Disputas políticas não podem abrir margem para pânico em momentos que requerem união

Período pré-eleitoral jamais deveria ser usado para atacar adversários com mentiras inaceitáveis sobre a vinda dos brasileiros que moram na China para Anápolis

Em imagem compartilhada em aplicativos de mensagem, prefeito Roberto Naves (PP), governador Ronaldo Caiado (DEM) e presidente Jair Bolsonaro (sem partido) são tratados de forma mentirosa como culpados por chegada de doença a Anápolis | Foto: Reprodução/WhatsApp

No dia 5 de fevereiro, os novos casos diários confirmados do novo coronavírus atingiram a maior marca até o momento: 3.892 pessoas apenas na quarta-feira. Até sexta-feira, o governo chinês confirmou a ocorrência de 31 mil infecções e 637 mortes na China. No resto do mundo, a quantidade total de manifestações da doença chegou a 220, com um falecimento nas Filipinas.

Em meio à preocupação mundial com um novo vírus que tem como forma de contágio o contato, mesmo que a pessoa ainda não tenha manifestado algum sintoma, o governo federal deu ouvidos a um grupo de brasileiros que mora em Wuhan, cidade onde a doença foi verificada pela primeira vez em janeiro, e decidiu repatriar aqueles que manifestaram vontade em retornar ao Brasil.

Para buscar 25 brasileiros e quatro parentes chineses, a gestão Bolsonaro enviou dois aviões da Força Aérea Brasileira (FAB) para a China. As aeronaves devem pousar na Base Aérea de Anápolis na noite de hoje. O gesto de grandeza em reconhecer o direito dessas pessoas de serem trazidas para seu país em um momento de crise de saúde mundial se tornou em uma oportunidade mesquinha de espalhar o pânico entre os anapolinos.

Rede de desinformação

Começou a circular nos aplicativos de mensagem, principalmente no WhatsApp, uma imagem atribuída ao PT com críticas ao prefeito Roberto Naves (PP), o governador Ronaldo Caiado (DEM) e o presidente Jair Bolsonaro (sem partido). A frase que acompanha as fotos é de uma violência inaceitável: “Três traidores de Anápolis trazendo doentes de coronavírus para a cidade”.

A primeira coisa a ser explicada é que não cabe ao governo estadual ou à Prefeitura de Anápolis a decisão ou não de levar o grupo de 29 pessoas repatriadas da China para a cidade. É preciso lembrar que trata-se de uma área militar, sobre a qual têm autonomia para atuar e definir sua funcionalidade e atividades o Ministério da Defesa e a Aeronáutica.

Seria o presidente da República irresponsável se tivesse, junto com sua equipe militar, definido como base da quarentena dos brasileiros – que não manifestaram qualquer sintoma do novo coronavírus – a capital de Santa Catarina. Florianópolis fica a 1.684 quilômetros da capital federal.

Tão longe assim de Brasília, a operação de quarentena dos profissionais de saúde e militares que acompanharão o quadro clínico dos brasileiros nos próximos 18 dias seria dificultada no caso de necessidade de transferência para o hospital militar no Distrito Federal.

Escolha acertada

Anápolis, além de contar com uma área militar devidamente isolada distante do centro urbano habitado, fica a apenas 151 quilômetros da unidade médica que receberá um dos repatriados. Se houver manifestação de sintomas relacionados ao novo coronavírus.

Coube ao governador Ronaldo Caiado e ao prefeito Roberto Naves buscar informações junto ao Ministério da Saúde para acompanhar os procedimentos adotados na rede pública de hospitais e unidades de atendimento primário à população para instruir suas equipes de médicos e enfermeiros sobre como proceder em casos de suspeita de contágio do novo coronavírus.

As autoridades têm demonstrado até aqui responsabilidade e abertura para o diálogo franco com a população na atualização de dados, procedimentos e o que deve ser feito, como lavar as mãos e manter em dia cuidados de higiene pessoal, para evitar um possível contágio. Mas é bom lembrar que não há qualquer caso confirmado até então no Brasil. E não há suspeita de contágio em nenhuma das 246 cidades do Estado de Goiás. Muito menos em Anápolis.

Causa do pânico

Imagens como a que abre este texto só servem para gerar um pânico desnecessário e criar desgastes políticos que não deveriam existir. O caso é sério, merece toda a atenção dos políticos, sejam eles de situação ou oposição, e não pode ser tratado como oportunidade para arranhar reputações em uma antecipação leviana da pré-campanha na cidade.

As pessoas ligadas ao PT que foram procuradas pelo Jornal Opção negaram qualquer conhecimento, relação, envolvimento ou responsabilidade pela imagem e seu conteúdo. Seja de autoria de alguém do Partido dos Trabalhadores ou não, o momento não é de alimentar disputas políticas. A hora é de união. É a oportunidade de quebrar a barreira da polarização constante e cada vez ampliada nas redes sociais entre partidos, agentes públicos e sociedade.

Não é o momento de se aproveitar de uma crise de saúde mundial e a preocupação que o surgimento de uma nova doença causam para disseminar o pânico na cidade que, de forma madura e acertada, sediará a quarentena dos brasileiros repatriados de Wuhan. A ocasião urge por união dos políticos, os eleitos e os que sonham em voltar ao Poder Executivo municipal, para tranquilizar a população, informar os moradores e acalmar os ânimos.

Mentiras irresponsáveis

O Brasil é palco diário de uma batalha eleitoral que não tem fim. As pessoas têm perdido oportunidades seguidas de voltarem a dar as mãos. Se é na dor que uma população mostra sua grandeza, chegou a hora de os representantes de Anápolis e do Estado trabalharem para quebrar preconceitos, exigir o fim da disseminação de ataques baixos e inaceitáveis contra adversários no WhatsApp ou nas redes sociais.

Enquanto o único foco continuar a ser a vitória baseada em disputas políticas, o público-alvo das eleições continuará a ser ignorado e tratado como voto nas urnas. E pessoas são muito mais do que eleitores, merecem ser tratadas com dignidade,  bem acolhidas e informadas. Que ataques como o da imagem deixem de existir para evitar que uma situação natural de acolhimento daqueles que são iguais a nós sejam tratados como um problema por puro preconceito ou mesquinharia eleitoral.

Somo maiores do que disputas políticas. Bem maiores.

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