Filósofo da Unicamp sugere que Bolsonaro permanece “vivo” politicamente

O doutor em Filosofia Marcos Nobre postula que a aprovação de 30% dos eleitores é significativa e sugere que o presidente soube se blindar no Congresso e na Justiça

Há duas crises graves no Brasil. Primeiro, a pandemia do novo coronavírus — com quase 400 mil mortos. Trata-se de uma verdadeira guerra. Na cruenta Guerra do Paraguai, no século 19, estima-se que morreram 50 mil brasileiros. Segundo, há o problema da economia. O economista Nathan Blanche disse ao Jornal Opção que previsões otimistas sugerem um crescimento entre 2% e 2,5% para 2021. Realista, o especialista em finanças postula que, se houver um crescimento de 1,5%, será preciso comemorar. Tais problemas indicam que, politicamente, Jair Messias Bolsonaro está “morto”? Não está, não. O presidente ainda tem um capital político considerável e a vacinação crescente, com a consequente diminuição do número de contaminados e mortos, pode contribuir para a redução de seu desgaste. Claro, trata-se de uma hipótese.

Marcos Nobre, filósofo e presidente do Cebrap | Foto: Reprodução

A revista “Cult” nº 268, que está nas bancas de Goiânia — sim, ainda há bancas de revistas, jornais na capital, como a do “moicano” Eduardo Domingos Salviano (sabe tudo sobre jornais e revistas, liga para os clientes), na Avenida Goiás, Centro —, contém uma excelente entrevista do filósofo e cientista político Marcos Nobre (ele conversou com Márcio Ferrari e Paulo Henrique Pompermaier). O intelectual de esquerda, doutor em Filosofia pela Universidade de São Paulo, professor da Unicamp e presidente do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap), avalia que Bolsonaro não está morto. A seguir, o Jornal Opção expõe seu pensamento e, eventualmente, apresenta ponderações e ressalvas.

Prevalece a tese de que Bolsonaro prega para “convertidos” — o que seria uma prova de seu, digamos, “fanatismo” político-ideológico. O que parece aleatório, a crença de que 30% dos eleitores bastam para chegar ao segundo turno, pode ser resultado de “método”. Marcos Nobre nota que, de fato, aumentou a taxa de desaprovação do presidente — o que elevou, por contradição, a aprovação de Lula da Silva, do PT. Mas o pesquisador sugere que é preciso ficar atento a outro dado: “A taxa de aprovação [de Bolsonaro] continua no mesmo lugar”.

“Bolsonaro nunca pretendeu governar para a maioria. Ele mira no apoio de cerca de um terço porque é uma espécie de seguro anti-impeachment, ao mesmo tempo, o que o garante no segundo turno em 2022. E é uma estratégia bem-sucedida. Ele conseguiu convencer essa base de apoio de que sua narrativa da pandemia faz sentido e é razoável”, afirma Marcos Nobre. O expurgo de Sergio Moro assustou aqueles que são radicais contra a corrupção, mas o auxílio emergencial atraiu parte significativa do eleitorado que havia acompanhando, antes, tanto Lula da Silva quanto Dilma Rousseff. O que sugere que o presidente trabalha com a ideia de pesos e medidas. Há um pensamento por trás de suas ações que sugerem conhecimento tático e estratégico.

Jair Bolsonaro: o presidente “prega” para manter os “convertidos” | Foto: Reprodução

Bolsonaro sai das cordas e tem base estável

Em algum momento, Bolsonaro esteve perto do impeachment? Possivelmente, não. Mas, depois de quase 30 anos no Congresso, não quis correr riscos. “Bolsonaro tomou medidas para que a janela do impeachment não se abrisse, ao fazer um acordo com o núcleo do Centrão formado por partidos herdeiros da ditadura militar. Ele se preparou para uma eventual grande coalizão anti-Bolsonaro”, pontua o dirigente do Cebrap.

Ao indicar Kassio Nunes Marques para o Supremo Tribunal Federal, na vaga do ex-ministro Celso de Mello, Bolsonaro tomou, nas palavras de Marcos Nobre, uma medida importante de “autoproteção”. “É algo muito raro ver um novato como Kassio Nunes Marques com atuação tão importante no STF.” Observe-se que este ministro, que era considerado como do grupo de Gilmar Mendes — que está “reinando” no STF —, começa a se dissociar, sugerindo que “ouve” mais Bolsonaro.

“Bolsonaro mudou a direção dos órgãos de controle e das polícias que estão a seu alcance e fez nomeações para o Judiciário”, nota Marcos Nobre. Tal ação sugere que a linguagem errática e tosca esconde um presidente que age para proteger a si, seus familiares e ao seu governo. “São movimentos muito importantes de blindagem jurídica.”

Lula da Silva, ex-presidente da República: o petista precisa do apoio de uma frente ampla, sobretudo no segundo turno| Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

Há também a “blindagem política”. A aliança com o Centrão “é um pacto para que os pedidos de impeachment não sejam acatados”. Bolsonaro está entregando alguns anéis para o grupo de Arthur Lira (PP), presidente da Câmara dos Deputados, e do senador Ciro Nogueira (PP), “primeiro-ministro” do Centrão, para não perder alguns dedos. “Entre o eleitorado, é preciso que a rejeição suba e se organize politicamente em torno da ideia de impeachment, e isso está longe de acontecer. Temos a impressão de que Bolsonaro está fraco, mas ele sempre sai das cordas e consegue manter sua parcela de apoio social. Ele mesmo afirma que governa apenas para os ‘bons brasileiros’”, analisa Marcos Nobre.

Ah, Bolsonaro tem “apenas” 30% do eleitorado. É o que dizem seus adversários. Entretanto, Marcos Nobre avalia de modo diferente: “Representam um número enorme de eleitores”. O núcleo duro, radicalizado, representa de 12% a 15% do eleitorado. Tais eleitores querem, de fato, um governo autoritário — daí os discursos pró-AI-5.

“Esse eleitorado realmente autoritário andou disperso depois da redemocratização. Votava em candidaturas de protesto, de extrema direita, como é o caso de Enéas Carneiro, mas era um movimento tratado como folclórico, apesar de ser um erro grave tratar o autoritarismo como folclórico. Em 2018 a dispersão deu lugar à adesão a uma rede de informação e desinformação ligada a Bolsonaro e chegou ao poder de uma vez só. É muito difícil acreditar que conseguiremos fazer o apoio baixar a 15% ou menos. Os outros 15% a 18% da base de Bolsonaro são compostos de 9% de simpatizantes, e os outros 7% a 8% reagem a medidas como o auxílio emergencial. O que me impressiona, e me preocupa, é a base estável, pois é isso que põe em risco a democracia. Se ele for reeleito, a democracia acabará, e então teremos uma luta mais difícil e com menos chances de sucesso”, analisa Marcos Nobre.

Sergio Moro e Ciro Gomes: direita e centro-esquerda | Foto: Reprodução

O filósofo é comedido e, no geral, não excede nas críticas. Mas, se não tem bola de cristal, como pode sugerir que, se Bolsonaro for reeleito, a democracia acabará? Não estaria usando a análise mais para combater do que para entender? O filósofo britânico John Gray sublinha que a possibilidade de recuo histórico, como a retomada do fenômeno da ditadura, sempre existe. O mundo não “caminha” apenas pra frente, buscando voos ainda mais democráticos — como a inclusão de mais pessoas das margens à sociedade que deveria ser de todos, a dos cidadãos. O nazismo é o exemplo mais candente de “recuo” — e logo na Alemanha de Beethoven, Goethe, Heine e Thomas Mann. Mas a democracia, mesmo sendo nova — a do Brasil, balzaquiana, conta com 36 anos —, é capaz de resistir. Neste momento mesmo, ante a retórica virulenta e autoritária de Bolsonaro, os poderes Legislativo e Judiciário, pilares da normalidade democrática, estão funcionando a contento — como “diques”.

Risco de golpe e resistência militar

Feita a ressalva, continuemos a expor o pensamento de Marcos Nobre. “Digamos que Bolsonaro não seja reeleito — para mim é certo que ele vai tentar um golpe, e existem diversas razões para acreditar nisso. A questão é qual será a natureza do golpe: seguindo o modelo dos novos populismos autoritários, de minar a democracia por dentro, ou um golpe clássico, com o fechamento do regime de maneira abrupta. Não sabemos se será bem-sucedido, mas tal golpe terá sustentação nas forças de segurança. O governo está armando explicitamente as bases sociais que o apoiam, e em muitos lugares as polícias estaduais não respondem mais aos governadores. É um processo de convencimento, uma guerra cultural para aumentar a parcela de ação e de pensamento autoritários no Brasil.”

Antônio Carlos Moretti Bermudez, da Aeronáutica, Ilques Barbosa, da Marinha, e Edson Pujol, do Exército: exonerados por Jair Bolsonaro | Foto: Reprodução

Não há dúvida de que o que diz Marcos Nobre é da maior gravidade e merece debate ampliado. O filósofo percebe os militares — ao lado dos “fanáticos” (açulados pelos mictórios do ódio supostamente coordenados por Carlos Bolsonaro, filho do presidente) e dos integrantes do Centrão — como parte do tripé de sustentação de Bolsonaro. É provável que o mestre não tenha tido tempo suficiente para analisar a crise militar recente.

O general Edson Pujol incomodava Bolsonaro, porque, democrata absoluto, é inteiramente avesso a golpe de Estado. O presidente decidiu exonerá-lo do comando do Exército, assim como os comandantes da Aeronáutica e da Marinha. Há ao menos três hipóteses (ou teses) possíveis. Primeiro, Bolsonaro mostrou coragem ao trocar a cúpula da Forças Armadas. Segundo, supostamente colocou em seus lugares um general, um brigadeiro e um almirante mais alinhados com seu ideário autoritário. Terceiro, ao mudar os comandantes, o chefe do Executivo acabou por mostrar, direta ou indiretamente, que há resistência a um provável projeto autoritário na cúpula militar. Ao provar que tem “força” — que sua caneta ainda tem muito tinta —, sugeriu também “fraqueza”. A rigor, o que se pensava é que os militares estavam inteiramente “fechados” com as ideias do político direitista. Ficou evidenciado que há resistência ao presidente, e isto foi revelado não pelos militares, e sim pelo próprio Bolsonaro, que também vive aos trancos e barrancos com o vice-presidente, general Hamilton Mourão, que é venerado pelas tropas.

Luciano Huck (que estaria animado para a disputa presidencial) e Luiza Trajano: a empresária é a vice que muitos, inclusive Lula da Silva, querem para 2022 | Foto: Reprodução

Sem as Forças Armadas, Bolsonaro certamente não fará nenhuma opção pelo golpe. Mas, se reeleito, poderá seguir o caminho de Vladimir Putin, na Rússia — que tende a deixar o poder apenas quando morrer, como se fosse o novo czar? Não dá para saber. A informação de que mantém ligação direta com forças policiais estaduais sinaliza exatamente o quê? Que se está em busca de apoio para um golpe (para além do apoio das Forças Armadas)? Talvez.

Marcos Nobre assinala que a extrema-direita captou, de maneira precisa, o sentimento antissistema de parte significativa dos brasileiros. Sobretudo, conseguiu identificar o “sistema” — “tudo” está errado no poder — à democracia. Piorando a imagem da democracia, que “possibilita” um sistema corrupto, cria-se a justificativa para um regime autoritário. Até a esquerda, que sempre se postou como antissistema, acabou por ser incluída como parte do establishment. Marcos Nobre não diz, mas isto foi possível porque houve corrupção, em larga proporção, nos governos do PT, que geriram o país tendo como parceiras as elites políticas e econômicas tradicionais do país.

Fragmentação do campo democrático

A opção pela negociação com o Centrão, subordinando-o, mas subordinando-se em parte, sugere que Bolsonaro — contrariando, digamos, o filho Eduardo Bolsonaro, que “sonha” com nova ditadura — fez uma opção pela política e, portanto, pela democracia. Tal aspecto não é analisado por Marcos Nobre. Por quê? Não se sabe. Possivelmente porque Bolsonaro governa por etapas. Surge um problema, ele faz uma negociação política, cedendo ao fisiologismo, e tenta resolvê-lo. Mas o pensamento de longo prazo pode, quem sabe, ser outro, como uma putinização do Brasil.

O fator Lula da Silva, que se tornou elegível, mudou o projeto de Bolsonaro ou pode ajudá-lo na busca de um projeto autoritário? Para evitar a volta de um ex-presidente “corrupto”, mesmo liberado pela Justiça, poderia se buscar o golpe, seria uma “boa” justificativa para o golpismo? Não é o caminho da análise de Marcos Nobre.

“O fato de Lula aparecer como possível candidato em 2022, sendo uma ameaça real a Bolsonaro, foi algo que provocou um sentimento de alívio sem paralelo. Desde que Bolsonaro foi eleito, governa sem oposição de fato. Existe uma oposição formal no Congresso, mas não na sociedade, dada a fragmentação do campo democrático”, postula Marcos Nobre.

O filósofo faz uma ressalva pertinente: “O problema é acharmos que tudo está resolvido pelo fato de Lula poder ser candidato e mostrar que é um estadista em comparação com o que temos como presidente. Em primeiro lugar, a fragmentação do campo democrático continua. Em segundo lugar, em 2022 vamos ter um incumbente candidatando-se à reeleição, o que não ocorreu em 2018. Se tivermos uma candidatura Lula capaz de se estender a todo o campo democrático, poderia ser uma candidatura não só da esquerda, mas da democracia contra um candidato autoritário. Se isso não acontecer (o que acho mais provável), será necessária uma candidatura de direita não bolsonarista”. (Frise-se que Ciro Gomes sublinha que, se ficarem Lula da Silva e Bolsonaro no segundo turno, pode viajar para Paris.)

O ex-magistrado Sergio Moro (não citado por Marcos Nobre) disse que, se optar pela disputa da Presidência da República, o fará pelo Podemos, por ser ligado ao senador Álvaro Dias, do Paraná. Dado seu intenso combate à corrupção, o ex-ministro da Justiça pode retirar votos de Bolsonaro e reduzir o impacto de seu discurso moralista. O filósofo, que não menciona o ex-juiz, sugere outro caminho. “A única saída para a organização dessa direita seria uma aliança com uma candidatura como a de Ciro Gomes — ou seja, a adoção pela direita não bolsonarista de um candidato que se perfila à esquerda. Esse candidato teria possibilidade de organizar o voto que fica entre o lulismo e o bolsonarismo, e permitiria que se formasse um pacto, que precisa ser celebrado antes do primeiro turno da eleição, um pacto de que quem passar para o segundo turno contra Bolsonaro terá o apoio do restante do campo democrático”, propõe Marcos Nobre.

Marcos Nobre sugere uma aliança de uma direita não bolsonarista com Ciro Gomes. Por que não uma aliança do líder do PDT com o centro político? O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, sempre recalcitrante quando se trata de falar do ex-governador do Ceará, sugeriu a abertura de diálogo entre ele e o PSDB de João Doria e Eduardo Leite, governadores de São Paulo e do Rio Grande do Sul. O filósofo também não apresenta a informação de que Lula da Silva está procurando um vice na direita não bolsonarista ou no centro — como a empresária Luiza Trajano, do Magazine Luiza.

O apresentador da TV Globo Luciano Huck, que teria voltado a se animar, permanece no jogo. Com a vantagem de ser conhecido em todo o Brasil, e com certa aprovação entre ricos e pobres.

Recomenda-se uma leitura de toda a entrevista de Marcos Nobre na edição impressa da revista ou no site (https://revistacult.uol.com.br/).

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