Antônio Lopes

Canta Belchior, em “Alucinação”: “Um preto, um pobre, uma estudante, uma mulher sozinha, blue jeans e motocicletas, pessoas cinzas normais, garotas dentro da noite, revólver: cheira cachorro, os humilhados do parque com os seus jornais.” A humanidade centra no amanhã que nasce atrasado e agora toma o elevador social que desce e sobe, finge que cai, balança, equilibra-se, enfim e sem fim, brinca com a mente da gente sem dente, sem dor nem sorte.
Há os que nascem decentes, diferentes dos normais, ou seja, aqueles que jamais alcançarão o status de gente. Assim caminha e tropeça a sociedade civil (des)organizada, produtora de imagens de um filme concreto e cruel, pêndulo cardeal das notícias diárias às quais repassa a mídia, articulada em rede mundial que ecoa a lama que escoa à míngua na língua da mentira contada fiado na flor de pequi e espinho do Planalto Central.

O final de semana passado tal qual o imposto – posto – me rouba o lucro parco da semana seguinte, pedinte, ouvinte e carente. Recomponho-me em fotos e fatos novos. Penúltima semana antes das férias esvaziadas em transeuntes e veículos nas ruas da cidade grande. A manchete que mais dói é a de mais um trabalhador sem face e negro, pobre e semianalfabeto, sujo de terra por cavar a cisterna ou a sepultura, assustado à luz dos holofotes da imprensa que lhe empurram goela abaixo os gritos dos microfones alardeadores da denúncia fria e cruel – verdade que queima a língua do crente – gente que morre de frio nas esquinas, sem acesso ao poder em denunciar o peso da exclusão social, a dor de dente presa ao sistema e ao terminal de ônibus que despacha ao inferno uma pobreza destinada à penitenciária mais próxima.

Um rapaz que se encontrava dentro do ônibus urbano, desumano, travou longa jornada de trabalho e medo, incerteza e certeza rumo à sua residência, sonho barato tal qual fumaça de cristal queimado invadiu o terminal tomando de assalto o veículo, roubando e agredindo inocentes, tal qual a letra da música: “Um preto pobre, uma estudante, uma mulher sozinha.” Enxame de abelhas africanas, argelinas babilônicas a turba incita a seção de espancamento do pobre coitado, parido do coito forçado e abandonado ainda em feto metafísico no banco traseiro do ônibus, do barco, da decência, da razão que aprova e toma do facão manchado de suor marceneiro, espanca a paciência e espera até a morte pelo jardineiro que traz à mão em calos de servente, indigente, do dedo torto e assassino que aciona o gatilho que ecoa a fedentina, que escorre na baba raivosa dos agressores.

A mídia que liberta – desde os tempos de Tiradentes – é a mesma que encarcera, a amiga que trai, a amante incapaz de se entregar. A transparência da inocência, autodefesa sem consciência da preocupação com a esposa e a família, estranha o pedido de prisão estruturado na falácia da acusação. E dos “humilhados do parque com os seus jornais” resta saber o porquê da delegacia “despachar” mais um negro para a penitenciária, a rapidez do processo julgado na lei dos brancos, rápido, antes mesmo que o cidadão insista em denunciar qualquer tipo de dor nas costelas abalroadas no tempo de combate. Entre “blue jeans e motocicletas, pessoas cinzas normais, garotas dentro da noite e revólver que cheira cachorro”, mais um pobre e negro, morador de periferia urbana, sujo de terra, “pé de toddy”, sem lenço nem documento, sem advogado sequer currículo, morre sem face nem saliva, provavelmente apenas mais um “rapaz latino-americano, sem dinheiro no banco e sem parentes importantes, vindo do interior”.

Se, de acordo com Karl Marx, “não é a consciência do homem que lhe determina o ser, mas, ao contrário, o seu ser social que lhe determina a consciência”, a rotina concreta do homem pobre e faminto – enclausurado nas celas abertas da urbe violentada e banalizada, denuncia um coletivo vitimado pela escassez de valores multiculturais localizados globalizados de uma geração vazia, empobrecida e assaltada pela falta de ética e razão, desrazão. A conjuntura socioeconômica reafirma a filosofia barata do cotidiano, incapaz de pensar o homem como ser que pensa e faz, age, reage, mesmo que alienado, escravizado sob o jugo do sistema. A corrupção é mãe e a violência, o feto parido, filho bastardo da desenfreada maldição pós-moderna da loucura e alucinação imediatas tal qual figurinha carimbada que desponta do sorteio da virgem no bordel.

Haja prozac, tome gardenal! Uma alucinação viva e concreta que retrata “carneiros, mesa, trabalho, meu corpo que cai do oitavo andar e a solidão das pessoas dessas capitais, a violência da noite…” e a sede de água pura e límpida capaz de lavar a alma da gente que caracteriza e delimita muito mais que uma simples nação que respira estreito e sob as bênçãos do papa social democrata escravo do poder entalhado a ferro e fogo sob o perfil do cifrão, incapaz de vestir a sandália rota ou as vestes de Gandhi. A pompa e os paramentos ejaculam a realidade nua e crua em vestes que enfeitam homens comuns. A população assiste adormecida ao desmonte de um quebra-quebra recortado a juventude transviada e contemporânea a qual, nos dias efêmeros tão atuais assiste-se incapaz e anêmica em reivindicar alguma paz, a migalha de amor ou ainda a legalização, seja ela da marijuana, da honestidade, de alguma igualdade social, um naco de inclusão ou a fagulha igualitária capaz de transparecer algum poder da lei a qual, neste momento, abriga bandidos e prende cidadãos. E o pulso ainda pulsa!

Antônio Lopes é filósofo, assistente social e mestre em Serviço Social pela Pontifícia Universidade Católica de Goiás (PUC-GO).

“O Brasil precisa dizer não à reeleição para qualquer cargo”

Professor discorre sobre a necessidade do fim da reeleição, para que políticos como Eduardo Cunha não se perpetuem | Foto: Lula Marques/AGPT
Professor discorre sobre a necessidade do fim da reeleição, para que políticos como Eduardo Cunha não se perpetuem | Foto: Lula Marques/AGPT

Eduardo Silva

O que o Brasil passa hoje em dia, com tantos escândalos – e tantos mais por aparecer – tem várias origens. Uma delas é a nossa própria cultura ancestral e portuguesa, segundo a qual era lícito levar tudo daqui para a metrópole Lisboa. Passaram-se os séculos e a metrópole se tornou o bolso de cada um. Infelizmente, vivemos em uma das nações mais corruptas do mundo.

Mas existe um fator que, ultimamente, tem contribuído e muito para que as coisas se degringolem ainda mais: a tal da reeleição. Ela já existia para os cargos do Legislativo e a partir de 1998 passou a valer também para o Poder Executivo, graças à famigerada emenda que o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso bancou (de forma bastante suspeita, inclusive).
Pois minha opinião é de que deveríamos acabar com a reeleição para todos os cargos, mesmo para o Legislativo. Hoje deputados, vereadores e senadores podem ficar o tempo que quiserem. Tem deputado que já poderia se aposentar por tempo de serviço (se de fato trabalhassem, o que muitos não fazem), assim como tem vereador em Goiânia que está no poder desde os anos 80. E ainda vai tentar mais uma reeleição.

Eu digo uma coisa, que talvez sirva para entender um pouco melhor essa questão de forma mais didática: se não fossem as seguidas reeleições, não teríamos um Eduardo Cunha (PMDB-RJ) fazendo o que fez. O deputado carioca queridinho dos evangélicos está na Câmara Federal há mais de 20 anos, período que usou para tecer sua rede de podres poderes. Hoje toda a população brasileira é obrigada a arcar com as consequências de sua corrupção já mais que comprovada.

Pois bem, ainda que tivesse as piores das intenções (como, aliás, parece que realmente teve), Cunha não poderia fazer muita coisa se seu poder fosse interrompido depois de quatro anos. Caso quisesse voltar a Brasília, deveria ele antes manter um intervalo sabático de quatro anos. Com certeza o País não estaria pior com gente dessa espécie dando um tempo do poder.
É bem verdade que a falta da reeleição penalizaria alguns nomes interessantes do Congresso e da vida pública brasileira em geral. Mas é como diz aquele velho ditado: os bons, às vezes, têm de pagar pelo mal que fazem os pecadores. No caso, ainda que a política perdesse gente boa por conta da medida, haveria uma quebra do círculo vicioso que fabrica tantos picaretas, para dizer uma palavra bastante generosa com tais indivíduos.

Qual a chance de termos algo assim implantado no Brasil? Mínima. Afinal, são os próprios deputados que fazem as leis. Será que ousariam legislar contra a causa própria para prestar um bom serviço ao País? Eu, de minha parte, duvido muito e não me faltam motivos para isso. O que podemos fazer, como população, é não reeleger ninguém durante um bom tempo. É difícil, mas não é impossível.

Eduardo Silva é professor.

“Um País que não é para amadores”

Gustavo Henrique

Consigo até entender as pessoas cometendo esse ato ilícito, pois a situação do país não é boa e também devido a carga ter seguro e que nesses casos por serem produtos alimentícios a cobertura chega a ser quase que total, não havendo prejuízo pelas partes prejudicadas. Mas, mesmo assim, não deixa de ser lamentável, pois em país serio isso não devia acontecer mesmo nessa situação. Como, depois, querem cobrar dos políticos práticas minimamente éticas se não olham para o próprio umbigo? Realmente, o Brasil não é para amadores. [“Vídeo mostra população saqueando caminhão de cerveja após acidente em Goiânia”, Jornal Opção Online]

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“Grana não compra a essência do jornalismo”

Ribamar Júnior 

Grande análise! Parabéns a todos os profissionais envolvidos, e ao Jornal Opção pela imparcialidade. A “grana” pode comprar as melhores páginas de anúncio, mas não compra a verdadeira essência do jornalismo. [“Embargo do Nexus prova como o funcionamento das instituições pode salvar uma cidade”, Jornal Opção 2137]

E-mail: [email protected]

“Medida do MPF contra Crea pode ser tiro no pé”

Nestor Bendo 

Em relação à matéria “MPF aciona Crea para proibir engenheiros de desenvolver projetos arquitetônicos” (Jornal Opção Online), se esse tipo de medida conseguir delimitar adequadamente os âmbitos profissionais de cada classe, de tal sorte que o mercado se obrigue a valorizar ambas as categorias, há de ser bem vinda.

Caso contrário, é apenas um tiro no pé de ambas as profissões. Prejuízo na certa. Os arquitetos estão se mobilizando para preencher todos os espaços que puderem, e a fraca atuação dos Crea [Conselhos Regionais de Engenharia e Agronomia] e do Confea [Conselho Federal de Engenharia e Agronomia] vai apenas permitir que nós, engenheiros, percamos esses espaços. Uma vez que os arquitetos não têm formação técnica especializada em vários dos pontos em que os engenheiros se especializam com grande profundidade, os riscos de erros de projeto crescem.

Há o que melhorar na situação? Há. Acionar à Justiça para fazer as mudanças necessárias? Não é o ideal. Devemos lidar com nossos colegas diretamente, respeitar os limites de cada área técnica, fazer concessões e exigências, estudar os casos específicos detalhadamente. Acionar advogados para isso não é o ideal, já que eles desconhecem as minúcias da situação e dificilmente conhecerão. Temos de arregaçar as mangas e fazer isso sozinhos.

Nestor Bendo é engenheiro civil.
E-mail: [email protected]

“Estou fascinado com o ‘conhecimento’ dos brasileiros”

Arnaldo B. S. Neto

Fico fascinado com meus compatriotas brasileiros. Nossa cultura e nosso conhecimento não têm igual. Agora todos opinam com profundo conhecimento e propriedade sobre a economia inglesa. No dia em que todo esse nosso conhecimento for usado em prol da nossa própria economia será um avanço fantástico!

Arnaldo B. S. Neto é professor da Faculdade de Direito da UFG.