O nazismo e o comunismo são as duas grandes tragédias políticas do século 20. Por causa do regime instalado por Adolf Hitler na Alemanha, entre 1933 e 1945, ocorreu a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), na qual morreram cerca de 80 milhões de pessoas (a ditadura nazista matou 6 milhões de judeus em campos de extermínio e de concentração). O comunismo, em apenas dois países, a União Soviética e a China, matou cerca de 100 milhões. Sob o regime de Stálin, morreram entre 25 milhões e 30 milhões. O sistema erigido por Mao Tsé-tung devorou a vida de 70 milhões.

Se o comunismo equivale ao nazismo, em termos de totalitarismo e assassinatos, por que o segundo é visto como pior? Por que é de direita? Por certo. O comunismo é visto com mais “suavidade” por que é de esquerda? Por certo. A rigor, o comunismo, mesmo sendo contra a liberdade de expressão — prendendo e matando mesmo quem pensava diferentemente tão-somente de modo pontual, como Liev Kamenev, Grigori Zinoviev e Nikolai Bukhárin —, falava (e fala) o tempo inteiro em nome do bem da humanidade e, palavras mágicas, em igualdade social. Alguém pode, afinal, ser contrário a um regime que prega a igualdade social?

Ióssif Stálin e Mao Tsé-tung: responsáveis pela barbárie comunista do século 20 | Foto: Reprodução

O fato é que o comunismo não conseguiu produzir igualdade social em larga escala e gerou uma insatisfação profunda e generalizada na população. O filósofo italiano Norberto Bobbio acertou na mosca ao sugerir que, no lugar de justificar os fins, os meios podem corrompê-los. O comunismo, em nome da igualdade social, matou milhões de indivíduos e sacrificou a democracia. O resultado não poderia ter sido pior: não se produziu uma sociedade livre e igualitária (a grande invenção de Cuba talvez tenha sido inventar uma sociedade de pobres e, ainda assim, com uma elite comunista que vive melhor do que a maioria; é a tal “nova classe” de que falava o iugoslavo Milovan Djilas, ou, de acordo com Mikhail Voslenski, a “nomenklatura”).

Isaiah Berlin: “sacrificar” o presente leva a desastres políticos | Foto: Reprodução

Isaiah Berlin escreveu que é preciso ter cuidado com políticos que sugerem sacrificar o presente para se conquistar um futuro radioso. O filósofo anglo-letão sugeriu que tal futuro radioso, quando se sacrifica o presente — sobretudo com violência —, nunca chega. Mas gerações se encantaram com as ideias comunistas e acreditaram num mundo novo. O regime soviético durou bem mais do que a Revolução Francesa de 1789 — uma das primeiras experiências totalitárias de que se tem notícia —, ou seja, 74 anos, mas ruiu. Porque as pessoas não queriam mais aquele sistema que prometia um futuro que não chegava e não chegou.

A vocação autoritária dos “democratas”

Assiste-se, no momento, uma campanha articulada por estudantes da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo, a partir do Centro Acadêmico XI de Agosto, para impedir que Janaína Paschoal (PRTB) reassuma seu cargo de professora.

Janaína Paschoal e Jair Bolsonaro: atração por quem ameaça a democracia | Foto: Reprodução

A USP, por sua longa e respeitável história, é uma praça democrática, um lugar de tolerância. Vários de seus professores, inclusive da Faculdade de Direito, assinaram um manifesto, recentemente, pela democracia. Era um posicionamento, e dos mais justos, contra o caráter errático e autoritário do governo de Jair Bolsonaro.

O manifesto nada contém de intolerante. Intolerante era (e é) Bolsonaro, que, dizendo atuar nas quatro linhas da Constituição, chegou a preparar um golpe de Estado, que não deu certo porque, aparentemente, não conseguiu obter o apoio, em termos de unidade, das Forças Armadas.

Porém, quando se pensava que a defesa da democracia não era seletiva, alunos da venerável Faculdade de Direito da USP se comportam de maneira intolerante. Argumenta-se que Janaína Paschoal é de direita, apoiou o impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff e mantinha ligação com Bolsonaro.

A impressão que se tem é que Janaína Paschoal era uma outsider e como tal, embora beneficiada (eleitoralmente, em 2018) pelo bolsonarismo, talvez não tenha sido uma integrante do círculo presidencial. Embora seja uma intelectual — de direita, sim, mas aparentemente não antidemocrática (democrata fervorosa que não é) —, parece não ter percebido o jogo nuclear do bolsonarismo, quer dizer, seu caráter autoritário e pró-ditadura. Seria uma nefelibata? Não, mas próxima disso. Há intelectuais que, mesmerizados pelo poder, se encantam pelo discurso de certos políticos autoritários (o filósofo Platão quase sucumbiu aos encantos de um ditador de Siracusa).

Impedir Janaína Paschoal de voltar às salas de aula — e, se voltar, agredi-la, física ou verbalmente — é prova de vocação antidemocrática. Há intolerância do bem, por ser contra a direita? Não há. O que se depreende é que há uma vocação autoritária mesmo entre os que defendem a democracia? Não existe intolerância do bem. Por isso, vale reler o que se disse sobre Stálin linhas acima.

O equívoco de Lula em relação ao Banco Central

Roberto Campos Neto, presidente do Banco Central: sob pressão do governo federal | Foto: EBC

Dada sua vocação autoritária, Bolsonaro, na Presidência da República, tentou, de várias maneiras, acuar as instituições, como o Supremo Tribunal Federal. Chegou  a submeter a Procuradoria-Geral da República e a Polícia Federal, mas encontrou resistência instransponível no STF, felizmente. Os ministros, notadamente Alexandre de Moraes, Luís Roberto Barroso e Edson Fachin, reagiram com firmeza — dando uma lição à Câmara dos Deputados e ao Senado. O presidente da Câmara, Arthur Lira, cedeu muito a Bolsonaro, mas, quando se tratou da questão democrática, não aderiu ao governo da direita. O presidente do Senado, Rodrigo Pacheco, embora moderadíssimo — e, às vezes, é preciso se posicionar com mais firmeza —, não compactou com o golpismo dos Bolsonaros.

O presidente Lula da Silva é de esquerda, mas não é comunista — e parece que muitas pessoas não conseguem compreender isto e, daí, avaliam que todo político de esquerda é red (há quem, por falta de informação, diga que o petista não é de esquerda. Na verdade, é. Mas, insistamos, não é comunista).

Fernando Haddad, Lula e Alexandre Padilha: os ministros são “moderadores” | Foto: Reprodução

Lula da Silva é um político da esquerda socialdemocrata com laivos socialistas. Sua fala sobre consumo, como um de seus grandes incentivadores, o distancia do discurso dos comunistas, mas não o torna um político de centro-direita. As preocupações sociais do petista-chefe são de esquerda e genuínas.

O veterano petista governou o país durante oito anos, de maneira democrática. Aqui e ali, tentou impor algumas medidas autoritárias — como a regulação da imprensa e do Ministério Público —, porém, ante a pressão da sociedade, recuou. A rigor, Lula da Silva nunca representou uma ameaça real às instituições democráticas.

Entretanto, neste momento, Lula da Silva está se equivocando em relação à independência do Banco Central. Na prática, o BC, ao operar para conter a inflação em certos limites, está trabalhando pró-governo petista. O crescimento da inflação — e os juros altos visam controlá-la — podem corroer, em pouco tempo, a imagem do governo petista.

Henrique Meirelles, ex-presidente do Banco Central e ex-ministro da Fazenda: o presidente Lula da Silva não pode representar uma volta ao passado | Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil

Ninguém aprecia juros altos, nem a turma que gere o Bacen, porém às vezes são necessários. De fato, se aumentam muito podem asfixiar a economia. Por isso, uma certa pressão no Banco Central, dentro de certos limites, é saudável. Pressão no sentido de “puxá-lo” para a realidade do mercado brasileiro, num momento em que há desindustrialização e desemprego acima, digamos assim, do “tolerável”.

O ex-presidente do BC Henrique Meirelles, numa entrevista a Luiz Guilherme Gerbelli, do “Estadão”, deu a interpretação adequada ao relativo destempero de Lula da Silva. “Esses ataques ao Banco Central , do ponto de vista objetivo do que gostaria o presidente [Lula], que é baixar a taxa de juros, têm o efeito contrário. Na medida em que ele ataca o Banco Central, cria ruídos e incertezas no mercado. E o que acontece? As expectativas de inflação sobem, o que força o Banco Central a ser um pouco mais duro na sua política monetária do que seria caso o presidente sinalizasse o contrário”, afirma o ex-ministro da Fazenda. “Não só os agentes financeiros, qualquer formador de preço, no pequeno empresário, médio e grande empresário. Na medida em que eles acham que a inflação vai subir, eles sobem mais os preços.”

Dada sua ampla experiência no Banco Central, Henrique Meirelles aconselha Lula da Silva: “Deixa o Banco Central trabalhar. É a melhor forma de conseguir que os juros baixem o máximo possível. Quanto mais o Banco Central for visto como capaz de tomar as suas próprias decisões e controlar a inflação, mais caem as expectativas e mais o BC pode cortar a taxa de juros, que é o desejo de todos, inclusive do próprio Banco Central, desde que não cause inflação e seja possível dentro das projeções inflacionárias dos modelos. Em resumo, é uma questão de racionalidade”.

Meirelles assinala que o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, está “fazendo o papel certo de apaziguar e tirar esse assunto de cena. O governo tem muita coisa para discutir, e discutir o Banco Central é improdutivo”. É tiro no pé. É Lula da Silva, sem querer, jogando contra o governo e, portanto, contra o país. Faltou bom senso e o relativo destempero do presidente parece resultar de informação não adequada e de segunda linha.

De acordo com Henrique Meirelles, “Lula acha que está num período de fazer aquilo que ele acreditava no passado. (…) Está um pouco numa volta ao passado”.

Enfim, Lula da Silva precisa ter cuidado para não ficar com a imagem de Bolsonaro da esquerda — o que, de fato, não é — ao “acuar” o presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, que, por sinal, não é bolsonarista, ainda que tenha sido indicado pelo ex-presidente.

Isaiah Berlin sugere que é um risco tentar “zerar” a história, ou seja, apagar o passado e começar tudo de novo. Isto não é possível. Nem todo mundo que trabalhou no governo Bolsonaro era de direita radical — talvez sejam conservadores, mas alguns são democratas — e não deve ser execrado por isto. Caça às bruxas não é e nunca foi um bom negócio para quem quer e precisa governar o país… com relativa tranquilidade. Não deixa de ser curioso que Lula da Silva esteja sendo “moderado” por Alexandre Padilha e Fernando Haddad. Quando deveria ser o contrário, pois é um político muito mais experiente e realista.