A frota de veículos da cidade parece estar dividida em dois grandes blocos: carros recém-saídos das concessionárias ou pelo menos muito novos e automóveis muitas vezes caindo aos pedaços (literalmente) ou pelo menos muito velhos, dos primeiros anos do presente século. Teimam em rodar, apesar da idade, claudicam pelo asfalto danificado das ruas e avenidas da próspera metrópole. Abundam, ao contrário dos veículos de transporte coletivo. É como se cada cidadão por falta de alternativa, ou seja lá pelo que for, fosse forçado a ter o seu. São bens de primeira necessidade. Em cada um deles um prestador de serviço e suas ferramentas de trabalho, seus anúncios e o número do celular. Cada um dono do próprio negócio. Circulam e trabalham em tempo integral, sem chance de ócio.

Circulam em veículos “antigos” o indefectível “Fora Lula” — que são abundantes, embora talvez não na mesma quantidade, nas caminhonetonas dos que vivem no mundo rural ou querem se ver associados a ele. Uma insensata aliança de classes. Pertencem a universos quase que antagônicos quanto às posses , mas um só quando se trata da amplitude espiritual

A lista é interminável: eletricista, encanador, bombeiro hidráulico, desentupidor, chaveiro, marido de aluguel/faz-tudo, pedreiro, pintor, gesseiro, serralheiro, soldador, marceneiro, vidraceiro, montador de móveis, instalador de cortinas e impermeabilizador, piscineiro, técnico de ar-condicionado, técnico de geladeira, máquina de lavar, instalador de TV/antena, internet e Wi-Fi, câmeras de segurança, portão eletrônico, interfone, cerca elétrica, energia solar, piscineiro (de novo), coifas e exaustores, jardineiro, podador, paisagista, limpador de caixa-d’água, lavador de carros a domicílio, limpeza de vidros, limpeza pós-obra, dedetizador e controle de pragas, mecânico móvel, eletricista automotivo, borracheiro móvel, chaveiro automotivo, lavador, motofretista, entregador, carreto e pequenas mudanças, banho e tosa móvel, adestrador, veterinários domiciliares (que os doguinhos são aos milhares)… e por aí vai.

Modris Ekstein capa do livro Dança Solar ok500 ok2

Cada um deles em sua moto 125 cc ou Gol 2006.

Em não poucos desses veículos o adesivozinho com o indefectível “Fora Lula” – que são abundantes também, embora talvez não na mesma quantidade, nas caminhonetes e caminhonetonas dos que vivem no mundo rural ou querem se ver associados a ele. Uma insensata e desarrazoada aliança de classes. Pertencem a universos quase que antagônicos quanto às posses e à situação econômica, mas a praticamente um só quando se trata da amplitude espiritual.

Por detrás de cada adesivo, como uma película invisível, uma incontrolável dose de energia furiosa cobra o transbordamento e implora para determinar os rumos da história.

Agosto de 1914 (e antes)

As dimensões das forças em conflito tornavam evidente a iminência da catástrofe, mas ninguém quis ver. Não antes de que fosse tarde demais. Freud, que era Freud, e creio já ter me referido a isso antes, tardou uns tantos meses para ir do apoio entusiasmado e patriótico à denúncia do morticínio. A cegueira social e as escolhas transbordando irracionalidade por todos os lados não são novidade no século XXI. Ao contrário, parecem ser uma característica da natureza da sociedade em que nos metemos ao mergulharmos de cabeça (ou nos vermos submergidos) no mundo da mercadoria.

“Todos os atores principais da nossa história”, diz Christopher Clark, “filtravam o mundo através de narrativas construídas com pedaços de experiências coladas por medos, projeções e interesses disfarçados de máximas”. É como se, ao falar das primeiras décadas do século XX, o historiador estivesse se referindo às décadas iniciais do século XXI

Quando não é o entusiasmo pela guerra e o gosto pela selvageria em escala industrial, é o destilado fanatismo religioso, uma ou outra vez disfarçado de espiritualidade. Parece inamovível o entusiasmo que arrasta multidões na direção de figuras e personas que em circunstâncias normais seriam, quando muito, simplesmente risíveis.

E, no entanto, não foram (nem são) apenas as multidões os que deram suporte aos mais tenebrosos desígnios. Os anos que antecederam 1914 foram um crescendo contínuo de pregoeiros do apocalipse.

Christopher Clark capa de Os Sonâmbulos ok2 500

“O fogo era revigorante, o fogo era mágico”, lembra Modris Ekstein em “Dança Solar — Van Gogh, Falsificações e o Eclipse da Certeza” (um livro com uma ou outra informação apelativa e generalização leviana, que não cabe comentar aqui, mas legível como quase todo livro). Em todos os países, escreve Ekstein, “os artistas — juntamente com poetas, músicos e intelectuais em geral — afluíram sob as bandeiras naquele outono de 1914. Eles se deleitaram com a alegria da guerra — a perspectiva de uma experiência genuína em oposição à rotina monótona”.

“Todos os atores principais da nossa história”, diz Christopher Clark num texto infinitamente mais amplo, “filtravam o mundo através de narrativas construídas com pedaços de experiências coladas por medos, projeções e interesses disfarçados de máximas” — e é como se ao falar das primeiras décadas do século XX o historiador estivesse ao mesmo tempo se referindo a essas décadas iniciais do século XXI.

Se a turbidez das intenções e a mesquinhez dos interesses dos políticos e da aristocracia (vale lembrar que em praticamente todos os países envolvidos no conflito, exceto a França, o Estado era ainda representado por duques, barões e imperadores) que conduziram a Europa à guerra são diretamente responsáveis pela hecatombe, os homens da imprensa (a voz da opinião pública, pelo que se diz) também cumpriram um papel de destaque ao instigar a fúria patrioteira das multidões (a opinião pública, segundo o que se comenta) — a mesma fúria que se arrasta como um monstrengo sanguinolento através das eras para explodir no colo até dos que a transportam.