Quem promete combater a violência contra a mulher precisa começar pelo próprio exemplo
05 setembro 2026 às 21h00

COMPARTILHAR
A violência contra a mulher é um tema que, infelizmente, aparece de maneira recorrente nos noticiários e, em ano eleitoral, é claro que acaba sendo explorado pelos candidatos ao apresentarem suas propostas para tentar reduzir índices que estão cada vez mais alarmantes em todo o país.
Entretanto, essa é uma temática que deve ser tratada com um olhar sensível, e não apenas como instrumento de uma prática eleitoreira. Afinal, chega a ser de baixo nível utilizar um problema que tem raízes culturais no patriarcalismo, historicamente presente em nossa sociedade e responsável por colocar a mulher em uma posição de submissão ao homem, apenas para ganhar nas urnas eletrônicas.
Com o passar dos anos, estamos vendo um grupo historicamente classificado como minoria ganhar mais voz e buscar mais espaços. Mesmo sendo maioria da população – e do eleitorado -, as mulheres ainda enfrentam muitas barreiras quando o assunto é liberdade. Essa palavra, inclusive, tem sido o estopim para muitos casos de violência.
Entende-se por liberdade a possibilidade de o indivíduo realizar escolhas com base em decisões que façam sentido para aquilo em que acredita e considera melhor para si. Entretanto, ao entrar em um relacionamento — que nem sequer precisa estar formalizado no papel —, muitas vezes a mulher passa a ser vista como uma espécie de propriedade, sobre a qual o homem acredita ter posse, interferindo justamente em suas decisões e, consequentemente, em sua liberdade.
Neste ano, diversos candidatos estão afirmando que vão mudar a realidade desse crime bárbaro que assola a sociedade. As alternativas apresentadas são várias, mas muito se fala em educação. E é louvável olhar para ela. Afinal, acerta quem enxerga a educação como um dos caminhos para romper com comportamentos violentos e possessivos que vêm sendo reproduzidos por gerações.
O que não pode acontecer é associar os casos de violência exclusivamente a lares de pessoas com baixa escolaridade ou pouco acesso à educação, porque isso simplesmente não é verdade. Há, sim, situações que podem apresentar essas características, mas não é difícil encontrar pessoas que tiveram todo o aparato para uma boa formação e acesso a diversas oportunidades e que, ainda assim, estamparam os noticiários justamente por se tornarem agressores de mulheres. Dentro desse espectro estão, inclusive, pessoas que legislam para toda a sociedade. O que chega a ser uma hipocrisia.
Um dos casos emblemáticos é o do deputado estadual Lucas Bove (PL-SP), que se tornou réu por violência doméstica, violência psicológica e perseguição contra a ex-mulher, Cíntia Chagas. Em 2024, a influenciadora, que possui milhões de seguidores nas redes sociais, prestou queixa contra o deputado e relatou uma série de abusos físicos e psicológicos durante o relacionamento entre os dois, que durou mais de dois anos.

Cíntia Chagas alegou que era ameaçada constantemente com uma arma de fogo que ele possuía, sob a justificativa de que seria “uma brincadeira”. Em uma das ocasiões, Cíntia relatou que ele chegou a lançar uma faca em direção à sua perna e disse que a mataria caso descobrisse alguma traição, além de pedir a um segurança que escondesse seu corpo. Há relatos ainda de que o deputado a beliscava com força e apertava seus seios, mesmo na presença de outras pessoas.
No campo empresarial, há o caso de Thiago Brennand, que responde a uma série de processos criminais envolvendo acusações de agressões, violência contra a mulher e estupros. Ele já foi condenado em alguns deles e firmou acordos em outros, mas as marcas provocadas por essas violências dificilmente desaparecerão dos corpos e das mentes das vítimas.
Uma das vítimas do empresário foi uma brasileira que morava nos Estados Unidos e veio ao Brasil para rever os pais, em Recife (PE). Thiago Brennand a convidou para visitá-lo em São Paulo. A vítima relatou ter vivido três dias de “horror” ao pousar em solo paulista. Segundo ela, foi obrigada a manter relações sexuais sem preservativo e teria sido agredida ao recusar. Em seguida, teve o corpo tatuado com as iniciais TBV para que fosse “marcada como propriedade dele”.

Depois da denúncia, segundo o relato da vítima, ele passou a ameaçá-la com vídeos íntimos que teriam sido gravados sem seu consentimento. O objetivo seria fazê-la retirar a queixa. O caso chegou a ser arquivado em Porto Feliz, no interior de São Paulo, mas foi reaberto após outras mulheres apresentarem denúncias contra o empresário.
Outro empresário que foi preso por agredir a companheira em São Paulo foi Ivo Kos, de 48 anos. Ele é conhecido no mercado financeiro por sua atuação na região da Faria Lima, um dos principais centros financeiros da capital paulista. A vítima publicou nas redes sociais imagens fortes em que aparece com ferimentos no rosto. Ivo e a mulher estavam casados havia cerca de dois anos e meio, e ela relatou que já teria sido agredida outras vezes pelo marido.

Ainda no campo da política, quem não se lembra do cantor, apresentador e ex-vereador de São Paulo Netinho de Paula, que teve dois episódios de violência contra mulheres expostos publicamente? O primeiro ocorreu quando aplicou um golpe conhecido como “chave de braço” em uma funcionária da extinta Vasp. O caso aconteceu em 2001, e ele foi condenado a indenizar a vítima. Em 2005, voltou a enfrentar um caso na Justiça após uma acusação de agressão contra a então mulher. Posteriormente, ambos firmaram um acordo extrajudicial, encerrando o processo.

Quatro exemplos de violência. Quatro pessoas que chegaram a lugares de evidência, influência e popularidade. E quero deixar claro que esses casos não são mais importantes por terem sido cometidos por pessoas públicas ou influentes. Todos sabemos que, enquanto você lê este artigo, diversas mulheres podem estar sendo espancadas, ameaçadas ou até mesmo mortas. Mas precisamos reforçar que a violência contra a mulher não escolhe cor, raça, posição social ou nível de escolaridade.
Quantos casos envolvendo pessoas influentes já vieram à tona? Mas quantos outros não foram abafados? Quantos sequer chegaram a ser denunciados? Muitas das violências aqui exemplificadas estão envoltas pelo manto do poder, pela ideia de que ter dinheiro, influência ou prestígio daria a alguém o direito de fazer o que quiser com a vida de outra pessoa.
É justamente aí que mora o perigo. Há pessoas com alto poder aquisitivo e influência que acreditam estar acima da lei, do bem e do mal. E, nestas eleições, algumas delas podem tentar convencer você de que têm a solução para acabar com um problema do qual, de alguma maneira, já fizeram parte.
Fica a reflexão.
Leia também: Por que Marconi não valorizou a segurança e a polícia quando governador? Quem não se lembra do Simve e das greves?


