A religião continua ocupando um espaço importante na política brasileira, mesmo que os próprios eleitores digam que a opinião de líderes religiosos pese pouco na hora de escolher o candidato ideal nas urnas. É o que mostra uma pesquisa Datafolha, que colocou pastores, padres e outros líderes de fé na última posição entre os fatores que influenciam o voto, atrás de familiares, amigos, redes sociais e jornalistas. 

Para especialistas, no entanto, os números precisam ser analisados com mais cuidado para entender como a religião, especialmente entre os evangélicos, ainda interfere no comportamento eleitoral.

Em entrevista ao Jornal Opção, o cientista político Guilherme Carvalho e o especialista em marketing político Luiz Carlos analisaram os dados e discutiram o comportamento do eleitor, a influência do segmento evangélico, as diferenças entre homens e mulheres e o possível impacto desses fatores nas eleições presidenciais de 2026.

À esquerda, o especialista em marketing político Luiz Carlos; à direita, o cientista político Guilherme Carvalho, que analisaram a influência da religião sobre o voto dos brasileiros | Foto: Montagem Jornal Opção

A baixa influência declarada dos líderes religiosos, porém, não significa necessariamente que a religião tenha perdido espaço na política brasileira. Na avaliação do cientista político Guilherme Carvalho, admitir que um pastor, padre ou outro líder de fé influencia diretamente na escolha do voto pode gerar constrangimento ao entrevistado, como se a decisão eleitoral estivesse submetida à orientação de uma autoridade. “Não é suficiente apontar para indivíduos para entender um processo coletivo. Se você coloca a religião ao invés do indivíduo, você encontra um resultado diferente”, afirma. 

Para Guilherme, a pesquisa pode estar captando apenas uma parte da relação entre fé e política ao questionar especificamente sobre a influência de líderes religiosos. Na avaliação do cientista político, seria necessário considerar também a influência exercida pela própria comunidade religiosa, pelos valores compartilhados e pelo ambiente social em que o eleitor está inserido.

A interpretação também afasta a hipótese de que os brasileiros estejam necessariamente perdendo a confiança em seus líderes religiosos ou defendendo uma separação maior entre fé e política. Segundo Guilherme, a presença da religião no debate público continua forte e tende a permanecer relevante nas próximas eleições. “Não há evidências suficientes para sustentar que a religião esteja perdendo força. Muito pelo contrário, o que as evidências mostram é justamente o oposto”, afirma.

O especialista avalia que a influência religiosa também precisa ser observada para além da disputa presidencial. A presença de representantes ligados a grupos religiosos no Legislativo e a participação dessas comunidades na discussão de políticas públicas, segundo ele, mostram que a relação entre religião e política continua estruturada no país.

A leitura é semelhante à feita pelo especialista em marketing político Luiz Carlos, que chama atenção para outro aspecto dos números: a diferença entre a influência declarada dos líderes religiosos e o comportamento político de grupos religiosos específicos. Para ele, o dado mais relevante da pesquisa não está necessariamente no percentual geral atribuído à religião, mas na forma como esse eleitorado se distribui ideologicamente.

Para o especialista em marketing político Luiz Carlos, o resultado precisa ser observado em conjunto com outros fatores de influência sobre o eleitor. Segundo ele, a religião aparece atrás de família, amigos, redes sociais e imprensa quando o entrevistado é questionado diretamente sobre quem influencia sua decisão. “Família, amigos, redes sociais e imprensa têm mais influência do que a religião, segundo essa pesquisa”, comenta. 

Na avaliação do especialista, entretanto, o crescimento da população evangélica é um dos principais elementos para entender a relação entre religião e política no Brasil. Para ele, ainda que a influência dos líderes religiosos não seja declarada pela maioria dos entrevistados, o eleitor evangélico tende a apresentar maior proximidade entre sua identidade religiosa e seu posicionamento político. “O crescimento dos evangélicos é o fator mais importante dessa situação, da relação entre política e religião. O evangélico é muito mais influenciado. Ele não vota unanimemente, mas tende a votar muito mais com isso do que o católico”, diz.

Luiz Carlos também chama atenção para o recorte de gênero apresentado pelo Datafolha. Entre os homens, 40% afirmam que a opinião de amigos próximos terá muita ou alguma influência sobre o voto, contra 31% entre as mulheres. No caso das pessoas seguidas nas redes sociais, os índices são de 36% entre os homens e 29% entre as mulheres.

Para o especialista, essa diferença pode ajudar a compreender como a influência religiosa se distribui entre os eleitores. Ele avalia que, embora os homens representem uma parcela menor do eleitorado, aqueles mais ligados a grupos religiosos podem exercer influência dentro de suas famílias, no ambiente profissional e em outros círculos sociais. “Às vezes esse cara é um chefe, às vezes esse cara tem uma família grande, às vezes ele vai ser um formador de opinião. Então ele tem poder de convencimento”, afirma.

A partir dessa análise, Luiz Carlos levanta a hipótese de que a influência desse eleitorado possa aparecer de maneira mais significativa nas eleições legislativas do que nas disputas majoritárias. Segundo ele, a atuação de homens evangélicos em redes familiares, profissionais e comunitárias poderia contribuir para a formação de grupos de apoio e para o crescimento da representação religiosa no Congresso. “Talvez por isso a bancada evangélica tenha crescido. Esse homem evangélico tem um raio de influência dentro da família, no trabalho e nos locais que frequenta”, avalia.

O cenário, segundo o especialista, também ajuda a entender as diferenças entre as eleições de 2018, 2022 e a disputa prevista para 2026. Na avaliação dele, o eleitorado religioso continua sendo relevante, mas o contexto político mudou e o bolsonarismo já não apresenta a mesma força de anos anteriores. “O bolsonarismo perdeu força. Perdeu força com a prisão do Bolsonaro, com os escândalos que o antecederam e com esse comportamento familiar dele, de querer colocar a família mais do que o país e a pátria”, afirma.

Para Luiz Carlos, a disputa presidencial de 2026 também será influenciada por fatores que vão além da religião e da identificação ideológica. Ele cita aspectos sociológicos, psicológicos e relacionados à avaliação do desempenho dos governos como elementos que podem pesar na decisão do eleitor.

Nesse cenário, a religião aparece como um dos componentes de uma escolha que se tornou mais complexa. Para os especialistas, portanto, o resultado do Datafolha não deve ser interpretado isoladamente como uma perda de influência da fé ou dos líderes religiosos. O que os dados podem indicar é que a influência religiosa nem sempre ocorre de maneira direta ou é reconhecida pelo próprio eleitor.

A religião pode, ao mesmo tempo, ter pouca influência declarada quando o eleitor é questionado sobre a orientação de um líder e continuar exercendo papel relevante na construção de valores, identidades políticas e redes de mobilização. É justamente nessa diferença entre a influência assumida e a influência indireta que os especialistas enxergam uma das principais chaves para compreender a relação entre fé e voto no Brasil.

Para os especialistas ouvidos pelo Jornal Opção, os dados não permitem afirmar que a fé tenha deixado de interferir nas escolhas eleitorais. O que pode estar mudando é a forma como essa influência se manifesta. Em vez de uma orientação direta de um pastor, padre ou líder religioso, ela pode aparecer na identificação do eleitor com determinados valores, na convivência com uma comunidade de fé ou na atuação política de grupos organizados.

Nesse sentido, a religião pode continuar sendo um elemento importante da política brasileira mesmo quando o eleitor afirma que a opinião de seu líder religioso não terá influência sobre o voto. A distância entre essas duas respostas, para os especialistas, revela justamente a complexidade de medir a influência da fé sobre o comportamento eleitoral.

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