Elisa Signates: “Polarização tem pontos negativos, mas também positivos, porque o debate acontece. O problema é quando há incapacidade de estabelecer o diálogo”
10 outubro 2026 às 21h00

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Graduada em Ciências Sociais, especialista em Políticas Públicas e mestre em Sociologia, a professora e pesquisadora Elisa Signates carrega um sobrenome de peso em Goiás e no Brasil. É filha do pesquisador, pós-doutor e também professor Luiz Signates, figura reconhecida nas áreas da Comunicação e das Ciências Políticas. No entanto, a cientista social, que, assim como o pai, leciona na Pontifícia Universidade Católica de Goiás (PUC Goiás), constrói sua própria trajetória de reconhecimento. Doutoranda em Sociologia pela Universidade de Brasília (UnB), Elisa analisa, nesta entrevista ao Jornal Opção, o contexto social (e suas origens) e político após o turbulento primeiro turno das eleições, que resultou em uma disputa entre Lula e Flávio Bolsonaro pela Presidência da República.
Para a pesquisadora, o histórico político da família Bolsonaro, que já teve Jair à frente da Presidência, ajuda a explicar o receio de parte da população quanto à possibilidade de perda de direitos e retrocessos sociais caso Flávio seja eleito. Elisa, entretanto, não descarta a possibilidade de o candidato, se chegar ao Palácio do Planalto, adotar uma postura mais moderada e aberta à negociação, aproximando-se do perfil político de Michel Temer.
A socióloga também avalia que, apesar das profundas transformações sociais promovidas pelos governos de Lula e do PT, a legenda enfrenta dificuldades para dialogar com as novas gerações e com uma parcela da população que ascendeu economicamente, deixou a classe C e hoje não se sente devidamente ouvida ou representada pelo partido. Para Elisa, esse distanciamento ajuda a compreender parte das mudanças no comportamento do eleitorado brasileiro. A pesquisadora também pondera que a polarização entre esquerda e direita não é, por si só, prejudicial à democracia. Pelo contrário, pode contribuir para o debate público e o confronto de ideias, desde que as divergências não inviabilizem aquilo que considera essencial à convivência democrática, que é o diálogo.
Ton Paulo – Acabamos de sair do primeiro turno e vimos, pelo perfil dos candidatos eleitos, que a direita, especialmente o PL, protagonizou uma onda de crescimento em todo o Brasil. A partir do próximo ano, o partido terá 121 deputados federais e 28 senadores, além da possibilidade de eleger o presidente da República, com Flávio Bolsonaro. A que se deve essa onda de crescimento do PL?
Há algumas hipóteses. Uma delas está relacionada ao processo de deslegitimação do PT. Lula foi eleito, depois Dilma Rousseff chegou à Presidência e, a partir das manifestações de 2013 e do processo que culminou no impeachment de Dilma, houve uma reação popular muito forte, impulsionada também pelas denúncias de corrupção.
Foi nesse contexto que Bolsonaro começou a se destacar como uma possível liderança, apresentando-se como uma alternativa política. Na minha avaliação, parte da população passou a demonstrar ressentimento em relação a Lula. Ele veio da classe trabalhadora e conseguiu chegar à Presidência da República, mas acredito que a decepção surgiu quando as pessoas perceberam que, ao chegar ao poder, ele reproduzia práticas associadas aos políticos tradicionais.
Isso envolve questões como a corrupção e o próprio jogo político, favorecido pelo nosso sistema, especialmente pelo presidencialismo de coalizão. Com isso, Bolsonaro surgiu como uma alternativa, apresentando-se como uma espécie de salvador da pátria.

Ele se consolidou como uma liderança carismática, fortemente vinculada às questões religiosas e às pautas morais. Aproximou-se principalmente dos evangélicos, um segmento bastante mobilizado por essas questões. As pautas morais passaram a desempenhar um papel importante nessa aproximação, levando uma parcela expressiva da população religiosa a manifestar apoio explícito a Bolsonaro.
Tanto Jair quanto Flávio Bolsonaro têm grande representatividade entre os evangélicos, especialmente em razão dessas pautas. Ao mesmo tempo, os governos de esquerda, particularmente os do PT, promoveram avanços nos direitos das minorias, o que provocou reações em setores mais tradicionais e conservadores da sociedade brasileira.
Essas transformações atingem valores culturais profundamente enraizados. Parte da população passou a se identificar com o discurso de Bolsonaro justamente por receio das mudanças sociais e do avanço de pautas progressistas.
Esse processo vem se fortalecendo ao longo dos anos. Bolsonaro foi eleito em 2018, em um contexto marcado pela prisão de Lula e pelos desdobramentos das denúncias de corrupção. Posteriormente, tivemos a pandemia. Na minha avaliação, a pandemia foi determinante, porque, sem ela, provavelmente teríamos outro resultado eleitoral favorável a Bolsonaro. A questão da corrupção também deixou de ocupar uma posição tão central no debate público. Ainda assim, as pautas morais continuaram sendo um dos principais fatores de mobilização da parcela religiosa da sociedade.
Ao analisar o perfil dos candidatos eleitos para o Legislativo, especialmente os do PL, percebi que suas principais bandeiras estão relacionadas à segurança pública e à defesa da chamada família tradicional brasileira.
Quando esses candidatos defendem a família tradicional, há também uma reação às conquistas de direitos das minorias, como o casamento homoafetivo e os direitos das mulheres. Essas transformações provocam resistência em setores conservadores, que demonstram receio de uma possível descaracterização do modelo tradicional de família. Existe uma preocupação sobre como a família será constituída no futuro, caso esse modelo deixe de ser predominante.
Além disso, há um componente econômico muito importante. Procurei analisar o que mudou no comportamento do eleitorado entre as eleições anteriores e o primeiro turno deste ano. Todos esperavam uma disputa em segundo turno, mas não havia a expectativa de que Flávio Bolsonaro terminasse à frente de Lula.

Esse foi o resultado que mais me surpreendeu. Por isso, procurei pesquisas e análises que ajudassem a compreender essa mudança. Encontrei uma entrevista que apontava que a diferença não estava propriamente no eleitorado evangélico, porque esse segmento já havia apoiado Bolsonaro na eleição anterior e manteve esse comportamento agora. Era algo esperado.
A principal mudança teria ocorrido entre os eleitores da classe média, especialmente da classe C. Houve uma ascensão social significativa a partir de 2024, com aproximadamente 17 milhões de pessoas passando a integrar a classe média. Parte desse grupo, formado também por católicos conservadores, teria optado por Flávio Bolsonaro.

Ton Paulo – Mas as abstenções também não tiveram impacto?
As abstenções permaneceram em patamares relativamente semelhantes. Na minha avaliação, o principal problema não foi a abstenção, mas a dificuldade de estabelecer diálogo com uma parcela da sociedade que deixou de ser ouvida pelos políticos.
O jornalista Pedro Doria, do Canal Meio, por exemplo, apresentou uma análise baseada nos resultados de aproximadamente 96% das urnas eletrônicas do país. Ele cruzou os resultados eleitorais de cada urna com indicadores sociais das populações que votam naquelas localidades, buscando identificar a distribuição dos votos entre Flávio Bolsonaro e Lula.
A partir desse levantamento, identificou mudanças importantes no comportamento eleitoral de moradores de cidades do interior e de regiões periféricas, especialmente fora das grandes metrópoles.
Em 2022, parte desses eleitores votou em Lula, mas, nesta eleição, passou a apoiar Flávio Bolsonaro. Essa mudança está relacionada, na minha avaliação, à percepção de que essa parcela da sociedade não tem sido ouvida pelos políticos.
Trata-se justamente de uma população que experimentou ascensão social nos últimos anos, mas que não necessariamente se sente representada pelo discurso político daqueles que anteriormente apoiava.
Ton Paulo – Que classe é essa?
Essa parcela da população que ascendeu socialmente passou a integrar a classe média. Mas quem são essas pessoas? São trabalhadores autônomos, empreendedores e indivíduos que se identificam com os princípios do neoliberalismo e da meritocracia, segundo os quais o esforço individual e o trabalho são fundamentais para alcançar a ascensão social.
Essas pessoas tendem a enxergar o Estado como uma barreira ao próprio crescimento, especialmente em razão da burocracia, que, na percepção delas, dificulta a expansão de seus negócios e o acesso a novas oportunidades.
Uma microempresa com dois ou três funcionários, por exemplo, não tem a mesma capacidade de arcar com a carga tributária de uma grande empresa. Por isso, esses pequenos empreendedores percebem a tributação e a burocracia como obstáculos ao crescimento econômico.
João Paulo Alexandre – E Lula e o PT deixaram de dialogar com essa parcela da população?
Sim. Mas essa dificuldade não se restringe a Lula. Flávio Bolsonaro também enfrenta críticas por não conseguir estabelecer um diálogo efetivo com esse segmento. A diferença é que Flávio se apresenta como uma alternativa ao modelo político representado pelo PT.
Lula e o PT já estavam no poder e, como forma de protesto, parte desse eleitorado passou a apoiar quem representava uma posição contrária. Foi dessa maneira que Flávio Bolsonaro conseguiu conquistar esses votos.

Ton Paulo – A deputada eleita pelo PT Ana Elisa, uma das mais votadas e considerada uma espécie de “arma secreta” na campanha de Lula, publicou um vídeo direcionado à direita. Na gravação, ela sugere que existem três campos políticos distintos: a esquerda, a direita e o bolsonarismo. Você concorda com essa interpretação?
Quando se referem ao bolsonarismo, estão falando da extrema-direita. A eleição de Jair Bolsonaro representou a consolidação desse campo político no Brasil, acompanhando uma tendência internacional que costuma ser chamada de onda conservadora.
Diversos países elegeram lideranças de extrema-direita, especialmente na Europa. Nos Estados Unidos, tivemos também a eleição de Donald Trump. No Brasil, Jair Bolsonaro representou a consolidação desse movimento.
Por outro lado, a principal referência popular da esquerda brasileira é Lula. Sua trajetória política está diretamente associada à construção do PT. Para grande parte da população, Lula e o partido são praticamente indissociáveis.
Se perguntarmos às pessoas, muitas terão dificuldade em estabelecer essa distinção. Quem rejeita o PT, frequentemente o faz em razão da figura de Lula. Consequentemente, candidatos que integram a legenda também acabam sendo prejudicados por essa associação.
Isso está relacionado a uma característica da cultura política brasileira, marcada por uma tradição paternalista e pela centralidade do Poder Executivo.
A população tende a enxergar o chefe do Executivo como a principal representação do poder político, enquanto o Legislativo recebe menos atenção. Muitas pessoas sequer compreendem plenamente as atribuições de um deputado.
Existe uma valorização da figura do líder, daquele que exerce uma espécie de papel paternal e concentra a atenção pública. Por isso, considero que o bolsonarismo representa, sim, a extrema-direita no Brasil.
João Paulo Alexandre – Observamos um crescimento do conservadorismo entre os jovens, movimento que também parece estar relacionado à influência das redes sociais. Por que a esquerda não conseguiu estabelecer um diálogo com esse público anteriormente?
Existem muitas críticas nesse sentido, inclusive de artistas e outras figuras públicas que defendem que a esquerda, especialmente o PT, precisa retomar sua aproximação com as bases populares.
Há uma consciência social muito forte em torno da necessidade de ascensão social. As pessoas desejam melhorar suas condições de vida, tanto do ponto de vista econômico quanto em relação ao status social. Esses dois aspectos, geralmente, estão associados.
O problema é que, depois de alcançar essa ascensão, muitas pessoas acabam se distanciando de suas origens e modificando a maneira como enxergam a sociedade. Isso acontece porque conseguiram atingir os objetivos que estabeleceram para si.
Em relação às classes A e B, é importante observar que esses segmentos também se beneficiam das políticas adotadas por Lula. Ele conseguiu implementar medidas que atendem tanto às camadas mais pobres quanto às mais ricas da população. Essa capacidade de contemplar diferentes interesses ajuda a explicar sua permanência no cenário político ao longo dos anos.
Isso não significa, entretanto, que todos os integrantes das classes A e B votem em Lula ou compartilhem de suas posições ideológicas. Muitos, provavelmente, fazem críticas ao presidente e ao PT.
Ainda assim, do ponto de vista econômico, esses grupos também são beneficiados pelas políticas implementadas durante seus governos.
Giovanna Campos – Há certa preocupação, principalmente entre os setores ligados à esquerda, de que haverá retirada de direitos caso Flávio Bolsonaro seja eleito. Essa preocupação tem fundamento ou é alarmista?
Acredito que seja uma preocupação legítima. Na minha avaliação, existe o risco de perdermos direitos, principalmente porque não temos uma cultura de reafirmação e defesa das conquistas que já alcançamos. Muitas vezes, consideramos esses direitos como algo garantido, especialmente as gerações mais jovens.
Nossa geração, por exemplo, não viveu durante a ditadura e, portanto, não experimentou diretamente o que significa lutar pela conquista de direitos. Como já nascemos em um contexto democrático, tendemos a acreditar que essas garantias são permanentes e que, independentemente das circunstâncias políticas, tudo continuará como está.
Existe essa percepção de que as mudanças políticas acontecem, mas os direitos permanecem assegurados. Entretanto, diante da atual composição conservadora do Legislativo, acredito que uma eventual eleição de Flávio Bolsonaro pode representar retrocessos.
E, se não houver uma reação da sociedade, justamente pela ausência dessa cultura de mobilização e defesa dos direitos, corremos o risco de perder conquistas importantes.

Ton Paulo – Caso Flávio Bolsonaro seja eleito presidente, tanto ele quanto o PL passarão a concentrar um poder significativo em diferentes esferas. O partido estará à frente do Executivo, terá uma bancada expressiva no Legislativo, com mais de 120 deputados federais e quase 30 senadores, e o presidente poderá indicar quatro ministros ao STF. Flávio, inclusive, já fala em cinco indicações, considerando a possibilidade de impeachment do ministro Alexandre de Moraes. O que essa concentração de poder representa? Pode favorecer a governabilidade ou representa um risco pelo fortalecimento excessivo de um único grupo político?
Meu receio está justamente na possibilidade de concentração de poder. Existe uma diferença entre a realização de um golpe de Estado, que implica uma ruptura explícita da ordem institucional, e a situação em que um determinado grupo político passa a controlar grande parte da estrutura estatal.
Nesse segundo caso, não é necessário promover uma ruptura. Ele não precisa necessariamente promover um golpe de Estado. Pode implementar os objetivos de seu grupo político utilizando os próprios mecanismos democráticos. Entretanto, isso também pode representar um enfraquecimento da democracia.
Esse enfraquecimento ocorre quando parcelas da população deixam de ser ouvidas e não se sentem representadas pelas instituições. Por isso, considero essa possibilidade preocupante. Apesar disso, acredito que a democracia brasileira possui mecanismos suficientemente sólidos para garantir a resistência das instituições diante de eventuais ameaças. É uma esperança que mantenho.

Ton Paulo – Você acredita que também pode haver uma reação popular? Afinal, independentemente de Flávio Bolsonaro ou Lula vencer a eleição, o país continuará dividido. O resultado do primeiro turno mostrou que uma parcela expressiva da população não apoia nenhum dos dois candidatos. Nesse contexto, podemos esperar manifestações populares mais intensas?
Acredito que a polarização política tem coisas ruins, também possui elementos positivos do ponto de vista democrático, especialmente porque estimula o debate e a discussão acaba acontecendo.
Quando existe uma concordância generalizada em torno de determinada posição, as possibilidades de discussão e transformação acabam sendo reduzidas. Por outro lado, quando há representação de campos políticos distintos, com visões contrapostas, cria-se um ambiente favorável ao debate democrático.
Nesse sentido, considero saudável a existência de posições políticas divergentes. O problema não está propriamente na polarização, mas na incapacidade de estabelecer diálogo entre esses diferentes grupos, que é justamente o que observamos atualmente.
Giovanna Campos – Até que ponto a existência da oposição é necessária para garantir o equilíbrio institucional do país? E em que momento essa oposição começa a extrapolar os limites democráticos?
Acredito que esses limites começam a ser ultrapassados quando há violência ou quando as pessoas deixam de conseguir dialogar. Atualmente, temos dificuldade até mesmo de reunir duas pessoas com posições políticas diferentes, uma de direita e outra de esquerda, para um debate.
A extrema-direita utiliza muito frases de impacto para mobilizar seus apoiadores. Expressões como “precisamos salvar o Brasil”, por exemplo, são utilizadas para despertar o sentimento de identificação entre pessoas que compartilham determinados valores tradicionais e religiosos.
Esse tipo de discurso tem grande capacidade de mobilização porque estabelece uma conexão direta com as crenças e os valores de parte da população.
Por outro lado, também precisamos reconhecer alguns problemas na postura da esquerda. Como o PT permaneceu muito tempo no poder, parte de seus apoiadores passou a adotar uma atitude de menosprezo em relação aos eleitores de direita. Tenho observado, inclusive nas redes sociais, críticas à maneira como a esquerda passou a tratar essas pessoas.
Expressões como “pobre de direita” ou “CEO de MEI”, que ganhou bastante repercussão, são exemplos disso. São termos que acabam ridicularizando determinados grupos sociais e desconsiderando suas preocupações.
Essas pessoas se sentem ofendidas e passam a ter a percepção de que suas reivindicações não são legítimas. Mas elas são. Existem críticas válidas ao PT, assim como a qualquer outro governo.
Quando essas críticas são deslegitimadas e as pessoas deixam de ser ouvidas, ocorre um afastamento. A incapacidade de compreender as demandas desse eleitorado contribui para que ele deixe de se identificar com determinado campo político.
Ton Paulo – Algumas análises apontam que, apesar das preocupações em torno de uma eventual vitória de Flávio Bolsonaro, seu governo poderia se aproximar mais do perfil de Michel Temer do que do de Jair Bolsonaro. Ou seja, seria um governo de direita, mas com uma orientação mais liberal e moderada. Qual é a sua percepção?
Também considero essa possibilidade. Flávio Bolsonaro tem um perfil diferente do pai. Na minha avaliação, ele demonstra maior capacidade de articulação política e de elaboração de estratégias.
Ele possui experiência na política e parece compreender melhor a importância das negociações e da construção de acordos. Isso não significa, necessariamente, que sua trajetória tenha sido marcada por grandes realizações, mas acredito que ele tenha habilidade para atuar nesse ambiente.
E é justamente essa capacidade estratégica que desperta algumas preocupações. Meu receio está relacionado à maneira como ele poderá utilizar essas habilidades para implementar as propostas e os objetivos defendidos por seu grupo político, especialmente quando essas medidas puderem prejudicar determinados segmentos da sociedade.
Portanto, não considero Flávio Bolsonaro uma figura politicamente despreparada. Pelo contrário, acredito que ele tenha capacidade de negociação e articulação.
Naturalmente, não no mesmo nível de Lula, que possui uma trajetória muito mais extensa de negociação e articulação política. Lula é um ‘animal político’, com uma formação construída também no movimento sindical, algo que Flávio Bolsonaro não possui na mesma proporção.
João Paulo Alexandre – Recentemente, o governador eleito de Minas Gerais, Cleitinho (Republicanos), criticou a articulação de Rogério Marinho (PL) para a presidência do Senado. Cleitinho, inclusive, recebeu apoio do bolsonarismo. Essas divergências e atritos podem se tornar mais evidentes dentro do próprio grupo com o passar do tempo?
Sim. Até porque esse segmento não se sente devidamente ouvido ou representado. Existe um distanciamento entre as lideranças políticas e as demandas da população, algo que está diretamente relacionado à dinâmica do populismo.
Quando as pessoas percebem que seus interesses não estão sendo defendidos, podem surgir insatisfações e divergências dentro do próprio campo político.
Com isso, é possível que ocorram rupturas ou divisões internas na direita. Isso, entretanto, não significa que esses eleitores necessariamente passarão a apoiar a esquerda. O comportamento eleitoral não funciona de maneira tão automática.
Historicamente, os extremos políticos não tiveram no Brasil o mesmo nível de projeção que alcançaram nos últimos anos. Nossa cultura política esteve mais associada à mediação e à busca por posições intermediárias.
É por isso que considero o centro político tão relevante no país. Embora atualmente não ocupe uma posição hegemônica, esse campo tende a apresentar maior capacidade de diálogo com diferentes segmentos da sociedade, justamente por adotar um discurso mais moderado.
Giovanna Campos – Como as instituições democráticas podem exercer o papel de freios e contrapesos diante de uma maioria política tão expressiva em diferentes Poderes?
Por meio da Constituição Federal. É ela que estabelece os limites de atuação de cada Poder e os mecanismos necessários para preservar o equilíbrio institucional. Entretanto, a efetividade desses mecanismos também depende das pessoas que elegemos para representar a sociedade e defender a Constituição.
É importante lembrar que o presidente da República não governa sozinho. Mesmo que tenha uma bancada expressiva no Senado e na Câmara dos Deputados, continuará existindo oposição.
Além disso, essa representação não significa que o grupo político terá maioria absoluta ou apoio suficiente para aprovar todas as suas propostas sem negociações. Portanto, embora o PL tenha conquistado uma posição de força no Congresso Nacional, ainda precisará construir acordos e dialogar com outras forças políticas para viabilizar sua agenda. Não terá condições de implementar todas as suas propostas de maneira isolada.
Ton Paulo – Do ponto de vista sociológico, por que você acredita que o Judiciário, que até alguns anos atrás mantinha uma atuação mais discreta, ganhou tanta evidência e se tornou um dos principais alvos da extrema-direita?
Acredito que isso esteja relacionado ao processo de deslegitimação dos Poderes Executivo e Legislativo, especialmente durante a crise política enfrentada pelo PT, marcada por denúncias de corrupção. Nesse contexto, o Supremo Tribunal Federal (STF) passou a exercer um papel de maior protagonismo.
O STF surgiu como uma espécie de mediador, uma autoridade responsável por administrar os conflitos entre os Poderes e preservar o funcionamento das instituições. Esse protagonismo se intensificou durante os desdobramentos das investigações que culminaram, inclusive, na prisão de Lula.
Entretanto, esse processo também está relacionado à maneira como a sociedade brasileira enxerga suas lideranças políticas. Sempre que analiso esse fenômeno, recorro à figura do líder carismático, aquele que surge como alguém capaz de resolver os problemas da sociedade. Essa percepção está profundamente associada à tradição paternalista da nossa cultura política.
Naquele momento, Sérgio Moro passou a ocupar esse papel. Ao conduzir investigações que associaram Lula a escândalos de corrupção, Moro conquistou expressivo apoio popular, independentemente das controvérsias posteriores sobre a condução desses processos.
Isso ocorreu porque parte da sociedade já estava desacreditada das instituições políticas e decepcionada com Lula. O Legislativo, por sua vez, historicamente não recebe da população a mesma atenção dedicada ao Executivo. Não significa que seja menos importante, mas que sua relevância institucional nem sempre é plenamente compreendida pelos cidadãos.
Nesse ambiente de descrédito e polarização, determinadas figuras passaram a ganhar força como referências de autoridade. Isso também está relacionado à perda de uma liderança que, durante muito tempo, representou a possibilidade de transformação social.
Lula construiu sua trajetória como alguém que saiu das camadas populares, chegou à Presidência da República e promoveu mudanças importantes na estrutura social brasileira. Essas transformações, entretanto, também provocaram resistência em setores que ocupavam posições historicamente privilegiadas.
Quando o filho de uma empregada doméstica passa a frequentar a mesma universidade que o filho de seu empregador, por exemplo, há uma alteração significativa nas relações sociais. E isso provoca incômodo em determinados segmentos da sociedade.
Lula promoveu mudanças que abalaram estruturas sociais consolidadas. Parte da população reagiu a essas transformações com ressentimento, fenômeno que a literatura sociológica aponta como um dos fatores associados ao fortalecimento da extrema-direita, tanto no Brasil quanto em outros países.
Esse ressentimento está relacionado à percepção de setores historicamente privilegiados de que outros grupos passaram a receber benefícios ou oportunidades que antes não possuíam. Ao mesmo tempo, esses segmentos tendem a atribuir suas próprias conquistas exclusivamente ao mérito individual, desconsiderando os privilégios sociais que contribuíram para sua posição.
É nesse contexto que políticas assistenciais e de inclusão social também provocam resistência. Surge, então, um movimento de reação às transformações sociais e políticas.
Diante desse cenário de crise de legitimidade do Executivo e do Legislativo, o STF passou a ser visto como uma instituição capaz de preservar a ordem e mediar os conflitos, assumindo um protagonismo que anteriormente não possuía na mesma intensidade.
João Paulo Alexandre – Falamos anteriormente sobre a capacidade de articulação de Flávio Bolsonaro em comparação com a do pai. Essa habilidade também pode ser observada na estratégia do PL de distribuir integrantes da família Bolsonaro e aliados por diferentes estados, buscando ampliar sua representação e fortalecer sua presença nas instituições? Michelle Bolsonaro, por exemplo, foi eleita pelo Distrito Federal; Carlos Bolsonaro, por Santa Catarina; Jair Renan também conquistou um mandato; e Gustavo Gayer foi eleito por Goiás, além de outros nomes próximos ao grupo.
Sim, considero uma estratégia inteligente. Ao distribuir lideranças e candidatos apoiados pelo grupo por diferentes estados, o partido consegue mobilizar eleitores em várias regiões do país, especialmente nos grandes centros urbanos e nas regiões metropolitanas.
Essa estratégia amplia a presença política do grupo e permite que ele conquiste representação em diferentes unidades da Federação. Com isso, o PL fortalece sua influência nacional e passa a exercer poder político em diversas regiões.
João Paulo Alexandre – Você acredita que faltou à esquerda adotar uma estratégia semelhante?
Existem críticas importantes à esquerda em relação às suas estratégias de mobilização política. Quando se afirma que o PT precisa voltar às bases, essa discussão está diretamente relacionada à necessidade de recuperar ou atualizar sua capacidade de comunicação com a população.
Historicamente, o PT sempre demonstrou grande habilidade na mobilização presencial, com manifestações, passeatas e comícios. Entretanto, essas formas tradicionais de participação política já não possuem o mesmo alcance de antes.
Lula ainda utiliza estratégias como carreatas e eventos públicos, mas, na minha avaliação, não explora as redes sociais com a mesma intensidade e eficiência de seus adversários.
Essa é uma crítica válida. A direita conseguiu compreender melhor o funcionamento das plataformas digitais e utilizá-las de maneira estratégica para ampliar sua presença política.
Primeiro, articulou e mobilizou apoiadores nas redes sociais para, posteriormente, levar essa mobilização às ruas. Houve uma integração entre a comunicação digital e a participação presencial.
As redes sociais, por si só, não se traduzem necessariamente em votos, mas funcionam como uma importante vitrine política. Elas permitem ampliar a visibilidade de candidatos, fortalecer discursos e estabelecer vínculos com diferentes segmentos do eleitorado.
A direita soube explorar esse potencial, e o PL foi um dos principais beneficiados por essa estratégia. O fortalecimento do partido está diretamente relacionado, entre outros fatores, à capacidade de utilizar as redes sociais como instrumento de comunicação e mobilização política.



