A menina de 10 anos e o aborto como questão de saúde pública e direito das mulheres

O aborto feito numa clínica cercada de cuidados preserva vidas e é preciso admitir que as mulheres, acima da moral e da religião, têm direito ao seu corpo

Um ginecologista celebrado convocou um repórter do Jornal Opção para uma conversa “off the record”. Quer dizer, a informação pode ser citada, mas não a fonte. “Não posso revelar meu nome porque amanhã vão dizer que sou ‘aborteiro’ e vão destruir minha imagem.” O que se dirá a seguir é uma síntese do que relatou.

“Não vou falar tanto da atualidade, pois estou afastado da clínica. Mas de um passado recente. Na clínica e no hospital onde trabalhei, durante anos, recebi dezenas de mulheres que haviam feito abortos em clínicas, algumas de porte razoável, mas compareciam ao meu consultório com problemas, em geral com pequenas hemorragias e, até, lesões. Na clínica, comecei a ouvir as histórias das mulheres — nenhuma pobre, todas das classes média e alta. No hospital, ouvia histórias bem diferentes. Mulheres pobres apareciam com lesões provocadas por agulha de croché, colher e até tesoura.”

“As mulheres que iam à clínica invariavelmente contavam a mesma história. Haviam feito abortos geralmente em três clínicas — na Cidade Jardim; na Rua 3, no Centro, depois da Rua 20; e no Setor Universitário, nas proximidades do Hospital das Clínicas. Os médicos mais citados eram os drs. D. e A. L. — que não sei se ainda estão na ativa. Eles ganharam muito dinheiro, contam-me colegas que conviveram com ambos em clubes sociais chiques da capital. Cheguei a vê-los em colunas sociais de jornais respeitados de Goiânia, abraçados às suas mulheres, e em eventos palacianos, notadamente na década de 1980.

Pintura de Giovanni Bragolin

“As mulheres iam às clínicas ‘aborteiras’, acompanhadas do namorado, de parentes ou de uma amiga, assinavam um documento informando que estavam com algum ‘sangramento’. Tinham de pagar à vista, em dinheiro vivo, pois os médicos não aceitavam cheques pré-datados, parcelamento ou cartão de crédito. Feito o aborto por um médico, com o auxílio de uma enfermeira, elas ficavam algum tempo na unidade de ‘saúde’ e depois iam embora. Não voltavam mais às clínicas. Mas muitas procuravam a mim e a outros médicos por causa de problemas residuais, talvez provocados mais pela pressa do profissional do que necessariamente por falta de competência. Com problemas ou não, não sei de nenhuma mulher que morreu nessas clínicas de aborto. Porque, bem ou mal, eram atendidas por um médico, e um médico com conhecimento do que estava fazendo. Noutras palavras, as mulheres ricas sobreviviam e não ficavam com sequelas, podendo, quando quisessem, ter filhos.

“As mulheres pobres que haviam feito aborto chegavam ao hospital com sangramentos e lesões pavorosos e, em vários casos, até com anemia. Comecei a pedir detalhamento sobre o que havia ocorrido. A maioria dizia que começara tomando chá de arruda, de boldo e, principalmente, de carqueja. Entretanto, quando não dava certo, na versão delas, recorriam a uma ‘aborteira’ (ou ‘aborteiro’) conhecida de amigas. Na casa da ‘aborteira’, sem instrumentos adequados e esterilizados, era feito o aborto. As mulheres voltaram para casa e, no geral, começavam a passar mal, com hemorragia, cólicas e outros problemas. Nós, médicos, tínhamos de proceder a uma ‘curetagem’, que é uma limpeza (do útero) de um aborto que, embora tenha sido ‘bem-sucedido’ — no sentido de acabar com a gravidez —, deixou pedaços do feto, lesões e, por consequência, sangramentos. Por vezes, havia infecção. Algumas das mulheres, com os úteros devastados por agulhas de croché e, inclusive, tesouras, não podiam mais ter filhos, o que, certamente, pode ter gerado traumas psíquicos, dificuldades nos relacionamentos.”

“Fiz questão de perguntar às mulheres quais eram suas religiões. A maioria era católica, mas muitas eram evangélicas e algumas se diziam espíritas. Nunca encontrei uma ateia. Algumas admitiram que, retoricamente, eram contra o aborto, mas, na prática, faziam. Várias disseram que fizeram aborto sob pressão dos pais, igualmente religiosos.

O que o médico está dizendo é que, se a pessoa tem dinheiro, pode fazer um aborto em clínicas — enfatizando que nas que fazem abortos — com relativa segurança. Os problemas resultantes podem ser tratados depois, em clínicas legais, sem grandes consequências. Entretanto, se a pessoa for pobre, se não tiver de 2 mil a 3 mil reais, não terá como recorrer a um médico, optando por correr risco de morrer.

O médico aceitou fazer os comentários depois de uma conversa sobre a menina de 10 anos que, estuprada por um tio, engravidou. Houve uma grita religiosa contra o aborto. Estariam “matando” a criança que iria nascer. Mas poucos dos religiosos que se rebelaram publicamente pensaram na saúde da criança grávida — repita-se: criança. Ela teria condições de dar à luz com segurança? Como uma menina de 10 anos poderia ser mãe e cuidar de uma filha? O que alguns adultos disseram e continuam dizendo de uma garotinha, que está iniciando a vida, é de uma brutalidade e de uma falta de humanidade que acabam por desmerecer os postulados de determinados religiosos. Com o criminoso preso, e sob proteção das autoridades e da sociedade — celebridades se ofereceram para pagar seus estudos e, certamente, auxílio médico e psicológico —, a criança poderá voltar a ser criança. Poderá brincar de boneca, divertir-se com coleguinhas, estudar de maneira tranquila. Possivelmente, retomará uma vida, a da meninice, que lhe havia sido retirada.

Religiosos querem ajudá-la? Então, que façam como Felipe Neto e Whindersson Nunes, que prometem bancá-la até a universidade. Há quem postule que os dois jovens querem se promover. É possível. Mas pelo menos estão oferecendo apoio real para que a criança se restabeleça física e mentalmente. Estudar numa boa escola, amparada — e há na sua família quem a ame —, é um bom começo. Retirá-la do “mapa do escândalo”, deixando que leve uma vida o mais “normal” possível, com amizades de coleguinhas e amor dos parentes, é o caminho para que se readéque ao cotidiano. Um médico disse que, depois do aborto, a menina voltou a sorrir. De alguma maneira, renasceu.

Portanto, quanto à menina, e também ao médico que fez o aborto, o que se deve ter é equilíbrio e racionalidade no julgamento. Merecem respeito, compreensão. Deixemo-los em paz. Eles merecem. Deixemos de viver a vida dos outros e vivamos a nossa, respeitando as diferenças de pensamento e ação. Democracia não é só votar. Democracia também é o respeito às diferenças, é aceitar que o que pensamos não deve ser “norma” para os demais. Precisamos entender também que não se pode dizer e fazer qualquer coisa. Não só por causa das leis, mas também por humanidade, por respeito ao ser humano.

Não se está defendendo o aborto de maneira indiscriminada, mas é preciso adotar práticas consolidadas — em países que tornaram o aborto legal — para garantir a saúde de todas as mulheres que queiram abortar, sejam ricas, de classe média ou pobres. É preciso admitir também que o direito ao corpo é das mulheres, não de religiosos. Por que usar Deus para condenar e não para perdoar, aceitar, amar e compreender?

O aborto no Brasil é tratado como uma questão moral, quando deveria ser visto como uma questão de saúde pública e, ao mesmo tempo, um direito das mulheres. Talvez a violência contra a mulher seja maior quando não se pode fazer um aborto numa clínica de qualidade, com profissionais qualificados e equipamentos adequados e esterilizados.

Aos leitores que apreciam cultura, terminamos este Editorial com a poesia “Hora grave”, do tcheco Rainer Maria Rilke, de expressão alemã: “Quem chora agora em algum lugar do mundo,/ sem razão chora no mundo,/ chora por mim.// Quem ri agora em algum lugar da noite,/sem razão se ri na noite,/ ri-se de mim.//Quem anda agora em algum lugar do mundo/ sem razão anda no mundo,/vem para mim.// Quem morre agora em algum lugar do mundo,/ sem razão morre no mundo,/olha pra mim”. (Do livro “Poemas”, de R. M. Rilke, com tradução de José Paulo Paes, Editora Companhia das Letras, 183 páginas).

Por que Rilke? Pela beleza, pela sensibilidade, pelo refinamento. Talvez a poesia nos ajude a ser menos belicosos e a perceber que viver e deixar viver é crucial para a paz entre os homens e mulheres aqui e alhures. Há jornais que dão panelas como brindes aos seus leitores. Nós oferecemos a luminosidade da poesia.

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