“Suas endêmicas ridiculezas e sua corrupção cotidiana constituíam a própria fonte da sua autoridade e do seu poder.”

Na semana passada, Ronaldo Caiado (União Brasil), ex-governador de Goiás e candidato a presidente pelo partido de Gilberto Kassab, se referiu ao autoexilado filho do presidiário Jair Bolsonaro como “o Pateta da política brasileira”.

Numa publicação no X, Ronaldo Caiado começou perguntando: “Quem é o personagem que vive nos Estados Unidos, é todo atrapalhado e, sempre que abre a boca, faz alguma besteira? A) Mickey B) Pateta C) Pato Donald?”.

O político goiano continuou: “A diferença é que o Pateta da Disney é atrapalhado, mas bem-intencionado e inofensivo. Já o da política brasileira tropeça nos Estados Unidos, e a queda pode custar caro ao Brasil, atingindo a indústria, as exportações e os empregos”.

Iniciada a disputa ao Palácio do Planalto, aliados de primeira hora começam a dar cotoveladas pela disputa da herança bolsonarista. Estão todos com muita sede para ir ao pote. Assanhados com a onda que impulsiona uma ampla tipologia de direitistas e ultras em todo o mundo ocidental se apressam a definir os traços dos seus próprios personagens – ou máscaras, como faziam os gregos dos tempos de Péricles.

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Jair Bolsonaro: o Superpateta está em prisão domiciliar | Foto: Divulgação

É preciso manter a alma da renascida ultradireita planetária – por décadas expulsa do cenário após a catástrofe da Segunda Guerra Mundial (1039-1945) – e ao mesmo tempo criar sua própria caracterização. Se empenham arduamente para auscultar os ruídos da plateia, captar o humor do público e ver até onde podem carregar na maquiagem. Quanto mais chamativa e pitoresca, melhor.

A marca ou o slogan é tudo, aconselham os publicitários. A motosserra para os argentinos de Milei, “el Tigre” para o colombiano de la Espriella, o “Brasil acima de tudo, Deus acima de todos” do capitão.

O que são os Bolsonaros senão um bando aglutinado em torno de uma figura ou mito, como certamente preferem, cuja densidade política é formada por uma retórica bélica que encontra inimigos conforme as próprias conveniências, organizando sentimentos nebulosos, rancores e raivas, e que têm como absoluta prioridade a própria sobrevivência?

No vale- tudo que se segue, chuta-se a bunda do Pateta. No meio do caminho, o rebanho inteiro pode ir para o brejo. Mas, cuidado – é melhor esperar para ver. Primeiro porque podemos estar confundindo nosso desejo com a realidade e as histórias dos gibis falam muito de caubóis e patetas, mas não mostram os rumos do mundo.

Além do que os homens nem sempre têm o bom caráter dos heróis e dos justos das histórias aventurescas e não raro são capazes das mais espantosas piruetas, dizendo e desdizendo no mesmo diapasão, como se a audiência fosse composta apenas de risonhos idiotas.

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Pateta: o inspirador de Eduardo Bolsonaro e talvez de todos os Bolsonaros políticos | Foto: Reprodução

Membros da mesma família, surfando na mesma onda, brigam, se acusam-se, vituperam uns aos outros, lançam impropérios – mas não se apartam. Íntimos de uma mesma imagem do mundo, comensais de um mesmo banquete, são também irmãos de privilégios.

Manipulação das vontades e escolhas

Os atropelos têm sido inúmeros, quase tanto quanto os tropeços. E o presidenciável do PSD parece acertar o centro do alvo quando associa o “02” ao personagem dos quadrinhos da Disney.

As patetices de Eduardo Bolsonaro vão se acumulando uma após a outra.

Mas não são exclusividade do histriônico personagem – os outros membros da campanha parecem carregar uma enorme tralha de malfeitos.

Mesmo assim, se são guias, são também guiados e se há culpa daqueles que apelam aos votantes, há também naqueles que votam. Nesse jogo não há inocentes, ainda que haja muitíssima manipulação das vontades e das escolhas.

O Grito, de Edvard Munch

Eleitor dirá adeus ao bolsonarismo

Se o bolsonarismo não se demonstrar capaz de ser mais que um pequeno grupo atado por laços de sangue – como os Corleone, por exemplo, os Trapo e os Rothschild –, cada vez mais circunscrito e aferrado aos interesses da própria família, logo estará destinado ao mais ou menos rápido desaparecimento e outros ocuparão o espaço deixado para trás.

O vazio na política não existe. Os atores podem ser trocados, mas a chama que alimenta a trama e encanta a audiência permanece. Este é o desejo da própria plateia.

É verdade que, eleito Jair Bolsonaro, os interesses da família passaram a ocupar o primeiro lugar (não o Brasil, não Deus).

Seus milhões de eleitores, também eles personagens do drama, tratarão imediatamente de encontrar um novo autor.

É possível que, como resultado dos próprios laços, métodos e interesses que os alçaram ao poder, tenham se metido numa rota que os levará ao isolamento e à extinção. O futuro dirá.

Por incrível que possa parecer, trata-se de algo semelhante ao que ocorreu com a casta que comandava a ex-União Soviética.

Como diz um grande historiador inglês, seus integrantes “tinham como absoluta prioridade sua própria sobrevivência”.

O que são os Bolsonaros que não um bando aglutinado em torno de uma figura ou mito, como certamente preferem, cuja densidade política é formada por uma retórica bélica que encontra inimigos conforme as próprias conveniências, organizando sentimentos nebulosos, rancores e raivas, e que têm como absoluta prioridade a própria sobrevivência (e dos agregados)?