Ilana Casoy: “Quando vivemos nesse mundo criminal, entendemos como o ser humano é falho, fraco e como esperamos uma perfeição que não existe”
08 agosto 2026 às 21h00

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“Os homens trazem em si a crueldade. Não devemos esquecer-nos disso, devemos ter cuidado. É preciso […] defender esse espaço de consciência, de lucidez. Essa é a nossa pequenina esperança.”
É com essa citação do escritor português José Saramago, vencedor do Nobel de Literatura, que a criminóloga e escritora Ilana Casoy abre sua obra “Arquivos Serial Killers – Made in Brazil”, publicada em 2022 pela editora DarkSide. O livro traz a história detalhada de sete matadores em série que aterrorizaram suas regiões em diferentes épocas.
A obra é visceral, embasada em uma extensa e responsável pesquisa conduzida por Ilana, e conta ainda com entrevistas com os próprios criminosos.
O livro, no entanto, é apenas uma das várias obras de destaque de Ilana Casoy na área da criminologia. Apesar dos familiares ilustres, ela é sobrinha do jornalista Boris Casoy e prima do apresentador Serginho Groisman, a escritora paulista construiu sua reputação a partir de uma longa trajetória de estudo e registro de crimes que chocaram o país e, em alguns casos, o mundo.
Pela DarkSide, publicou “Arquivos Serial Killers: Made in Brazil”, “Arquivos Serial Killers: Louco ou Cruel?” e “Casos de Família”, que reúne “A Prova é a Testemunha”, relato inédito do Caso Nardoni, e “O Quinto Mandamento”, sobre o assassinato do casal Richthofen. Ilana também colaborou na série “Dupla Identidade”, escrita por Glória Perez e dirigida por Mauro Mendonça Filho, exibida pela Rede Globo. “Bom Dia, Verônica” foi lançado originalmente em 2016, em parceria com Raphael Montes, sob o pseudônimo de Andrea Killmore.
Nesta entrevista exclusiva ao Jornal Opção, Ilana Casoy revela detalhes de alguns dos casos que cobriu e das entrevistas que conduziu, incluindo conversas com assassinos notórios como Pedrinho Matador e o Vampiro de Niterói.
A criminóloga, consultada por autoridades de todo o país e também do exterior, já foi procurada pelo FBI para auxiliar na investigação de alguns crimes. Na entrevista, Ilana explica ainda as diferenças entre as denominações atribuídas aos matadores em série, os tipos existentes e os diferentes modos de agir, pensar e ocultar os crimes. Entre padrões de comportamento, estratégias de dissimulação e particularidades de cada caso, ela mostra que compreender a lógica desses criminosos é também uma forma de tentar entender o que há por trás dos crimes que chocam a sociedade.
Você já tem outros livros publicados, nos quais utiliza uma linguagem muito fluida para trazer histórias tão pesadas. Li Serial Killers Made in Brazil e gostaria de saber como surgiu a ideia de escrevê-lo focando nesses criminosos.
Quando comecei, o crime em série era algo muito diferente para mim, mas que me intrigava. Crime em série era muito comum nos Estados Unidos, onde há uma vasta filmografia sobre isso. Era algo romantizado ou não? Eu queria descobrir e comecei a pesquisar. Mas eu achava que iria escrever um livro de serial killers, no qual os brasileiros estariam juntos, porque achava que era algo que nem existia no Brasil ou, se houvesse, seriam um ou dois nomes. Conforme a pesquisa avançou, eu descobri que havia vários.
Foi então que eu decidi separar em dois livros: o primeiro, Serial Killers: Louco ou Cruel?, que explica o que é o serial killer e traz os casos famosos internacionais. Nessa altura, eu já tinha conteúdo para um livro só com os casos brasileiros, apesar de não existir o termo serial killer aqui no Brasil.
Inclusive, no primeiro julgamento do Maníaco do Parque, o promotor e a imprensa discutiram exatamente essa situação: como eles iam chamar aqui no Brasil? Matador em série? Assassino em série? Matador serial? Serial killer? Naquela época, ficou decidido, entre o promotor e a imprensa, que iam manter o termo original em inglês: serial killer. Depois disso, eu decidi escrever os livros que trazem os casos brasileiros, que é o Serial Killers Made in Brazil.
E, neste livro, você traz sete histórias de serial killers, alguns até muito conhecidos, como Chico Picadinho e Pedrinho Matador, além de uma entrevista na íntegra com o Vampiro de Niterói. Ao ler as respostas, a impressão que fica é que ele narra, de forma muito natural, como os crimes eram cometidos. Como foi fazer essa entrevista? Ele realmente transparecia calma ao contar os assassinatos?
Quando fazemos uma entrevista, sempre pesquisamos a vida do entrevistado para saber até mesmo o que perguntar. Nós temos que deixar bem claro que o Marcelo Costa de Andrade, o Vampiro de Niterói, possui um transtorno mental. Ele é uma pessoa internada. Ele é uma pessoa que não entende a diferença entre o certo e o errado. Não é uma questão de ter sentimento ou não. É uma questão da condição mental desse indivíduo.
Então, é muito difícil não julgar, porque há quem faça isso, mas não é o meu papel ali naquele momento. Eu quero entender como funciona a mente daquele indivíduo. Então, é muito difícil não ter julgamento, mas, quando se trata de um transtorno mental, eu acho mais complicado ainda, porque é um universo que desconhecemos. Não conseguimos nos espelhar em nós mesmos para entender o que ele está falando.
Então, certamente, o Marcelo, como outras pessoas que possuem transtornos mentais e que eu entrevistei dentro do manicômio judiciário, como o Capetinha e o Maxwell, são indivíduos difíceis, porque não seguem a mesma lógica que a nossa.
No livro, você também traz um relato muito esclarecedor do psicólogo forense Antônio de Pádua Serafim. Ele aborda uma questão interessante: a de que o comportamento do criminoso pode estar ligado a três fatores: o biológico, o psicológico e o social. Diante das suas entrevistas com esses criminosos, quais posturas eles adotaram que fizeram você ter um discernimento sobre em qual desses fatores cada um deles se encaixava?
Quando eu realizo a entrevista, esse diagnóstico já está estabelecido. Você estabelece o comportamento criminoso, mas ele não tem uma relação direta com o diagnóstico psiquiátrico. Quando eu entrevistei o Marcelo, ele já havia sido avaliado por psiquiatras e psicólogos, assim como todos os outros que apresentam algum transtorno.
Ao estar internado, nós já sabemos que ele tem algum transtorno. E eu não tenho que, na entrevista, entender se ele tem ou não, até mesmo porque eu não sou psiquiatra, nem psicóloga. Eu sou criminóloga, e a criminologia é o estudo do comportamento criminoso, que vai ser útil, principalmente, nas investigações da polícia para torná-las mais competentes, mais viáveis financeiramente e mais focadas. É a partir do comportamento criminoso que desenhamos uma estratégia melhor para prender aquele indivíduo.
Pode acontecer de eu não saber que ele possua um transtorno mental, mas não sou eu quem tem que dissipar essa dúvida e, sim, um profissional da área da saúde mental. Eu já recebo isso diagnosticado.

E alguns criminosos se apresentam inicialmente para as vítimas com um ar sedutor, muito gentis, articulados e inteligentes. Isso é perceptível quando consumimos o seu livro. Você sentiu isso ao longo das entrevistas? Pelas respostas, o entrevistado tentava ter certo controle da situação e até mesmo te enganar?
Alguns são como você descreveu, mas outros não. Eu acho que existe uma romantização importante que acontece com esse tipo de criminoso, principalmente porque ninguém vai contar um caso de um indivíduo chato na mídia ou no audiovisual. Desse modo, você vai escolher casos que têm essas características para contá-los. Mas não são todos. Está bem longe disso. Não é uma característica comum serem sedutores.
Existem modus operandi, entre alguns deles, que exigem uma habilidade social para conseguir levar a vítima para dentro do mato, conseguir dar uma carona a ela, trazê-la para o seu carro ou fazê-la entrar em uma casa. Um exemplo disso é o Maníaco do Parque, que contava com a habilidade social da boa conversa, porque conseguia levar a vítima para dentro de um parque público. Ele era realmente muito sedutor. O Pedrinho Matador trabalhava com outro tipo de sedução: pelo poder. Ele passava às vítimas uma sensação de proteção. Elas ficavam fascinadas por ele, além de ele se mostrar um sujeito engraçado, com uma oratória muito boa.
Então, existem essas características, mas, como estudamos cada um desses indivíduos antes de entrevistá-los, nós vamos nos preparando para isso, para não cair na Síndrome de Estocolmo, que é quando se admira o próprio algoz. Há coisas das quais você deve duvidar e que precisa provar para levá-lo a falar. Por exemplo, a questão de o Pedrinho ter ou não assassinado o próprio pai. Eu tinha uma desconfiança gigantesca dessa história porque ela não batia, mas a lenda no sistema penitenciário era que sim, que ele tinha matado o próprio pai. Ele me falou que não tinha cometido o crime, mas que tinha deixado a história crescer porque isso o fazia ficar ainda maior ali dentro, o que é verdade. Ele inventava uma história bem mirabolante. Por isso, você tem que estar preparado, porque irá enfrentar uma pessoa que sabe mentir, enrolar e seduzir. E isso não acontece só no crime em série.
Eu tive que entrevistar um indivíduo para a polícia, em João Pessoa (PB), e foi muito difícil porque ele era um mitomaníaco, que é aquela pessoa que mente compulsivamente. No final, você fica confuso porque não sabe mais onde ele falou determinada coisa, onde mentiu e qual era a outra versão.
Eu entrevistei o Marcos Trigueiro, conhecido como Maníaco de Contagem, em Minas Gerais, e ele era um tímido patológico. Era monossilábico. As respostas se limitavam a “sim” ou “não”. Ele era muito contido e não deixava transparecer algumas coisas. Hoje, ele não é mais assim. Vi uma entrevista recente em que estava muito falante, mas, na época, também foi um grande desafio, porque eu não sabia o que iria encontrar. Depois de passar por essa experiência, também já me preparei e, hoje, se me deparar com outro tímido como ele, já conto com técnicas para conseguir acessar aquela pessoa.
O Tiago Henrique, aqui de Goiás, é chamado de serial killer. Ele se encaixa nesse termo?
Não. O Tiago Henrique Gomes da Rocha não é um serial killer. Ele é o que chamamos de spree killer, porque comete uma série de assassinatos, sai atirando a esmo e não faz uma seleção apurada de vítimas. Inclusive, eu fui consultada pelo Mark Safarik, que é um agente do FBI e fez um estudo sobre os spree killers pelo mundo. Certamente, o Tiago é um deles.
Ele aterrorizou a sua região, pilotava uma moto, usava capacete, simulava um assalto e, em seguida, disparava e ia embora. Ele confessou a morte de 39 pessoas. Na época, eu até cheguei a ser consultada por um dos delegados do caso. Saber se ele é um spree killer ou um serial killer ajuda a entender como funciona a cabeça dele. Mas qual é a diferença entre um e outro?
O serial killer é um indivíduo que comete uma série de homicídios com um intervalo bem marcado entre eles. As vítimas têm o mesmo perfil, a mesma faixa etária, o mesmo sexo ou a mesma raça. Elas não são escolhidas ao acaso, porque servem para uma fantasia que esse indivíduo criou. Ele insere essa pessoa em uma fantasia que já tem pronta.
O spree killer é uma pessoa que mata várias vítimas em um período de horas, dias, semanas ou meses. Ele não apresenta as fases do serial killer. Não se acalma, passa um período de tempo e volta a matar. As vítimas estão no lugar errado, na hora errada. Ele passa por ali e mata.
O Tiago Henrique não tinha todo o planejamento de um serial killer. É um ato de assassinato. Por isso, é um spree killer. Não existe uma palavra em português que traduza esse termo. Eu sei que a mídia o classifica como serial killer, mas, dentro dos meus estudos, eu não consigo colocá-lo dessa maneira.
Mas, de novo, isso não é um diagnóstico psiquiátrico. Nós precisamos diferenciar isso de um comportamento criminoso. Quando dizemos que uma pessoa é estelionatária ou latrocida, estamos falando de comportamentos criminosos. Não estamos falando de algo psíquico. A outra gaveta é a do transtorno mental: se ele é psicótico, psicopata, esquizofrênico ou neurótico.

Até hoje, o Tiago Henrique recebe muitas cartas de cunho amoroso na penitenciária. E percebi, ao ler o seu livro, que esse não é um fato isolado. O que explica as mulheres desenvolverem esse fascínio a ponto de se apaixonarem por um matador?
Bom, assassinos que recebem cartas de mulheres interessadas nesse tipo de relação não faltam, e nem precisam ser criminosos em série. Existe a questão de mulheres muito controladoras. Para elas, por exemplo, é interessantíssimo ter um parceiro preso, porque há controle total: escolhem a roupa que ele veste, a comida que ele come, o dia em que vão visitá-lo e a hora em que vão embora. Inclusive, esses casamentos que acontecem entre um preso e uma pessoa em liberdade, por muitos anos, quando ele sai da cadeia, costumam enfrentar dificuldades para estabelecer uma rotina, porque esse controle se perde.
Eu acho que o fascínio vem muito atrelado à tendência de achar que vai modificar aquela pessoa, consertar o outro. E muitos casamentos na vida dão errado exatamente por isso. Agora, o que leva uma pessoa que sabe que aquele indivíduo cometeu dezenas de crimes, com tanta perversão, e ainda quer se relacionar intimamente com ele é um mistério.
O fascínio como espectador, eu superentendo, porque queremos entender a história, temos uma mente aguçada, uma curiosidade, pois existe essa perspectiva de que, quanto mais entendermos do assunto, mais controle teremos sobre ele. É muito interessante também ver isso pela televisão, porque você está com o controle remoto na mão: deu medo, desliga; pula; adianta; quer ver de novo, volta. Então, você tem todas essas possibilidades.
Agora, querer se relacionar intimamente com uma pessoa que já se provou muito violenta, mesmo que, durante o tempo de prisão, ela esteja contida, é realmente difícil de explicar.
Talvez seja possível determinar um tipo de perfil. A psicóloga que avaliou o Maníaco do Parque também avaliou a mulher que se casou com ele. Essa união aconteceu enquanto ele estava preso. Ela foi uma das mulheres que lhe escreveram cartas e também já tinha um histórico bastante prejudicado em relação à violência e ao abuso. Talvez isso possa ser uma condição comum entre muitas dessas mulheres, mas é difícil entender.

Uma das suas obras foi sobre os arquivos do casal Nardoni, condenado pela morte da menina Isabella Nardoni, em 2008. E, recentemente, o caso ganhou um novo desdobramento: uma petição foi protocolada na Justiça alegando que Anna Carolina Jatobá não teria participado do assassinato da enteada. Como você avalia esse novo fato?
Você não tira os dois, o casal, do local do crime na hora exata do assassinato. No dia em que isso acontecer, me avisa que começamos a conversar. É algo que eu sempre falei. Na hora da queda da Isabella Nardoni, Alexandre Nardoni e Anna Carolina Jatobá estavam dentro do apartamento, falando pelo telefone fixo, e não pelo celular, com os pais deles. Ou eles viram quem jogou a menina, e aí têm que dizer quem foi, ou foram eles, porque os dois estavam no apartamento no momento da queda. Não existe uma terceira opção.
O que ela agora quer dizer com isso? Que não foi ela? Que ele agiu sozinho e ela apenas assistiu? Mas nós estamos aqui quase duas décadas depois do crime. Por que ela não contou isso antes? É algo que precisa ser muito bem explicado.
Reforço: não tem como tirar o casal do local do crime na hora do fato. Aliás, essa é uma das provas que condenam os Nardoni.

Você acompanhou diversos casos tenebrosos que entraram para o imaginário popular, mas houve algum, em específico, que te marcou? Se sim, por qual motivo?
O caso mais difícil é sempre aquele em que eu estou, porque calçar o sapato de um indivíduo desses para entrar na mente dele e entender o que aconteceu ali é um desafio. É muito sofrido conhecer as famílias daqueles que foram atingidos e que perderam seus entes queridos sem poder se despedir. Até mesmo a família do assassino sofre, porque jamais imaginaria que aquela pessoa fosse capaz de tomar tal atitude.
Por exemplo, a irmã de André Barboza, que ficou conhecido como “Monstro da Ceasa”, no Pará, desmaiou quando ele foi preso, porque era uma das pessoas que lutavam para que fosse descoberto quem era o assassino daquelas crianças. Ela não conseguiu enfrentar o fato de que se tratava do próprio irmão. É um mundo de muito sofrimento.
Então, eu não consigo eleger se sofri mais nesse ou naquele caso. Eu sofro mais no agora, quando estou dentro de um caso.
Eu estou atuando em dois casos reais de assassinato e sofro nos dois, pois estou conversando com a família dos acusados e com quem perdeu aquela pessoa. Eu acho que o presente é sempre o mais duro.

Você acabou de citar esses dois casos reais de assassinato em que está trabalhando. O que podemos esperar? Vem livro novo por aí?
São coisas diferentes. O livro novo vem e é sobre o caso Gil Rugai, que foi condenado por matar o pai e a madrasta. Mas, indo contra a opinião pública, eu sou convicta da inocência dele nesse caso, pois ele estava em outro lugar no momento do crime. Eu escrevi toda a minha participação nesse caso, contei a história, e o livro deve ser lançado ainda este ano.
Esses casos em que estou trabalhando não são crimes em série, mas assassinatos graves. Por enquanto, não devem virar livros. São trabalhos reais, como criminóloga, nos quais a tecnologia se faz necessária e serve de instrumento tanto para a defesa quanto para a acusação.
Você participou de obras que foram para o audiovisual e tiveram grande recepção do público, como a série Bom Dia, Verônica e o filme A Menina que Matou os Pais. Como foi trabalhar com o Raphael Montes na série e como você viu essa receptividade do público?
Olha, o Raphael e eu temos uma história muito querida. Nós nos encontramos de maneira aleatória em uma cidade chamada Extrema, que fica na divisa entre Minas Gerais e São Paulo. E nos demos muito bem. Ele é 30 anos mais novo do que eu, mas tem uma alma velha. Tanto que a gente brinca que ele é um nono.
Ele me convidou para escrever ficção. Confesso que não tinha essa pretensão e me questionava por que iria me aventurar nessa área. Mas ele me provocou, me desafiou e fui ler os livros dele, porque ele já era um leitor meu, mas eu ainda não conhecia as obras dele.
Quando cheguei a São Paulo, fiz uma verdadeira imersão nos livros dele, gostei muito e o escrevi um e-mail. Nós conversamos e ele me contou o que esperava. Ele queria muito construir uma personagem feminina nesse mundo policial. Eu brinquei que queria escrever alguém invisível, porque já estava enjoada de delegadas (risos). Então pensei em uma escrivã de polícia, que era o meu contato mais intenso dentro da corporação. É uma profissão incrível. Elas ajudam muito e entendem profundamente de investigação.
Não tínhamos um método de escrita. Criamos tudo juntos. Mandei um e-mail para ele com o título Bom Dia, Verônica. Ele me respondeu que o nome do livro já estava definido naquele momento. Depois escrevi um perfil de quem seria essa Verônica e começamos a montar a história.

O Raphael tem um jeito de escrever muito parecido com o meu. A gente não lê o que escreve; a gente escreve vendo o audiovisual. Muitas vezes nos reuníamos no meio do caminho entre o Rio de Janeiro e São Paulo, mas sempre focados no livro, que saiu pela DarkSide.
Só que um diretor da Netflix leu o livro e nos procurou. Nós fomos os primeiros autores a fazer uma negociação direta com a plataforma, sem intermédio de uma produtora. Não imaginávamos que isso iria acontecer, mas a gente sempre sonha que aconteça. E foi assim que começou esse trabalho.
Com Bom Dia, Verônica, eu não aprendi somente a escrever ficção. Aprendi também a escrever roteiro. Foi o meu segundo trabalho audiovisual. O primeiro foi o filme Uma Família Feliz, com o próprio Raphael Montes, que fez muito sucesso. Então, tudo o que aprendi nesse filme pude trazer para a escrita de Bom Dia, Verônica. Foi uma experiência incrível. Foram três temporadas que eu adorei fazer.
E o Raphael aprendeu muito comigo na trilogia A Menina que Matou os Pais, O Menino que Matou Meus Pais e A Menina que Matou os Pais – A Confissão. Porque estamos falando de true crime, e escrever true crime ficcionalizado não é igual a escrever ficção. É completamente diferente, porque você não pode sair do processo. Você não vai contar uma mentira; vai dramatizar uma verdade. E são coisas bem diferentes. Existe toda uma carga de responsabilidade, de ética. É outro tipo de construção ficcional.
Então, eu aprendo muito com o Raphael, e ele aprende muito comigo. Na semana passada, conversamos novamente. Temos projetos juntos e queremos escrever o Boa Tarde, mas ele está lançando o livro dele, eu também estou lançando o meu, e, em algum momento, vamos encontrar um espaço na agenda para nos reunirmos.
A Netflix vai lançar um novo documentário sobre o caso Suzane von Richthofen, desta vez focado em uma entrevista com ela. Há críticas de que a produção pode representar uma “espetacularização” do caso. Como você avalia isso?
Eu não vou falar sobre isso antes de assistir. Assistam também! Só podemos opinar com base no concreto. Ainda não dá para saber como o tema foi tratado ou qual é a relevância do conteúdo finalizado. Historicamente, o Brasil sempre foi um país sem cultura de registro. Hoje, vejo uma preocupação maior em documentar os fatos.
Acho que existem documentários muito relevantes, com pessoas importantes a serem ouvidas. Mas também existe o outro lado, que considero péssimo: o da espetacularização, do grotesco, que não acrescenta em nada. Vejo que esses dois caminhos vão conviver cada vez mais no audiovisual. Caberá a cada um decidir o que assistir, quem são os produtores, os diretores, os entrevistados e tirar suas próprias conclusões.
O que precisamos ter é discernimento. Como emitir uma opinião sobre algo que ainda não vimos? Eu não posso falar sobre uma obra que não assisti, mesmo tendo participado do processo. Essa é uma conversa para depois da estreia. Aí eu te dou outra entrevista. (risos)
Como você adiantou que o Tiago Henrique não é um serial killer, mas sim um spree killer, eu lhe pergunto: o Lázaro Barbosa, apontado como autor de ao menos oito mortes em Goiás e no Distrito Federal, também se enquadra nessa classificação?
Sim. O Lázaro Barbosa também é um spree killer. Ele estava em fuga da polícia e fez algumas de suas vítimas justamente durante esse processo de tentar evitar a captura. É um jato de violência, que tem uma duração limitada, em que a vítima é aleatória e não pensada. Ele não tem uma fantasia; está no caminho de fugir.
O livro também mostra que algumas nomenclaturas atribuídas a esses criminosos surgiram na própria imprensa e parece que muitos deles se orgulham da alcunha que recebem. É isso mesmo?
Eu tive essa experiência com o Pedrinho Matador, que, na verdade, é Pedro Rodrigues. Ele me perguntou como eu iria identificá-lo no livro. Eu disse que seria pelo nome dele. Na hora, ele respondeu que ninguém saberia quem era aquela pessoa e que eu poderia chamá-lo de Pedrinho Matador, porque todos o conheceriam assim. A identidade dele foi construída em cima desse apelido. Como você vai tirar isso depois? Não consegue mais.
Da mesma forma foi com o Capetinha, do Rio de Janeiro, que quase ninguém sabe o nome verdadeiro. Ele queria ser identificado dessa forma. Foi um trabalho muito importante, dentro do Manicômio Judiciário, tirar o “Capetinha” do nome dele, mesmo ele se chamando Márcio.
Diante da sua experiência como criminóloga, entrando na mente e tendo contato com assassinos com quem a maioria das pessoas sequer gostaria de conviver, o que você aprendeu sobre o ser humano ao acompanhar pessoas que beiram a desumanização pelos crimes que cometeram?
Olha, quando vivemos nesse mundo criminal, do sistema de Justiça e do sistema penitenciário, entendemos como o ser humano é falho, como é fraco e como esperamos uma perfeição que não existe. É algo muito triste. Mas, por outro lado, entendemos como usar esse conhecimento para trabalhos preventivos e de inclusão.
Para mim, a maior causa da criminalidade hoje é a exclusão. Como você vai entender isso se não teve contato com essa realidade? Eu vejo que esse estudo, para quem consegue entrar nessa área, trabalhar durante o dia com isso e dormir à noite, é muito importante, porque traz um entendimento que pode proporcionar projetos público-privados, ou apenas públicos, além de medidas educacionais. E não estou falando apenas dos infratores, mas também das nossas escolas. Nós ainda temos uma desigualdade social muito grande no país, que culmina nessa exclusão e também na falta de entendimento do outro. Por isso, é muito importante que esse trabalho seja feito por quem consegue suportar essa vivência para transformar essa experiência em conhecimento.
Como seu leitor, confesso que, em alguns momentos, precisei dar uma pausa na leitura e procurar uma distração mais leve para aliviar um pouco da carga pesada que ela traz. Como você lida com isso?
Se eu tiver que assistir a um filme de crime, é durante o trabalho. Por incrível que pareça, eu gosto de comédia romântica, gosto de final feliz. Adoro um bom banho de ervas, porque, às vezes, nossa energia vai lá para baixo, e um banho de ervas ajuda a levantá-la.
Mas a vida me ensinou que eu não posso entrar no buraco, porque não vou conseguir obter nada. Aprendi a sair dele mais rápido. Confesso que já fiquei de cama muitas vezes. Na primeira entrevista com o Marcelo foi assim: passei uma semana deitada. Foi muito difícil. Mas, depois, você vai aprendendo a digerir isso mais rapidamente. Acredito que todos devem cuidar da saúde mental, inclusive quem trabalha com criminologia. Eu vivo esse dia a dia, tenho 66 anos, fiz minha primeira terapia aos 13 e nunca mais parei. É o que eu recomendo para conseguir trafegar por essas águas tão turbulentas.





