Cientista político sugere que só populismo pode derrotar Bolsonaro

Miguel Lago diz que Lula tem chance de derrotar o presidente, porque é o mais parecido com Vargas. Mas é um engano pensar que Bolsonaro está morto politicamente

As pesquisas de intenção de voto recentes indicam crescimento de Lula da Silva e estabilidade (Ipespe/XP) e queda (Datafolha) do presidente Jair Bolsonaro. Pesquisa é circunstância, por isso é preciso verificar se haverá um crescimento estável de Lula e uma queda progressiva, firmando-se em baixa, de Bolsonaro. Se o petista contribuir para desidratar o postulante da direita, tirando-lhe a imagem de alternativa, há a possibilidade de um candidato de centro crescer e se aproximar do pré-candidato do PT. A ressalva é que, até o momento, nenhum político de centro aparece aos menos com 10% das intenções de voto. Sergio Moro (sem partido), que teria jogado a toalha, Luciano Huck (sem partido; dizem que é o candidato da TV Globo… a Faustão), Ciro Gomes (PDT), João Doria (PSDB), João Amoêdo (Novo) e Luiz Henrique Mandetta (Democratas) estão empacados. Não têm, no momento, expectativa de poder.

A pesquisa do Datafolha mostra Lula da Silva com 41% das intenções de voto, Bolsonaro aparece com 23% e o terceiro colocado, Sergio Moro, tem 7%. Uma leitura possível dos dados: o petista está “tomando” eleitores do presidente, sobretudo no Nordeste — acentuadamente jovens e mulheres —, e “impedindo” que eleitores observem os demais pré-candidatos. A impressão que se tem, examinando a pesquisa, é que os eleitores estão escolhendo — ou escolheram (observe a diferença entre as duas palavras) — “o” candidato para derrotar Bolsonaro. Ao fazerem isto, ignoram os demais postulantes.

Os dados do Datafolha são alarmantes para Bolsonaro, pois, se a ascensão não for estancada, Lula da Silva tem chance de vencer no primeiro turno, especialmente se a onda for mesmo consistente. Mas é preciso fazer uma ressalva: a eleição será disputada daqui a um ano e quatro meses. Portanto, as pesquisas atuais podem não ser as mesmas adiante. Bolsonaro poderá contar com dois fatos “positivos”: a vacinação de toda a população, com a consequente redução das mortes por Covid-432 mil, e a possibilidade de o país se recuperar em termos econômicos. Isto pode colocá-lo em condições de igualdade com o petista? É possível, mas ainda não dá para saber. Como apreciam dizer os políticos, muita água passará por debaixo da ponte. Porém, se o presidente não souber estancar a queda, o PT poderá eleger seu candidato no primeiro turno.

Políticos realistas não vão tomar decisões peremptórias a partir de levantamentos que estão sendo divulgados pelo instituto Paraná Pesquisas, pelo Ipespe e pelo Datafolha. Vão usá-los para mapear o quadro, articular alianças e abrir as portas para as negociações políticas. Os integrantes do Centrão estão, no momento, com Bolsonaro — não por ideologia, e sim por interesse. O Centro é o “partido” do poder, não da ideologia. Amanhã, com o presidente desidratado e sem possibilidade de recuperação, o abandonarão sem traumas e culpas. Da direita migrarão, com extrema boa vontade e diplomacia, para a esquerda moderada representada por Lula da Silva. Entretanto, se um postulante do centro crescer, não será surpresa se, como rêmoras, grudarem-se na sua campanha.

O retorno do populismo

Na revista “Piauí” deste mês, o cientista político Miguel Lago assina um excelente artigo, “Batalhadores do Brasil…”, com o subtítulo de “só a reencarnação de Getúlio Vargas pode derrotar Bolsonaro”. Ante as pesquisas atuais, às quais o autor não teve acesso, passa-se a impressão de que o ensaio, de seis páginas, está desatualizado. Na verdade, não está. Porque, mesmo em queda, o presidente não está morto politicamente. Ele tem capital político-eleitoral e, se recuperar parte do que perdeu ou está perdendo, tende a crescer novamente. Mas pode ser derrotado e o pesquisador aponta um caminho.

O artigo é longo e instrutivo, sobretudo é uma leitura não preconceituosa em relação a Bolsonaro. É uma tentativa de compreendê-lo, com a sugestão de como pode ser derrotado.

“Bolsonaro é quem dita o ritmo da política. (…) Nem mesmo Lula foi depositário de um amor cego e inabalável de parcela significativa da população”, frisa Miguel Lago. E o presidente adotou uma estratégia de comunicação eficaz. “Ele nomeia seus inimigos e os obriga a fazer oposição nos seus termos. Seus opositores podem até escolher as palavras, mas o conteúdo de seus discursos é definido pela gramática desenhada por Bolsonaro.” Na semana passada, depois de verificar que o petista cresceu inclusive entre o eleitorado evangélico, o presidente acusou o golpe de duas maneiras. Primeiro, disse que Lula da Silva é coisa do “capeta” — um discurso dirigido, por certo, aos religiosos, em especial aos evangélicos. Segundo, sugeriu que, se o político da esquerda for eleito, o PT “não” sai mais do poder.

Miguel Lago nota que, ao se colocar na posição de vítima dos poderosos, Bolsonaro apresenta uma explicação para o fato de “não governar” ou de governar mal. “Bolsonaro encurrala seus adversários, forçando-os a praticar um discurso elitista e condescendente que se comunica com pouca gente.” No nível simbólico, quando o presidente sai às ruas de moto, o ato possivelmente simboliza “liberdade” e apelo aos prazeres da vida. Não estaria sendo, do ponto de vista da maioria dos receptores, tão-somente um mensageiro da morte, ao não usar máscara e incentivar aglomerações (ainda que ao ar livre).

As oposições se apegam ao discurso iluminista, como no caso recente das mortes de 28 pessoas da favela do Jacarezinho por policiais do Rio de Janeiro. O discurso em si está correto, pois é de caráter humanista. Mas, pondera Miguel Lago, “o discurso iluminista não gera empatia e afeto, ele afasta a população. Enquanto os opositores estiverem presos a ele, Bolsonaro sabe que será o único a dialogar com os anseios da maioria do eleitorado”. O discurso de que a esquerda está, ainda que indiretamente, “associada” aos criminosos, por não recriminá-los de maneira enfática, fortalece o discurso de que Bolsonaro defende o cidadão de bem. A recriminação da barbárie por parte do Estado, ao combater uma barbárie dos criminosos que “privatizaram” as favelas, é mal-vista por milhares, talvez milhões.

A impressão que se tem é que Bolsonaro não racionaliza suas ações da maneira como parece perceber Miguel Lago. Mas sigamos o cientista político: “Na prática, Bolsonaro consegue neutralizar a diversidade existente entre seus adversários, fazendo com que todos se pareçam entre si, como se fossem a reencarnação de um udenismo estridente e antipopular”. Lula da Silva, João Amoêdo, João Doria e Ciro Gomes são “iguais” — farinha do mesmo saco —, e assim fica mais fácil combatê-los, a partir da tese de que o único “diferente” é Bolsonaro. O presidente circula com Fernando Collor, Valdemar Costa Neto, Roberto Jefferson e Arthur Lira — o que sinaliza que a “velha” política é vital para sua suposta “nova” política. Porém, de alguma maneira, assim como o PT fez em pouco mais de uma década de poder, Bolsonaro sugere que subordina as forças do atraso e as coloca à sua disposição. Seria um “mal menor”. Não é assim, claro. Mas parte dos eleitores parece aceitar a fala do presidente como verdade irretorquível.

De algum modo, sugere Miguel Lago, Bolsonaro se comporta como se fosse governo e, ao mesmo tempo, oposição. É solidário com os trabalhadores que são prejudicados pela crise econômica, apoia os caminhoneiros e critica o preço da gasolina e do óleo diesel. Na questão da Covid-19, tentou responsabilizar governadores e prefeitos, eximindo-se de que o principal responsável pelo combate à doença é o governo federal — aquele que compra ou deixa de comprar vacinas.

Como se aliou a Roberto Jefferson, Valdemar Costa Neto, Ciro Nogueira, Arthur Lira — todos já tiveram problemas com a Justiça, acusados de corrupção —, Bolsonaro é visto como integrante da “velha” política. Mas Miguel Lago postula que o presidente representa a “nova” política. “A nova política resgata a verdadeira dimensão do político: uma arena de produção de desejos, de formulação de demandas, de construção de identidades, de ampliação de expectativas, da disputa por visões do mundo.”

Se Bolsonaro não faz um bom governo, se não demonstra preocupação com a vida das pessoas — como caubói de Marlboro —, por que, mesmo tendo caído nas pesquisas de abril e maio, continua com forte capital eleitoral? Miguel Lago explica: “Bolsonaro construiu uma aliança sólida com o eleitorado. (…) Bolsonaro é o primeiro presidente da hiperconectividade. Sua eleição se deu pela sua extraordinária capacidade em apreender a dimensão online, não como instrumento de divulgação — como faz a velha política — e sim como novo ambiente em que parte da humanidade habita e age. (…) Bolsonaro é o sujeito hiperconectado por excelência. Sua linguagem e seus processos de mobilização estão plenamente imbrincados na arquitetura de comunicação das redes sociais; seus adversários são estrangeiros na infosfera. Bolsonaro é um perfil, e todas suas atividades na dimensão offline são pensadas, estruturadas e realizadas a fim de gerar dividendos na arena digital. (…) Só os políticos antiquados acham que o universo online não passa de uma bobagem virtual, quando, cada vez mais, é a própria realidade”.

Os “criadores” de Bolsonaro trabalharam para transformar o lavajatismo em bolsonarismo e, com o afastamento de Sergio Moro do governo, atuam para “dissolvê-lo”. Sergio Moro ficou “menor” dada uma forte campanha de desestabilização de sua imagem, feita pelo bolsonarismo e, paradoxalmente, adotada pela esquerda.

Há quem, sob ataque, se desidrata. Não é o caso de Bolsonaro, na avaliação de Miguel Lago. “Quanto mais reações por parte dos adversários, melhor para Bolsonaro. Isso o ajuda a manter seu público conectado e engajado. Eis aí a razão pela qual sua audiência está sempre tão disponível a se transferir do universo digital e aparecer na vida real, nas ruas, em manifestações para defender uma intervenção militar ou o fechamento do STF. Eles têm urgência.” Antes, só o PT tinha militância equivalente.

As pesquisas atuais, feitas depois da publicação do artigo, sugerem que Lula da Silva está sendo o “dique” usado pelos eleitores para “conter” Bolsonaro. Mas o presidente poderá ser derrotado? Miguel Lago avalia que o antídoto contra Bolsonaro, o mais eficaz, é o populismo. “Só um verdadeiro populista como o conservador Getúlio Vargas poderia deter o revolucionário Jair Bolsonaro.”

A imagem do populismo é negativa para a maioria dos cientistas políticos. Mas Miguel Lago ressalva: “O populismo é constitutivo do político, e talvez seja a única forma de democratizar sociedades profundamente desiguais de maneira pacífica e participativa.” Trata-se de uma leitura inovadora, sobretudo quando formulada por um cientista político.

Miguel Lago sugere que o “populismo democrático”, como “antídoto capaz de derrotar Bolsonaro”, tem de se inspirar em Getúlio Vargas.

O pesquisador sublinha que “Lula é o” político “que estaria em melhores condições para incorporar o discurso do populismo (…), pois sua história de vida é a de um batalhador”. Mas, sugere Miguel Lago, “Lula deveria retornar ‘não como líder de partidos, e sim como líder de massas’”.

O que se fez acima foi uma síntese do ensaio do cientista político, deixando de lado a interessante distinção entre “batalhadores” e “encostados”, por exemplo. Há problemas no artigo, como o elogio do populismo, que, de alguma maneira, ao mesmo tempo que trabalhou por mais equidade social, também colaborou com certo desordenamento político e institucional do país, principalmente ao criar líderes, como Getúlio Vargas e Lula da Silva, que, por vezes, se consideram acima das leis, como paizões superiores às pessoas comuns — os cidadãos. Talvez seja o caso de caracterizar Bolsonaro como populista de cariz autoritário — o que Miguel Lago não faz. No geral, o artigo é esplêndido e merece ser lido com atenção. É uma das poucas vezes em que um político de direita é analisado para além da ideologia de esquerda, com a ciência política operando para entendê-lo e explicá-lo. O bolsonarismo parece um fenômeno meramente tosco. O que Miguel Lago explica é que, para além da linguagem virulenta — que agrega determinado público, em geral os convertidos —, há uma determinada sofisticação. O filósofo John Gray, ao examinar a Al-Qaeda, notou que a organização terrorista era moderna e, como tal, deveria ser explicada. O bolsonarismo pode até ser reacionário — de direita —, mas usa técnicas modernas, entendendo bem a comunicação digital, para se vender e ser replicado por milhares. É um fenômeno mais moderno do que se imagina. A linguagem hard camufla a, digamos, “técnica”, a indução ideológica.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.