Chico Buarque foi alvo de ataques no Rio de Janeiro | Reprodução/Facebook
Chico Buarque foi alvo de ataques no Rio de Janeiro | Reprodução/Facebook

PAULO LIMA

A agressão ocorrida com Chico Buarque por jovens anti-PT é reflexo do atraso político que vivemos. É fácil imaginar e concluir que, se fosse o contrário (um Chico Buarque tucano), uma horda vermelha o estaria hostilizando como se fosse uma bruxa na idade média. Ele é apenas mais uma vítima da crença generalizada de que, no Brasil, não se pode ter o direito de ter opinião. Aliás, ter opinião parece ser o fim do mundo. Ou o começo de outro, que já se manifesta nas ruas e nas redes sociais. Um mundo bipolar: ora PT, ora PSDB. Demônios e anjos representados por seguidores que, no fim do jogo, querem gritar bem alto “Venci!”, seja lá o que essa vitória signifique.

“A reestruturação das escolas de São Paulo não me parece um plano diabólico”

ARNALDO B. S. NETO

No finalzinho da minha temporada universitária, lembro-me de que o governo FHC lançou o tal Provão, uma avaliação nacional que iria medir o resultado final do processo de aprendizagem nas universidades públicas. A reação foi de uma virulência inacreditável. Boicotes, manifestações, acusações. Toda uma máquina de guerra foi mobilizada para provar que estávamos diante de um artifício que visava tão somente fragilizar as instituições públicas de ensino para, em seguida, privatizá-las.

O tempo passou e as avaliações não somente continuaram como foram se sofisticando, abrangendo também outras etapas da aprendizagem, como o ensino médio. Medir e avaliar passou a ser a regra e os próprios governos de esquerda adotaram este mecanismo tão banal quanto necessário. Naquele momento, vendo a histeria contra o Provão (sim, amigos, a palavra certa é histeria), é que comecei a me dar conta de que a esquerda (até então eu me punha resolutamente como uma pessoa de esquerda) também podia ser reacionária, inimiga de qualquer progresso.

Nem sempre é assim. Todavia, por vezes os resolutos partidários da igualdade estão certos, mas vez ou outra e o lado ludista [que se opõe à industrialização intensa ou a novas tecnologias ] vem à tona com toda força. Escrevo isso por conta da tal reestruturação em São Paulo. Os bairros das grandes cidades brasileiras “envelheceram”, os casais tem menos filhos, muitas escolas passam a ter menos alunos. Seria mais racional reorganizar, não? Também sou simpático à ideia de reunir os alunos por etapas da vida escolar, separando crianças de adolescentes, por exemplo. Muitos pais concordarão comigo. Ou seja, a princípio, a tal reestruturação, até que prove em contrário, não me parece ser um plano diabólico. O que me pareceu foi inoportuna e imprudente, pois as reações das pessoas às mudanças são algo que sempre podemos contar como certa.

Mas isso não entrará nunca em debate. Aliás nenhum debate será possível. Trata-se de um governo do PSDB, o “demônio” a ser batido a todo custo. E o demônio estava “fechando escolas”, como se a racionalidade, inclusive econômica, fosse algo desde sempre expulso da vida, das decisões cotidianas. O plano foi rechaçado, derrotado. Ficará adormecido até que um governante de esquerda assuma o Palácio dos Bandeirantes, quando então será retirado da gaveta e aplicado sem que qualquer reação seja esboçada contra, e será tido como a coisa mais natural do mundo.

Arnaldo B. S. Neto é professor da Faculdade de Direito da UFG e auditor fiscal do Ministério do Trabalho.