Anápolis, aniversariante do dia 31 de julho, já foi a cidade mais próspera de Goiás. Na década de 1930, com a chegada da ferrovia, tornou-se um importante entreposto comercial que ligava o Norte do Brasil à Região Sudeste. Nos anos 1940, com a implantação da Colônia Agrícola Nacional de Goiás (CANG), na região onde hoje está localizada a cidade de Ceres, Anápolis consolidou-se como centro comercial ao escoar, pela ferrovia, toda a produção de arroz proveniente da CANG.

É nessa época que chegam os árabes, fundamentais para a transformação da economia e da infraestrutura da cidade. Esses imigrantes dinamizaram o comércio local ao atuar como mascates, acumularam capital que impulsionou Anápolis rumo à industrialização e deixaram também um importante legado na área social.

Como polo dinâmico da economia e da produção goiana, Anápolis foi fundamental para a construção das novas capitais, Goiânia e Brasília, sendo o principal elo logístico e suporte econômico durante essas obras. Pela ferrovia chegavam máquinas e materiais de construção para erguer as novas cidades. O município também fornecia insumos, materiais e alimentos produzidos em seu próprio território, funcionando como uma importante base de apoio.

Com a construção de Brasília, Anápolis recebeu a Base Aérea, responsável por contribuir com a segurança da nova capital federal, e o Distrito Agroindustrial de Anápolis (DAIA), o primeiro de Goiás, criado com o objetivo de abastecer Brasília.

Porém, após esse período de grande vigor econômico, as crises das décadas de 1980 e 1990 e a recessão enfrentada pela economia brasileira atingiram diretamente Anápolis, que viu diversas empresas encerrarem suas atividades.

A partir de 2003, com a retomada do crescimento econômico, a realidade começou a mudar. Os investimentos públicos federais voltaram a impulsionar o desenvolvimento. Em Anápolis, sobretudo na virada dos anos 2000 para a década de 2010, muito em consequência do empenho da gestão municipal e do apoio do Governo Federal, o cenário de decadência começou a ser revertido. A cidade voltou a receber investimentos públicos e privados, recuperando parte de seu protagonismo.

Intensificou-se a chegada de indústrias ao DAIA, as obras da Ferrovia Norte-Sul foram retomadas e uma Plataforma Multimodal passou a ser construída nas proximidades do distrito industrial, no entroncamento das BRs 060 e 153 com a Ferrovia Norte-Sul.

Do ponto de vista da mobilidade e do urbanismo, a cidade viu surgir viadutos, parques ambientais e novos condomínios residenciais, além da expansão do programa Minha Casa, Minha Vida. Toda essa transformação foi percebida pela população que, em pesquisa do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), alcançou o grau máximo de felicidade. A pujança da Anápolis do passado parecia ter retornado, ainda que por algum tempo.

Após 2017, a dinâmica do município começou a mudar novamente. O Brasil entrou em recessão econômica, em meio à crise política instalada após as eleições de 2014, e a gestão municipal de Anápolis não apresentou a mesma eficiência para atrair novos investimentos.

Ano após ano, a participação de Anápolis no PIB de Goiás foi diminuindo. Nesse período, a cidade, que já havia perdido para Aparecida de Goiânia a posição de segunda mais populosa do estado, passou a ver também sua posição econômica ameaçada por municípios como Aparecida de Goiânia e Rio Verde, que, ano após ano, aproximaram-se de Anápolis na geração de riquezas.

A chamada guerra fiscal, que marcou a dinâmica econômica de Goiás entre os anos 2000 e 2018, levou plantas industriais para diversos municípios, muitas vezes por critérios predominantemente político-partidários.

Em 2023, ocorreu a virada: Rio Verde assumiu a posição anteriormente ocupada por Anápolis, que caiu para o quarto lugar, enquanto Aparecida de Goiânia permaneceu na terceira colocação.

A retração de Anápolis, entre outros fatores, foi motivada pela inércia na articulação de sucessivas gestões municipais que se elegeram, segundo esta análise, principalmente por suas ideologias conservadoras, sem experiência em gestão pública e sem propostas concretas para manter o ritmo de crescimento da economia local.

Enquanto isso, Aparecida de Goiânia atraiu grandes centros de distribuição, e Rio Verde buscou indústrias para agregar valor à sua produção agrícola.

Dominadas por ideologias conservadoras e fortemente voltadas para pautas religiosas, as gestões municipais de Anápolis concentraram seus esforços muito mais no assistencialismo. Eleger representantes com base em critérios religiosos ou ideológicos empurrou a cidade para uma posição inferior, que nunca havia ocupado em sua história.

Os governantes não devem ser eleitos para interferir nas escolhas individuais das pessoas, mas para cuidar do interesse coletivo. Temas como geração de emprego e renda, saúde, educação, segurança e mobilidade são questões coletivas que precisam estar no centro dos debates eleitorais, para que sejam eleitos aqueles que apresentem as melhores propostas ou experiências comprovadas.

Com a perda do dinamismo econômico, a população de Anápolis corre o risco de ver seus empregos ameaçados e sua qualidade de vida comprometida. E, nesse momento, o que a religião ou a ideologia conservadora, que venceram as últimas eleições, poderão fazer?

Marcos Bittar Haddad

Economista. Doutor em Desenvolvimento Econômico. Pesquisador do INCT Observatório das Metrópoles (Núcleo Goiânia)

Marcos Bittar Haddad | Foto: Divulgação

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