Daniel tem a possibilidade de ganhar no primeiro turno?
Acredito plenamente que Daniel Vilela possa ganhar no primeiro turno, até mesmo porque estamos saindo de um governo com 88% de aprovação nas últimas pesquisas realizadas. As últimas pesquisas que vi, há cerca de um mês — e isso, obviamente, pode mudar com o passar das semanas —, indicavam que havia um percentual muito baixo de eleitores que sabiam que Daniel era o pré-candidato de Ronaldo Caiado. Existe um desconhecimento muito grande, e essa associação acontece com o tempo. Tenho muita convicção de que Daniel pode vencer no primeiro turno.
Agora, não estou em disputa com ninguém. Não estou fazendo campanha para ser vice, nem competindo com A ou B. Sou o que sou, tenho trabalho entregue e, se julgarem que é importante para o Estado de Goiás que eu esteja nessa posição, estou pronto para encarar o desafio. E não ficarei chateado ou magoado caso a decisão seja diferente, porque não estou em busca do cargo de vice-governador, mas, sim, de contribuir com o Estado de Goiás.
Euler de França Belém — Por que votar em Daniel Vilela? Por que continuar com o projeto dele e de Ronaldo Caiado?
É muito simples. Basta pegar meia dúzia de estatísticas de 2018 e compará-las com os resultados do final de 2025, e você verá que o Estado de Goiás é outro. O que o cidadão daqui quer? Que se continue nesse progresso, com um Estado crescendo com um PIB equivalente ao dobro do Brasil, que possui o transporte coletivo mais moderno do país, que não é mais apenas o Estado do agro e no qual a inteligência artificial também tem protagonismo, que lidera a educação no Ideb e que conseguiu retirar todos os índices negativos na área de segurança pública, reduzindo-os entre 80% e 90%.
É o dia a dia do cidadão. Não são falácias. É um governo que melhorou a qualidade de vida das pessoas e trouxe progresso ao Estado de Goiás, com crescimento econômico. E isso impacta diretamente na vida da população. É por isso que acredito, sim, e não tenho dúvida de que a continuidade é o sentimento da população e do eleitor hoje, porque há um reconhecimento do trabalho que foi realizado.
João Paulo Alexandre — E como você acha que pode contribuir com o projeto de Ronaldo Caiado, que agora é pré-candidato à Presidência da República pelo PSD?
Acho que o ponto central da campanha dele é mostrar tudo o que foi feito em Goiás, que não foi um experimento teórico de PowerPoint com números bonitos, mas algo que realmente aconteceu. Nosso Estado pode ter uma população menor do que São Paulo, mas também tinha algumas das cidades mais violentas não apenas do Brasil, mas do mundo, e isso foi transformado.
Portanto, o desafio da campanha dele é demonstrar que pode fazer pelo país o que realizou em Goiás, com a experiência que adquiriu não apenas como chefe do Executivo em dois mandatos, mas também com toda a bagagem como parlamentar.

O Brasil passa por um momento de crise institucional e precisa de alguém com experiência para ocupar esse cargo, que saiba dialogar com o Congresso e com o STF e que não tenha pendências que o tornem suscetível a pressões.
Ronaldo Caiado tem independência e experiência prática, que contribuíram para a transformação de Goiás e que podem ser aplicadas em âmbito nacional.
Ton Paulo — Apesar de não ser uma disputa, podendo ser uma questão de escolha de Ronaldo Caiado e Daniel Vilela, qual é o seu diferencial em relação aos demais nomes cotados para vice?
Meu diferencial é o trabalho realizado pelo próprio Estado de Goiás e o fato de eu representar essa continuidade do governo de Ronaldo Caiado, desde o primeiro momento, em 2019, até os dias atuais. É isso, e pronto. Não tenho nada contra nenhum deles; aliás, alguns nomes são até próximos a mim, como o de José Mário, com quem sempre tive um bom relacionamento, pois eu era, até o mês passado, conselheiro do Sebrae, e ele era o presidente do Conselho do Sebrae, o que nos levou a ter interação em vários assuntos.
Com Luiz do Carmo, que assumiu o Senado após Caiado deixar a cadeira para se tornar governador de Goiás, também tive muita interação no primeiro momento, assim como com o irmão dele, Eurípedes do Carmo, que é prefeito de Bela Vista, passou pela GoiásFomento e foi presidente da Agehab na época em que ela era jurisdicionada à minha secretaria. Bruno eu conheço desde quando era líder do governo no primeiro mandato e, depois, se tornou presidente da Assembleia Legislativa; é alguém que tem uma capacidade de diálogo muito forte. Gustavo Mendanha foi com quem tive menos contato em relação aos demais, mas vejo que são nomes que têm história.
Volto a dizer que não estou disputando cargo nem fazendo campanha. Tenho minha história para oferecer e, se essa capacidade for adequada aos propósitos de Goiás, estou disponível.
Ton Paulo — E como foi a construção da sua filiação ao PSD, tendo em vista que já é de conhecimento amplo que todos os cotados para vice estão no partido, com exceção de Gustavo Mendanha?
Não houve muita construção. Eu estava no União Brasil, e Ronaldo Caiado, depois que migrou para o PSD, me pediu para me filiar ao partido. Hoje, faço parte da executiva do partido em Goiás, cuidando de toda a parte de tesouraria.
Ton Paulo — Ronaldo Caiado participou ativamente da montagem da chapa do PSD. O senhor também acompanhou esse processo?
Acompanhei, mas não de forma intensa, porque ainda estava à frente da Secretaria de Governo. Assim, eu não tinha muito tempo para acompanhar mais de perto, até mesmo porque as montagens de chapa e as filiações tinham que ser feitas até o limite da desincompatibilização.
Não sou um político profissional, mas sei como funciona o jogo e sei lidar com todas as esferas da política.
Ainda assim, ajudei bastante, inclusive na formulação da matemática para o quociente eleitoral, a fim de orientar as decisões.
Euler de França Belém — Acha que a base faz uns dez deputados federais?
Acho que faz.
Euler de França Belém — O bolsonarismo é muito forte no Brasil e, nas eleições de 2024, também mostrou sua expressão em Goiás, como em cidades como Aparecida, Goiânia e Anápolis, mas venceu apenas nesta última. Na eleição majoritária para o governo de Goiás, você acredita que o PL tem força para disputar um segundo turno?
Com certeza, tem força, mas é menor do que foi em 2024 e em 2022. E vou replicar o que vejo nas pesquisas: se você observar hoje, no cenário nacional, segundo um levantamento da Quaest, o bolsonarismo raiz — aquele mais radical — representa 12% da população. Esse número já foi maior, chegando a quase 30%. É menor do que o lulismo radical, que está em 16%, se não me engano.
Acho que está enfraquecendo, porque a população, não só de Goiás, mas do Brasil, está cansada dessa dicotomia de “não gosto do PT” ou “não gosto do Bolsonaro”. No fim das contas, nenhum dos dois fez um bom governo em nível nacional: Bolsonaro não conseguiu se reeleger em 2022, e Lula muito menos, pois o Brasil está com uma dívida altíssima, cuja conta vai chegar — melhor, já está chegando —, mas pode piorar ainda mais para a população se não houver mudança de rumo.
A relação dívida/PIB é algo muito elevado e vem aumentando continuamente, e o resultado disso é inflação alta, queda na oferta de empregos e piora na qualidade de vida das pessoas. Por isso, vejo que a população está se afastando desses extremos.
Euler de França Belém — Apesar de você dizer que acredita que Daniel Vilela ganha no primeiro turno, sempre há a possibilidade de um segundo turno. Diante disso, quem é mais provável a enfrentar o governador nesse cenário: Marconi Perillo ou Wilder Morais?
Eu vejo o seguinte: Marconi não tem chance alguma, em nenhum cenário, porque tem uma rejeição muito alta. Obviamente, por ter sido governador, começa com certo nível de recall, o que lhe garante um percentual inicial que não é baixo, mas a diferença entre esse piso e o teto é mínima e, quando a campanha começa de fato, com maior exposição de imagem, ele tende a cair para o piso, às vezes até abaixo dele.
Wilder, apesar de representar o PL, está muito enfraquecido em termos de apoio. O prefeito de Anápolis, que é do partido, está apoiando Daniel. Nem o principal pré-candidato ao Senado do próprio partido o apoia. Houve um evento recente para o qual ele sequer foi convidado. Eu o vejo muito isolado. E eu trabalhei com o Wilder: é meio preguiçoso, gosta muito de viajar e não é um cara de enfrentar uma campanha política.
João Paulo Alexandre — Quais são os seus pré-candidatos ao Senado?
Com certeza, Gracinha Caiado (UB), e depois vou avaliar o outro nome, porque temos excelentes pré-candidatos: Vanderlan Cardoso, que é do PSD; Zacharias Calil (MDB), que também é um pré-candidato forte; e Alexandre Baldy (PP), que tem grande experiência, já foi ministro. Agora, preciso ver o andamento da campanha para definir qual seria essa segunda opção mais adequada — e aqui falo de opinião pessoal.
Não tenho dúvida em dizer que, por exemplo, Vanderlan foi uma pessoa próxima, pois ele foi presidente da Comissão de Ciência e Tecnologia do Senado na mesma época em que eu, nos primeiros anos, fui secretário de Ciência e Tecnologia. Tive que ir várias vezes a Brasília para ajudá-lo, dar opiniões sobre pautas que estavam sendo tratadas, e acabei criando muita proximidade. Acho que ele é um excelente profissional. Zacharias Calil tem um trabalho reconhecido mundialmente na área da saúde. Enfim, é algo que precisa ser avaliado.
Euler de França Belém — E como você avalia um quarto pré-candidato, mesmo não sendo da base, como o Gustavo Gayer?
Acho que não haverá nenhum formalismo em torno disso, até porque a oportunidade de formalização já passou. Era naquele momento que havia um pré-acordo com o PL para a composição de chapa, mas não avançou, principalmente por imposição do Wilder. Vejo isso como um desenrolar natural das circunstâncias.

Vamos observar qual deles terá maior capacidade de mobilização, mas, evidentemente, os nossos pré-candidatos são os que estão na base: Gracinha, Vanderlan, Zacharias e Baldy.
João Paulo Alexandre — Após deixar oficialmente o governo de Goiás, é notório que Ronaldo Caiado já tem uma agenda bem intensa, com entrevistas, participações em eventos e outras atividades. Depois disso, vocês tiveram tempo para conversar, e o senhor chegou a ser convidado para compor o plano de trabalho dele nesta pré-campanha?
Tenho conversado com ele diariamente, apoiando essa estruturação inicial da pré-campanha para presidente, pois ela exige um planejamento muito robusto. Tenho trabalhado bastante ao lado dele, ajudando nesses primeiros momentos, e continuarei dando esse apoio pelo tempo que for possível.
João Paulo Alexandre — Já teve vontade de concorrer a outro cargo no meio político, como deputado estadual ou federal, por exemplo?
Já surgiu essa oportunidade, mas não posso dizer que tive vontade. Posso afirmar que isso já foi cogitado, mas nunca levei adiante. Não gosto de ter vários planos na mesa. Como disse, vou para onde acredito que posso contribuir mais, e isso também é uma questão de perfil.
Marconi não tem chance alguma, em nenhum cenário, porque tem uma rejeição muito alta
O meu é muito mais voltado ao Executivo do que ao Legislativo. Não que eu não possa contribuir, mas é um perfil diferente.
Euler de França Belém — Como você avalia a pré-candidatura de Marconi Perillo com essa história do Banco Master, em que ele teria recebido R$ 14 milhões por consultorias?
Qualquer rolo que aconteça no Brasil, se você procurar um pouco, acaba encontrando o Marconi Perillo envolvido de alguma forma. No fim, é isso. Se olharmos a situação em que Goiás estava em 2018, eu não tinha, até então, experiência no poder público e repetia a cada momento: “O que estou fazendo aqui?”.
A todo instante, fornecedores batiam à minha porta cobrando, dizendo que haviam levado calote do governo, que já estavam há vários meses sem receber e que a empresa iria quebrar. Havia servidores públicos com salários baixos, que dependiam daquele dinheiro para sobreviver e relatavam que já tinham tirado os filhos da escola por não conseguirem mais pagar. Era uma situação muito difícil.
Além disso, havia uma desorganização total dentro do governo, com pessoas acomodadas e com medo. Era um cenário caótico. Essa realidade foi transformada e, mesmo com a pandemia no meio do caminho, não demorou muito para conseguirmos reerguer o Estado, que se tornou a potência que é hoje.
Agora, vejo da seguinte forma: Marconi é um desastre em vários aspectos, não apenas na condução do governo, mas também no campo do caráter e da ética. É impensável ter um perfil assim gerindo o Estado.
MotoGP movimentou R$ 1,1 bilhão em Goiás
Ton Paulo — O senhor esteve à frente da Secretaria do Governo de Goiás e, por meio dela, vários eventos foram realizados aqui no Estado. O mais recente deles foi o MotoGP. Em números, o que esse evento movimentou para Goiânia e para Goiás?
Nós tivemos um custo inicial que foi maior, devido a todas as adequações que tiveram de ser feitas, que foi de R$ 250 milhões. É claro que, no segundo ano, se aprende muito em relação ao primeiro, pois se vê a necessidade de melhorar, mas são coisas mínimas.
Mas a promotora do evento, que foi a Motorsports, contratou a Fundação Getúlio Vargas para a produção de um estudo nos dias do evento. Nele, ficou constatado que o impacto econômico do MotoGP foi de R$ 1,140 bilhão, sendo R$ 706 milhões diretos e R$ 434 milhões indiretos, gerados aqui em Goiás. Foram R$ 173 milhões em arrecadação de impostos, 10 mil profissionais envolvidos no evento e 10.838 postos de trabalho criados, sendo 75% diretos e 25% indiretos, que envolvem organização, manutenção, limpeza, segurança e alimentação.
O resultado foi bem acima da nossa expectativa, que era de R$ 868 milhões, e fechamos com R$ 1,1 bilhão. O gasto médio do turista que veio para Goiás, durante o evento, foi de R$ 7 mil, e, só de patrocínios pela produtora do evento, foram arrecadados R$ 91 milhões.

Ao todo, foram 148 mil pessoas que passaram pelo Autódromo. Isso porque resolvemos restringir, pois há demanda para vir o dobro do público. Já foi grande com essa quantidade; imagina com 300 mil pessoas? Poderia colapsar a cidade. Outro valor importante é que, se fôssemos contratar para conseguir essa mídia espontânea que o evento proporcionou, ao levar Goiás para o Brasil e o mundo em um final de semana, seria necessário desembolsar R$ 1,8 bilhão.
Ton Paulo — E como foram as tratativas para trazer o evento de volta após mais de 20 anos desde a última edição realizada em solo goiano?
No início de 2024, o ex-governador Ronaldo Caiado e eu fomos surpreendidos por uma pessoa que apresentou uma papelada e afirmou que não haveria a etapa do MotoGP na Argentina no ano seguinte e que era a oportunidade de trazer o evento de volta para Goiás. Ronaldo Caiado olhou meio cético, mas pegou os documentos e pediu para eu analisar, a fim de saber se fazia sentido e se tínhamos condições de efetivamente trazê-lo.
Nós chamamos alguns advogados para analisar a parte jurídica e pedi ao Instituto Mauro Borges que fizesse um estudo de retorno econômico. Até aquele momento, não tínhamos mensurado, mas imaginávamos que seria necessária alguma intervenção no autódromo, por menor que fosse; ainda assim, seria necessária, até mesmo pelo nível de exigência.
Como o resultado dos estudos do IMB mostrou certa viabilidade para que o evento acontecesse, nós fomos à Dorna, que é a empresa que detém os direitos do MotoGP no mundo e que tem sede em Madri, para entender se havia essa possibilidade real de a competição ocorrer em solo goiano. Quando fomos à Espanha, em julho de 2024, ficamos sabendo que haveria uma etapa do MotoGP em Assen, na Holanda, e fomos convidados pelos organizadores a irmos para entender como funcionava o Grande Prêmio de Motovelocidade, e eu fiquei impressionado com o tamanho, já que eu conhecia tudo até então pela televisão. Para vocês terem uma ideia, o MotoGP só rivaliza com a Fórmula 1 em termos de público.
Na segunda-feira, fomos recebidos pelo CEO da Dorna, Carmelo Ezpeleta, e pelo filho dele, Carlos, que é quem cuida de toda a parte operacional e esportiva, além de dois advogados. Eles conheciam o Autódromo de Goiânia, já o tinham estudado e gostavam do traçado, mas o Brasil estava em descrédito com eles. Parece que Brasília, por duas vezes, chegou a assinar um acordo, comprometendo-se a realizar o evento, mas não conseguiu ao final. Isso gerou certa insegurança.
Durante a conversa, nós deixamos claro que só iríamos realizar o evento se tivéssemos efetivamente condições de entregá-lo. Nós pedimos todas as informações necessárias, mas não demos uma resposta de imediato. Fomos analisar, pedi que houvesse um canal aberto para sanar dúvidas posteriores, mas queríamos saber se poderíamos nos candidatar. E isso não era porque havia vários interessados. A régua de exigência é tão alta que muitas cidades nem se candidatam.
Depois de todo o trâmite, nós definimos a data para a realização das provas: março de 2026, que seria o primeiro mês da temporada, já que não dava tempo para ser em 2025. Eles concordaram e, em dezembro do mesmo ano, nós assinamos o contrato com a Dorna, em um evento realizado no Oscar Niemeyer. O contrato foi firmado em três partes: o Estado de Goiás, que é dono do autódromo; a Dorna, que é detentora dos direitos do MotoGP; e o promotor, que, neste caso, foi a Motosport.
Euler de França Belém — Houve conversas de que, devido à instabilidade causada pelo conflito no Oriente Médio, haveria a possibilidade de o MotoGP voltar a Goiânia ainda este ano. Isso procede?
Isso é papo. É muito difícil que isso aconteça. Primeiro, porque a organização de um evento desses não pode ser improvisada. Uma coisa é ele ser adiado: estava previsto para ser realizado no início do ano e passar a acontecer no final. Agora, um outro evento neste ano não é impossível, mas isso não foi projetado em nenhum momento. Para se ter uma ideia, esse planejamento levou um ano e meio.
E isso me remete ao fato de que, em menos de dois anos, nós negociamos com eles, assinamos o contrato, reformamos o Autódromo e conseguimos a homologação da Federação Internacional de Motociclismo, que é a única no Brasil que pode receber o MotoGP. É difícil encontrar, até no setor privado, uma velocidade tão grande de realização de um evento desse porte. Não é um evento qualquer. É o maior evento que já houve na história de Goiás. Mesmo se você considerar os grandes shows que já tivemos, a vinda do Papa, nada movimentou tanto quanto a MotoGP.
Euler de França Belém — O Autódromo Internacional Ayrton Senna tem estrutura para receber a Fórmula Indy?
Tem. A única coisa necessária a ser feita é chamar a Federação Internacional de Automobilismo (FIA), mas isso tem um custo, porque eles cobram para realizar a vistoria e emitir o certificado de homologação. Mas todos os requisitos já foram cumpridos. Não é necessária nenhuma intervenção estrutural no Autódromo para obter a homologação.
Ton Paulo — A Secretaria de Governo chegou a cogitar um evento nos moldes do “Todo Mundo no Rio”, que é realizado na Praia de Copacabana?
Sim. Eu, inclusive, cheguei a conversar, quando estive no Rio Open, com o Bruno Lima, da empresa Live Nation, que é uma das maiores do mundo em promoção de shows artísticos e que foi a responsável por trazer shows como o Bruno Mars para o Brasil. Ele disse que tinha muito interesse em vir para Goiânia, mas me relatou que, por volta de 2016 e 2017, eles tentaram trazer um megashow para o Serra Dourada, porém as conversas com o governo anterior foram tão anormais que eles desistiram.
Eu conversei com ele que o momento atual é diferente, mas o Serra Dourada entrou em reforma, e sugeri aguardarmos para que tenhamos uma praça de eventos apropriada para esses shows internacionais. Hoje, não temos esse local. O autódromo, por exemplo, não pode receber shows. Mas acredito também que, não apenas isso, existem outras oportunidades para movimentar Goiânia.
João Paulo Alexandre — Mas o Autódromo de Interlagos, em São Paulo, recebe shows e até mesmo festivais, como o Lollapalooza e o The Town. Ele tem certo desgaste por receber esses eventos?
Não. O que aconteceu em Goiânia foi o seguinte: eu não morava aqui, mas disseram que o autódromo começou a ser utilizado para eventos do tipo micaretas, com trio elétrico. No entanto, eram eventos que ultrapassavam as 22h, e os moradores da região ingressaram com uma ação perante o Ministério Público, que resultou em uma liminar suspendendo o uso do local para shows; posteriormente, houve a assinatura de um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC).

Mas, agora, tudo isso está sendo revisto dentro de um critério responsável. Não é que ele não possa ser utilizado, mas é preciso respeitar o horário, o limite de emissão de som, e existem várias tecnologias hoje que permitem mitigar isso, inclusive com o plantio de árvores, que ajudam a diminuir a poluição sonora. Na vida é assim: quando algo extrapola muito, a primeira reação é proibir tudo e, depois, vai-se retornando à racionalidade.
João Paulo Alexandre — Voltando a falar um pouco sobre o MotoGP, o senhor disse que o evento tem capacidade de receber o dobro do público registrado este ano. Ficou algum tipo de planejamento sobre o que deve melhorar no próximo ano? Trago até um exemplo, como a hospedagem, em que turistas ficaram em várias cidades, como Pirenópolis, Caldas Novas e até Brasília…
É verdade, mas é importante ressaltar que isso é uma tendência mundial. Quando fui assistir à prova em Assen, que é uma cidade pequena, eu me hospedei em Amsterdã. A distância é a mesma de Goiânia a Brasília, cerca de 200 quilômetros. Portanto, isso é normal. Agora, o pessoal da Dorna falou algo muito interessante: que o Autódromo de Goiânia tem uma característica que funciona como uma joia — ele é próximo do centro urbano. O centro de Goiânia fica a poucos quilômetros, e isso é muito difícil de se encontrar no mundo.
Claro que eles também apontaram que uma das limitações, aqui, para aumentar a quantidade de eventos na cidade é a nossa rede hoteleira. Caldas Novas tem uma rede maior do que Goiânia, por exemplo. Houve hotéis lotados em Brasília. Agora, para esse cenário mudar na capital goiana, é preciso seguir o exemplo que vi no Rio de Janeiro, onde o prefeito à época, Eduardo Paes, fez uma lei de incentivo que concedia isenções por determinado período de tempo, atreladas à velocidade de implantação da rede hoteleira. Ou seja, se a pessoa conseguisse disponibilizar determinado número de leitos em um ano, ganhava tais benefícios; se fosse em dois anos, o benefício seria menor. Tudo isso visava estimular o investimento acelerado em novos quartos, e deu muito certo no Rio.
Eu tive até uma breve conversa sobre isso com Sandro Mabel, principalmente porque é necessária uma lei municipal de incentivo para viabilizar a ampliação da rede hoteleira. Goiânia hoje conta com vinte e poucos mil leitos na rede oficial, e, de fato, isso é pouco para um evento desse porte.
Goiás sempre esteve à frente do que seriam tendências mundiais
Ton Paulo — Vamos falar de Campus Party, que é um evento muito importante na área da tecnologia: quais foram os principais avanços articulados pela pasta nesse segmento?
A Campus Party é apenas um elemento dentro de um ecossistema planejado. A primeira coisa que cabe destacar do papel da Secretaria-Geral é que, nesses sete anos e três meses do governo de Ronaldo Caiado, nós conseguimos identificar oportunidades que eram tendências mundiais, mas que, naquele momento, ainda não eram muito se falado por aqui. Vou começar com a inteligência artificial: em 2019 — primeiro ano de governo — ouvia-se falar sobre IA, mas sem qualquer comparação com o protagonismo que ela tem hoje.
Nós identificamos um grupo de pesquisa dentro da Universidade Federal de Goiás que tinha uma qualidade muito boa de pesquisadores e percebemos esse potencial de crescimento da IA. Inclusive, era um grupo que estava descrente em relação ao governo estadual, já que projetos de pesquisa financiados antes de 2019 não foram pagos, e eles foram obrigados a parar o projeto no meio, o que criou uma resistência muito grande a firmar novos acordos com o governo.
Então, junto com a UFG, nós criamos o Centro de Excelência em IA, em dezembro de 2019, em um evento realizado no Palácio Pedro Ludovico. Colocamos R$ 12 milhões no CEIA, acreditando no crescimento da inteligência artificial. A contrapartida era a criação de um curso de graduação em IA, que seria o primeiro do Brasil e da América Latina, além de transformar esses R$ 12 milhões em R$ 50 milhões, em quatro anos, oriundos da iniciativa privada. A partir desse momento, o governo não entraria mais com recursos, e o CEIA passaria a ser independente.
O curso de graduação já formou de três a quatro turmas, é o mais concorrido de Goiás, desbancando, há dois anos, Medicina, e o segundo mais concorrido do Brasil. Dos R$ 50 milhões, que eram a meta, eles captaram R$ 500 milhões. Ou seja, dez vezes mais do que o compromisso inicial, e hoje há uma fila de empresas que querem investir no CEIA, mas há certa prudência devido à capacidade de entrega. Uma das limitações é justamente a capacidade computacional de data center.

Lembro também dos computadores da NVIDIA, mas isso é apenas a ponta do iceberg, que nos coloca muito à frente de outros estados. Do mesmo modo que fomos pioneiros na legislação para inteligência artificial — que não surgiu “do nada” —, nós tínhamos legitimidade para promover uma lei. Só para se ter uma ideia, o Brasil hoje tem cerca de 211 milhões de habitantes. Aproximadamente 150 milhões de brasileiros utilizam, em algum aplicativo instalado no celular, produtos desenvolvidos pelo CEIA, muitas vezes sem saber, pois estão embarcados em plataformas como iFood e Globoplay, ou seja, dentro do setor privado. Essa dimensão mostra a proporção que o centro de pesquisa atingiu.
Não tenho dúvida em afirmar que o CEIA é o centro de desenvolvimento de inteligência artificial de maior relevância do hemisfério sul do planeta.
Ton Paulo — Outro projeto interessante que estava sendo viabilizado ainda na sua gestão foi o do Parque Tecnológico da Serrinha. Como ele está atualmente? Qual é a previsão de entrega dessa revitalização?
Nós recebemos a doação desse projeto e o ponto em que ele está hoje é o seguinte: existe um fundo da Secretaria de Estado do Meio Ambiente que é justamente para recomposição ambiental, reforma de partes etc. E estava se fechando um entendimento jurídico que já havia demonstrado a viabilidade do uso de recursos desse fundo para fazer a revitalização do parque, seguindo o que constava no projeto doado.
A previsão de entrega é ainda para 2026. A data certa eu não sei precisar, porque ainda dependia dessa fonte de recursos, que já estava bem encaminhada quando eu saí da secretaria. A previsão é que ele conte com todo o sistema de inteligência previsto no início.
Ton Paulo — E o que virou o Fundo de Estabilização Econômica de Goiás, o FEG?
Ele existe até hoje. Não sei dizer se já recebeu algum aporte neste ano, porque é necessário consolidar os resultados do ano passado, fazer a apuração e há uma regra que define quanto deve ser depositado anualmente. É preciso verificar agora, com as contas fechadas, qual será o valor a ser destinado ao fundo.
É importante lembrar que, desde a sanção dessa lei, houve algumas mudanças, como a saída do Regime de Recuperação Fiscal (RRF) e a migração para o Propag.
Ton Paulo — O governador Daniel Vilela tem sinalizado que este é um governo de continuidade e que deve seguir preservando as políticas que deram certo, mas, ao mesmo tempo, como qualquer governante, caminha para deixar a própria marca. Na sua avaliação, qual deve ser?
Vejo os movimentos de Daniel muito no sentido da modernização do Estado. Trata-se de uma continuidade com alguns incrementos que devem dar ainda mais sustentabilidade ao que já foi feito. A tecnologia é um desses incrementos. Temos muitas ações em andamento que já estavam previstas para o segundo mandato, que, na prática, ainda não se encerrou, e o plano de governo que elaboramos vai até o final deste ano.
Entre esses avanços, estão a ampliação da inteligência artificial, com a estruturação de data centers, e o programa de fibra óptica, o Goiás de Fibra, que tende a transformar o Estado de uma maneira inédita. Inclusive, fui convidado, há cerca de um mês, como gestor público, para apresentar essa iniciativa em um dos maiores congressos de tecnologia do mundo, realizado em Barcelona, justamente por se tratar de uma antecipação de tendência.
Wilder, apesar de representar o PL, está muito enfraquecido em termos de apoio. […] E eu trabalhei com o Wilder: é meio preguiçoso, gosta muito de viajar e não é um cara de enfrentar uma campanha política
Hoje, há um movimento global de expansão das redes de fibra óptica, pois, sem essa infraestrutura, não é possível levar os benefícios da inteligência artificial à população em diferentes municípios. Em outras palavras, não se consegue democratizar esses avanços. Para isso, é necessária uma rede de conectividade robusta, diferente da que chega às residências: trata-se de uma estrutura que interliga órgãos do Estado e data centers, garantindo fluxo de informação em alta velocidade — o que se chama de baixa latência, ou seja, menor tempo de resposta entre pontos.
Essa base tecnológica viabiliza diversas aplicações no serviço público e impacta diretamente áreas como saúde, educação e segurança pública, ampliando a qualidade dos serviços oferecidos ao cidadão.
Ton Paulo — A Goiás Tecnologia também entra nisso?
A Goiás Tecnologia é um desenho que fiz junto com a Procuradoria Setorial do Estado, que consiste em integrar a Goiás Telecom a uma subsidiária da CelgPar, a Planalto, na qual alocamos os ativos que não haviam sido privatizados, além de profissionais que poderiam contribuir nessa nova fase.
O projeto prevê, basicamente, a alteração do estatuto da empresa para que ela e a Planalto passem a ter os mesmos códigos de atividade econômica. A Planalto, que era voltada para energia solar, teve seu estatuto atualizado para atuar também em telecomunicações e tecnologia da informação. Já a Goiás Telecom não atua em energia solar.
A atualização da Planalto foi mais simples, por se tratar de uma subsidiária da CelgPar. Como a Goiás Telecom está vinculada diretamente ao Estado, é necessária uma lei para incluir, em seu escopo de atuação, essas novas atividades. É importante destacar que a Planalto ficará subordinada à Goiás Telecom.
Ton Paulo — A Celg então chegou ao fim, já que a CelgPar era o último vestígio ainda existente. Como o senhor avalia tudo isso? O governo chegou a ficar satisfeito com o resultado do leilão…
Sim, houve ágio no processo, o que resultará em uma entrada de quase R$ 300 milhões nos cofres do Estado. Além disso, haverá o recebimento de uma série de imóveis, incluindo o Clube da Rua 90, que é uma área bastante valorizada em Goiânia.
A empresa entrou recentemente em processo de liquidação, no qual um liquidante será responsável por conduzir os trâmites até sua efetiva extinção. Foi realizado um Plano de Demissão Voluntária, ao qual alguns funcionários aderiram, enquanto outros foram transferidos para a Planalto.
Todo o processo está em fase final, e a Celg deverá ser efetivamente encerrada nos próximos meses.
Euler de França Belém — E o leilão da Parceria Público-Privada da Saneago foi encerrado?
Por enquanto, sim. Se criou uma grande repercussão em torno de algo que não corresponde a uma privatização. A PPP funciona da seguinte forma: é estabelecida uma parceria com o setor privado para atender determinada região com maior capacidade de investimento. A empresa continua com o controle majoritário de suas ações — a Saneago é uma sociedade de economia mista, mas a maior parte permanece pertencente ao Estado.
A PPP é necessária para ampliar a capacidade de investimento e levar saneamento a mais municípios de forma mais rápida. Trata-se disso. Evidentemente, há diferentes caminhos para alcançar esse objetivo, mas o modelo de PPP é, na minha avaliação, uma alternativa inteligente. Ainda assim, entendo que o projeto precisa ser redesenhado, considerando o processo já realizado, para que possa ter êxito.
Euler de França Belém — Qual é a sua avaliação da regulamentação das big techs?
Nós temos uma lei que trata exatamente disso. A principal característica é não exagerar nessa regulamentação, que deve ser baseada em princípios, e não exaustiva, até porque a tecnologia — especialmente com os avanços da inteligência artificial — evolui rapidamente. Não é possível prever todas as mudanças para criar uma regulação que abarque todas essas nuances.
Veja como estruturamos: estabelecemos princípios que permitem o avanço da IA, mas que preveem restrições em caso de mau uso. Todo o desenvolvimento deve respeitar os direitos humanos e individuais, e os códigos devem ser abertos e passíveis de auditoria por qualquer interessado. A lei também prevê revisão a cada dois anos, período em que os deputados devem analisar o que mudou para manter ou alterar os artigos.
Além disso, foi criado o Núcleo de Ética da Inteligência Artificial (NEIA), que já está constituído e realizou reuniões para tratar de questões controversas que não estão explicitamente previstas na legislação.
Tudo isso busca evitar que os mecanismos de avanço sejam cerceados. Uma metáfora ajuda a entender: é como construir um carro com um freio excelente, mas sem motor — nesse caso, o freio nem seria necessário. O modelo que defendemos busca equilibrar aceleradores, que incentivam o desenvolvimento, e freios, que atuam quando há necessidade. Ou seja, a regulação entra em ação com o sistema em funcionamento, não antes de ele existir.
Ton Paulo — Ainda à frente do Governo de Goiás, Ronaldo Caiado assinou o memorando das terras raras com os Estados Unidos, que foi criticado pelo presidente Lula e rebatido pelo então governador. Como você avalia esse momento para Goiás?
É outra tendência antecipada. Em 2019, quando quase ninguém sabia o que eram terras raras, a não ser estudantes de Química, nós licenciamos a mina de Minaçu, da Serra Verde, onde houve o início da produção entre 2021 e 2022. Hoje, trata-se da segunda maior reserva de terras raras pesadas do mundo ocidental, atrás apenas da China. A relevância que Goiás passou a ter é significativa.
O governo é responsável, conforme previsto na Constituição, pela regulação do que está no subsolo. E, quando esse recurso é extraído, surge a questão: ele será simplesmente exportado como matéria-prima, sem gerar valor agregado no Brasil e em Goiás? O que fizemos com esses acordos foi criar mecanismos para industrializar o Estado e fomentar a pesquisa em solo goiano após a extração do minério. Não queremos repetir o que ocorreu no período colonial, quando o ouro era enviado para fora sem agregar valor internamente.
Temos um governo que melhorou a qualidade de vida das pessoas e trouxe progresso ao Estado de Goiás, com crescimento econômico
O acordo prevê transferência de tecnologia e investimentos para que a cadeia produtiva das terras raras seja estruturada aqui: desde a primeira separação, passando pela criação de ligas metálicas, até a produção de ímãs permanentes.
Não há invasão de competência federal. Trata-se de uma interpretação equivocada, até mesmo de má-fé, ao se afirmar isso. O que ocorreu, na prática, foi que, ao perceberem o protagonismo de Goiás na condução de um acordo dessa magnitude, houve uma reação por parte do governo federal diante da perda de protagonismo no tema.
Adriano da Rocha Lima como você nunca viu
Euler de França Belém — Um cientista que você admira?
Vou citar um cientista e um intelectual que admiro muito: Milton Santos e Albert Einstein. Para mim, são pessoas extraordinárias.
Euler de França Belém — E um cientista brasileiro?
Temos o professor Anderson Soares, da Universidade Federal de Goiás, que é conceituadíssimo.
Euler de França Belém — Dos poderosos das big techs, você admira algum deles?
Acho que há fases. Bill Gates teve a sua fase, junto com Steve Jobs, fundamentais para o desenvolvimento da tecnologia nas décadas de 1980 e 1990. Um dos grandes marcos foram os microcomputadores, que vieram desse período.
Euler de França Belém — E um dos tempos atuais que você acha mais importante?
O próprio Sam Altman, que tive o prazer de conhecer e que é um daqueles jovens com capacidade de perceber mudanças antes que se tornem tendências consolidadas.
Euler de França Belém — Um escritor, podendo ser brasileiro ou internacional, que você admira?
Vinicius de Moraes, não só pela poesia, mas também pelas obras transformadas em música, base da bossa nova no Brasil.
Euler de França Belém — Qual foi o livro fundamental da sua vida?
Ética, de Baruch Espinosa. É um livro que resume o comportamento humano de forma incrível.
Euler de França Belém — E um cantor?
Minha banda preferida é Titãs, mas ouço Caetano Veloso, Gilberto Gil. Sou fã de Marisa Monte, que considero a melhor voz feminina do Brasil. Agora, não há banda internacional que se compare ao Queen. A composição de Bohemian Rhapsody é extraordinária.
Euler de França Belém — Qual é a música brasileira mais linda da história?
Águas de Março, de Elis Regina e Tom Jobim, e Samba do Avião.
Euler de França Belém — Qual é o seu hobby?
Tocar piano e pilotar kart. No piano, toco tanto o clássico quanto o popular. No kart, disputo o campeonato goiano e o brasileiro, estando entre os cinco mais rápidos da categoria sênior em Goiás no tempo de volta.
Euler de França Belém — Ernesto Nazareth ou Villa-Lobos?
Heitor Villa-Lobos.
Euler de França Belém — Uma cantora goiana?
Maria Eugênia.
Euler de França Belém — E um cantor goiano?
Pádua e Marcelo Barra.
Euler de França Belém — Um artista plástico?
Antônio Poteiro e Siron Franco.
Euler de França Belém — Um lugar de Goiânia de que você mais gosta?
Parque Flamboyant.
Euler de França Belém — Um grande filme?
Era Uma Vez na América, baseado na obra de Harry Grey. Gosto muito também dos filmes de Giuseppe Tornatore, como Cinema Paradiso e Uma Simples Formalidade, com Gérard Depardieu e Roman Polanski.
Euler de França Belém — Um filme brasileiro?
Ainda Estou Aqui. Também considero O Agente Secreto mais sofisticado, embora o primeiro seja mais impactante emocionalmente.
Euler de França Belém — Um ator?
Wagner Moura.
Euler de França Belém — Uma atriz?
Natália Timberg, Fernanda Montenegro, Laura Cardoso e Adriana Esteves.

