Como sabemos, a I Grande Guerra teve como estopim o assassinato de um membro da aristocracia austro-húngara e sua esposa no final de junho de 1914, nas ruas da pequena Sarajevo, pelas mãos de um terrorista. Mas também como sabemos todos, o assassinato de Francisco Ferdinando (e sua bela Sofia Chotek, Duquesa de Hohenberg) foi apenas o pretexto para a deflagração do conflito que vinha sendo cozinhado havia anos. Como pretexto, qualquer outro incidente poderia cumprir a mesma função. E, de fato, houve um que só por pouco não se tornou grande o suficiente para pouco tempo antes dar início ao flagelo.

Conhecida como a Crise de Agadir (junho de 1911), o incidente foi resultado de disputas pelos territórios coloniais na África envolvendo, neste caso, Alemanha e França, e por tabela o império Britânico. Alarmado “com a perspectiva de uma tomada unilateral do poder no Marrocos pelos franceses, o governo espanhol mobilizou tropas para ocupar Larache e Kser el-Kebir”, no noroeste do Marrocos. “Uma intervenção alemã tornou-se então inevitável”, diz o historiador Christopher Clark (Os Sonâmbulos – como eclodiu a I Guerra Mundial). Um barco de guerra alemão chegou a ser enviado e “deitou âncoras próximo à costa marroquina”. O envio do navio alemão deixou Londres em polvorosa, com a Inglaterra temendo que os alemães estabelecessem uma base naval em Agadir – quase na esquina do estreito de Gibraltar.

Na avaliação do historiador australiano, permitiu-se que a crise “se agravasse a tal ponto que uma guerra na Europa Ocidental parecia estar iminente”. Depois de muitas idas e vindas e tropeços e bate-cabeças seguidos da diplomacia europeia, no início de 1912 decidiu-se que o Marrocos se tornaria “um protetorado exclusivamente francês, um tratamento respeitoso aos interesses comerciais alemães” ficaria garantido e, como compensação, um pedaço do Congo seria incorporado aos territórios germânicos na África. E a paz reinou, então, entre os donos do mundo. Ao menos por enquanto.

A partir dali o sultanato marroquino permaneceu sob a tutela dos franceses, com o nome de Protetorado Francês do Marrocos, até 1956, quando finalmente o país se tornou independente. No lugar do antigo sultanato, foi criado o Reino do Marrocos, que desde então é governado pela dinastia de Mohammed V. Quanto à Espanha, também foi obrigada a devolver quase todos os territórios no país africano que permaneciam sob a sua égide, menos duas pequenas incrustações: Ceuta, praticamente grudada ao estreito de Gibraltar, e Melila, um pouco mais a leste. Até os dias atuais a disputa entre a Espanha e o Marrocos pelas duas cidades segue em banho-maria – a alegação do Reino de Espanha para a manutenção desses territórios é que ambos já lhe pertenciam desde muito antes da existência do Marrocos. Sobrevivências do passado, poderiam dizer, devem ser respeitadas.

Sete anos depois da Crise de Agadir, e após os quatro anos (ou 1.567 dias) da I Grande Guerra, o número de vítimas da disputa pelos interesses comerciais das potências imperialistas ascendia à cifra de 17 milhões de mortos – mais 21 milhões de feridos e mutilados.

De volta ao presente

Na quinta-feira, 31 de julho, a Europa despertou em pânico com as primeiras notícias da madrugada. Uma enxurrada de africanos atravessou a fronteira que separa o Marrocos de Ceuta, a maioria nadando. Foi a repetição por outros meios da tentativa de chegar à Europa pela via mais curta ocorrida em 2021 – um domingo de maio, quando cerca de 10 mil migrantes romperam as barreiras para por os pés no enclave espanhol do norte da África e, assim, tentar a vida no famigerado mundo próspero.

O passado (remoto)

A história da Odisseia (Homero) é basicamente a história de um homem (marido e pai) tentando regressar ao aconchego do lar – e, ao contrário daqueles jovens africanos que deixando para trás mulheres e filhos se lançaram ao mar para ultrapassar a barreira do leito miserável à procura de um verdadeiro lar, ao final da aventura Ulisses finalmente aporta em Ítaca para se recolher ao calor da fiel Penélope. Muitos dos seus companheiros ficaram para trás, engolidos pelos perigos da aventura e da guerra – da mesma forma, dos milhares de jovens que tentaram a nado a travessia da barreira de Ceuta, 88 morreram afogados, com um número muitíssimo maior, mas ainda não contabilizado de desaparecidos.

A geografia das duas histórias é praticamente a mesma. O Estreito de Gibraltar é aquela pequena passagem marítima, com pouco mais de 14 kms, que separa o imenso Atlântico do circunscrito Mediterrâneo. No extremo oposto do Mare Nostrum (como os antigos chamavam o Mediterrâneo), na costa noroeste da Turquia, está o sitio arqueológico que os pesquisadores consideram como sendo a localização da antiga Troia – a grande conquista do astuto Ulisses e que era o alvo da cobiça dos antigos justamente por controlar as rotas do Mar Egeu e por meio do Estreito de Bósforo, o Mar Negro.

Nos dez anos que durou o tumultuoso regresso para casa, partindo de Troia, as embarcações que conduziam Ulisses e seus guerreiros jamais chegaram a navegar nas águas do Estreito de Gibraltar. Consideradas as distâncias de então, sequer se aproximaram do lugar onde a cultura dos seus conterrâneos dizia estarem as colunas de Hércules – ou o fim do mundo conhecido. 

O mundo de Ulisses e Penélope se restringia ao Mediterrâneo Central e Oriental. Considerados os padrões atuais, as fronteiras físicas da Grécia clássica eram bastante estreitas e sua civilização um mundinho de nada. Por mais que fossem extraordinários os feitos dos seus heróis, deuses e semideuses, jamais se aventuraram para além daqueles limites. Muitos séculos depois, foram os homens da Europa, aqueles que como civilização tanto devem aos homens e mulheres helenas, os que afinal tentarão transpor as barreiras do desconhecido – para construir, solidificar, enriquecer e expandir a sua própria civilização. O custo humano dessa aventura iniciada séculos atrás, até hoje pode ser visto quando somos capazes de voltarmos nossos olhos na direção das suas milhões de vítimas – como aqueles que a nado se lançam ao mar, ou seja como for, para chegar ao Velho Mundo.

E o presente

Como diz a mais recente tradutora do clássico grego, há pelo menos uma boa notícia na estreia nos cinemas de A Odisseia de Christopher Nolan. Numa entrevista para a London Review of Books Emily Wilson disse, entre outras coisas, que o blockbuster (o blockbuster é por minha conta) de Nolan não tinha profundidade emocional, psicológica, política e ética, que os personagens eram rarefeitos e a versão de Nolan “não transmitia os temas centrais do poema” (memória, guerra, família, etc). Terminou dizendo que “teria vergonha de ter escrito qualquer parte disso”. Mesmo assim, reconheceu que o filme “despertou um enorme interesse por Homero”.

Numa palavra, A Odisseia de Nolan teve um notável apelo popular, levando aos cinemas milhões de espectadores – aliás, quem sabe se não sobretudo por sua rasura quase épica. 

Segundo a tradutora, há um crescente número de pessoas lendo agora a Odisseia. De minha parte, o que li, faz algum tempo, é a versão em prosa (e em espanhol) de Samuel Butler, publicada pela primeira vez em 1900. Um volume da Black Books – Clássicos Liberados, lançado na Espanha em 2020 e no qual consta, além da Odisseia, uma preciosíssima A versão de Penélope (2005) da canadense Margareth Atwood – conhecida do grande público como a autora da série televisiva O Conto da Criada (há uma versão para o cinema, de 1990, dirigida por Volker Schlondorff com roteiro do Harold Pinter e Natasha Richardson, Faye Dunaway, Robert Duval e Aidan Quinn nos principais papéis).

Apenas para que desfrutem, um pequeno trecho do texto de Atwood. Referindo-se ao “ilustre esposo”, a mais fiel das esposas nos apresenta a sua versão:

“Essa era uma de suas especialidades: enganar as pessoas. Sempre se saía com as suas. Outra de suas especialidades era escapar. Era sumamente convincente. Muitos acreditaram que sua versão dos acontecimentos era a verdadeira, sem se preocupar em contar com rigor o número de assassinatos, de sedutoras beldades, de monstros de um só olho. Até eu acreditava, às vezes. Sabia que meu esposo era astuto e mentiroso, mas não pensava que me enganasse nem que me contasse mentiras… E no que me converti quando a versão oficial triunfou? Numa lenda edificante.”