A ultradireita bolsonarista e as dinastias hereditárias
25 julho 2026 às 21h00

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“Polícia, para quem precisa de polícia. A música dos Titãs perguntava, amargamente, qual o sentido ou a justificativa para a existência do aparato policial. Cabeça de Dinossauro, o álbum da qual era parte, foi lançado em 1986, o primeiro ano após o fim oficial da ditadura civil-militar.
De lá para cá umas tantas coisas mudaram, muitas continuam exatamente como antes ou, pelo menos, muito parecidas. Muitas se tornaram pior. Na polícia, tanto quanto na política — e ao que parece, uma e outra se tornaram profundamente imbricadas. Tão imbricadas que às vezes, ao despertar pela manhã e nos depararmos com as manchetes do dia, temos a sensação de que uma passou a ocupar o lugar da outra, a política sendo substituída pela polícia. E, num primeiro momento, até nos sentimos reconfortados.
Conservadores querem a volta ao tempo das dinastias hereditárias — os que lhes daria também uma espécie de habeas-corpus contra possíveis “excessos” que o futuro possa estar lhes reservando
O Rio de Janeiro, berço e sustentáculo ainda importante do bolsonarismo, é provavelmente o palco privilegiado dessa barafunda que nos empurra para o atraso, as trevas, a violência e a tragédia.

Dia sim e no outro também, as manchetes chamam a atenção para casos policiais envolvendo políticos aliados do capitão na cidade e no Estado. “Operação no RJ — Flávio (Bolsonaro, é claro) afirmou que ‘houve excesso’ em operações policiais que atingiram seus aliados no Rio de Janeiro”, dizia uma delas. E não era para menos.
A matéria informava que, “questionado sobre investigações contra o ex-governador Claudio Castro (PL) e o ex-presidente da Alerj Rodrigo Bacellar (União), além do ex-prefeito de Belford Roxo Márcio Canela (União)… pré-candidato ao Senado pelo Rio…”, o “01” chiou.
Acaso e a hora do espanto
A lista de fanáticos aliados metidos em assuntos policiais, meramente policiais, digo, é muito mais extensa.
Só para que se tenha uma ideia, desde 2017 apenas um dos presidentes da Assembleia Legislativa do Rio não foram parar na cadeia — André Ceciliano, do PT.

Há crimes para todos os apetites, desde assassinato de criança até porte ilegal de fuzil.
O todo poderoso ex-governador Claudio Castro, por exemplo, metido até o pescoço no escândalo do Banco Master, e num vasto menu de outros crimes, se viu gradualmente obrigado a abandonar a carreira política.
(Pausa para espanto: no pé da notícia mencionada, a informação de que até a mãe dos quatro conhecidos pimpolhos está procurando guarida em algum cargo eletivo — é a suplente do indiciado candidato ao Senado Márcio Canela. Aposto que essa você não sabia. Mas faz todo sentido. Pelo menos para o clã que, surfando na onda ultradireitista que assola o planeta, tenta por todos os meios e laços familiais continuar usufruindo as benesses do poder que meio ao acaso lhes caiu no colo. Ao que tudo indica, o que querem é a volta ao tempo das dinastias hereditárias — o que lhes daria também uma espécie de habeas-corpus contra possíveis [e prováveis] “excessos” que o futuro possa estar lhes reservando.)
Programa de governo é a família
Às vésperas da oficialização das candidaturas à Presidência da República — e do registro oficial dos programas de governo, tornam-se a cada passo mais evidentes os interesses em torno dos quais se organiza o bolsonarismo.
Para espanto de todos, ou pelo menos assim deveria ser, o item número um do Projeto (ou programa de governo) é a defesa intransigente e prioritária da família Bolsonaro — quem mais de uma vez já o disse é o próprio candidato. Anistia para o pai preso. Mas não apenas.
Pensa-se também em modos e maneiras de permitir o regresso do filho “exilado” no país do presidente Donald Trump, com garantias de anulação dos processos que correm contra ele, e, é claro, cargos eletivos para cada um dos membros da “quadrilha” (mas, por favor, não confundam a palavra quadrilha com o entendimento corriqueiro que se tem do termo — quadrilha aqui é usado apenas no seu sentido original, isto é, designando um “grupo de quatro pessoas ou quatro casais dispostos em formação quadrangular para executar uma dança muito popular na França do século XVIII…”, portanto, quando ainda existiam, notem, as dinastias hereditárias).
Aos quatro varões da família em liberdade é inevitável que se inclua a ex-primeira-dama Michele Bolsonaro, que teimosamente insiste em correr dentro do espaço próprio que tenta criar — como em toda boa dinastia, as intrigas, os conflitos e as conspirações de corredor vazam por todos os lados, como uma hemorragia, difícil de conter. Ah!, e como nos informa também a matéria acima, há que se incluir a mais recente pretendente, a matriarca Rogéria Bolsonaro.
Para quem não conhece em detalhes, o clã está assim organizado: os filhos “01”, “02” e “03” são frutos do primeiro casamento, com a agora candidata ao senado Rogéria (como suplente), o “04” resultado do segundo, com Ana Cristina Siqueira Valle (que até onde se sabe não tem cargo eletivo nem é candidata a ter), e a caçula, nascida do terceiro casamento, que com apenas 15 anos de idade não pode ainda concorrer a cargos eletivos.
Mas seria erro e injustiça pensar que o programa se resume a tais mesquinharias (para os outros, evidentemente). O Projeto, chamemos assim, explicita também e sem nenhum pudor uma subserviência canina aos atuais ocupantes da Casa Branca. Talvez como gratidão, o governo Trump acaba de conceder o Greencard ao “02”.
Com menos frequência que a presença nos assuntos policiais, mas ainda assim com uma destacada constância, o candidato a substituto do pai viaja à sede do Império na tentativa de ser fotografado ao lado do Imperador.
Sua massa de apoiadores, não podendo se deslocar com a mesma frequência, carrega nas costas gigantescas bandeiras da pátria mãe — à moda de um manto encantado ou quem sabe promessa de eterna obediência.
Pode que a alguns pareça serem somente esses os propósitos para um futuro governo Flávio. Mas há mais. Como deixar de lado, por exemplo, aquilo que é quase que a alma ou o líquido amniótico dentro do qual o bolsonarismo se desenvolveu: o antilulismo? Se assim fizessem, perderiam de cara uns tantos milhões de votos. Não é raro, senão o contrário, nos depararmos com eleitores do capitão que peremptoriamente garantem não serem bolsonaristas, mas antilula.
Fazer o quê?
Se isso lhes é suficiente como projeto para o país, significa que também é para uma boa parcela do eleitorado brasileiro que mantém a firme intenção de votar no filho (e nos demais herdeiros) do capitão — seja para qual cargo for.



