Juros altos e aumento do custo de vida empurram 2 milhões de goianos para a inadimplência
30 abril 2026 às 10h39

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Com dívidas que chegam a mais de R$ 20 mil, a servidora pública Marinalva enfrenta uma situação delicada: sair do endividamento sem saldo mensal positivo. O resultado é uma bola de neve que parece não ter fim, em meio a um custo de vida cada vez mais em ascensão.
“Já tentei me organizar com planilhas e planejamento, mas o saldo mensal é invariavelmente negativo, mesmo priorizando apenas despesas essenciais, como plano de saúde, educação, transporte e alimentação”, disse. “Não sobra margem alguma. Acabamos dependentes do cartão de crédito para fechar o mês.”
Sem saída e, pior, sem visibilidade de quando irá quitar a dívida, Marinalva busca alternativas, como a geração de renda extra. Ao mesmo tempo, lida com gastos com os filhos e com o pagamento de empréstimos consignados feitos para amortizar débitos anteriores, o que compromete ainda mais a renda.
As necessidades surgem, mas a receita não acompanha. Minha dívida começou a se formar justamente por essa falta de reajuste; ficamos sem qualquer correção entre 2016 e 2021”, ressaltou.
Contudo, Marinalva não está sozinha. Ela se junta a milhares de pessoas em Goiás e no Brasil que enfrentam a inadimplência.
Uma estrada quase sem fim
Segundo dados do Serasa, 2026 começou com um recorde de mais de 82 milhões de brasileiros inadimplentes em janeiro. Em Goiás, o número supera 2 milhões de pessoas, colocando o estado entre os com maior volume de endividados.
Para a especialista em educação financeira do Serasa, Laísse Moraes, fatores como o desemprego, (intensificado pela pandemia de Covid-19, que deixou mais de 15 milhões de pessoas desempregadas) tiveram papel central na perda de renda fixa, dificultando o pagamento de dívidas recorrentes.
Além disso, a especialista cita a alta dos juros, sentida desde 2025, a inflação — especialmente em itens como gasolina, energia e alimentos — e o custo de vida acima do salário mínimo como elementos que mantêm o ciclo de endividamento. “Estamos com uma alta dos preços, como gasolina, energia elétrica, água e alimentos. O consumidor sofre diretamente com o impacto desse aumento no custo de vida”, afirmou.

Outro fator apontado é a expansão das casas de apostas desde 2025. “Sempre enfatizamos aos consumidores para terem bastante cuidado com jogos e outros tipos de investimento com o próprio dinheiro”, disse.
Impactos desiguais
O endividamento, contudo, também atinge a população de forma desigual, com impacto maior sobre as mulheres a nível nacional.
Dados levantados pelo Serasa indicam que mulheres representam 50,6% dos inadimplentes no país. A maior concentração está entre pessoas de 41 a 60 anos (35,5%), seguida pela faixa de 26 a 40 anos (33%).
Segundo Laísse, fatores como maternidade solo, responsabilidade pelo cuidado doméstico e salários insuficientes contribuem para maior vulnerabilidade financeira entre mulheres.
Uma pesquisa do Ministério das Mulheres (MM) divulgada nesta segunda-feira, 27, reforça a desigualdade salarial dos sexos. No 5º Relatório de Transparência Salarial, mulheres recebem, em média, 21% a menos do que os homens na mesma função.
Em Goiás, o cenário apresenta leve inversão: homens correspondem a 51,4% dos inadimplentes, e a faixa etária mais afetada é a de 26 a 40 anos (36%).
A possível luz no fim do túnel
Para a especialista, o primeiro passo para sair das dívidas é ter visibilidade do próprio orçamento, com o registro de todas as despesas e receitas, seja em cadernos, planilhas ou aplicativos.
Por outro lado, ela não recomenda quitar todas as dívidas de uma só vez, caso isso comprometa o orçamento. O ideal é priorizar o que cabe no bolso e buscar alternativas de renda. “Tenha visibilidade sobre as suas dívidas e quite essa primeira etapa. Não é necessário quitar tudo de uma vez, pois isso pode gerar novos atrasos”, orientou.
Por fim, a especialista destaca que programas de renegociação públicos e privados podem ser alternativas para quem busca limpar o nome e reorganizar a vida financeira.
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