Compositor transforma Césio-137 e “musiquinha” da coleta seletiva em concerto sobre Goiânia nesta quinta-feira, 3
02 setembro 2026 às 18h45

COMPARTILHAR
A Orquestra Filarmônica de Goiás apresenta, nesta quinta-feira a Suíte nº 3 “Goiânia”, obra inédita do violinista e compositor Pablo Cid Bember, de 29 anos. A composição foi inspirada em dois elementos marcantes da capital goiana, o toque dos caminhões da coleta seletiva e o acidente radiológico com o Césio-137, ocorrido em setembro de 1987.
Ao Jornal Opção, músico Pablo Cid explicou, nesta quarta-feira, 2, que a ideia surgiu ao assistir um ensaio da orquestra com o balé do Teatro Basileu França. “Se nós não temos alguma história regional que pudesse ser colocada nos palcos, da mesma forma que nós tocamos repertórios europeus, os balés são europeus, a maior parte. Então, eu pensei, o que poderíamos fazer de alguma história regional?”, questionou.
“Naquele momento me veio a lembrança da cor brilhante, azul, do Césio, e imaginei que isso seria legal para um balé no palco, com toda a iluminação escura. E aí me veio outra possibilidade, da mesma forma que a gente tem os camponeses nos balés tradicionais, eu lembrei dos catadores”, disse.
“Lembrei da musiquinha do toque da coleta seletiva, o ta-ra-ri-ra, ta-ra-ra, ta-ra-ri-ra, tan-tin-pon. A partir desse tema musical eu falei, agora eu vou contar uma história, não de um fato, mas usando a temática, justamente esses elementos, a ideia da morte, do que causa no corpo. Foi a partir disso que me motivou a fazer essa obra”, contou.
Sobre a contribuição da peça para manter viva a lembrança do acidente, Pablo Cid afirmou que gosta de pensar que a arte ajuda a expressar casos como a do Césio-137 também. “Não é apenas sentimentos com as emoções, mas também os acontecimentos, e eles podem gerar outras emoções. A contribuição musical, colocar uma orquestra tocando algo tão cotidiano, é uma forma de entregar para a população um retorno, trazer uma coisa bacana para a música na cidade e no estado”, disse.
O compositor destacou o significado do som dos caminhões de coleta seletiva como símbolo da cidade. “Eu conheci o compositor que fez esse trabalho para a prefeitura, entre os anos de 2008 e 2011. Ele foi o criador desse tema, desse toque que hoje é utilizado. Eu não sou de Goiânia, sou de São Paulo, morei no Rio Grande do Sul durante a graduação. Quando vim para cá, foi uma coisa que me espantou. Falei, ‘gente, a cidade pensou num toque que de longe você consegue entender o que significa’”, apontou
Ele acredita que a música pode provocar reflexão sobre reciclagem, cuidado ambiental e memória histórica. “Dentro da peça, sempre pensei como transpor uma ideia pra outra. Tem um trecho que fica só o contrabaixo e o violino, justamente essa dualidade, a pessoa e o que ela estava manuseando, o lixo radioativo”, disse.
“Essa consciência de que nem tudo que a gente vê de mais bonito pode ser tocado ou manuseado sem pensar. Isso motivou, desde aquela época, novos protocolos para lidar com esse tipo de manuseio. Movimentar isso através da música é também relembrar o que aconteceu pra não se repetir. Recentemente saiu uma notícia de que alguns catadores encontraram de novo o material, mas foi descartada a hipótese”, completou.
Sobre os desafios da composição, ele afirmou que é comunicar o que ele está sentindo. “Para mim é conseguir comunicar o que eu estou sentindo e a minha ideia para quem vai ouvir. Quem ouve pode não conhecer música, ou conhecer, e terá perspectivas diferentes”, explicou.
“O desafio não é agradar todo mundo, mas comunicar, levar aquilo que realmente estava sentindo ao escrever, pensar nos instrumentos e em como eles estão conversando entre si. O maior desafio é a pessoa que senta entender o que está acontecendo e sentir parte da música e daquela história”, disse.
Ao explicar como os sons transmitem significado, o músico comentou que é subjetivo. “Mas temos estudos e técnicas composicionais que direcionam quem está ouvindo. Se colocamos muitos instrumentos tocando qualquer coisa, causamos a sensação de bagunça. Isso é técnica, mexer com textura e timbre”, afirmou.
“Dentro da música há momentos de relaxamento, com tonalidade confortável e som ampliado. O significado vai da pessoa que está ouvindo, ela cria esse significado. A forma de comunicar é sempre um desafio, justamente para direcionar o que desejamos”, apontou.
A expectativa em relação ao público goianiense é que sintam orgulho da apresentação. “Eu espero que as pessoas sintam orgulho de morar numa cidade como Goiânia. Apesar da lembrança traumática, é um fato que colocou Goiânia dentro da história. É um orgulho para não se repetir, mas para se sentir goianiense, porque uso o tema da coleta seletiva. É a dualidade do ruim e do bom, porque agora ouvimos com novos ouvidos”, contou.
A obra conecta-se diretamente à trajetória do compositor. “Completamente, por ser violinista e por ter contato muito próximo com cordas. Tanto é que é uma peça para orquestra de cordas, sem sopros e percussão. Toda minha trajetória foi marcada pelo violino, quarteto, quintetos em orquestras da cidade, como a Orquestra Sinfônica Jovem de Goiás. Essa experiência facilita para escrever para esse tipo de formação sem ser difícil para os músicos, mas prazeroso para executar”, disse.
A parceria com a Filarmônica de Goiás e o maestro Neil Thomson foi decisiva. “O maestro já tinha conversado comigo desde 2025, enquanto preparava a temporada de 2026. A composição começou a ser pensada em 2024, logo após a estreia da Suíte nº 2 em Rio Quente. Apresentei a peça porque tinha interesse em colocá-la em festivais, mas não foi selecionada”, apontou.
“Ele colocou na temporada da orquestra de 2026. A relação foi bacana de troca, na preparação dos materiais, conversas com chefes de naipe e com a solista Gabriela Fogo, que fará os trechos solos. Foi pensado como um balé, então coloquei uma solista. Essa troca foi muito bacana, ver o que funcionou, o que não funcionou, o que dá pra adaptar, como cada músico reagiu. A recepção foi calorosa e fico grato por tudo isso”, completou.
Sobre planos futuros, Pablo Cid Bember revelou que tem sonhos e ambições maiores para a apresentação. “De fechar algumas suítes, montar um festival de composição onde eu faça a estreia dessas obras junto com outra seleção de compositores brasileiros. Ainda é um sonho mais à frente, mas a vontade é essa, de continuar criando esse ciclo de séries, a Série Brasileiras. Aos poucos quero levar tanto para outras cidades a música que fiz para Goiânia quanto para outros lugares”, finalizou.
Leia também:
Nova identidade: Vapt Vupt amplia de 13 para 25 postos de atendimento em Goiânia


