As reclamações sobre o Metrô-DF aumentaram ao longo de 2026 e atingiram, em julho, o maior volume do ano. Dados da Ouvidoria do Governo do Distrito Federal mostram que, entre janeiro e 25 de agosto, foram registradas 844 manifestações relacionadas ao sistema metroviário. Desse total, 772 foram classificadas como reclamações, o equivalente a 91,5% dos registros.

O número de manifestações passou de 72 em janeiro para 150 em julho, crescimento de 108%. O mês também registrou alta de 42,9% em relação a junho, quando foram contabilizadas 105 manifestações. Em agosto, até o dia 25, já havia 98 registros.

A evolução não foi linear. Foram 76 manifestações em fevereiro, 113 em março, 91 em abril, 139 em maio, 105 em junho e 150 em julho. Embora os dados mensais reúnam todos os tipos de manifestações, o predomínio das reclamações no acumulado mostra que a insatisfação com o serviço é o principal motivo de procura pela Ouvidoria.

Sistema do Metrô concentra reclamações

Os assuntos registrados pelos passageiros envolvem diferentes áreas do serviço. A categoria “Sistema do Metrô” lidera, com 335 manifestações, seguida por “Estações do Metrô”, com 112, e “Companhia Metrô”, com 52.

Também aparecem entre os temas mais registrados questões relacionadas a servidores públicos (35), atuação da segurança do Metrô (33), bilheterias (25), horário de funcionamento (18), quantidade de passageiros nos trens (16), quantidade de trens (16), fiscalização no sistema (15), viagens negativas (14), conduta de piloto (13) e fiscalização no vagão exclusivo (11).

Os registros incluem ainda problemas envolvendo despacho dos trens, objetos perdidos, tarifas, equipamentos, obras e pontualidade. Os dados indicam, portanto, que as reclamações não estão concentradas em uma única ocorrência, mas abrangem diferentes etapas da prestação do serviço.

Julho foi marcado por falhas e descarrilamento

O pico de manifestações coincidiu com uma sequência de problemas enfrentados pelos passageiros.

No dia 1º de julho, usuários relataram atrasos, trens parados e superlotação. Houve passageiros que esperaram cerca de 35 minutos pela chegada de uma composição. Segundo o Metrô-DF, a operação foi normalizada por volta das 8h20.

Em 7 de julho, uma falha no sistema de sinalização atrasou a abertura das estações e a entrada dos trens em circulação. Segundo a companhia, o problema afetou a injeção das composições no sistema.

O episódio de maior impacto ocorreu em 28 de julho, quando um trem descarrilou entre as estações 110 Sul e 112 Sul. A circulação foi interrompida entre a Estação Central e a 114 Sul, obrigando passageiros que vinham de Ceilândia e Samambaia a desembarcar na Asa Sul e buscar alternativas para chegar ao centro de Brasília.

A operação ficou afetada por mais de oito horas. Mesmo após a reabertura das estações, os trens passaram a circular em velocidade reduzida no trecho atingido, com reflexos nos dias seguintes.

Interrupções continuaram em agosto

Os problemas operacionais também foram registrados em agosto.

No dia 20, uma falha no sistema de sinalização provocou interrupções e lotação nas estações. Passageiros que saíam de Samambaia em direção à Estação Central precisaram desembarcar em Águas Claras.

De acordo com o Metrô-DF, o problema foi provocado por uma “falsa ocupação” da via, relacionada ao sistema de sinalização.

Na noite de 24 de agosto, uma nova ocorrência interrompeu a circulação entre a Estação Central e a Asa Sul. A Estação Shopping chegou a funcionar temporariamente como terminal. Segundo a companhia, descargas elétricas provocadas pelas chuvas atingiram a rede de energia e o sistema de sinalização. A operação foi normalizada por volta das 20h.

Durante a interrupção, passageiros chegaram a deixar uma composição e caminhar pelo túnel do Metrô-DF.

Frota reduzida é alvo de questionamentos

Os problemas de operação ocorrem em meio a questionamentos sobre a disponibilidade da frota.

Uma fiscalização da Comissão de Transporte e Mobilidade Urbana da Câmara Legislativa do Distrito Federal apontou, em maio, que apenas 19 dos 32 trens do Metrô-DF estavam operacionais no horário de pico. Dez composições estavam totalmente fora de operação.

Segundo a comissão, parte dos trens vinha sendo utilizada para retirada de componentes destinados à manutenção de outras unidades, procedimento conhecido como “canibalização da frota”.

Após o descarrilamento de julho, relatório citado pela comissão voltou a apontar dificuldades de manutenção, falta de peças de reposição e necessidade de modernização do sistema.

Os dados da própria comissão mostram redução na média de trens disponíveis nos últimos anos. O número passou de 25,6 composições em 2022 para 24,8 em 2023, 22,6 em 2024 e 19,3 em 2025, considerando o período analisado em cada ano.

Mais de R$ 1 bilhão em investimentos

O cenário ocorre apesar dos investimentos anunciados pelo Metrô-DF. Segundo informações da companhia, mais de R$ 1 bilhão foram investidos entre 2023 e julho de 2026. Desse montante, pouco mais de R$ 600 milhões teriam sido destinados à segurança metroviária, incluindo manutenção de trens e trilhos.

Ao mesmo tempo, os chamados “incidentes notáveis” — ocorrências que afetam a operação por mais de 15 minutos no horário de pico ou 20 minutos fora dele — passaram de 71 em 2024 para 76 em 2025, segundo dados do próprio Metrô-DF.

Apenas um terço das manifestações é considerado resolvido

Os dados da Ouvidoria também mostram diferença entre o número de manifestações respondidas e aquelas consideradas resolvidas.

Das 844 manifestações registradas no período, 776 aparecem como respondidas. O índice de resolutividade, porém, é de 33%.

O tempo médio de resposta é de 10,9 dias, enquanto o índice de satisfação com o serviço da Ouvidoria aparece em 68%.

Os números traçam um cenário de aumento das queixas justamente em um período marcado por problemas operacionais. Julho concentrou o maior número de manifestações do ano e, mesmo após o pico, agosto registrou novas falhas, interrupções e episódios de superlotação.

Enquanto o Metrô-DF destaca os investimentos realizados no sistema, os registros da Ouvidoria mostram que os problemas de operação, manutenção, segurança, lotação e funcionamento continuam entre as principais queixas de quem utiliza diariamente o transporte metroviário no Distrito Federal.

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