Riacho de lama do governo Vargas virou verdadeiro mar de lama no governo petista

O ministro do Supremo Tribunal Federal Gilmar Mendes “sugere” que o mensalão, comparado ao Petrolão, deveria ter sido julgado num tribunal de pequenas causas. Ele sublinha que o esquema da Petrobrás serviu para financiar campanhas políticas e para enriquecimento pessoal

Gilmar Mendes, ministro do Supremo Tribunal Federal: “Quando a gente vê o caso, uma figura secundária, que se propõe a devolver 100 milhões de dólares, já estamos em outra galáxia” Foto: Agência Brasil

Gilmar Mendes, ministro do Supremo Tribunal Federal: “Quando a gente vê o caso, uma figura secundária, que se propõe a devolver 100 milhões de dólares, já estamos em outra galáxia” Foto: Agência Brasil

Há um consenso entre os historiadores e biógrafos mais gabaritados que o suicídio de Getúlio Vargas em agosto de 1954 retardou o golpe civil-militar que estava sendo ardilosamente preparado. Os golpistas saíram da defensiva apenas em 1964, dez anos depois, quando derrubaram o presidente João “Jango” Goulart. Por que Vargas se matou? Para evitar o golpe, sustentam políticos e pesquisadores. É a resposta mais objetiva e, assim, palatável. Há outras.
O jornalista e político Carlos Lacerda, escrevendo no jornal “Tribuna da Imprensa” e falando em rádio e televisão, protagonizava uma campanha visceral contra o governo do petebista, sugerindo que havia um mar de lama no catete. Havia mesmo?

Havia corrupção no governo de Vargas. Não era uma ficção criada pelo opositor Carlos Lacerda. Havia um porão não muito limpo. Mas não se pode falar em corrupção sistêmica e que o presidente estivesse diretamente envolvido. Quando se fala em governo federal pensa-se no Rio de Janeiro, na época, ou em Brasília, hoje. Na verdade, o governo federal é um gigante que está presente em todo o país e a capital da República é tão-somente a face mais visível. Noutras palavras, apesar das estruturas de apoio e investigação — como a Agência Brasileira de Inteligência e outros controles internos —, um presidente não tem domínio completo sobre a máquina. Vargas sabia que Carlos Lacerda exagerava. No entanto, como conhecia os homens, investigou por si e descobriu que, se não havia um mar de lama, havia pelo menos um Tietê de lama. Um rio ou, quem sabe, um riacho.

Getúlio Vargas e Dilma Rousseff: no governo do primeiro, havia um riacho de lama; na gestão da segunda, há um poderoso mar de lama. Eis o paradoxo: a petista é honesta Fotos: Reprodução / Divulgação

Getúlio Vargas e Dilma Rousseff: no governo do primeiro, havia um riacho de lama; na gestão da segunda, há um poderoso mar de lama. Eis o paradoxo: a petista é honesta Fotos: Reprodução / Divulgação

Vargas pode ter se matado porque não tinha mais o governo “nas mãos”? É provável que, como era respeitado por sua equipe, ainda tivesse o governo “nas mãos”, mas, em termos de probidade administrativa, é possível que tivesse perdido um pouco o controle. O tal rio de lama — quiçá, no máximo, riacho — era um fato. Nada muito grave, descontrolado, mas o Tietê de lama existia. Auxiliares da mais absoluta confiança de Vargas aproveitavam-se de algumas brechas — o célebre tráfico de influência — e faturavam algum dinheiro, às vezes muito dinheiro. Chegaram a tentar matar Carlos Lacerda — e sem a “autorização” do presidente. O porão estava se “libertando”, agindo por conta própria. Vargas pode ter se cansado disso.

Há outra hipótese, no campo mais subjetivo. É possível que, aos 72 anos, Vargas estivesse cansado de tudo e de todos. Cansado da chatice e da pequenez da vida e dos indivíduos. Cansado de amolações que, ínfimas, tendem a ser apresentadas como essenciais. Depois de quase 20 anos de poder na esfera pública federal, sabia como funcionavam a cabeça dos homens e as estruturas oficiais e privadas. Sabia, inclusive, que furtavam, no seu governo, acreditando que estavam iludindo-o.

A revista “Veja” provocou escândalo, até mais do que o escândalo que realmente importa — o roubo desregrado do dinheiro público, na Petrobrás (no mensalão, o Banco do Brasil foi envolvido) —, ao publicar que o doleiro Alberto Youssef havia dito que o ex-presidente Lula da Silva e a presidente Dilma Rousseff sabiam do descalabro na maior empresa pública do País. Se Vargas sabia que havia um Tietê de lama no seu governo, é possível que Dilma Rousseff não soubesse que há (ou havia), mais do que um mero poço, um mar de lama na Petrobrás? A publicação da Editora Abril não sugeriu, tampouco insinuou, que Lula da Silva e Dilma Rousseff estejam, pessoalmente, envolvidos com o esquema corrupto. Lula da Silva esteve mas não está mais no poder e não há nenhuma evidência — exceto chamar o ex-diretor da Petrobrás Paulo Roberto Costa de “Paulinho”, o que sugere intimidade, mas não prova envolvimento em negociata — de que locupletou-se. A presidente, até onde se sabe, é honesta e estaria mesmo disposta a apurar a corrupção na campeã latino-americana de petróleo, mesmo sacrificando aliados e até petistas.

A lama, quando é gigante e, daí, poderosa, é visível — até por quem não tem a Abin e a Polícia Federal como “apoios”. Assim, é inimaginável que Dilma Rousseff não soubesse o que ocorria na Petrobrás, porque a lama, tão vigorosa quanto o petróleo, “governava”. Se a presidente é honesta, não há nada — nada mesmo — que a desabone, por que não mandou apurar a corrupção o quanto antes, esperando que se agigantasse de maneira quase incontrolável? Difícil responder, por falta de informações precisas. Arriscar uma hipótese é possível, desde que se informe ao leitor que se trata de hipótese, não de uma tese.

O escândalo da Petrobrás “mudará para sempre a relação entre a sociedade brasileira, o Estado brasileiro e a empresa privada”, afirma Dilma Rousseff. “Não se pode condenar as empresas. Temos de condenar as pessoas, dos dois lados, corruptos e corruptores. Não há culpa genérica”, acrescenta a presidente. A impressão que se tem é que o governo, no geral, é corrupto — considerando-se o todo, inserindo a Petrobrás —, mas a presidente não é (e isto é um fato). É o paradoxo da República Vermelha.

Dilma Rousseff, quando fala de corrupção, parece que não está falando de seu governo. É como um livro narrado na terceira pessoa — e por um narrador distanciado, onisciente. Mas, para que não paire dúvida, insistimos num ponto: a presidente é íntegra. Por mais que tenha sido montada uma máquina corrupta para apoiá-la, para gerar governabilidade, ao menos até o momento pode-se dizer que não está, pessoalmente, conspurcada.

Enquanto Dilma Rousseff fala de corrupção de seu governo como se fosse de outro governo, produto da imaginação de um García Márquez ou de um José J. Veiga, o ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal, disse na quinta-feira, 20, coisas que deveriam provocar um debate nacional.

Gilmar Mendes, um dos ministros mais qualificados do Supremo, por seu saber jurídico e notória independência ante o Poder Executivo, disse que o escândalo do mensalão, comparado ao do Petrolão, poderia ter sido levado a um “juizado de pequenas causas” (trata-se, claro, de uma ironia). O escândalo do mensalão consumiu 173 milhões de reais. Muito, é claro, mas bem menos do que a sangria de 10 bilhões de reais da Petrobrás. Este número é o divulgado pela Polícia Federal, fonte mais confiável, mas especula-se que o escândalo pode ter consumido pelo menos 20 bilhões de reais do setor público. Considerando que o caso ainda está sendo apurado, o saque pode ter sido ainda maior.

“No caso do mensalão, falávamos que estávamos julgando o maior caso de corrupção investigado e identificado. Agora, a Ação Penal 470 teria que ser julgada em juizado de pequenas causas pelo volume que está sendo revelado nesta questão”, frisou Gilmar Mendes. Os valores que os “petroleiros”, como Paulo Roberto Costa, o doleiro Alberto Youssef e o ex-gerente de Serviços da Petrobrás Pedro Barusco, decidiram devolver aos cofres públicos sinalizam que os desvios podem ser ainda mais gigantescos. “Quando a gente vê o caso, uma figura secundária, que se propõe a devolver 100 milhões de dólares, estamos em um outro universo, em outra galáxia”, frisou Gilmar Mendes, referindo-se a Pedro Barusco. Este era (ou é) apontado como braço-direito do ex-diretor de Serviços da Petrobrás Renato Duque, tido como homem de José Dirceu e do PT na empresa.

Gilmar Mendes sublinha que os valores milionários movimentados sugerem que os chefes do esquema não estavam retirando dinheiro da Petrobrás tão-somente para financiar campanhas e apoios (no Congresso Nacional, por exemplo) políticos. “Há um certo argumento ou álibi de que isso tudo tem a ver com campanha eleitoral, mas estamos vendo que não. Esse dinheiro [do petrolão] está sendo patrimonializado. Passa a comprar lanchas, casas, coisas do tipo.”
Noutras palavras, não se pode alegar, nem nas entrelinhas, que se estava mais preocupado com a governabilidade. Os larápios da Petrobrás estavam roubando, escancaradamente, para ficarem ricos mesmo. A petista-chefe Dilma Rousseff, quando estiver fora do poder, quem sabe em suas memórias, talvez um dia possa dizer mais ou menos assim: “Eu sabia, sim, mas não podia dizer que sabia”. l

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Celso Aguiar

Afinal! foi suicídio ou queima de aquivo?
http://youtu.be/Fez-g8ft5FU

O ASSASSINATO DE GETÚLIO VARGAS – VIRGÍNIA LANE

Publicado em 23/02/2012 by Redação, nas categorias Almanaque Brasil Cultura, Cultura, Destaques, História, Sociologiae com as tags História.