AVC de Marisa Letícia, esposa de Lula, foi exaltado por usuários nas redes sociais, em mais um lamentável episódio de intolerância no Brasil

Foto: Heinrich Aikawa/ Instituto Lula

Na última coluna, escrevi sobre o caso de racismo contra a cantora Ludmilla, protagonizado por um apresentador de TV que a chamou de “macaca” ao vivo. Entre os comentários de apoio e pedidos para que a artista leve o caso à Justiça, vi alguns que tentavam eximir a culpa e relativizar o comentário criminoso do jornalista. Assusta-me que, em pleno 2017, casos de violência contra seres humanos continuem a acontecer e, pior, sejam tratados com naturalidade, como se o preconceito fosse justificável.

Nesta semana, volto a falar sobre o discurso de ódio do submundo da internet, desta vez contra a ex-primeira-dama do Brasil, Marisa Letícia. A esposa do ex-presidente Luiz Inácio Lu­la da Silva sofreu um Acidente Vas­cular Cerebral (AVC) e foi levada às pressas para o Hospital Sírio-Libanês, onde esteve na UTI e passou por cirurgia para controlar a hemorragia no cérebro. Não demorou muito para que os comentários das notícias no Facebook dos principais jornais fossem inundados de absurdos diversos.

A edição online do Jornal Opção registrou alguns deles. Nos sórdidos posts, vemos pessoas comemorando, fazendo troça e até dizendo que Marisa Letícia está “colhendo o que plantou”. Os ataques não se restringiram ao mun­do virtual: quatro mulheres fo­ram à porta do hospital, em São Pau­lo, com cartazes do tipo “Cadê os mé­dicos cubanos?” e “Vai para o SUS”.

Além da evidente falta de respeito com a família, que passa por um mo­mento delicado, tais ataques exacerbam a falta de civilidade e a perda da compaixão de uma parte (que não é pequena, registre-se) da população. Vivemos tempos de extremismo no Brasil. A crise econômica, o descrédito da classe política e a falta de esperança que tomou o país nos últimos dois anos acabam fazendo com que posturas como a das quatro “sem-noção” ali de cima acabem sendo consideradas “compreensíveis”.

Manifestações são legítimas e fortalecem a democracia. Os brasileiros apren­deram que reivindicar direitos só é possível por meio de uma sociedade organizada, vigilante e exigente. Inde­pendente de cor partidária, os variados protestos que tomaram as ruas desde 2013 são bons exemplos de como ex­ter­nar indignação. Ir para as redes so­ciais e desejar a morte de uma pessoa, não.

Alguns sugerem que se tratam de questionamentos, do tipo “como um ex-o­perário consegue pagar os serviços do Sí­rio-Libanês, um dos melhores hospitais do Brasil?” ou mesmo de que se trata de uma profunda indignação contra Lula e sua família, “que le­vou a corrupção no go­verno a níveis nunca antes vistos”. No­vamente, nada dis­so pode servir de escusa pa­ra desejar/comemorar a doença ou a morte de uma pessoa. Piadinhas à parte, tais co­mentários escondem um discurso de ódio que têm ganhado fôlego com a as­censão do extremismo por todo o mundo.

Seja na boca de líderes internacionais, como Donald Trump, ou de de­pu­tados, como Jair Bolsonaro (PP-RJ), a intolerância e incapacidade de se ter empatia para com os outros é u­ma realidade perigosa. Sem muito trabalho, consegui pensar em dois ca­sos recentes de barbáries que foram jus­tificadas nas redes sociais pelo pessoal da patrulha do “anti-politicamente-correto”, que nada mais é do que o dis­curso de ódio em sua forma mais pura.

O primeiro deles, de um crime que aconteceu em Goiânia (GO), envolvendo um pai que matou o próprio filho por desavenças políticas. Militante de es­querda, Guilherme Irish, como era co­nhecido, foi baleado no meio da rua após uma discussão em novembro do ano passado. Vítima, o jovem de 20 anos, acabou sendo culpado por sua morte. “Tenho pena do pai, que criou o filho com esforço e viu se tornar isso. O pai sim pode se considerar uma vítima da sociedade”, escreveu um. Outro u­suário foi além e escancarou a desumanidade: “Menos um esquerdista destruidor de patrimônio público, quem for contra minha opinião vai tomar no…”.

Tão cruel como o caso de outro jovem, Itaberli Lozano, de apenas 17 anos, que foi morto e carbonizado pela mãe no interior de São Paulo em dezembro de 2016. Homossexual, ele foi acusado de envolvimento com drogas em uma tentativa de justificar a atitude grotesca de sua progenitora. Mas não para por aí: comentários de toda sorte também enfeitam posts de veículos de comunicação. “Gay e maconheiro, que desgraça; queimava a rosca e financiava o tráfico, tinha que morrer mesmo!”, destilou um usuário.

É preciso parar de aceitar que se re­lativizem a dor e o sofrimento de outras pessoas. Sob a égide da “liberdade de expressão” e do discurso da “indignação”, destila-se ódio, que por sua vez, fortalece preconceitos. Marisa Letícia não merecia ter um AVC. Não “colheu o que plantou”. Não está pagando pelos (supostos) crimes que seu marido cometeu. Não tem que morrer. O que precisa morrer é a intolerância.