O que começou como uma brincadeira ensinada pelo irmão, quando tinha 12 anos, tornou-se uma trajetória de mais de duas décadas no xadrez e, agora, ganhou um novo capítulo. O sargento Wesley Borges, da Polícia Militar de Goiás (PMGO), conquistou o título de Mestre Nacional de Xadrez durante o Campeonato Brasileiro das Forças Armadas e Segurança Pública de 2026, realizado entre os dias 27 e 30 de agosto, na Associação dos Subtenentes e Sargentos do Estado de Goiás.

Além da conquista da norma para o título nacional, Borges terminou a competição em 8º lugar na classificação geral e foi o campeão entre policiais militares e bombeiros de Goiás. O torneio reuniu representantes de diferentes instituições de segurança pública e das Forças Armadas de vários estados brasileiros.

Para o sargento, o resultado representa a retomada de um sonho que havia sido deixado de lado durante a vida adulta. Depois de construir carreira no serviço público, cursar Direito e concluir duas pós-graduações, ele encontrou novamente no xadrez uma atividade à qual poderia se dedicar.

“É um sonho. Eu tinha enterrado isso na adolescência, de chegar ao topo, que é a grande mesa internacional de xadrez”, afirma.

A relação de Borges com o xadrez começou dentro de casa. Seu irmão, oito anos mais velho, aprendeu a jogar com amigos e posteriormente apresentou o jogo ao caçula. Pouco tempo depois, aos 12 anos, o sargento ganhou do irmão seu primeiro livro sobre xadrez, dedicado a aberturas.

Sargento Wesley Borges junto a suas conquistas no xadrez | Foto: Arquivo Pessoal

No ano seguinte, ele ingressou no Colégio Militar e encontrou uma coincidência que ajudaria a definir sua trajetória: o professor responsável por ensiná-lo na escola também era o autor do livro que havia recebido.

A partir daí, o interesse pelo jogo se transformou em dedicação. Durante a adolescência, Borges chegou a estudar xadrez entre seis e dez horas por dia. Participava de competições, estudava livros especializados e também jogava partidas pela internet contra adversários de diferentes países.

Foi nesse período que começaram a surgir os primeiros troféus. O militar conquistou competições escolares e metropolitanas, participou de campeonatos estaduais e passou a frequentar os pódios.

A primeira competição, porém, não teve o desempenho que esperava. “Na primeira experiência fiquei muito nervoso e não consegui dar o meu melhor”, lembra. Mesmo assim, terminou em oitavo lugar e levou uma medalha. Com o passar dos torneios, foi ganhando confiança e passou a figurar regularmente entre os três primeiros colocados.

Mãe teve receio de que o xadrez atrapalhasse os estudos

No início, a principal resistência veio da própria família. A mãe de Borges temia que a dedicação ao xadrez prejudicasse o desempenho escolar do filho e, por isso, não permitia que ele participasse de competições.

A mudança ocorreu depois que um dos professores percebeu o potencial do adolescente. Segundo Borges, o educador procurou sua mãe e argumentou que o jovem tinha futuro na modalidade. A partir de então, ele recebeu autorização para disputar torneios.

O xadrez também acabou aproximando Borges de pessoas que permaneceriam em sua vida. Durante a adolescência, seu pai, que trabalhava como cabeleireiro, conheceu Jairo, ligado ao clube de xadrez que posteriormente seria fundado em Senador Canedo. Foi por meio dessa relação que o jovem conheceu Fausto Balione, militar que se tornou amigo e parceiro de partidas.

Anos depois, o xadrez voltaria a aproximá-los dentro da própria Polícia Militar.

Aos 18 anos, Borges interrompeu a rotina de estudos e competições. A vida profissional e acadêmica passou a ocupar o espaço que antes era destinado ao tabuleiro. Ele ingressou na Guarda Civil Metropolitana de Goiânia, onde permaneceu por seis anos, e posteriormente foi aprovado no concurso da Polícia Militar.

Durante esse período, manteve o vínculo com o xadrez de maneira informal. Em momentos de descanso durante o serviço, chegou a jogar partidas com colegas que também praticavam a modalidade.

A retomada efetiva ocorreu apenas no ano passado, impulsionada também pela criação de um clube de xadrez em Senador Canedo e pelo reencontro com antigos amigos da adolescência.

Borges voltou a estudar, passou a frequentar o clube e disputou torneios presenciais. O objetivo inicial era recuperar o nível que tinha alcançado quando era adolescente. O resultado foi além do esperado.

No Campeonato Brasileiro das Forças Armadas e Segurança Pública, disputou seis partidas. Venceu três, empatou uma e perdeu duas. O desempenho foi suficiente para conquistar a norma de Mestre Nacional na faixa de rating prevista pela competição e terminar entre os oito melhores jogadores do torneio.

Xadrez e atividade policial têm pontos em comum

Para Borges, a relação entre o tabuleiro e a profissão vai muito além da competição. Na avaliação dele, as habilidades desenvolvidas no xadrez podem ser úteis em situações enfrentadas diariamente por policiais. “O xadrez não é somente um jogo. É uma batalha. A luta está na mente”, afirma.

O militar relata principalmente a necessidade de tomar decisões rapidamente diante de situações complexas. No tabuleiro, cada movimento pode alterar completamente o curso de uma partida. Na atividade policial, segundo ele, o raciocínio rápido também pode ser determinante para escolher a melhor maneira de conduzir uma ocorrência.

Borges cita como exemplo situações de conflito nas quais o agente precisa avaliar diferentes alternativas antes de decidir como agir. No xadrez, uma escolha equivocada pode comprometer uma partida; no trabalho policial, uma decisão inadequada pode ter consequências muito mais sérias.

A modalidade também exige concentração, memória, planejamento, capacidade de antecipar movimentos e equilíbrio emocional, características que, segundo o sargento, dialogam diretamente com a atividade militar.

Competição também criou novas amizades

O campeonato nacional teve ainda outro significado para Borges. Além do resultado esportivo, a competição permitiu o contato com militares e agentes de segurança de diferentes regiões do país.

Participaram jogadores ligados ao Exército, Marinha, Aeronáutica, Polícia Militar, Polícia Civil, Polícia Penal, Corpo de Bombeiros e Polícia Rodoviária Federal, entre outras instituições.

O sargento conta que fez amizades com competidores de estados como Acre, Rio Grande do Norte, Rio Grande do Sul, Minas Gerais, além do Distrito Federal e de Goiás.

A edição de 2026 também teve um componente especial para ele: foi realizada em Goiânia, na própria Associação dos Subtenentes e Sargentos onde costuma treinar.

No ano anterior, a competição havia sido realizada no Rio de Janeiro, mas Borges não conseguiu participar. Desta vez, além de poder disputar o torneio, teve a oportunidade de jogar diante de colegas e usando a camisa do 31º Batalhão.

Próximo objetivo é alcançar título internacional

A conquista de Mestre Nacional não encerra os planos do sargento. Pelo contrário, representa o primeiro passo de uma nova etapa.

Agora, Borges pretende disputar torneios clássicos e elevar seu rating internacional para alcançar o título de Candidato a Mestre. Depois, pretende avançar até Mestre FIDE e, posteriormente, buscar as categorias de Mestre Internacional e Grande Mestre Internacional.

O caminho é longo. O título de Grande Mestre Internacional é o mais alto concedido pela Federação Internacional de Xadrez e exige desempenho de alto nível durante anos de competição. “É uma forma de imortalizar o nome, de estar nos livros para depois que partir desse mundo”, completou.

Leia também

Saiba quem são os campeões de xadrez e como está a cultura do esporte em Goiás