Euler de França Belém
Euler de França Belém

Mark Lilla explica a razão de Platão não ter se submetido à tirania e Sartre tê-la justificado

Professor de Columbia diz que há uma tendência entre os intelectuais à filotirania da qual poucos escapam. Raymond Aron não se submeteu ao fascismo e ao comunismo

O livro de Mark Lilla mostra que os intelectuais aproximam-se dos homens do poder para influenciá-los, mas, por vezes, acabam se submetendo às suas ideias e práticas | Imagem: divulgação

Assim como Isaiah Berlin e John Gray, filósofos britânicos, o historiador e cientista político americano Mark Lilla é um mestre da difícil e deliciosa arte do ensaio. O ensaio é o conto do pensamento. O professor de Columbia é autor de livrinhos, no tamanho, que são livrões, em termos de qualidade. “A Mente Imprudente — Os Intelectuais na Atividade Política” (Record, 195 páginas, tradução de Clóvis Marques) contém textos sobre Heidegger, Hannah Arendt, Karl Jaspers, Carl Schmitt, Walter Benjamin, Alexandre Kojève, Michel Foucault, Jacques Derrida e, no epílogo, Platão. Recomendo a leitura de todos, mas, neste comentário, circunscrevo-me ao ensaio “A sedução de Siracusa”, de dezoito páginas.

Platão esteve em Siracusa, conversou com o tirano Dionísio, mas não se submeteu e voltou para Atenas

“A Sedução de Siracusa” é sobre Platão e intelectuais modernos. Tendo recebido um convite de Díon, seu discípulo na Sicília, aproximadamente em 368 a. C., o filósofo, mesmo relutante, decidiu dialogar com o rei Dionísio, o Jovem. Díon esclareceu que o governante “era um homem aberto à filosofia e desejava ser justo”. O que lhe faltava era uma instrução “construtiva”.

Platão, registra Mark Lilla, postulava que “o máximo que se pode esperar na política é o estabelecimento de um governo moderado sob o estável império da lei”. Dionísio não era lá grande coisa, como estadista, mas Díon convenceu o filósofo de que poderia ser mudado por uma educação adequada.

Ao ouvir Dionísio, Platão decepcionou-se. Mark Lilla sublinha que o político “queria dotar-se de uma capa de cultura, mas carecia de disciplina e do compromisso necessários para se submeter à argumentação dialética e alinhar sua vida com as conclusões desse processo. Revelou-se impossível trazer o teimoso Dionísio à filosofia e à justiça”.

No lugar de ouvir as ideias e sugestões do filósofo, por exemplo de “dotar as cidades conquistadas de boas leis”, o tirano começou a desconfiar de Díon e acabou por expulsá-lo de Siracusa. “Como não conseguisse promover a reconciliação entre os dois, Platão decidiu partir.”

Mesmo exilado, Díon, por ter ouvido “dizer que Dionísio retomara o estudo da filosofia”, convenceu Platão a voltar a Siracusa. “O que encontrou ao chegar foi um homem ainda mais arrogante que já se considerava filósofo e supostamente teria escrito um livro. A causa estava perdida, mas Platão não culpou ninguém, senão a si mesmo: ‘Eu não tinha mais motivos de ficar indignado com Dionísio do que comigo mesmo e com aqueles que me obrigaram a vir’”.

Ao perceber que era impossível “reeducar” Dionísio, Díon deu um golpe de Estado e o expulsou de Siracusa. Mas acabou assassinado, três anos depois. Dionísio reassumiu o trono e, depois, foi “deposto pelo exército de Corinto, a cidade-mãe de Siracusa”.

O intelectual filotirânico

“O tirano sobreviveu” com os nomes de Lênin, Stálin, Hitler, Mussolini, Mao Tsé-tung,Ho Chi Minh, Fidel Castro, Rafael Trujillo, Idi Amin Dada, Bokassa, Saddam Hussein, Khomeini, Ceausescu e Milosevic. “O problema de Dionísio é velho como a criação. Já o dos seus partidários intelectuais é novo”, frisa Mark Lilla. Surgiram, com o fascismo e o comunismo, os intelectuais filotirânicos. Tais homens serviram “ao moderno Dionísio abertamente em palavras e atos, e seus casos são deploráveis: Martin Heidegger e Carl Schmitt na Alemanha nazista, Georg Lukács na Hungria. Os peregrinos às novas Siracusas que estavam sendo construídas em Moscou, Berlim, Hanói e Havana foram em número surpreendente. Eles eram os voyeurs políticos que faziam turnês cuidadosamente coreografadas pelos domínios do tirano. Mas dando um jeito de nunca visitar as prisões”. Que, claro, estavam lotadas.

Jean-Paul Sartre justificou a brutalidade de Stálin na União Soviética, mostrando-se servil à tirania

Mestres eminentes, como Jean-Paul Sartre, poetas, como Pablo Neruda, e jornalistas “mobilizaram seus talentos para convencer quem quisesse ouvir de que os tiranos modernos eram libertadores e seus absurdos crimes eram nobres, se vistos da devida perspectiva”. O historiador britânico Tony Judt escreveu um livro devastador sobre franceses que apoiaram e justificaram, entre outras coisas, a brutalidade política de Stálin. Mark Lilla, pelo fato de seu ensaio ser de 2001, não pôde citar “Passado Imperfeito — Um Olhar Crítico Sobre a Intelectualidade Francesa no Pós-Guerra” (Nova Fronteira, 475 páginas, tradução de Luciana Persice Nogueira). Sartre e Merleau-Ponty saem muito mal da corrosiva dissecação do pesquisador inglês.

Se é execrável, “que pode haver na mente humana que tornou possível a defesa intelectual da tirania no século 20?”, indaga Mark Lilla. Trata-se de um “fenômeno geral”. “O caso de Heidegger é apenas o exemplo mais dramático no século 20 de como a filosofia, o amor à sabedoria, decaiu para a filotirania.”

Para tentar explicar o que aconteceu, Mark Lilla recorre a alguns autores. O filósofo britânico Isaiah Berlin sugere, enfatiza o historiador, que “foi o Iluminismo que forneceu o ideal ‘pelo qual mais seres humanos se sacrificaram, em nossa época, e sacrificaram a outros do que, talvez, por qualquer outra causa na história da humanidade”. De algum modo, o Iluminismo “teria” levado ao totalitarismo.

Mark Lilla nota que é difícil mas não impossível escapar à sedução de Siracusa

Há outra visão, apresentada por historiadores da vida intelectual. A segunda interpretação “centra-se mais nos impulsos religiosos que nos conceitos filosóficos, na força da irracionalidade na vida humana, e não nas pretensões da razão. O que viam em ação na mente dos revolucionários e comissários era uma velha ânsia irracional de acelerar o advento do Reino de Deus num mundo profano”. Norman Cohn, no livro “Na Senda do Milênio”, é um dos que professam tal ideia. Jacob Talmon, nos livros “As Origens da Democracia Totalitária” e “Messianismo Político”, sustenta, na síntese de Mark Lilla, “que a característica mais importante do pensamento político europeu nos séculos 18 e 19 não foi o racionalismo, que poderia tê-lo levado numa direção liberal, mas o novo fervor religioso e as expectativas messiânicas de que se impregnaram as modernas ideias democráticas. No frenesi da Revolução Francesa [de 1789], a razão deixara de ser razoável e a democracia se tornara um ersatz de religião para homens modernos desprovidos da fé tradicional no além. Só nesses termos religiosos, pensava Talmon, podemos entender de que maneira o ideal democrático moderno tornou-se no século 20 um sangrento sonho tirânico”.

(Num livro posterior ao de Mark Lilla, “Missa Negra — Religião Apocalíptica e o Fim das Utopias” — Record, 350 páginas, tradução de Clóvis Marques —, o filósofo britânico John Gray sugere que o marxismo, o “gestor” intelectual do totalitarismo de esquerda, condensa ideias do Cristianismo, do Iluminismo e do Positivismo. A rigor, trata-se de uma espécie de religião laica.)

Retirada dos intelectuais e espectadores independentes

Sem desqualificar as explicações de Isaiah Berlin e dos historiadores, Mark Lilla assinala que há uma terceira interpretação. “Consiste em examinar a história social dos intelectuais na vida política europeia. O Caso Dreyfus pôs os intelectuais franceses na vida pública, “alertando-os para sua alta responsabilidade como vigias morais do Estado moderno”. Depois, Sartre “puxou” a juventude para a militância, como seu “marxismo existencial”. Na década de 1970, com o livro “Arquipélago Gulag”, o russo Soljenítsin, mostrou o submundo da violência stalinista, gerando um despertar ou, como escreve Mark Lilla, uma “crise de conscience”. Em seguida, se deu “o desenvolvimento de um consenso liberal-republicano nos anos Mitterrand”.

Sartre percebia a história como “um mito heroico sobre a ascensão do solitário intelectual ‘engajado’ que afirmava sua ‘singular universalidade’ frente à ideologia dominante da sociedade burguesa e aos sistemas tirânicos que ela havia originado na Europa (o fascismo) e fora dela (o colonialismo)”. No livro “Em Defesa dos Intelectuais”, o filósofo francês sugere que o intelectual é a “‘Joana d’Arc de esquerda’ que se posiciona pelo que é essencialmente humano, contra as forças desumanas do ‘poder’ econômico e político, e também contra aquelas forças culturais reacionárias, entre elas escritores traidores, cuja ação apoia ‘objetivamente’ o tirano moderno”.

Raymond Aron: um dos poucos filósofos europeus que não se submeteram nem à tirania comunista nem à tirania fascista

O filósofo Raymond Aron pensava de maneira diversa, sugerindo que a oposição entre “humanidade” e “poder” era “simplista”. “Na visão de Aron”, assinala Mark Lilla, “não foi mero acaso acidente, tendo sido na realidade perfeitamente previsível, que o ideal romântico de engajamento alimentado por Sartre viesse a transformá-lo num cruel apologista do stalinismo na década que se seguiu à Segunda Guerra Mundial”. No livro “O Ópio dos Intelectuais”, o rival de Sartre demonstra, anota o scholar de Columbia, “o quanto os intelectuais, como classe, tinham sido incompetentes e ingênuos quando se tratava de questões políticas sérias. Para ele, a verdadeira responsabilidade dos intelectuais europeus depois da guerra era aplicar seus conhecimentos especializados à política liberal-democrática, preservando seu senso de proporção moral na avaliação comparativa das injustiças dos diferentes sistemas políticos — em suma, ser espectadores independentes com um senso modesto do seu próprio papel como cidadãos e formadores de opinião”.

Assim como Tony Judt, Mark Lilla destaca que Aron “tinha razão”. “Na França, foram os intelectuais românticos ‘engajados’ que serviram à causa da tirania no século 20. Mas na Alemanha o problema era a falta de engajamento político. A Alemanha nunca desenvolveu uma classe intelectual à maneira francesa.”

Em 1918, o escritor Thomas Mann escreveu “Reflexões de um Homem Apólítico”, obra “ferozmente política”, nota Mark Lilla. O autor do notável romance “A Montanha Mágica” escreveu que “a tradição alemã é cultura, alma, liberdade, arte e não civilização, sociedade, direitos de voto e literatura”. “Os problemas sociais” não estavam “acima dos problemas morais, acima da experiência íntima”. Mais tarde, com a premência do nazismo, percebeu que não era bem assim.

O filósofo Jürgen Habermas ressalta, aponta Mark Lilla, que “ao se distanciarem por princípio da política moderna, os escritores e pensadores alemães desde o início do século 19 se haviam acostumado a viver num mundo intelectual mítico governado por fantasias sobre a Hélade ou as florestas teutônicas, fantasias que faziam a tirania nazista ficar parecendo a alguns deles o início da regeneração espiritual e cultural. Na visão de Habermas, só descendo das montanhas mágicas da Wissenschaft e da Bildung para as planícies do discurso político democrático poderiam os intelectuais alemães ter sido inoculados contra essa tentação tirânica, e caso o tivessem feito talvez pudessem ter contribuído para a construção da esfera pública aberta de que a Alemanha precisava — cultural e politicamente”.

Mesmo admitindo que Habermas tem razão ao culpar o desengajamento político pela filotirania e que Aron está certo ao apontar o engajamento cego na França, Mark Lilla ressalva que “nenhuma das duas explicações faz sentido para a Europa do século 20 como um todo”.

O que fazer? Mark Lilla volta a examinar a história de Dionísio, Díon e Platão. O aspecto “mais interessante sobre o jovem Dionísio era ser ele um intelectual”. Embora crentes na evolução dos indivíduos, Platão e Díon — até certo momento, mais irrealista do que o filósofo? —, “entendiam que os anseios intelectuais de Dionísio tinham alguma relação importante com suas ambições políticas tirânicas — donde a esperança de que, operando uma transformação naqueles, pudessem indiretamente moderar estas. O que, no entanto, se revelou impossível”.

Dionísio era um tirano, que instrumentalizava o pensamento filosófico, que nem compreendia bem, para manter-se no poder. “Mas se Platão e Díon se equivocavam em suas expectativas, eles não estavam necessariamente errados em seus pressupostos sobre a força psicológica que atrai certos homens para a tirania. Platão acreditava tratar-se da mesma força que atrai outros homens para a filosofia”, expõe Mark Lilla. “Essa força maior é o amor, eros. Para Platão, ser humano é ser uma criatura de aspirações”, para além de suas necessidades básicas. Citada por Sócrates no “Simpósio”, Diotima, filósofa e sacerdotisa, disse que “todos os homens são grávidos tanto no que diz respeito ao corpo quanto à alma”. “Somos criaturas incompletas e incapazes de descansar enquanto não tornarmos real um certo potencial que sentimos lá dentro, enquanto não formos capazes de ‘procriar no belo’. Esse anseio, esse eros, é encontrado em todos os nossos desejos bons e saudáveis, os desejos da carne e os da alma; algumas pessoas vivenciam sobretudo aqueles e se satisfazem com seu corpo, ao passo que as que têm uma alma cheia de desejo se tornam filósofos, poetas ou se envolvem com ‘o correto ordenamento das cidades e dos lares’ — vale dizer, com a política no mais alto sentido. Onde quer que vejamos atividade humana para o bem, diz Diotima a Sócrates, haverá traços de eros”.

Sócrates sugere que o autocontrole intelectual está ao nosso alcance

Aquilo que não é “positivo”, como a “embriaguez” ou a “crueldade”, seria movido “pelo eros”? “O amor quer o bem, mas também pode invariavelmente servir ao mal, explica Sócrates. Porque o amor induz à loucura, um delicioso tipo de loucura que temos dificuldade de controlar, quer estejamos apaixonados por outro ser humano ou por uma ideia. Mas só é possível alcançar a mais alta felicidade se essa loucura de fato for controlada e nos mantivermos no controle da nossa alma, mesmo sendo puxados para cima por eros. Esse autocontrole diante do amor é o que a vida filosófica pretende oferecer. Tal como pintada por Platão, a vida filosófica não é uma vida de renúncia budista, mas uma vida erótica controlada que espera alcançar o que o amor inconscientemente busca: a verdade eterna, a justiça, a beleza, a sabedoria. Poucos são capazes de levar essa vida, e a maioria daqueles que não o são haverá de gratificar suas aspirações de maneiras previsíveis, levando vidas medianas”, anota Mark Lilla. “Outros tornam-se absolutos escravos dos impulsos, e nada poderá controlá-los. A estes refere-se Platão como tiranos. O homem tirânico é a imagem invertida do filósofo: ele não é o governante das próprias aspirações e desejos, e sim um homem possuído pela loucura do amor, escravo de suas aspirações e desejos, e não seu governante.”

Na “República”, Platão detecta “uma ligação entre a tirania na mente e a tirania na vida política”. A loucura erótica de certos tiranos subjuga, por vezes, povos inteiros. Mas, segundo Sócrates, existe um tipo mais comum de tiranos — “o dos que entram na vida política não como governantes, mas como professores, oradores, poetas, aqueles que hoje seriam conhecidos como intelectuais. Esses homens podem ser perigosos, pois foram ‘bronzeados’ pelas ideias. Como Dionísio, esse tipo de intelectual encara, apaixonado, a vida da mente, mas, ao contrário do filósofo, não é capaz de controlar essa paixão”. Não são espíritos independentes e “formam um rebanho movido por seus demônios internos e sedento da aprovação de um público inconstante”. O alvo deles são os jovens, mais suscetíveis ao descontrole da paixão. Sócrates aponta que, carecendo de humildade, tais intelectuais, no lugar de canalizarem as paixões, buscam excitá-las. Agindo assim, empurram a democracia para a tirania — “ao agitar a mente dos jovens a um frenesi, até que alguns deles, talvez os mais brilhantes e corajosos, dão o passo do pensamento à ação e tentam realizar suas ambições tirânicas na política. E então, gratificados por verem suas ideias surtirem efeito, esses intelectuais tornam-se os servis bajuladores do tirano, compondo ‘hinos à tirania’ após sua chegada ao poder”, escreve Mark Lilla.

Sócrates postula que a ideia de reis-filósofos é “um ‘sonho’ que serve para nos lembrar como é improvável que a vida filosófica e as demandas da política possam convergir. Reformar uma tirania pode não estar ao nosso alcance, mas o exercício do autocontrole intelectual sempre está. É por isso que a primeira responsabilidade de um filósofo que se vê cercado de corrupção política e intelectual pode ser retirar-se”.

Platão, que reproduz as ideias de Sócrates, não pensava que a vida intelectual deveria ser desengajada politicamente. Na verdade, a participação política é necessária, mas a submissão ao tirano, quando se aceita suas ideias, às vezes sofisticando-as para que um maior número de pessoas as aceite e se submeta, é condenável. Mark Lilla destaca que “a vida filosófica representada pela vida do próprio Sócrates” [condenado à morte por combater a tirania] era uma vida antitirânica, a mais nobre delas, por ser supremamente consciente de suas próprias inclinações tirânicas”.

A autoconsciência de Platão e Díon os distingue dos intelectuais filotirânicos na Europa do século 20. Seguindo o exemplo de Sócrates, arrancando “a tirania pela raiz em suas próprias almas”, eles “puderam entender a natureza do governo de Dionísio e estavam com razão ao tentar livrar Siracusa de sua tirania”. Ao se aproximarem de Dionísio, para ilustrá-lo, “esperavam combater a tirania com a palavra, e não com a espada”. Fracassaram. Mas Platão admitiu que, quando usou as armas para se livrar de Dionísio, já que o convencimento filosófico não havia adiantado, Díon não estava equivocado. Mark Lilla diz que “Platão tinha confiança em que Díon tudo fizera sem permitir que a tirania que combatia entrasse em sua própria alma. Não há vergonha no fracasso ou na morte em política, desde que se permaneça livre dessa tirania”.

Isaiah Berlin, filósofo britânico, percebe no iluminismo a matriz da ideia totalitária

Escapar do tirano interno é seminal

É possível escapar do fascínio de Siracusa? (Há intelectuais se submetendo a Jair Bolsonaro, novo presidente do Brasil, e acreditando que poderão influenciá-lo, quando possivelmente serão os influenciados? Por enquanto, o que diz Bolsonaro é retórica, e é preciso saber o que fará como governante. As dificuldades do dia a dia, ao menos na democracia, costumam moderar os gestores. O discurso feito numa eleição é de pouca serventia à prática do governo. Bolsonaro pode se tornar um bom governante? Pode. Um dos caminhos é livrar-se das palavras da campanha e adotar um palavreado democrático, de convergência. Pode perder eleitores radicalizados que, acreditando em mágicas políticas, sugerem que tudo pode mudar de uma hora para outra? Até pode. Mas o país e seu governo ganharão.)

Platão, observa Mark Lilla, percebeu aquilo que Sartre não quis notar: “Que existe alguma ligação na mente humana entre o anseio pela verdade e o desejo de contribuir para o ‘correto ordenamento das cidades e dos lares’. Mas, exatamente por reconhecer essa necessidade como necessidade — um impulso que pode tornar-se uma paixão imprudente —, Platão mantinha-se atento a seu potencial destrutivo e preocupado em canalizá-la para uma vida intelectual e política saudável. Somos tentados a dizer que é essa suprema autoconsciência a respeito da maneira como a mente lida com as ideias que distingue basicamente o filósofo no sentido platônico de tantos intelectuais modernos. E é essa mesma autoconsciência que seria sensato adquirir ao pensarmos sobre a filotirania no século 20 e aprendermos sobre ela”.

“As ideologias do século 20 apelavam para a vaidade e a pura e simples ambição de certos intelectuais, mas também apelavam, de maneira maliciosa e desonesta, para o senso de justiça e ódio ao despotismo que o próprio ato de pensar parece inculcar em nós, e que, não sendo devidamente controlado, pode literalmente nos possuir. Para os possuídos, as exortações à moderação e ao ceticismo parecerão covardes e pusilânimes, e por isto os raros intelectuais europeus que convocavam essas qualidades — Aron era um deles — tornavam-se alvo de abomináveis ataques, como traidores da missão”, relata Mark Lilla (que não cita o escritor Albert Camus, um dos mais atacados por Sartre, e exatamente por não se submeter ao discurso dos que defendiam a tirania comunista). Aron e outros — poucos — resistiram e, ao contrário de Sartre, não se tornaram intelectuais irresponsáveis, do tipo que, quando a circunstância muda, sente-se compelido a fazer autocrítica, não por sinceridade, e sim por necessidade de “sobrevivência”.

Mark Lilla alerta que “a tirania não morreu, nem na política nem certamente em nossa alma. Enquanto homens e mulheres pensarem sobre política estará presente a tentação de sucumbir à sedução de uma ideia, permitir que a paixão por ela nos cegue para seu potencial tirânico e abdicar da nossa primeira responsabilidade, que é dominar o tirano interno”. O historiador destaca que é preciso olhar “para dentro de si” para entender do que os políticos e todos nós somos capazes.

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