As duas vezes em que a China esteve na África (2)
27 junho 2026 às 21h00

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Parêntesis inicial. Num dos trechos do agora clássico “Danúbio” (Companhia das Letras, 448 páginas, tradução de Elena Grechi e Jussara de Fátima Mainardes Ribeiro), o escritor italiano Claudio Magris assinala: “Certamente Roma era também e sobretudo domínio, e a universalidade por ela representada era uma máscara do domínio e como tal destinada a desaparecer, apesar das pretensões de eternidade…
Os desprezados bárbaros tornaram-se os artífices da nova Europa; mais tarde os eslavos, considerados por séculos um obscuro povo da gleba e sem história, sentiam que tinha chegado a sua hora; os chineses que transportaram os brancos no rockshaw são hoje o que são”.

Suspeito que a referência aos chineses seja um acréscimo posterior à edição original do livro, que é de 1986 (foi lançado no Brasil em 2008), mas pode ser também um vislumbre genial do que estava por acontecer – seja, como for, não deixa de iluminar o cenário atual.
Malindi, a cidade-Estado
No iniciozinho do século XV (1401-1500) havia na costa oriental da África, banhada pelo oceano Índico, uma importante cidade-Estado chamada Malindi (https://tinyurl.com/drwm6n93).
A uns mil quilômetros de distância ficava, para muito além do lago Vitória, bordeando o Atlântico no outro lado do continente, o que era, então, o Reino do Congo.
À época da tomada de Ceuta pelos portugueses e da chegada dos chineses a Malindi, constituíam mundos distanciados e significativamente diferentes um do outro. Nos séculos seguintes o colonialismo tratará de torná-los próximos, ambos parte do universo das terras colonizadas, sangradas até quase a última gota pelos centros econômicos europeus e, logo, transatlântico.
Entre a visita da frota do almirante Zhang He e a chegada do navegador Vasco da Gama (1498), a partir da qual se fez aliada dos portugueses, passaram-se quase cem anos. Um século mais tarde, a até então próspera cidade inicia um longo processo de decadência, ao fim do qual foi quase que totalmente abandonada — até ser novamente revitalizada pelo sultão de Zanzibar, já em meados do século XIX.
Congo: escândalo geológico
Na metade dos anos 1970, Portugal foi expulso das colônias que durante eras havia conservado na África.

Os movimentos que lutavam pela independência (contavam com a simpatia e algum apoio da China de Mao Tsé-tung) de Angola, na costa do Atlântico, e Moçambique, na do Índico, após um conflito que devastou os já dilapidados territórios africanos, conseguiram enfim vencer e expulsar as forças do antigo império colonial — que para trás não deixou grandes obras (nem pequenas), nem nostalgia, nem boas recordações.
Menos de duas décadas depois, os chineses (agora da era Deng Xiaoping) voltaram à África — seiscentos anos haviam se passado desde as viagens da frota estelar do imperador Yongle através do Índico.
O ainda incipiente, mas planejado modelo de crescimento do país asiático impôs um brutal aumento da demanda por riquezas minerais, de petróleo, antes que qualquer outra.
Em 1993, a China “pela primeira vez importava mais petróleo que exportava”, afirma David van Reybrouck (“Congo — Uma História Épica”, Editora Todavia, 656 páginas, tradução de Mariângela Guimarães).
Daí que os primeiros contatos foram com os principais países petroleiros da época (Nigéria, Angola e Sudão). Logo essas relações vão se estender e se aprofundar.
A explosão da economia neocomunista (chame como quiser) exige enormes quantidades de tudo quanto é mineral que exista no subsolo, esteja onde estiver, no planalto central do Brasil (nióbio, fosfato, terras raras…), ou na África subsaariana — e a República Democrática do Congo era (e continua sendo), como escreve Reybrouck, um autêntico “escândalo geológico”.

Não que os chineses que se estabeleceram no Congo a partir do início do século XXI repetissem a mesma generosidade daqueles seus contemporâneos do século XV. São provavelmente mais pragmáticos. Mas nem de longe repetiram ou repetem a política de exploração colonial europeia – de antes ou de agora.
O pragmatismo da China
Resta, portanto, saber como lidaram (e lidam) com a corrupção endêmica implantada por Mobutu a partir dos anos 1970 e seus sucessores em parceria com os belgas, franceses, etc.
A fórmula chinesa se desdobra em medidas aparentemente simples — e eficazes. Antes de qualquer outra providência, segundo Reybrouck, “Pequim cumpria estritamente sua política de não ingerência em assuntos internos”.
Por outro lado, “a nova China era racional, eficiente e pragmática… não tinha nenhum problema em comerciar com tipos sinistros como Mobutu e Al-Bashir”, desde que seguissem o seu modelo para os novos contratos.

A partir daí, começaram a investir e a trabalhar. E é aí que se torna claro que, pelo menos no que diz respeito aos chineses, não interessavam mais as barganhas que deixavam bilionários a infindável cadeia de políticos corruptos, esvaído o país e o populacho na mesma miséria reproduzida pelo colonialismo ao longo de séculos.
Contrato impactante e inédito
Em 2007, o governo congolês aceitou firmar um primeiro grande acordo com a China, no qual os asiáticos fundariam “uma empresa conjunta com três empresas estatais chinesas (um banco, uma construtora de estradas e uma empresa de construção civil em geral)”.
Mas, em troca da extração de 10 milhões de toneladas de cobre e 600 mil de cobalto, a empresa (controlada pelos chineses com 78% do capital) “investiria 3 bilhões de dólares na reestruturação da infraestrutura de mineração e 6 bilhões de dólares na construção de estradas (seis mil kms), estradas de ferro (três mil e duzentos kms), casas (cinco mil), policlínicas (145), hospitais (31), centrais hidráulicas (duas), aeroportos (dois) e universidades (duas)”.
Dinheiro por obras físicas, gerenciadas e entregues pelos credores, tin-tin por tin-tin. Eram, ao mesmo tempo, incalculavelmente mais obras de infraestrutura construídas que em toda a história do Congo Belga desde o velho imperador Leopoldo — e seus sucessores.
Na avaliação de Reybrouck, o contrato assinado (“de apenas sete páginas — menos que um contrato de aluguel”) era, de fato, absolutamente impactante, além de inédito. Constituía “uma forma prática de evitar a corrupção… já que não é fácil botar um hospital no bolso”.
Corrupção na China e no Brasil
Assim, não há dúvidas de que existem mais de uma maneira de demonstrar e exercer o poder, mesmo para impérios e imperadores. Escolhas podem ser feitas.
Há, na realidade, modos muitas vezes opostos de buscar e manter a hegemonia — e disputar parcerias e mercados. Dizer isso pode soar como uma mera platitude e, no entanto, deixar de fazê-lo é jogar nas trevas as nuanças da própria história, as diferenças entre culturas por vezes milenares.
P.S. 1: Ao contrário do Brasil, onde corrupto de grande porte merece cela especial na sede da Polícia Federal em Brasília, as penas para a corrupção na China são severas.
Para os casos menos graves, prisão de apenas alguns anos, multas e perdas dos bens.
Para os graves as penas variam de dez anos a perpétua, com confisco de patrimônio. E para os casos excepcionalmente graves, até a pena de morte (se o condenado demonstrar bom comportamento, tal pena pode ser comutada para perpétua sem possibilidade de liberdade condicional).
P.S. 2: As sentenças são cumpridas à risca. A partir de 2012, milhares de funcionários e dirigentes foram investigados e condenados, incluindo membros de alto escalão do Partido Comunista e executivos de empresas estatais.
P.S. 3: Agora, imagina se a moda pega por aqui…



