Estados Unidos “vão” reduzir tarifa de 25% para tentar afastar o Brasil da China?
25 julho 2026 às 21h00

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O Jornal Opção publicou uma série de editoriais sobre o principal problema geopolítico entre os Estados Unidos (potência dominante) e a China (potência emergente). (Vale ressalvar que os Estados Unidos “venceram” a União Soviética, que acabou em 1991, não pelas armas, e sim pela economia.)
Um dos editoriais, publicado em 7 de março deste ano, tem o título de “Irã é a arvore mas o problema dos Estados Unidos é a floresta — a China” (https://tinyurl.com/423uypey).
O Jornal Opção apresenta o pensamento de Graham Allison. O professor de História Aplicada de Harvard sugere que Estados Unidos e China, hoje em plena guerra comercial, podem ir às vias de fato, ou seja, ao conflito armado. Mas isto pode ser evitado, sugere o autor do livro “A Caminho da Guerra — Os Estados Unidos e a China Conseguirão Escapar da Armadilha Tucídides?” (Intrínseca, 416 páginas).
O especialista Matias Spektor, da Fundação Getúlio Vargas, ressalta que “a política de Trump de fechamento do comércio para promover a industrialização do país foi muito atacada pela Suprema Corte dos Estados Unidos”
Há um ano, em 12 de julho de 2025, o Jornal Opção publicou o editorial “Problema dos Estados Unidos não são Brasil e Lula. É o avanço incontornável da China de Xi Jinping” (https://tinyurl.com/39zy6jka). Enfatiza-se: “País asiático tem inteligência artificial, carros elétricos modernos, um Banco Mundial, a melhor faculdade de engenharia do mundo e os supercomputadores mais rápidos. O dólar vai perder seu reinado?”

Há mais de um ano, em 25 de janeiro de 2025, o Jornal Opção publicou o editorial “É a China, estúpido! Guerra de Trump não tem a ver com Rússia, Brasil, México, Canadá, Panamá e Groenlândia”. O jornal sublinhou: “Potências dominantes e potências emergentes costumam batalhar com armas. China opera para vencer no plano econômico, mas Donald Trump está irado, mordendo”.
Os Estados Unidos ganharam um poderoso concorrente econômico, político e, relevante, bélico. Em termos armamentistas, nem a Rússia — dona de um arsenal nuclear considerável — tem condições de enfrentar o país presidido por Donald Trump. Mas a China reúne condições suficientes para um combate de destruição total.
A história prova que nenhuma potência hegemônica cai sem lutar. De 16 casos de conflitos entre potências dominantes e potências emergentes examinados por Graham Allison, doze foram à guerra. Uma guerra de destruição em massa.
Trump olha o Brasil e vê a China
O tarifaço do governo dos Estados Unidos tem a ver menos com o Brasil e mais com todo o mundo, sobretudo com a disputa comercial e geopolítica com a China de Xi Jinping.
No domingo, 19, o Jornal Opção publicou o artigo “Tarifaço: diplomata diz que o Brasil precisa entender que o mundo mudou e os EUA adotaram a lei da selva” (https://tinyurl.com/4ukt93vb).

Ex-embaixador em Washington, Rubens Barbosa postula que, “mais do que uma questão política ou comercial específica”, o tarifaço tem a ver com “uma mudança da posição americana quanto a sua política comercial para todo o mundo”.
Quanto ao Brasil, há as narrativas do governo do presidente Lula da Silva, do PT, e as do bolsonarismo. Porém, para além da retórica decorrente da disputa eleitoral, há outras a ressaltar.
Na terça-feira, 21, o repórter Carlos Eduardo Valim, do “Estadão”, publicou uma valiosa entrevista de Matias Spektor, sob o título de “Trump não gosta de perdedores e continuará a negociar com Lula se Flávio perder, diz Spektor”.
Matias Spektor (que já teve um livro comentado no Jornal Opção: https://tinyurl.com/bdfukzum e https://tinyurl.com/3jtynara) é professor da Fundação Getúlio Vargas e é membro do Centro Brasileiro de Relações Internacionais (FGV).
O “projeto”, tão favorável aos Estados Unidos e desfavorável ao Brasil, parece ter sido feito sob medida, não para ser aprovado, e sim para ser negociado. Até para conquistar espaço em outros fronts, como o isolamento da China
A taxação em 25% de algumas exportações brasileiras para os Estados Unidos não é um fato isolado, de acordo com Matias Spektor. Frise-se: o Brasil é grande, tem importância, mas não é a China.
O tarifaço do presidente Donald Trump, sublinha Matias Spektor, é um instrumento do comércio internacional. Seu objetivo é “retomar a industrialização dos Estados Unidos e provocar o isolamento da China”. Este é o cerne da questão, como vem apontando economistas e o Jornal Opção há anos.

Entretanto, por que o Brasil está no centro do furacão gestado por Trump?
“O Brasil é relevante por competir com os Estados Unidos em alguns mercados importantes, em especial de agricultura”, afirma o especialista da FGV.
“Mas as investigações que levaram às tarifas ao Brasil também foram feitas contra 60 países [o que foi apontado pelo diplomata Rubens Barbosa]. O Brasil ainda é o grande parceiro comercial da China na esfera de influência que Trump quer restaurar na América”, pontua Matias Spektor.
A nação governada por Lula da Silva é “relevante para as aspirações do Trump. Há uma coisa conjuntural”.
Crise de Trump com a Suprema Corte
Matias Spektor ressalta que “a política de Trump de fechamento do comércio para promover a industrialização do país foi muito atacada pela Suprema Corte dos Estados Unidos”.
“Na disputa com a Suprema Corte, Trump” decidiu “encontrar novos argumentos jurídicos ainda não explorados, o que levou a mobilizar essa investigação da Seção 301¹ — para chegar com uma bateria grande de novas demandas”.
Portanto, destaca Matias Spektor, a “questão não é sobre o Brasil. O foco não é o Brasil. Trata-se de uma batalha com a Suprema Corte” para “ter o poder de decisão”.

Trump está jogando pró-Flávio Bolsonaro, pré-candidato a presidente da República pelo PL. Entretanto, ainda que queira a vitória do bolsonarismo, que é subserviente aos interesses americanos, os Estados Unidos têm interesses mais amplos e de longo prazo.
O presidente dos EUA “vai se sacrificar pela família Bolsonaro? Não. Ele não gosta de perdedores”, assinala Matias Spektor.
Então, “se Flávio Bolsonaro perder as eleições”, Trump “continuará a negociação com Lula”.
Ao contrário de outros críticos, Matias Spektor avalia que “o governo brasileiro entendeu bem essa dinâmica e adota” a “atitude de negociação permanente, de nunca fechar as portas de negociação”.
Num período eleitoral, o PT de Lula da Silva soube embutir um projeto de campanha: a defesa da soberania nacional. Daí a reação mais estridente de setores do governo, sobretudo de petistas. Trata-se de um ato de inteligência política. Porque a narrativa do PT é, claramente, a mais correta e, por isso, apoiada pela maioria dos eleitores.

O Brasil vai continuar pleiteando a redução da tarifa. A proposta comercial dos EUA, critica Matias Spektor, “parece algo absolutamente inaceitável, de rendição”.
O “pedido de tarifa zero para o Etanol americano e de uma abertura grande para importações industriais” tende, naturalmente, a não ser aceito pelo governo brasileiro. A posição dos Estados Unidos chega a ser praticamente colonialista. O governo de Trump sequer oferece contrapartidas, anota Matias Spektor.
O “projeto”, tão favorável aos Estados Unidos e desfavorável ao Brasil, parece ter sido feito sob medida, não para ser aprovado, e sim para ser negociado. Até para conquistar espaço em outros fronts, como o isolamento da China.
Hoje, a economia do Brasil está profundamente conectada à da China, principalmente na questão dos produtos do Agronegócio — como soja e carne. Não há como desconectar os dois países. O país de Lula da Silva exporta mais para a nação de Xi Jinping do que para a de Trump.
Rubens Barbosa diz que o Brasil não tem condições de retaliar os Estados Unidos. Realista absoluto, Lula da Silva, assim como o vice-presidente Geraldo Alckmin, decididamente não tentará retaliação (a tal reciprocidade).
Matias Spektor concorda que não é possível nenhuma retaliação. Porque prejudicaria, mais do que o governo de Lula da Silva e seu projeto de reeleição, o país — e não apenas os industriais e os produtores rurais.
Como se disse, o petista-chefe é de um realismo ímpar. Então, para além da retórica e possíveis bravatas, vai negociar, negociar, negociar — até reduzir a tarifa.
O governo Trump tende a recuar, ao menos em parte. Porque o Brasil — país capitalista — interessa aos Estados Unidos do ponto de vista econômico e geopolítico.
Nota sobre a Seção 301
¹ “A Seção 301 é um dispositivo da Lei de Comércio dos EUA de 1974 que permite ao governo americano investigar e aplicar sanções ou tarifas contra países com práticas comerciais consideradas desleais. Os pontos principais incluem: permissão para taxações unilaterais, histórico de uso contra a China e aplicação em investigações recentes.” (Fonte: Google)



