As duas vezes em que a China esteve na África (1)
20 junho 2026 às 21h00

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“No dia 20 de setembro de 1414, uma girafa foi vista pela primeira vez na China”, conta o historiados Roger Crowley em “O Mar Sem Fim” (“El Mar Sin Fin”, 2018; Atico de los Libros, 432 páginas, tradução de Joan Eloi Roca). Não se tratava de uma espetacular apresentação circense – muito menos de uma espalhafatosa exibição de músculos e sanguinolência num ringue montado na Cidade Proibida para a comemoração do aniversário do imperador, tendo o magnífico mamífero como coadjuvante do show. Na realidade, a girafa era um presente enviado a Yongle (imperador da recém-estabelecida dinastia Ming) pelo sultão da longínqua Malindi, na costa da África Oriental – à época uma cidade-estado suaíli, no litoral do atual Quênia.
O mimo não era tampouco um gesto de subserviência ou medo frente à enorme armada comandada pelo almirante Zheng He – um eunuco de família muçulmana nascido numa aldeia do que hoje seria a província de Yunnan, no sudoeste da China.
Ainda criança, Zheng He (então Ma He) foi capturado pelas tropas a serviço do futuro imperador Yongle. Seguindo o costume, após sua captura, o jovem prisioneiro foi castrado para servir no palácio imperial, onde acabou ganhando a confiança de Yongle. A primeira dessas frotas comandadas por Zheng He zarpou dos estaleiros de Nanquim em 1405, tendo como destino a Índia e a África Oriental. Era composta por uns 250 barcos (algumas estimativas falam de quase 320 embarcações) que transportavam 30 mil homens. Barcos de nove mastros e vários conveses, “muitos dos quais alcançavam 130 metros de comprimento e enormes lemes que mediam até 40 metros quadrados”.
Segundo o relato de Crowley, aquela imponente exibição de força das chamadas barcas estelares (assim chamadas porque eram consideradas capazes de navegar até a Via Láctea) “constituíam técnicas não violentas para projetar a magnificência da China” para além de suas fronteiras. Ainda de acordo com o historiador, “em nenhum momento houve tentativas de ocupação militar, nem de bloquear o sistema de livre comércio que imperava” onde quer que chegassem. Ao contrário, deixavam claro que a “China não queria tomar-lhes nada, e demonstrava isso dando, ao invés de tomando”.

“Lavar a mãos no sangue dos infiéis”
Apenas um ano depois da espetacular exibição da girafa pelas ruas de Pequim, em agosto de 1415, mal havendo ainda convertido em país seu minúsculo território e consolidado sua independência em relação à vizinha Castilla, os portugueses cruzaram o Estreito de Gibraltar para alcançar a África e tomar de assalto o porto muçulmano de Ceuta, na extremidade norte do continente – “um dos bastiões estratégicos mais bem fortificados de todo o Mediterrâneo”. Uma chegada que, ao contrário da outra na distante Malindi, não trazia qualquer tipo de agrados ou de gentilezas. Ao contrário, os portugueses chegaram ansiosos para “lavar as mãos no sangue dos infiéis”.
Foram três dias de saques e massacres que “arrasaram o lugar outrora descrito como ‘a flor de todas as cidades da África’… Esse surpreendente golpe deu o sinal de alerta aos rivais europeus de que o pequeno reino” recém-criado havia iniciado sua marcha. O assalto a Ceuta juntou, segundo Crowley, “o espírito da cavalaria medieval com as paixões de uma cruzada.” Três dias para que os três filhos de João, o Bastardo (Duarte, Pedro e Henrique) tomassem a cidadela. Entre os prêmios pela conquista, na rebatizada mesquita, agora Nossa Senhora da África, os três jovens príncipes foram chamados pelo pai e nomeados Cavaleiros.
Foi desse modo que aqueles três dias do sanguinolento assalto a Ceuta anunciaram o que seria a exploração portuguesa da África. Nos próximos séculos, seus rivais europeus tratarão de se colocar à altura.

Morte de Zheng He e inversão de curso
Num dia qualquer de 1433, no decorrer da sétima expedição, o almirante eunuco morreu, “provavelmente em Calicute, na costa da Índia” – não se sabe onde seu corpo foi sepultado, o mais provável é que tenha sido lançado ao mar. O almirante dos imensos barcos chineses (Crowley afirma que todos os barcos de Vasco da Gama, “com uns 150 homens, teriam cabido dentro de um único dos barcos de Zheng He”) deixou como monumento apenas uma tabuleta “escrita em chinês, tâmil e árabe em que dava graças e reverências a Buda, Shiva e Alá”.
Nela, dizia: “Nos últimos tempos, enviamos missões para anunciar às nações estrangeiras nossos desígnios e, durante suas viagens pelo oceano, foram agraciadas com as bênçãos de vossa benéfica proteção. Elas escaparam do desastre e da desgraça e viajaram pacificamente de um lugar a outro”.
Após a morte de Zheng He barcas estelares nunca mais zarparam. A política no interior da China havia mudado e os próximos imperadores trataram, ao invés, de reforçar as obras da sua Grande Muralha. O imenso país recolheu-se sobre si mesmo, ensimesmado, fechando todas as suas portas de entrada e de saída. As viagens por mar foram proibidas e foram apagados “todos os registros de tudo o que havia sido levado a cabo”. Em 1500, até a construção de um navio com mais de dois mastros tornou-se um crime capital. Cinquenta anos depois, embarcar em um desses navios também se tornou crime.
E dali em diante, seiscentos anos mais serão necessários até que a política no país da dinastia Ming ordene uma nova inversão de curso.



