Formado em Engenharia Civil pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Jalles Fontoura de Siqueira construiu uma trajetória que reúne atuação na iniciativa privada, na gestão pública e na política. Foi empresário no setor da construção civil, proprietário de armazéns gerais e presidiu a Planagri Ltda. Também foi prefeito de Goianésia por dois mandatos, deputado federal constituinte, deputado estadual, secretário da Fazenda de Goiás, professor de Gestão Pública na Universidade Estadual de Goiás (UEG) e presidente da Saneago. Atualmente, está à frente da Goiás Alimentos e é um dos empresários mais bem-sucedidos do estado.

Quadro histórico do PSDB, Jalles Fontoura, hoje com 75 anos, é um dos principais aliados do ex-governador e pré-candidato ao Palácio das Esmeraldas, Marconi Perillo, a quem se refere como “um dos melhores governadores do Estado”. Apesar da proximidade, nega qualquer possibilidade de disputar um novo cargo político. “Já passou minha fase, já tenho muitos mandatos”, afirma.

Nesta entrevista, Jalles afasta a possibilidade de ser vice do tucano na disputa deste ano, mas cita outros possíveis nomes para compor a chapa, entre eles o do irmão, Otavinho Lage. Também revela as estratégias do PSDB e de Marconi para enfrentar a elevada rejeição do ex-governador, apontada pelas pesquisas de intenção de voto, e para conquistar um eleitorado que não viveu ou não se lembra dos governos tucanos. “O passado ajuda muito, dá essa base. Agora, o segundo turno virá à medida que ele encante, convença e proponha algo para aqueles que não foram eleitores dele”, avalia.

Ton Paulo – Os pré-candidatos já estão colocados e começam a ser oficializados nas convenções partidárias. A do PSDB, inclusive, está marcada para o dia 5 de agosto e deve oficializar Marconi Perillo como candidato ao governo de Goiás. Sabemos que o senhor é um dos cotados para ser o vice dele. Eu queria saber como está exatamente essa conversa. Esse diálogo ainda existe?

A pré-campanha está se encerrando agora e há duas grandes questões a serem encaminhadas. Além da definição do candidato a governador e das chapas para deputado federal e estadual, que estão muito boas, agora será preciso definir o vice e os candidatos ao Senado.

Hoje, estamos trabalhando muito nessa questão do vice e do Senado. Uma das vagas para o Senado está com o Cidadania, com Iure Castro, um jovem com bom discurso e uma trajetória importante.

A outra vaga é justamente a grande questão do momento. É aí que está o jogo: como utilizar essas duas posições, de vice-governador e senador, para consolidar uma chapa competitiva, capaz de chegar ao segundo turno. E eu acho que esse segundo turno é bastante possível.

Nós já temos uma situação muito definida em nível federal. Hoje, por exemplo, o mercado já precificou isso no mundo inteiro. Quer dizer, a eleição do Lula é uma possibilidade muito real.

Somente um fato novo e muito relevante pode mudar esse cenário. Isso pode acontecer no primeiro turno, mas, mais provavelmente, no segundo. Portanto, a situação já está bastante consolidada nesses termos.

Agora, precisamos nos posicionar aqui para chegar ao segundo turno. Eu não sou candidato a vice-governador, nem ao Senado. Estou trabalhando ao lado do Marconi para consolidarmos esse quadro, com um vice que possa agregar, principalmente, uma ligação forte com o agronegócio, uma ligação forte com a direita e uma sinalização de estabilidade e confiança para um eventual governo Marconi.

Marconi, inclusive, deve começar sua campanha em Goianésia. A cidade sempre teve uma relação muito especial com o Marconi. Ele iniciou, na cidade, as campanhas dos seus quatro mandatos ao governo, e Goianésia sempre lhe deu vitórias importantes nas eleições. Existe uma articulação histórica entre a cidade e o Marconi.

Além disso, Goianésia recebeu muitos benefícios durante os governos dele. Hoje, o município é um importante polo do médio norte goiano, com localização estratégica, um grande entroncamento viário e uma economia bastante forte. A cidade, por exemplo, praticamente não enfrenta problemas de desemprego. Isso tem muito a ver com as gestões do Marconi ao longo dos anos. Portanto, temos uma ligação histórica muito forte.

“A eleição do Lula é uma possibilidade muito real”, diz Jalles Foutoura | Foto: Oyagy Vieira/Jornal Opção

Ton Paulo – Otavinho Lage seria um bom candidato a vice de Marconi?

Um bom candidato. Otavinho seria, nessa linha que eu estou colocando, uma pessoa ligada ao agro. Otavinho já passou pela Adial e tem ligações muito fortes com a Fieg. No meio agrícola, foi um grande inovador. Ele ajudou a construir esse agro que hoje é referência, que hoje é tech. Ele trabalhou na linha de frente desse processo há muitos anos.

Então, nesse aspecto, ele tem um conceito muito forte nesse meio, o que importa bastante. A direita, o agro e as características que ele carrega fazem dele uma excelente indicação para a vice, dentro dessa proposta do Marconi, ajudando a compor uma chapa muito competitiva para disputar o segundo turno.

Agora, o primeiro desafio é vencer o primeiro turno. Superada essa etapa, o segundo turno já será uma outra eleição, com características próprias.

Otavinho Lage seria um bom vice de Marconi, pontua Jalles Foutoura | Foto: Fernando Leite/Jornal Opção

João Paulo Alexandre – Como o PSDB vê o segmento evangélico hoje, na questão eleitoral?

O segmento evangélico, hoje, é muito relevante e muito forte. Essa é uma das questões em relação aos primeiros governos de Marconi até os dias atuais, e precisa ser observada com atenção. O segmento evangélico também tem uma importância muito grande para o Congresso Nacional.

Eu acho que, nesta etapa final, a participação do segmento evangélico seria uma contribuição importantíssima para o fortalecimento da chapa.

Também pode ser visto sob a ótica do Senado. Seria algo que ajudaria a completar essa necessidade de representação e poderia ser uma bela figura para compor a disputa. Além disso, o segundo voto para o Senado é uma possibilidade muito real. Se o Marconi estiver próximo dos 25% ou 30% das intenções de voto, há a possibilidade de ele puxar a segunda vaga e eleger também o segundo senador.

Ton Paulo – É sabido que Marconi e o PT tiveram algumas conversas sobre uma possível composição em Goiás, o que não avançou. O que houve, exatamente?

O Marconi não é um nome da direita radical. Na história de Goiás, o PT esteve aliado, por exemplo, ao Iris Rezende em diversas ocasiões. O mundo da política é um mundo de diálogo, não um mundo polarizado, como infelizmente vemos hoje. Portanto, essas conversas são todas possíveis.

Eu mesmo, na eleição passada, votei no Lula. Não tinha como votar em Jair Bolsonaro, como, aliás, não tenho até hoje. São posições pessoais, mas isso demonstra que essas conversas podem acontecer.

Agora, Goiás é um estado muito conservador. Isso aconteceu conosco na última eleição para o Senado. Eu era o primeiro suplente do Marconi e acompanhávamos atentamente a disputa. Em determinado momento, o Delegado Waldir aparecia em segundo lugar. De repente, houve uma onda bolsonarista que impulsionou Wilder e ele ultrapassou todos os demais candidatos.

Neste momento, porém, resta saber se esse cenário vai se repetir. Qual será o efeito de arraste que Flávio Bolsonaro poderá proporcionar ao Wilder? Esse é o limite da candidatura dele. O próprio senador Wilder reconheceu isso no passado. Quando disputou o Senado, na eleição vencida pelo senador Vanderlan, ele percebeu, na reta final da campanha, a força do bolsonarismo, cresceu nas pesquisas e quase foi eleito.

Isso é bastante claro, e pode voltar a acontecer. Não sabemos, porém, qual será o tamanho do bolsonarismo em Goiás, especialmente porque agora existe um outro fator: a candidatura de Ronaldo Caiado.

Haverá uma distribuição de votos. Lula, historicamente, costuma ter um desempenho maior do que muitos projetam. Há o bolsonarismo tradicional, representado por Flávio Bolsonaro, que está consolidado. E há também o voto ligado a Ronaldo Caiado, que, em Goiás, é competitivo na disputa presidencial.

É essa composição que definirá o teto eleitoral do candidato apoiado pelo governador, Wilder. Dentro dos limites do voto associado a Flávio Bolsonaro, a questão é: esse patamar será de 20%, 25% ou 30%? A competitividade de Wilder estará diretamente relacionada ao desempenho eleitoral de Flávio Bolsonaro e do bolsonarismo em Goiás.

“Eu mesmo, na eleição passada, votei no Lula. Não tinha como votar em Jair Bolsonaro, como, aliás, não tenho até hoje” | Foto: Oyagy Vieira/Jornal Opção

Ton Paulo – Desde que voltou à cena política, Marconi Perillo tem trabalhado para aglutinar novamente um grupo político coerente para chegar às eleições. Mas a poucos dias da convenção tucana, só há um partido com o PSDB em Goiás. Ao que o senhor atribui esse isolamento?

Bom, eu não acho que ele esteja isolado. O Marconi possui uma base de cerca de 22% do eleitorado, que é reflexo da trajetória que construiu. Foi um dos melhores governadores que Goiás já teve e deixou um legado importante para o estado.

Foi um governo criativo, que inovou bastante e contribuiu para melhorar a vida em Goiás. Essa herança é muito relevante e ajuda a explicar essa base eleitoral. Agora, ela, por si só, não elege.

O passado ajuda muito e dá sustentação à candidatura. Mas a chegada ao segundo turno dependerá da capacidade de encantar, convencer e apresentar propostas para aqueles que não foram seus eleitores e, em muitos casos, sequer acompanharam seus governos. Isso passa pela capacidade política de atrair segmentos diferentes, construir novas alianças e ampliar a composição partidária.

Ainda estamos trabalhando para fechar alguns espaços importantes, inclusive em um cenário de restrição financeira. Podem vir novos partidos? Sim, essa possibilidade existe.

Prefiro não adiantar nomes para não gerar qualquer repercussão política antecipada, mas há conversas em andamento. Além dos partidos, há segmentos relevantes. Falamos há pouco sobre o agro, mas também existem setores ligados à Igreja Evangélica, por exemplo, que possuem um peso muito significativo. Cabe ao Marconi conquistar essas pessoas que não integram a base marconista histórica associada ao seu passado político.

Além disso, o Marconi conta com o apoio de centenas de ex-prefeitos e ex-vereadores que têm uma ligação muito forte com ele. Existe, inclusive, uma organização que reúne cerca de 600 ex-prefeitos que o apoiam em função da trajetória que construiu. Isso está longe de ser algo pequeno; é uma ajuda imensa.

Agora, o grande desafio é conquistar aqueles que ainda não são do Marconi. Ao longo da campanha, com o uso das redes sociais, do convencimento, da chegada de novos partidos, de novas ideias e do apoio de outras lideranças, acredito que será possível alcançar o segundo turno.

Daniel Vilela certamente estará no segundo turno. Então, essa espécie de dobradinha, entre aspas, acaba sendo impactada pelo que Ronaldo Caiado está fazendo neste momento. Na avaliação dele, dentro de suas características políticas, Ronaldo optou por não atuar como uma linha auxiliar do bolsonarismo visando uma eventual união no segundo turno. Em vez disso, busca ocupar o espaço de Flávio Bolsonaro já no primeiro turno.

Essa estratégia tem consequências e produz reflexos no cenário eleitoral, mas está alinhada ao perfil político do governador. Ele tem uma postura mais firme e mais identificada com a direita, o que faz com que não tenha essa percepção de atuar em favor de uma composição mais ampla para o segundo turno.

Isso, naturalmente, poderá gerar desdobramentos ao longo da disputa, e a expectativa é de que esses efeitos acabem favorecendo a candidatura de Marconi.

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“Podem vir novos partidos? Sim, essa possibilidade existe”, declara Jalles Fontoura | Foto: Oyagy Vieira/Jornal Opção

João Paulo Alexandre – E como vocês estão trabalhando, ou pretendem trabalhar, a questão da rejeição ao Marconi? O senhor tem uma avaliação sobre isso? Em abril, uma pesquisa Quaest apontou que ele tinha 50% de rejeição entre o eleitorado goiano. Agora, o novo levantamento da Quaest indica 46%.

Esse é, sem dúvida, um dos principais desafios. A rejeição é algo muito sério e precisa ser trabalhada com bastante cuidado. O caminho para isso passa pela apresentação de propostas consistentes e pela capacidade de dialogar com o eleitor.

É preciso compreender o que é importante para o povo goiano, quais são os temas prioritários e como representar melhor as expectativas da população. Esse é um fator que pode contribuir para a redução da rejeição. Mas não há dúvida de que se trata de um problema relevante, que exige um trabalho intenso ao longo da campanha.

João Paulo Alexandre – E, na avaliação do senhor, de onde vem essa rejeição ao Marconi?

Houve, ao longo dos anos, uma campanha sistemática e muito dura do Ronaldo contra o Marconi. Eu acompanhei esse período de perto. Na época em que Marconi era governador, fui secretário da Fazenda e presidente da Saneago por muitos anos.

Lembro da quantidade de situações e articulações envolvendo diferentes atores, inclusive o Ministério Público, sempre em torno desse debate. Agora, qual foi a condenação que o Marconi recebeu? Qual fato foi efetivamente comprovado contra ele?

Essa campanha contra o Marconi, ao longo dos seus quatro mandatos e nos anos seguintes, foi muito intensa. Acredito que essa rejeição começou a ser amenizada durante a campanha ao Senado, mesmo tendo sido uma eleição em que ele acabou derrotado.

Naquele momento, era difícil para o Marconi circular pelos lugares. Com a campanha para o Senado, ele voltou a frequentar restaurantes e ambientes públicos com normalidade. Aquela rejeição mais visceral, mais intensa, foi diminuindo.

Hoje, em qualquer ambiente, as pessoas podem concordar, apoiar ou rejeitar o Marconi, mas há uma aceitação maior da sua presença no debate público. Na minha avaliação, ele conseguiu superar essa fase mais aguda da rejeição, e o momento-chave para isso foi justamente a candidatura ao Senado. Embora tenha sido derrotado, aquela disputa trouxe esse efeito positivo.

Ton Paulo – No entanto, houve muita crítica a algumas posturas do ex-governador tucano. Por exemplo, quando ele foi derrotado na última eleição e decidiu sair do estado, se mudando para São Paulo.

Marconi é um político visceral, alguém que vive a política de forma integral. O afastamento que teve foi, em grande medida, uma forma de recuar para preservar sua trajetória política e também sua vida pessoal e familiar. Naquele momento, surgiu um convite muito interessante de um grande empresário, e esse período fora da política acabou sendo tático, estratégico e importante para que ele pudesse fazer uma pausa.

Permanecer em um ambiente de confronto permanente, em uma posição constante de combate, seria algo improdutivo. Esse recuo também permitiu que as pessoas tivessem tempo para refletir sobre a dimensão das realizações dos seus governos.

Basta observar algumas obras. As rodovias duplicadas, a saúde. Quando você vê o hospital de Uruaçu construído durante sua gestão, a Policlínica de Goiânia e o conjunto de investimentos realizados na saúde, na educação e na infraestrutura, percebe a relevância desse legado. Isso, na minha opinião, nunca pode ser desprezado.

Ao comparar com o governo Ronaldo, vejo uma diferença significativa de perfil. Ronaldo alcançou uma popularidade importante, muito associada ao marketing e, principalmente, à área da segurança pública.

Já o Marconi deixou marcas importantes em diferentes áreas. Fez o Hugol, o hospital de Uruaçu e os hospitais regionais. O legado construído na saúde, em particular, foi extraordinário. O Cora é uma iniciativa interessante e positiva, mas, na minha avaliação, não altera a dimensão do conjunto de obras realizadas durante os governos de Marconi.

O Crer é um outro bom exemplo disso. O grande desafio da saúde pública é a ortopedia. Em Goiânia, por exemplo, uma parcela significativa dos transportes por ambulância está relacionada a essa área. O Crer teve uma importância enorme nesse contexto.

Por isso, é difícil para qualquer pessoa que acompanhe a história recente de Goiás deixar de reconhecer as obras realizadas em diversas áreas. Em Goiânia, por exemplo, há a questão do abastecimento de água. Eu trabalhei diretamente nesse tema, e aquela transformação permanece até hoje.

A água deixou de ser um problema e passou a ser uma solução para uma região que hoje reúne milhões de habitantes. A integração das bacias e a implantação do sistema João Leite foram iniciativas muito importantes. Havia um governo com capacidade de inovar e apresentar soluções criativas.

Naquele momento, porém, houve um desgaste muito grande, um sentimento de esgotamento, o que acabou levando a esse período de afastamento. Na minha avaliação, esse recuo foi importante para dar tempo à história e aos fatos.

Hoje, no entanto, vivemos outro momento. As preocupações da sociedade mudaram, o eleitorado mudou e os desafios relacionados ao Estado e às cidades também são diferentes.

Por isso, não é possível permanecer vinculado apenas ao passado ou ao saudosismo. O que foi feito já faz parte da história, mas esse legado continua sendo importante e está registrado na trajetória do estado.

Daqui para frente, é preciso olhar para o futuro. Estamos falando de uma pessoa com pouco mais de 60 anos, que ainda tem disposição, capacidade de realização e está apresentando propostas. Esse é o desafio agora: construir uma agenda voltada para o futuro.

Jalles Fontoura destaca que o principal desafio de Marconi Perillo é superar a rejeição | Foto: Oyagy Vieira/Jornal Opção

Ton Paulo – Recentemente, seu partido, o PSDB, conseguiu na Justiça a cassação do mandato da vereadora Aava Santiago por infidelidade partidária. Como avalia essa iniciativa?

Eu não faria isso e tenho certeza de que o Marconi também não faria. Mas as pessoas têm direitos. Se alguém se sentiu prejudicado e entendeu que houve algum equívoco jurídico relacionado à saída dela fora do prazo adequado, essa pessoa tem o direito de recorrer aos instrumentos previstos em lei.

Não se pode simplesmente atribuir isso ao Marconi e dizer que houve uma iniciativa dele para tomar essa decisão. Certamente não foi o caso. Quem promoveu esse movimento o fez com base em um entendimento jurídico.

É até difícil dizer que seria melhor que isso não tivesse acontecido, porque a Aava é uma pessoa que tem sua trajetória, sua representatividade e tomou uma posição política. Talvez pudesse ter havido uma compreensão maior em torno da situação, mas o fato é que ela agiu fora do período estabelecido, o que acabou abrindo espaço para um questionamento.

Situações semelhantes acontecem em outros partidos. Houve, por exemplo, no PT, questionamentos envolvendo o mandato do professor Edward. Estamos falando de mandatos legitimamente conquistados.

Na minha opinião, a cassação do mandato dela não deveria ter acontecido. Mas também não se pode atribuir essa responsabilidade ao Marconi, porque ele não teve qualquer iniciativa nesse sentido. É preciso colocar cada coisa em seu devido lugar.

“Na minha opinião, a cassação do mandato dela não deveria ter acontecido”, diz Jalles Fontoura | Foto: Guilherme Alves /Jornal Opção

Ton Paulo – O senhor mencionou que a segurança pública se tornou uma grande vitrine para o Estado de Goiás, para Ronaldo Caiado e, agora, também para Daniel Vilela. Boa parte da aprovação dos dois está associada aos resultados apresentados nessa área, e os índices, de fato, melhoraram bastante em Goiás. Qual é a estratégia do Marconi diante de um tema que certamente será amplamente explorado pelo governo durante a campanha?

Você sabia que uma parcela significativa do funcionalismo público, incluindo integrantes das forças policiais, tende a apoiar o Marconi? Isso se explica pela relação que ele sempre manteve com os servidores estaduais.

É impressionante observar o apoio que ele recebe dentro das corporações policiais. Esse é um dos pontos de partida para a construção da campanha. Agora, segundo pesquisas recentes, a maior preocupação dos brasileiros é a segurança pública.

Essa é uma preocupação nacional, não apenas de Goiás. Em seguida, aparece a corrupção. Em outros momentos, os principais temas já foram saúde e emprego. Hoje, o Brasil tem esse olhar voltado para a segurança e para o combate à corrupção.

Goiás teve a capacidade de comunicar muito bem sua política de segurança, mas é importante lembrar que essa diretriz já existia nos governos de Marconi, especialmente durante a atuação de Irapuan Costa Junior [Irapuan foi secretário do governo de José Eliton] na área. Era uma política firme de enfrentamento à criminalidade.

Essa linha de atuação acabou sendo mantida e conquistou grande aprovação popular. Há, inclusive, exemplos em outros estados que demonstram como pautas relacionadas à segurança costumam ter forte apelo junto ao eleitorado.

O que Ronaldo Caiado fez foi comunicar muito bem essa agenda. Os indicadores já vinham apresentando melhora anteriormente, inclusive durante a gestão de Irapuan. Não foi uma política iniciada no governo Ronaldo.

Agora, do ponto de vista da comunicação, o governo soube explorar muito bem esse tema. Mensagens associadas ao combate à criminalidade tiveram forte impacto na opinião pública, o que contribuiu para a popularidade do governador. Isso, no entanto, é diferente do debate sobre a realidade da segurança pública, que continua apresentando desafios complexos e que ainda precisam ser enfrentados.

Mas, de qualquer forma, é mérito do Ronaldo ter conseguido projetar nacionalmente essa imagem de que Goiás possui uma realidade de segurança pública distinta do restante do país.

Na prática, Goiás não ocupa a primeira nem a segunda posição nos rankings nacionais de segurança, mas, ainda assim, essa percepção foi construída de maneira muito eficiente. A comunicação foi extremamente bem executada.

Reconheço que esse foi um dos grandes méritos do Ronaldo: conseguir levar essa narrativa para o cenário nacional, o que, evidentemente, dialoga com o projeto político que ele busca construir.

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“O que Ronaldo Caiado fez foi comunicar muito bem essa agenda”, diz Jalles Fontoura | Foto: divulgação

João Paulo Alexandre – Como está o plano de governo do Marconi Perillo? O senhor citou em uma resposta anterior que um dos maiores desafios é trazer propostas modernas. O que vai compor esse plano de Marconi?

O plano é algo que está sendo gestado a partir da filosofia, da ideia de que é preciso representar corretamente os desejos e as expectativas das pessoas para o futuro do Brasil.

Mas eu estou um pouco por fora dessa construção. Tenho trabalhado muito na minha área e quero ajudar o Marconi da forma que for possível.

Tem um livro do Felipe Nunes, O Brasil no Espelho, que eu presenteei ao Marconi. Ele procura responder o que o brasileiro pensa quando se enxerga no espelho. É baseado em cerca de 30 mil entrevistas, o que dá muita precisão aos resultados, mesmo quando se analisa segmentos específicos.

O livro trata dos costumes do Brasil de hoje e das diferentes gerações. Ele faz uma divisão geracional muito interessante. A minha geração, por exemplo, é a geração Bossa Nova, de 1945 a 1965. De 1965 a 1985, é a geração do progresso. De 1985 a 2000, a geração da democracia. E, de 2000 para cá, a geração ponto com.

A grande mudança do Brasil está justamente na passagem entre as gerações. O que caracteriza essas mudanças? Por exemplo, hoje há diferenças importantes em temas relacionados ao comportamento, à religião, ao conservadorismo e ao aborto.

Então, a questão dos costumes é muito interessante. Muitas pessoas se identificam com esse tipo de análise. Na área da segurança, por exemplo, é preciso discutir a valorização do setor, que, na minha avaliação, hoje não está valorizado.

Jalles Machado em entrevista ao Jornal Opção | Foto: Oyagy Vieira/Jornal Opção