Marconi Perillo precisa entender que o Brasil carece de estadistas, não de mensageiros da morte

É um direito da oposição formular críticas. Mas o uso eleitoreiro de uma tragédia que vitimou mais de 400 mil brasileiros é um ato criminoso

É um direito — até um dever — da oposição fazer críticas e sugerir novos caminhos. Já se disse que a oposição, quando de qualidade e construtiva, também governa. Entretanto, quando meramente politiqueira, motivada pela proximidade de eleições, mais do que prejudicar o adversário, tende a contribuir para prejudicar o Estado, quer dizer, as pessoas.

Sabe-se que o ex-governador de Goiás, Marconi Perillo, pretende disputar mandato em 2022 — daqui a um ano e cinco meses. Estaria encomendando pesquisas para avaliar sua viabilidade eleitoral. Se a rejeição cair — hoje, é alta, dados o desgaste de 16 anos no poder e à prisão pela Polícia Federal —, tende a disputar o governo do Estado, pela quinta vez, o que sugere que não aposta em renovação de quadros em seu partido, o PSDB. Se a rejeição for mantida, deverá disputar mandato de deputado federal.

Marconi Perillo e Aécio Neves| Foto: Reprodução

Aliados de Marconi Perillo sugerem que, se disputar para deputado federal e perder, será vexatório. Um sinal de alta rejeição por parte do eleitorado. Entretanto, se perder para o governo, numa disputa contra um governador bem avaliado, Ronaldo Caiado, do partido Democratas, acredita-se que seria menos desgastante.

O fato é que, político experiente — quatro vezes governador, uma vez deputado federal e uma vez senador —, Marconi Perillo está usando as redes sociais para tentar polarizar com Ronaldo Caiado. O tucano percebe que há um vazio nas oposições — não há, ao menos no momento, um segundo nome, o elemento polarizador, para enfrentar o governador. Daí ele se apresentar como “o” nome da polarização — considerando que Daniel Vilela (ou Gustavo Mendanha, que começa a se apresentar), do MDB, e Jânio Darrot, do Patriota, ainda não formularam um discurso de oposição, no sentido especificamente eleitoral.

O que Marconi Perillo está dizendo ou sugerindo é: “Estou em campo e quero jogar”. É provável que esteja, ao se colocar, convocando outros pré-candidatos a se posicionarem.

Ocorre, porém, que o discurso de Marconi Perillo talvez tenha a ver mais com o passado do que com o presente e o futuro. Parece que não há preocupação com “fatos” e falta-lhe, possivelmente, percepção do “novo” eleitor.

Eleitores têm dito que “grandes obras” são feitas por políticos que têm o objetivo de furtar o Erário. Pois o discurso de Marconi Perillo permanece voltado para o obreirismo. O que os eleitores querem, na verdade, é um gestor que cuide das pessoas e, portanto, melhorem os serviços públicos. Não se está sugerindo que não se deve construir obras. O que se afiança é que a visão dos eleitores não é a mesma dos obreiristas. O tucano parece nem perceber que, de alguma maneira, está “imitando” o Iris Rezende que, a partir de 1998, os eleitores passaram a rejeitar em termos estaduais.

Ronaldo Caiado: o governador de Goiás age como estadista | Foto: Reprodução

Há quem diga que Marconi Perillo é (ou era) “um mestre da oportunidade” e que, durante certo tempo, teve um “timing” preciso. Pois, recentemente, Marconi Perillo “comemorou” a “aquisição”, por governadores do Consórcio dos Governadores do Brasil Central, de 28 milhões de doses da vacina russa Sputnik. Como se sabe, a vacina não foi aprovada pela Anvisa — órgão que se presume sério e competente — e há o registro de que o presidente da Argentina, Alberto Fernández, depois de receber a dose dupla da vacina russa, declarou ter sido contaminado pelo novo coronavírus. O imunizante do país de Vladimir Putin está, portanto, sob suspeita. Fica a pergunta: Marconi Perillo se vacinaria hoje com a Sputnik? É provável que, aos 58 anos, se vacinará, daqui a alguns dias, com a vacina da Pfizer ou com a Coronavac.

Tucanos sugerem que Marconi Perillo “construiu” o Hospital do Servidor (ficou no esqueleto) e o Hospital Regional de Uruaçu. A construção de um hospital não é apenas a obra física em si. O edifício, se houver recursos financeiros, às vezes é a parte mais fácil de se fazer. No entanto, equipá-lo e contratar uma equipe qualificada, em sua diversidade técnica, é o mais difícil. Ronaldo Caiado tem procurado colocar em funcionamento aquilo que, em geral, Marconi Perillo chegava até a inaugurar, mas não terminava. Para ser justo, é preciso admitir: o tucano construiu o Hugol e o Crer, em Goiânia. São obras importantes e que funcionam bem. Porém, no Entorno de Brasília, não há um prefeito que não reclame de obras inconclusas na área de saúde, como o famoso hospital de Santo Antônio do Descoberto.

Ronaldo Caiado é médico e humanista. Não se está dizendo que Marconi Perillo não seja humanista. Mas vale uma comparação: Goiás tinha 200 leitos de UTI. Hoje, só para o tratamento de pacientes com Covid, há 1700 leitos de UTI. No total, são mais de 3 mil UTIs. Quer dizer, para além da construção de estrutura — prédios —, há uma preocupação basilar com o atendimento, e com qualidade. O ex-governador mora em São Paulo, há quase dois anos, e por isso talvez não tenha verificado in loco o que está acontecendo em Goiás. Estaria se fiando em informações falsas ou incompletas sobre o Goiás real — não aquele famoso das placas que “inaugurava” obras que não existiam, ou só existiam como fachadas, sem funcionarem, sem atenderem o público.

É provável que Marconi Perillo esteja tentando voltar a ter contato com o Goiás real. Por enquanto, fica-se com a impressão que vive numa espécie de irrealidade cotidiana, numa realidade paralela; enfim, numa bolha — recebendo informações de segunda categoria sem processá-las devidamente. Mesmo quando era governador, no seu último mandato, ele morava em Goiânia, Pirenópolis e São Paulo. Até aliados clamavam por sua presença e diziam que, cercado por um grupo de novos ricos, havia perdido contato com Estado que lhe dera, generosamente, quatro mandatos de governador. Tendo de mudado de Goiás e de classe social, distanciou-se dos goianos — tanto que não conseguiu perceber seu próprio desgaste político e pessoal.

Cachoeira Dourada e Celg

Parte do sucesso político de Marconi Perillo se deve às críticas à privatização da usina de Cachoeira Dourada, a galinha de ovos da Celg, na década de 1990. O governo de Maguito Vilela privatizou Cachoeira Dourada sugerindo que havia sido pressionado pelo governo do presidente Fernando Henrique Cardoso, do PSDB — o mesmo partido do tucano goiano. Pode-se falar que a decadência da Celg começou com a venda de Cachoeira Dourada.

Entretanto, ao ser eleito governador, no lugar de trabalhar para recuperar a Celg, Marconi Perillo decidiu privatizá-la. Agora, avaliando a privatização da Celg GT, fala em “patrimônio Celg GT”. A Celg maior, com mais estrutura, não era patrimônio dos goianos? Críticos do ex-governador sugerem que o dinheiro da venda da Celg virou “pó” e que o asfalto, supostamente feito com tal recurso, não durou mais do que dois anos.

O tucanato hoje elogia a Iquego. Mas não menciona que seus governos a deixaram sucateada e nem lembra que, depois de denúncias de irregularidades, no governo de Marconi Perillo, houve até prisão de dirigente. Então, com a estrutura deixada — vale sublinhar que Ronaldo Caiado governa Goiás há apenas dois anos e quatro meses e que o grupo do líder do PSDB geriu o Estado por um ciclo de 20 anos —, a Iquego não tem como produzir vacinas (a produção de vacinas exige um refinamento e uma expertise hoje não disponíveis. Veja-se que Minas Gerais, um Estado muito mais rico do que Goiás, não produz vacina contra a Covid-19). Não é um equivalente goiano do Butantan, frise-se.

Na questão da aquisição de vacinas, criou-se o mito de que o governo de Goiás poderia ter adquirido imunizantes. Ora, nem Rio de Janeiro e Minas Gerais, dois Estados com PIBs gigantescos, conseguiram comprá-las. Desde sempre, houve uma preferência por vender vacinas (ou os insumos), de parte da China e outras países, para o governo federal.

A empresária Luiza Trajano disse, com todas a letras, que um grupo de empresários tentou comprar vacinas, inclusive na Índia, mas esbarraram na informação de que a prioridade para a venda era para os governos federais dos países. Ao contrário de outros empresários, que, no lugar de apoio real, preferem aderir à crítica política — de caráter eleitoreiro —, Luiz Trajano, ao perceber que não havia como comprar vacinas, decidiu oferecer, a partir do movimento do qual participa, logística (transporte) e material útil para médicos e enfermeiros cuidarem dos pacientes.

No momento em que há mais de 400 mil mortos no Brasil, tendo-se um presidente errático, Jair Bolsonaro, deve-se clamar por congraçamento para salvar vidas. Não se deve usar aquilo que é uma tragédia para fins políticos. Tentar alicerçar uma volta política assentada em notícias falsas e no uso instrumental de uma tragédia real chega a ser um crime político? Marconi Perillo era conhecido por “pensar grande”, mas parece que, talvez instigado por “agentes do mal” e “cérebros de alfinete”, está aceitando o “apequenamento” de sua figura política. O Brasil precisa de estadistas, não de “mensageiros da morte”.

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