Corrupção na Fifa sugere que o mundo dos altos negócios está sempre imerso na ilegalidade

Corrupção na Fifa mostra que o filme O Poderoso Chefão é mais real do que ficção. Há uma máfia poderosa e avessa à legalidade operando na área esportiva em praticamente todo o mundo

José Maria Marin (detido na Suíça a pedido do governo dos Estados Unidos), Ricardo Teixeira e Romário: a CPI articulada pelo senador do Rio de Janeiro pretende investigar a fundo as ações dos dois dirigentes esportivos

José Maria Marin (detido na Suíça a pedido do governo dos Estados Unidos), Ricardo Teixeira e Romário: a CPI articulada pelo senador do Rio de Janeiro pretende investigar a fundo as ações dos dois dirigentes esportivos

“O Poderoso Che­fão”, do diretor a­mericano Fran­­cis Ford Coppola, é um dos filmes mais emblemáticos da história. Segundo um poeta, trata-se de uma espécie de bíblia laica do mundo real. “O filme contém tudo”, sugere o bardo dos tristes trópicos. O siciliano Vito Corleone ganhou muito dinheiro, porém, ao perceber que o sistema da Máfia (a aristocracia da maldade) é sempre um perigo — até ou sobretudo mortal —, decidiu mudá-lo. Pretende “lavar” sua fortuna e, ao migrar para o mundo da legalidade, reconstruir sua história (a história de que se pode justificar a fortuna acumulada, mas não o primeiro milhão). A operação limpeza ou legalidade exige um símbolo e este é Michael “Mike” Corleone, o filho de Vito que vive no mundo legal, como militar condecorado. Porém, antes que crie as condições para que o pupilo se torne senador, Vito Corleone é baleado e, logo depois, morre — deixando a operação para “recriar” a família em suspenso. Mike Corleone herda o comando da Máfia, reestruturando-a, mas com o objetivo de “limpar” os negócios da família.

A história do escritor americano Mario Puzo, recriada de maneira definitiva e perspicaz por Francis Coppola, vincula Mike Corleone, na sua operação limpeza, a setores financeiros da Igreja Católica e a banqueiros italianos. Teoricamente, se dariam duas purificações — a financeira, dada a Igreja Católica ser um empreendimento legal e respeitado, e a moral-religiosa (os assassinatos seriam, por assim dizer, “perdoados”).

Ao se aproximar da Igreja Ca­tó­lica, em busca de legalidade e legitimidade, Mike Corleone descobre o aparentemente impensável. O legal pode ser tido e acatado como legal, até legítimo, mas, sob a máscara, reside uma profunda ilegalidade. Não havia santidade alguma no mundo da Igreja Católica e dos banqueiros. Um bispo, supostamente inspirado no americano Paul Mar­cinkus, é apontado, por um aliado mafioso, don Altobello, como um homem de dois mundos — quer dizer, tem um pé na legalidade e um pé na ilegalidade. O religioso adepto da realpolitik não disse mas poderia ter dito a Mike Corleone: “Quer pureza? Não vá ao convento”.

Mike Corleone: o mafioso quis se tornar empresário, limpando seus negócios, mas descobriu que o mundo legal estava inteiramente contaminado pelo mundo ilegal

Mike Corleone: o mafioso quis se tornar empresário, limpando seus negócios, mas descobriu que o mundo legal estava inteiramente contaminado pelo mundo ilegal

Mesmo profundamente decepcionado, Mike Corleone, sobretudo devido à filha (a preferia do criminoso) e ao filho músico (avesso à Máfia), ainda se mantém firme na tentativa de legalizar os negócios. Mas percebe que, no mundo dos altos negócios, a legalidade está sempre a um passo da ilegalidade. Isto quando não está imersa na total ilegalidade. A Máfia, entendeu Mike Corlone, não está tão-somente na Máfia. Está universalizada.

A corrupção na Fifa — a internacional do futebol, diriam Karl Marx e Lênin — indica um sistema mafioso no futebol internacional, não apenas no brasileiro. Na quarta-feira, 27, a Polícia da Suíça prendeu oito cartolas da Federação Internacional de Futebol — entre eles José Maria Marin, de 83 anos, ex-presidente da Confederação Brasileira de Futebol. Suspeita-se que as empresas Traffic — o nome é sugestivo, concordariam Mike Corleone e Platão (o do “Crátilo”) — e Klefer teriam pago propina a Marin. Este supostamente conluiado com Ricardo Teixeira, ex-presidente da CBF, e com Marco Polo del Nero (viaja pelo mundo mas não incendiou Roma), atual presidente da CBF. O empresário J. Hawilla, envolvido no esquema, está colaborando com a polícia e a Justiça dos Estados Unidos. Argentino naturalizado brasileiro, José Lazaro Margulies, que negocia direitos de transmissão de partidas de futebol, também é suspeito de envolvimento nas negociatas. Estrangeiros envolvidos: Jeffrey Webb, Eduardo Li, Julio Rocha, Costa Takkas, Eugenio Figueredo, Rafael Esquivel e Jack Warner.

Os suspeitos estariam envolvidos num esquema transnacional de extorsão, fraude e lavagem de dinheiro. O sistema corrupto teria sido montado há 20 anos. Os supostos criminosos teriam movimentado 150 milhões de dólares (317 milhões de reais). Este é o valor apurado, mas o Departamento de Justiça dos Estados Unidos — que pediu a prisão dos dirigentes da Fifa — acredita que os números sejam bem maiores. A investigação do FBI sugere que o esquema é maior e espraiado pelo mundo. O diretor da polícia federal americana afirma que as investigações estão apenas no início.

O presidente da Fifa, Joseph Blatter, mais conhecido como Sepp — no poder desde 1998; o sistema é quase monárquico —, não foi preso e não está sendo acusado pela investigação americana. O “New York Times”, mais influente jornal dos Estados Unidos, publicou que as reservas financeiras da Fifa são da ordem de 4,7 bilhões de reais e, portanto, avalia a entidade como “um conglomerado financeiro global” e “uma organização esportiva”.

A corrupção parece sobejamente provada, ainda que não se tenha definido — pelo menos em termos de divulgação para a imprensa — as responsabilidade de cada um nos inquéritos ou processos. Trata-se de uma quadrilha (de uma máfia)? Como a legislação contra a corrupção é rigorosa nos Estados Unidos, é muito provável que, apesar do trabalho de advogados competentes e muito bem pagos, alguns dos suspeitos, se condenados, fiquem durante alguns anos nas suas penitenciárias. Além, é claro, de terem de devolver dinheiro a empresas ou, às vezes, ao Erário de alguns países.

Aos que estranharam o rigor da Justiça americana com uma entidade que não é americana e é privada, há um breve comentário publicado na “Folha de S. Paulo” que deve ser levado em conta: “De acordo com a legislação dos Estados Unidos, irregularidades em transações entre empresas também são consideradas atos de corrupção”. A secretária de Justiça dos EUA, Loretta Lynch, disse, em reportagem da “Folha”, que as pessoas detidas “usaram bancos e sistema de remessa de dinheiro americanos para distribuir pagamentos de propinas oriundos do esquema”. O diretor do FBI, James Comey, é enfático: “Quem encosta nas nossas fronteiras com empreendimentos de corrupção por meio de reuniões ou do uso do nosso sistema financeiro será considerado responsável. Ninguém está acima ou abaixo da lei”. Os Estados Unidos têm uma lei, a FPCA, que combate a corrupção no exterior.

Ressalte-se que a presidente Dilma Rousseff sempre manteve José Maria Marin à parte — o ex-presidente Lula da Silva é quem mantinha laços mais estreitos com Ricardo Teixeira, o que não significa que esteja envolvido em qualquer falcatrua. Porém, se isolou José Maria Marin — quiçá mais por motivos políticos, porque se trata de um homem da ditadura civil-militar implantada no país em 1964 —, a presidente petista nunca agiu para apurar as supostas irregularidades cometidas pelo dirigente esportivo. O Brasil é sempre o primeiro a chegar atrasado, como mostram as prisões na Suíça, o país que mais lava dinheiro sujo no mundo (mas não é o único).

O jornalista Juca Kfoury responde a 50 processos movidos por Ricardo Teixeira e aliados. Porque sempre denunciou a corrupção na CBF e, também, na Fifa. Poucos profissionais publicaram tantos textos com denúncias sobre corrupção da cartolagem. Por isso foi e é perseguido por homens poderosos do mundo do futebol. Os processos são uma forma de colocá-lo na defensiva, para não publicar novas denúncias, e ao mesmo tempo uma tentativa de levar as empresas jornalísticas a demiti-lo — dado o alto custo dos processos judiciais. A “Folha de S. Paulo” manteve o colunista, mas a Rede Globo de Televisão o demitiu.

Devido às prisões na Suíça, o Senado aprovou a CPI da CBF, que, se fizer uma investigação criteriosa, vai descobrir, como se dizia nos tempos de antanho, coisas do arco da velha.
Dirigentes esportivos de todo o país possivelmente não estão conseguindo dormir, pois não é apenas a cúpula da área que está envolvida. A corrupção contaminou acima e abaixo, conectando dirigentes menos e mais importantes. Trata-se, sublinha o governo dos Estados Unidos, de uma corrupção sistêmica. Que envolve dirigentes do Brasil e de vários outros países.

Espera-se que o senador Ro­má­rio, do PSB do Rio de Janeiro, não a use para se promover politicamente, pensando em disputas eleitorais vindouras. Estuda-se o caso de se fazer uma CPI mista — do Senado e da Câmara dos Deputados.

A corrupção é universal, mas alguns países procuram penalizá-la de maneira mais rígida. No Brasil só falta se criar um Serviço de Proteção aos Corruptos (SPC).

Uma resposta para “Corrupção na Fifa sugere que o mundo dos altos negócios está sempre imerso na ilegalidade”

  1. Eis-nos diante de um acurado olhar para a corrupção. O vício da “corrupção contaminou acima e abaixo, conectando dirigentes menos e mais importantes. Trata-se, sublinha o governo dos Estados Unidos, de uma corrupção sistêmica. Que envolve dirigentes do Brasil e de vários outros países.”
    Mais um editorial na linha do Brasil policial S.A.
    Uma coisa é preciso deixar bem claro – e que o editorial apenas sugere – a saber:
    “Nem todo negócio do mundo dos “altos negócios” (grandes em valor, envolvendo muita gente?! a definição ficou de fora do alcance do bom texto!) está imerso num lodaçal – como a Política no Brasil. Basta ver que os EUA têm uma lei que é citada no texto e uma prática implacável contra os deslizes de pessoas que negociam com bancos ou entidades privadas norte-americanas. Por isso, “ninguém está acima ou abaixo da lei”. Os Estados Unidos têm uma lei, a FPCA, que combate a corrupção no exterior”. Até os negócios na Bolsa de Valores, sujeitos a imbroglios os mais diversos têm sua defesa da contaminação de más práticas – a Lei Sarbanes-Oxley (nome dos Senadores autores da proposta). Enquanto isso, abaixo do Equador, patinamos em práticas esdrúxulas, obscuras mesmo, que vão da ilegalidade ao “jeitinho”, corrupção atrás de corrupção e não temos como afirmar que “Ninguém está acima ou abaixo da Lei”. A prova disso são os sucessivos escândalos que se sucedem sem grande mudança no topo da gestão político-administrativa do país.
    AQ.

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