Aava Santiago garante que não será candidata a governadora bancada pelo PT
02 maio 2026 às 21h00

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Vereadora por Goiânia mais votada em 2024, Aava Santiago é conhecida pelo seu posicionamento direto na política. Foi eleita parlamentar pela primeira vez em 2020, com atuação focada na defesa de mulheres, escolas públicas e territórios periféricos, unindo vivência evangélica a pautas progressistas. Aava também é socióloga, formada pela Universidade Federal de Goiás (UFG).
Aava destaca que preza pelo diálogo como alternativa para debater políticas importantes para a sociedade como um todo. No primeiro trimestre deste ano, deixou o PSDB, partido no qual permaneceu por duas décadas, para assumir a executiva estadual do PSB, sigla do vice-presidente da República, Geraldo Alckmin. No meio do caminho, entretanto, Aava foi pega de surpresa: o que parecia ser uma saída pacífica se transformou em um processo que tramita na Justiça por infidelidade partidária.
Nesta entrevista ao Jornal Opção, Aava destacou que já protocolou sua defesa, ressaltando o histórico do PSDB de judicializar outras mulheres que deixaram o partido para ingressar em outra sigla. Aava também falou sobre polêmicas envolvendo a formação de chapas do PSB, como o desconforto gerado pela chegada de Rubens Marques ao partido, e destacou que a preocupação é válida, mas demonstra a importância de redobrar o trabalho para obter êxito nas urnas.
A parlamentar ainda comentou sobre sua atual relação com o pré-candidato ao governo de Goiás pelo PSDB, Marconi Perillo, sobre os rumores de que seu nome pode ser lançado à disputa pelo Palácio das Esmeraldas, e fez análises sobre a gestão de Sandro Mabel e os movimentos crescentes de ódio contra as mulheres.
Ton Paulo – Como ficaram as chapas para deputados estaduais e federais deste ano? Desde que assumiu a presidência do PSB, a sua principal defesa foi ter uma chapa competitiva para fortalecer o partido em Goiás. Como isso foi desenhado?
Eu estou muito satisfeita com os resultados que conseguimos costurar de maneira muito discreta, passando um pouco longe dos holofotes e também dos sustos das grandes chapas, porque vimos algumas nascerem gigantescas e morrerem à míngua, e vice-versa. Na minha avaliação, a pior coisa que podemos experimentar enquanto dirigente partidária é apresentar uma chapa com um nome e esse mesmo nome estar em outras cinco chapas, e os grandes quadros da política goiana passaram por isso. Nós não passamos, porque optamos por fazer a consolidação de um projeto político de médio e longo prazo.
Hoje, eu tenho muitos vereadores que estão no partido e que são pré-candidatos a deputado federal, e isso é algo que prezo muito, tanto por ser vereadora e acreditar na vereança quanto pelo fato de nos dar uma musculatura eleitoral, já que esses nomes foram muito bem votados nas suas cidades. Posso citar aqui Tales de Castro, que é vereador em Aparecida de Goiânia — nosso segundo maior colégio eleitoral —; Sérgio Bravo Júnior, que foi o vereador mais votado da história de Senador Canedo; Jhonatha Fernandes, vereador de Uruaçu; e Múcio Santana, vereador de Goianésia. Todos esses estão como pré-candidatos a deputado federal e são nomes que, de fato, podem disputar uma segunda cadeira, na medida em que a chapa foi se mostrando muito equilibrada.
A chapa como um todo está fazendo entre 240 mil e 250 mil votos e, nisso, eu estou me colocando com 70 mil votos. Na última eleição, por exemplo, o MDB fez dois deputados com 250 mil votos. Ou seja, estamos falando de uma segunda cadeira muito real. Além dos nomes que já citei, temos ainda Lucilene Kalunga, que teve 12 mil votos para a estadual; Felipe Fonseca, que teve 11 mil para estadual e que também será candidato a federal; temos ainda a Dra. Ivane, que é um quadro muito interessante de Mineiros e que teve 6 mil votos na última eleição. Temos também Natália Rinco, que é filha do ex-prefeito de Alto Paraíso, Divaldo Wilian Rinco, que foi assassinado por motivos políticos, e há uma grande comoção em torno do nome dela na cidade. De maneira particular, temos ainda algo que dá um molho muito interessante, que são os nomes de Isaura e Tatiana Lemos, que estão filiadas ao partido. Tatiana vem para federal, e Isaura tem participado internamente do processo de restabelecer o partido. E nós temos um quadro histórico do Partido Liberal pré-bolsonarismo, que é Cláudio Meireles, que também será candidato a deputado federal. Tatiana teve 38 mil votos quando disputou para deputada, e Cláudio, em 2022, obteve 32 mil votos.
O grande diferencial nessa chapa é que 95% dela é testada em urna, e todo mundo tem voto, e os que ainda não foram testados contam com uma musculatura, história e construção local muito interessantes. Se compararmos com a última eleição, com as chapas proporcionais, havia alguns puxadores de chapa e cinco ou seis candidatos com menos de 2 mil votos. Não queremos ninguém com esse perfil na nossa chapa.
Ton Paulo – Inclusive, Isaura e a Tatiana Lemos foram para o PSB aos 45 segundos do tempo, pois estavam com um diálogo bastante adiantado com o PT. Como foram essas conversas para terem as duas na sigla?
A conversa com o PT foi apenas com a Isaura. Com a Tatiana nunca teve esse diálogo. Eu acredito que a Isaura enxergou uma perspectiva e entendeu que PSB está reconfigurando a sua história em Goiás a partir de sinais muito claros da executiva nacional de que estaremos na rota da prioridade do partido nacionalmente e que teremos condições de consolidar e amplificar o alcance de vários projetos paralelamente para estatar novas possibilidades, arranjos e lideranças. Eu acho que o PSB ficou mais atrativo nesse sentido.
Ela tinha participado de algumas conversas no PT, tendo no radar a possibilidade de ser candidata ao governo pelo partido. Acho que ela não tinha falado sobre outra possibilidade e acredito, e aqui eu faço uma leitura completamente particular sobre o que tenha pesado para ela, que ela leu sinais de outros interlocutores e entendeu que essa candidatura ao governo possivelmente não seria viável tendo em vista o que o presidente Lula tem sinalizado de quem é o interesse dele para o palanque em Goiás.
Com isso, o PSB vem com um espaço onde conseguimos pensar em projetos de médio e longo prazo onde cabem mais nomes ao mesmo também que construímos um amplo protagonismo para outros atores. Um dos feedbacks que recebi de pessoas que estiveram no meu evento de filiação foi sobre a pluralidade dos rostos e das vozes na nossa chapa, indo completamente na contramão do que temos de mais corriqueiro na cena política de Goiás. Eu acho que isso também gera uma expectativa de uma composição mais coletiva de médio e longo prazo.
Ton Paulo – Recentemente, tivemos uma polêmica com dois atores importantes do partido: Rubens Marques, que foi recém-filiado, e Karlos Cabral. Este chegou a utilizar a tribuna da Assembleia Legislativa de Goiás (Alego) para dizer que a chegada de Marques passou por cima dele, que era o responsável pela montagem da chapa. Ao Jornal Opção, Rubens Marques afirmou que foi para o partido por meio de um convite seu. O que exatamente aconteceu? Karlos Cabral realmente tinha essa responsabilidade? Se sim, ele foi consultado? E como foi a chegada de Rubens ao partido?
Quando eu recebi do partido a responsabilidade de presidir em Goiás, também recebemos, junto com isso, algumas metas. E toda a imprensa goiana me ouviu dizer que não faríamos uma “chapinha”, pois o nosso desafio central é aumentar a nossa bancada na Assembleia e voltar com força total ao Congresso Nacional. A responsabilidade naturalmente recai sobre o mandatário, no sentido de que é de maior interesse dele que a chapa seja boa.
Nós compartilhamos essa responsabilidade com o Karlos, e eu tenho muita certeza de que o descontentamento é um sintoma de prudência. Não há absolutamente ninguém que esteja disputando eleição que não esteja levemente desconfortável, porque, se você está totalmente confortável, acaba relaxando e não trabalha para pedir voto.
Desse modo, o desconforto é, na verdade, uma margem de segurança para que os mandatários disputem a eleição. Nós vimos um processo absolutamente autofágico entre os deputados da Alego, na forma como as chapas foram feitas e desfeitas ao longo do dia. A grande maioria dos deputados de mandato ficou em chapas muito mais difíceis do que a chapa do PSB.
Nós temos chapas com cinco deputados de mandato que têm chances reais de fazer de dois a três. Outras com quatro deputados em exercício que vão fazer dois. O PSB tem três deputados de mandato que, se trabalharem — e eu tenho certeza de que vão trabalhar, porque são trabalhadores —, teremos condição real e substancial de fazer as três cadeiras.
Ton Paulo – Mas esse movimento não acaba sendo arriscado?
Toda eleição é arriscada. Não existe eleição segura. Se não for para correr risco, não se disputa eleição. Caso contrário, estaríamos falando de um partido que se comporta de maneira cartorial, apenas para montar uma chapa com o objetivo de eleger um nome específico. E o meu compromisso é com um partido forte, que faça mais de um deputado na Assembleia e que tenha condições de eleger de um a dois deputados federais. Eu consegui entregar esse compromisso ao partido, e vamos dar todas as condições, não só para os três mandatários, porque temos outros nomes muito interessantes na nossa chapa estadual que podem surpreender.
Acho muito importante trabalhar dessa forma, trazendo bons nomes que fogem do óbvio e que podem surpreender. Eu fui uma dessas surpresas na minha primeira eleição, quando ninguém esperava. E, na segunda, mais ainda, pois havia o pai do presidente da Assembleia na minha chapa, e a classe política inteira dava como certo que a chapa faria apenas um nome: o de Tião Peixoto (PSDB). Então, os riscos nos fazem trabalhar ainda mais.
Eu respeito muito os três deputados: o Karlos já estava aqui; o Veter e o Rubens passaram por articulações minhas, chegaram já no final das tratativas e irão disputar em condições de muita isonomia e equilíbrio. E os outros que não têm mandato também. Eu até brinco com eles, dizendo para correrem atrás — não por receio dos colegas com mandato, mas porque, graças a Deus, o partido tem uma chapa muito orgânica, com gente que não tem mandato, mas que pode surpreender nas urnas.

João Paulo Alexandre – O PT, que sempre teve um nome lançado às eleições majoritárias, neste ano tem demorado para decidir quem será esse nome. É notória a sua aproximação com o presidente Lula da Silva e, por causa disso e de outros fatores, o seu nome também passou a ser cotado para ser pré-candidata ao governo de Goiás nos bastidores. Quero saber da senhora até que ponto essa história é verdadeira. A Aava Santiago pode vir como pré-candidata ao Governo do Estado?
Nada é verdade nesse assunto. A única verdade é que eu sou pré-candidata a deputada federal. Isso sempre esteve muito claro e de maneira muito transparente, porque todos os meus movimentos caminham em uma direção: fortalecer o PSB, pois essa foi uma missão muito grande. Eu fiquei 20 anos no PSDB e, após isso, recebi a incumbência de presidir o partido do vice-presidente da República, Geraldo Alckmin, o partido de Simone Tebet, o partido de Rodrigo Pacheco — e não foi de maneira secundária ou de rodapé. Todas as principais lideranças do partido vieram para Goiás para reforçar essa minha missão. Desse modo, eu tenho que entregar esses resultados. Antes de qualquer coisa, sou muito disciplinada e cumpridora de missão.
Não há como avançar em outra direção que não seja a minha pré-candidatura à Câmara dos Deputados, justamente pela missão que recebi do partido de eleger deputados federais e estaduais. Sou sempre grata às lembranças e menções ao meu nome, mas acredito que isso parte muito mais de especulação — talvez de um lugar comum, por dizerem que eu estou bem colocada ou por ter certa aproximação com o presidente Lula — do que, de fato, de uma articulação concreta.
Tanto é que, objetivamente, na prática, eu nunca fui chamada para uma conversa nesse sentido e, sinceramente, acredito e até torço para que não seja, porque tenho dado muitos sinais aos interlocutores que, informalmente, falam comigo de que isso não está no meu radar. Muita gente especula sobre um eventual convite, mas eu não trabalho com “e se”. Trabalho com os fatos que já estão postos e muito bem elucidados — inclusive com interlocutores nacionais do meu partido que, eventualmente, tenham tratado desse assunto.
Meu presidente, João Campos, tem sido muito claro sobre isso. O nosso secretário-geral, que acabou de se tornar ministro, Paulo Pereira, que é um grande amigo e articulador, também tem sido muito claro. Tenho, sim, disponibilidade para conversar com interlocutores do presidente Lula quando eles tomarem suas decisões, para que possamos caminhar juntos. Ainda não fui acionada sobre isso e não estou permitindo que a energia do PSB seja drenada em hipóteses, porque temos, na prática, excelentes candidaturas, uma eleição muito difícil pela frente, e estou focada nelas.
Aava Santiago se diz confiante com processo que tramita sobre infidelidade partidária
João Paulo Alexandre – A senhora citou o PSDB na resposta anterior e aproveito para entrar no assunto do processo que a sigla move contra a senhora por infidelidade partidária. Como é que está isso hoje? A senhora já foi formalmente citada no processo?
Já, sim, e nós já protocolamos a nossa resposta. Estou muito tranquila e confiante. A banca de advogados que constituímos está muito segura dos nossos argumentos. Não tenho dedicado muita energia a isso, porque, depois que protocolamos a resposta, o que nos resta agora é aguardar a análise do Judiciário.
Estou bastante confiante, porque o que elencamos na nossa peça de defesa tem farta quantidade de evidências e provas. Tanto do ponto de vista formal — já que houve um equívoco, pois o partido não poderia entrar com uma ação isoladamente, uma vez que disputei a eleição em uma federação; portanto, quem deveria ter ingressado com a ação seria a própria federação —, e somente isso já demonstra um erro crasso.
Além disso, os argumentos que sustentamos, de grave perseguição pessoal e violência política de gênero, também são, infelizmente, muito fáceis de serem comprovados. Temos vários exemplos, mas gostaria de citar um: o histórico de quem o PSDB judicializou por infidelidade partidária nos últimos anos, que foram apenas mulheres. Não foram processados Tião Caroço (UB) ou Diego Sorgatto (UB), mas, sim, Flávia Morais (MDB), Dra. Cristina (Republicanos) e eu. Assim, a tentativa de negar que haja um viés de gênero não se sustenta diante dos fatos, amplamente noticiados pela imprensa.
Eu estava lendo a nossa defesa protocolada e até fiquei estarrecida ao ver as aspas do Tião Caroço na época em que ele saiu — e reforço que não acho que ele tenha feito nada de errado, mas cito para evidenciar a diferença de tratamento — ao dizer: “Não estou me sentindo bem nessa casa, não acho que tenho condições de continuar e não há por que o partido querer me manter aqui.” O partido reafirmou a mesma coisa, e ele recebeu a carta de anuência para trocar de legenda.
Nós temos uma leitura, que já encontra respaldo na jurisprudência, de que a lei da violência política de gênero é posterior à lei da fidelidade partidária. Quando as duas são aplicadas conjuntamente e se percebe que um partido se comporta de maneira discriminatória com um de seus quadros — sendo uma mulher — e, ainda assim, impede sua saída, a fidelidade partidária passa a se tornar um instrumento de violência política de gênero. Há um entendimento já consolidado nos tribunais superiores de que a lei da violência política de gênero orienta uma nova leitura da lei da fidelidade partidária. Isso porque, ao obrigar uma parlamentar que está sendo alvo frequente de grave discriminação pessoal dentro do partido a permanecer nele, o que deveria ser fidelidade passa, na verdade, a configurar violência política de gênero.
Essa é uma das teses que apresentamos, entre várias outras que fundamentamos de maneira sólida na ação. Estou muito confiante em relação ao processo e também na mudança de capítulo, pois já virei a página. Agora, o caso está no Judiciário, e eu estou focada em fortalecer o PSB, em expandir os espaços que o partido possa alcançar, não só nesta eleição, mas também nas próximas. É por isso, inclusive, que vou lançar tantos vereadores como candidatos a deputados estaduais e federais, porque são quadros que, caso não sejam vitoriosos nesta eleição, ganharão musculatura para disputar não apenas a reeleição em suas cidades, mas também futuras eleições para prefeituras e vice-prefeituras.

João Paulo Alexandre – A questão da violência política de gênero ficou muito evidente no vídeo que a senhora postou, coincidentemente no Dia Internacional da Mulher. Em uma das suas falas, a senhora disse que acreditou muito na palavra do pré-candidato ao governo pelo PSDB, Marconi Perillo, até então presidente nacional da sigla. A senhora tem alguma mágoa do partido e de Marconi?
Nenhuma. A política não é um ambiente para pessoas sensíveis a esse ponto. Eu respeito muito o ex-governador Marconi Perillo. Se eu não o respeitasse, não teria construído uma parte considerável da minha trajetória ao lado dele.
Aliás, fui muito questionada ao longo da minha trajetória sobre por que fui tão leal a ele, e nenhum desses questionamentos sequer arranhou a minha lealdade na construção de um trabalho robusto, sério, no qual sempre mantive a minha autonomia. Não posso me queixar de que ele não tenha validado isso.
Pelo contrário, quando eu fazia menção a ele, sempre fazia questão de registrar isso. Ele sempre valorizou a minha autonomia e a minha capacidade de formulação, sem que eu dependesse o tempo inteiro da validação dos quadros mais antigos do PSDB. Portanto, é impossível que uma relação de tantos anos de respeito desapareça por causa de um desencontro.
Agora, dadas as circunstâncias, também precisei recalcular a minha rota, e foi isso que aconteceu: uma reformulação de caminho para seguir adiante, colocando na pauta aquilo que é realmente prioridade.
Ton Paulo – As suas movimentações têm ganhado destaque local e nacionalmente, e é inegável o número de vezes em que você defendeu Marconi Perillo, inclusive pela história política e de amizade que vocês construíram ao longo dos anos. Mas, no momento em que você mais precisou, houve uma certa omissão por parte dele, já que ele poderia ter interferido nessa decisão. O que pode tê-lo levado a não impedir a judicialização da sua saída do PSDB?
Eu não tenho condições de responder a essa pergunta, porque ela está no campo da imaginação. Para não me contradizer com o meu próprio histórico, vou citar Belchior: “A minha alucinação é suportar o dia a dia, e o meu delírio é a experiência com coisas reais.”
Então, não consigo acessar o campo do imaginário. Recebi a ação com surpresa, mas, ao mesmo tempo, já me questionava sobre como deveria agir. E, desde então, venho agindo tanto para me defender quanto para seguir em frente.
Se estivéssemos em um ambiente mais informal, no campo das especulações, talvez eu elucubrasse que ele está mal assessorado. É um líder muito emblemático, foi eleito o governador mais jovem do Brasil, aos 35 anos, teve quatro mandatos como chefe do Executivo estadual e se atualizou em muitos aspectos. No entanto, os tempos são outros, e ele ainda tem ao seu redor pessoas que não compreenderam essas mudanças — que as relações e o contexto político também mudaram.
Se eu pudesse atribuir uma explicação em caráter puramente imaginativo, seria essa: a de que se trata de um bom quadro, mas muito mal assessorado. Como diz uma expressão bíblica, “o seu derredor não acompanha a sua envergadura”.
Ton Paulo – Como você tem avaliado as atuais críticas que o partido vem recebendo? Há nomes que estão deixando a sigla ao mesmo tempo em que outros polêmicos — como suspeitos de pedofilia e até mesmo pessoas julgadas por improbidade administrativa — estão entrando no partido, e não vimos nenhuma manifestação direta sobre isso por parte de Marconi Perillo. Você acha que o PSDB realmente perdeu a essência pela qual foi criado?
Eu não estou mais no PSDB. Não participei de nenhuma dessas movimentações, todas ocorreram depois da minha saída. Desse modo, o meu termômetro para analisar o partido é o de uma observadora, alguém que acompanha como leitora das manchetes.
Por isso, acredito que não sou a melhor pessoa para responder a essa pergunta. Tenho grandes amigos no partido, quadros que respeito muito e para os quais torço para que sejam vitoriosos nas urnas e na vida. Mas, enquanto alguém que poderia falar sobre as entranhas do partido, já não sou mais a pessoa mais habilitada para isso.
Ton Paulo – Só para fechar o assunto PSDB: qual é a sua atual relação com Marconi Perillo? Ainda há amizade, diálogo ou tudo isso deixou de existir?
Olha, a minha relação com o Marconi nunca foi de diálogo diário. Nós não saíamos para tomar sorvete juntos todos os dias (risos). Quando estive no PSDB, a minha rotina já era corrida, e a dele ainda mais. Já faz bastante tempo que não nos falamos, mas não existe nenhuma inimizade declarada.
Eu sou presidente de um partido, e ele já presidiu outra sigla. Eu o respeito e acredito que ele me respeite da mesma forma.

Ton Paulo – Voltando a falar sobre as eleições deste ano: por diversas ocasiões, a senhora disse que a prioridade do PSB são as chapas para deputado estadual e federal, com foco na eleição de parlamentares. Mas não podemos esquecer das eleições majoritárias. Há algum diálogo em andamento? Já temos como pré-candidatos Daniel Vilela (MDB), Wilder Morais (PL), Marconi Perillo (PSDB) e o nome do PT ainda a ser lançado. O PSB deve caminhar com quem?
Nenhuma tendência, por enquanto, porque ainda não fomos acionados para sentar à mesa de formulação sobre isso. Enquanto isso não acontece, não organizamos nossas prioridades com base na espera de outros atores políticos, porque, hoje, todo o tempo disponível ainda é pouco diante do que precisamos fazer. Já estou em uma etapa de organizar os diretórios e analisar onde temos comissões provisórias para transformá-las em diretórios. Saímos da fase de formação de chapas e agora estamos fortalecendo o partido nos municípios e seguindo o trabalho.
Acredito que um partido do tamanho do PSB, que hoje conta com três deputados estaduais, tem uma chapa competitiva e mais de 40 segundos de TV, é interessante para todos. Nacionalmente, estamos, obviamente, 100% alinhados com o presidente Lula desde o início, e minha interlocução em Brasília também é muito tranquila.
Todos apostam e encorajam nossa estratégia: se ainda não fomos chamados para conversar, seguimos trabalhando. E é assim que estamos fazendo. Acredito que um partido com essa relevância será chamado, e espero que isso aconteça em tempo oportuno, para que seja possível construir um projeto forte, com musculatura e tempo para desenvolver suas teses.
Meu perfil é de diálogo com todos. Sou muito aberta a conversar com todos os atores. Na Câmara de Goiânia, por exemplo, quem não me conhece se surpreende ao ver que converso com vereadores de diferentes espectros, desde parlamentares do PL até do PT, inclusive aqueles da base do prefeito, mesmo sendo de oposição.
Isso ficou evidente no evento de filiação ao PSB: estiveram presentes vereadores do PT, mas também parlamentares da base. Welington Bessa, líder do prefeito, compareceu, assim como Igor Franco, que tem sido uma das vozes mais firmes da oposição. Esse é o perfil que carrego na vereança, e ele se aproxima muito do PSB em nível nacional. O partido também dialoga com diferentes espectros, sem abrir mão de suas prioridades e agendas. É dessa forma que seguimos trabalhando, sempre disponíveis para o diálogo.
João Paulo Alexandre – A senhora foi oposição na gestão Rogério Cruz e também tem sido oposição a Sandro Mabel na Câmara. Eu queria uma análise sua: depois de um ano e quatro meses à frente do Executivo goianiense, quais são os pontos positivos e negativos da gestão Mabel?
Acho que é muito difícil analisar essa gestão dentro desse recorte temporal de um ano e meio, porque boa parte dos problemas são muito semelhantes — ou até idênticos — aos da gestão anterior, assim como muitos dos atores políticos envolvidos, seja no aprofundamento ou na tentativa de solução desses problemas. Em várias situações, confesso que não sei dizer onde termina Rogério e começa Sandro.
Embora haja uma mudança de linguagem e de comportamento, essa mudança diz muito mais respeito à relação do Executivo com os vereadores da base do que, propriamente, à solução dos problemas da cidade. É uma mudança que tem mais ressonância interna na política do que efeitos concretos na vida das pessoas. Pode parecer uma resposta evasiva, mas não é — é um marcador de como eu leio essa gestão.
Continuamos tendo contratos com valores elevados e sucessivos aditivos. Vale lembrar que era uma promessa de campanha do Sandro realizar uma ampla auditoria e reduzir gastos com a LimpaGyn e a Comurg, mas o que vimos foi o contrário: houve aditivos contratuais com ambas. Tenho muita clareza de que estamos desperdiçando recursos ao manter contratos tão altos sem uma fiscalização e auditoria efetivas da execução desses serviços.
Recentemente, protocolei um pedido de medida cautelar no Tribunal de Contas dos Municípios (TCM) para suspender um contrato de R$ 80 milhões em publicidade. E me pergunto o que essa publicidade pretende mostrar, porque, por exemplo, a gestão afirma ter zerado o déficit de vagas nos CMEIs, mas o que vemos são denúncias recorrentes de salas superlotadas. Colocar mais crianças em uma sala não significa, necessariamente, criar novas vagas com qualidade.
O argumento utilizado, muitas vezes, é o de que a mãe trabalhadora agora tem onde deixar o filho. Mas são essas mesmas mães que relatam queda no aprendizado, além da ausência de professores de apoio para crianças com autismo — profissionais que, hoje, muitas vezes só são garantidos por decisão judicial.
Na área da saúde, também há problemas recorrentes. Não passa um dia sem que eu seja acionada por falta de medicamentos nos CAIS ou ausência de médicos nos plantões. Ao mesmo tempo, temos esse contrato elevado de publicidade, o que levanta questionamentos sobre as prioridades da gestão.
Além disso, há registros frequentes de ações truculentas da fiscalização contra trabalhadores, especialmente ambulantes. É um tema delicado, porque envolve diferentes interesses: o comerciante formal aponta a concorrência desleal, enquanto o ambulante busca regularização para trabalhar. Ambos têm pontos legítimos. O que não se justifica, no entanto, é a truculência por parte de agentes públicos, porque, mesmo quando há irregularidades, estamos falando de pessoas que estão tentando garantir sua subsistência.
João Paulo Alexandre – Você falou sobre o seu bom diálogo com todos os vereadores da Câmara e eu queria saber se isso também se aplica ao prefeito Sandro Mabel? E como está a relação com o Legislativo hoje? Ele deu algumas declarações nas quais afirma que esses atritos se devem a vereadores que perderam a “mamata”, após o corte de indicações de cargos. Como a senhora avalia essa fala dele?
Eu acho interessante isso, porque ele está se referindo especificamente a dois vereadores, enquanto existe uma série de parlamentares — inclusive da base dele — insatisfeitos e fazendo questionamentos. Eu sou uma vereadora que foi de oposição durante todo o governo do Rogério Cruz, continuo sendo agora, e imagino que isso deva ser difícil para ele, porque não pode me colocar nesse mesmo grupo de vereadores dos quais ele diz ter cortado “mamata”.
Se a relação do Executivo com o Legislativo está difícil, acredito que isso seja um problema da Secretaria de Governo, ou seja, de quem está responsável por essa articulação. Eu procuro avaliar mais o Executivo pelas suas entregas à sociedade do que pela relação com o Legislativo, porque essa relação costuma ter oscilações que, infelizmente, muitas vezes refletem menos o interesse público e mais interesses pontuais de grupos políticos que atuam para preservar suas estruturas e privilégios.
Isso, para mim, não está distante do que observo como uma relação difícil do prefeito com a própria cidade, porque ele ainda se comporta como CEO de uma empresa, e cidades não são empresas. Para governar uma cidade, é preciso gastar e investir para gerar resultados. A maior prova disso foi a saída de Valdivino de Oliveira, ex-secretário da Fazenda, que não permaneceu justamente porque essa lógica empresarial não se sustenta na gestão pública.
Essa é a minha avaliação. O quanto isso impacta na relação com o Legislativo acaba sendo algo muito sazonal, mas, na relação com a cidade, vejo que também há conflitos.

Ton Paulo – Eu queria ouvir agora o seu lado socióloga para analisar esse momento assustador que vivemos atualmente. Apesar de todas as políticas públicas, ainda registramos diariamente feminicídios, tentativas de feminicídio e casos de violência doméstica como um todo. Ao mesmo tempo, vemos um movimento mais organizado de homens que odeiam mulheres, como um influenciador de extrema direita ligado aos Estados Unidos que disse que, se pudesse, tiraria das mulheres o direito ao voto. A que se deve isso, mesmo com todo o trabalho de conscientização e políticas públicas? O que está acontecendo para que as mulheres estejam morrendo nas mãos dos homens?
Essa é uma pergunta muito dura, muito difícil, especialmente porque eu experimento isso em facetas distintas: enquanto parlamentar e também como mãe de um menino. Estou criando um garoto neste mundo e isso, por si só, me reposiciona diante desse olhar. Eu tenho feito uma provocação dolorosa: qual é o caminho percorrido por garotos para que, em um intervalo tão curto de tempo, se tornem homens violentos?
O meu filho tem 7 anos. Eu sou, com certeza, uma das pessoas mais importantes da vida dele, e ele é extremamente amoroso comigo. Ele pede para dormir segurando a minha mão. E eu não consigo falar disso sem me emocionar, porque vemos notícias de adolescentes de 15, 16 anos envolvidos em estupros coletivos, em violências brutais. Esses meninos, há poucos anos, tinham a idade do meu filho. Provavelmente também tinham relações de afeto com as mulheres ao seu redor. Olha a tragédia diante da qual estamos. Parece haver um processo acelerado de destruição das masculinidades, cada vez mais precoce.
Então, o que está acontecendo para que um garoto de 16 anos organize, com outros jovens, um estupro coletivo e depois trate isso com naturalidade, até com deboche? O que acontece para que um jovem de 21 anos agrida a namorada de forma tão brutal? Esses comportamentos não surgem do nada. Existe um percurso, e esse percurso não apenas está sendo alimentado, mas também industrializado e monetizado.
Hoje, há uma indústria que lucra com a disseminação de discursos de ódio e ressentimento. Homens comuns — advogados, pastores, professores — transformam em produto um incômodo com o fato de que, depois de séculos, as mulheres passaram a se organizar e a afirmar: “nós somos gente também”. Isso gera uma reação. Ao longo da história, as mulheres foram sistematicamente silenciadas, e quando passam a reivindicar espaço, enfrentam resistência.
É por isso que tantas mulheres são chamadas de “loucas”. E essa “loucura” é política, porque serve para deslegitimar suas vozes. Se uma mulher denuncia assédio, dizem que ela está exagerando. Se decide estudar mais tarde, dizem que é absurdo. Se cobra direitos, dizem que está desestabilizando. Esse padrão se repete em várias situações e cria um ambiente em que a violência é relativizada e até naturalizada.
O cansaço das mulheres também é político. Desde muito cedo, aprendemos estratégias de sobrevivência em uma sociedade que ainda estrutura relações desiguais.
Ton Paulo – E, como mulher evangélica, qual deve ser o papel da igreja nesse momento? Há necessidade de mudança dentro da instituição religiosa?
Primeiro, é importante entender que a manutenção de privilégios masculinos atravessa toda a sociedade. A igreja não está isolada disso — ela reflete, em alguma medida, essas mesmas estruturas. Mas também não é a única instituição onde isso acontece: partidos políticos, universidades, mercado de trabalho — todos enfrentam desafios semelhantes.
No entanto, a partir da perspectiva de fé, a igreja é chamada a não reproduzir essas desigualdades, mas a enfrentá-las. A própria Bíblia orienta nesse sentido, ao falar sobre justiça, acolhimento e cuidado com os mais vulneráveis. A igreja deveria ser um espaço de proteção, não de reprodução de violência ou silenciamento.
O problema é que, como qualquer instituição, a religião também envolve relações de poder. E, quando essas relações são mal utilizadas, podem servir para encobrir abusos. Isso não é exclusivo de uma fé específica — atravessa diferentes tradições religiosas.
No caso das igrejas evangélicas, há uma responsabilidade importante de retomar princípios centrais do evangelho: cuidado com os vulneráveis, empatia, igualdade. Quando uma mulher busca ajuda, ela não deve ser orientada a suportar a violência, mas sim a ser protegida.
Se uma mulher sofre violência doméstica, o papel da liderança religiosa não é pedir que ela “ore mais”, mas oferecer suporte concreto — inclusive acompanhando-a na busca por proteção legal. A ideia de “edificar a casa” não pode ser interpretada como permanecer em um ambiente de violência, mas sim como garantir segurança, dignidade e cuidado para si e para seus filhos.
A igreja pode — e deve — ser parte da solução, atuando como um espaço de acolhimento, proteção e transformação social.


