Políticos tiktokers: o exagero da criação esbarrando no bem-estar coletivo
25 abril 2026 às 21h00

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O uso das redes sociais por políticos que querem “lacrar” já começa a trazer consequências. Na semana passada, o Ministério Público do Estado de São Paulo passou a analisar duas denúncias que apontam que o Serviço Autônomo de Água e Esgoto de Sorocaba (Saae) teria “fabricado” um buraco falso em uma rua do município paulista para possibilitar que o prefeito Rodrigo Manga (Republicanos), conhecido como “prefeito tiktoker”, gravasse um vídeo para as redes sociais.
O caso veio à tona por meio de denúncias dos próprios funcionários da autarquia. Segundo eles, equipes do Saae e de uma empresa terceirizada foram mobilizadas no dia 9 de abril para sanar um suposto problema de vazamento de água.
O portal g1 teve acesso a todo o material envolvido na operação deflagrada, o que inclui ordens de serviço que, de acordo com servidores, teriam sido criadas para justificar a intervenção no local. Ainda segundo os trabalhadores, a abertura desses procedimentos falsos teria servido para legitimar o uso de servidores e o eventual pagamento à empresa privada.
Um dos documentos aponta que seria necessário abrir o poço de vistoria presente na via onde o buraco foi feito. Entretanto, um vídeo publicado nas redes sociais mostra que a tampa sequer foi movimentada. Além disso, as fotos anexadas ao documento mostram um “antes e depois”, mas sem qualquer alteração. Ou seja, os registros são idênticos.
Os documentos revelam outra inconsistência: as fotos teriam sido tiradas em outro local, a aproximadamente 70 metros de onde os serviços teriam sido executados. Um dos registros ainda indica que o caso se tratava de um suposto vazamento de água, com a anotação de que “não é vazamento da parte do Saae”.
O caso também resultou na mobilização de, ao menos, dez servidores. Os funcionários relataram que o chamado aberto era para uma boca de lobo entupida, mas que, em vez de abri-la para manutenção, foi feito um buraco ao lado do poço de vistoria — o mesmo que não foi aberto durante os trabalhos.
O vídeo gravado pelo prefeito tem 19 segundos e acumulava mais de 6 milhões de visualizações. A gravação mostra uma pessoa diante de dois buracos. O prefeito surge, empurra o personagem para dentro da vala e usa a cena como gancho para falar sobre obras na cidade, encerrando com o bordão “vem morar em Sorocaba”. Nas imagens, é possível ver que o buraco foi feito antes mesmo de qualquer verificação no poço de vistoria e na boca de lobo. Os equipamentos aparecem intactos.
Por meio de nota, a prefeitura afirmou que “a vala foi aberta por equipe do Saae/Sorocaba para obra de manutenção em rede de esgoto. Houve troca de abraçadeira danificada e os trabalhos foram concluídos no mesmo dia, seguida da recomposição do pavimento da via, conforme protocolos operacionais. A intervenção ocorreu a partir de solicitação de serviço devidamente registrada pela autarquia. Todas essas ordens seguem fluxo interno de controle, garantindo rastreabilidade das demandas e das intervenções realizadas”.
O Saae alega que o registro de atendimento referente à vala aberta, no cruzamento entre as ruas Diadema e Paranapanema, no Jardim Leocádia, diz respeito a outra intervenção. Nenhuma das partes comentou diretamente as denúncias feitas pelos funcionários.
O caso de Sorocaba escancara um problema que merece atenção: até onde os políticos vão por likes e engajamento nas redes sociais? Trata-se de um cenário preocupante. Em caso de confirmação, situações como essa mostram como a máquina pública pode ser utilizada de maneira indevida por capricho pessoal.
Recentemente, esta coluna abordou a hipocrisia entre políticos “tiktokers” que buscam criticar uns aos outros sem respaldo moral para isso. Na ocasião, analisamos um vídeo publicado nas redes sociais do deputado estadual Clécio Alves (PSDB), em colaboração com o vereador Igor Franco (MDB), no qual ambos denunciam um possível abandono de caminhões que deveriam ser utilizados pela Companhia de Urbanização de Goiânia (Comurg). Na gravação, eles se referem ao prefeito de Goiânia, Sandro Mabel, como “prefeito TikTok”.
A situação chega a ser contraditória: ambos também não se enquadrariam nesse perfil? Clécio e Igor pulam o portão para exercer o papel de “fiscalizadores” e registram tudo em vídeo, não apenas para mostrar atuação, mas também buscando viralização e ganho político. O problema não é fiscalizar, mas transformar a ação em um espetáculo que, no fim, não gera resultados concretos para a população.
Pode-se observar que muitos têm seguido essa tendência, ainda que evitem admiti-la. No entanto, isso tem um custo — e a legislação precisa ser mais rigorosa em relação a esse tipo de prática. O caso de Sorocaba demonstra que uma situação artificial, criada apenas para promover a gestão, pode gerar diversas consequências.
Nesse cenário, pessoas poderiam ficar sem água, haver mudanças no tráfego da região por conta das obras e, após a intervenção, permanecerem desníveis no asfalto, aumentando o risco de acidentes — possivelmente graves. As redes sociais, frequentemente criticadas por não terem controle, não podem ser utilizadas de forma irresponsável por agentes públicos em busca de reeleição. O bem-estar coletivo não pode ser prejudicado por esse tipo de conduta.
A fiscalização do uso das redes sociais por autoridades também deve ser recorrente. Afinal, o nível de abuso dessas plataformas tem crescido, e é necessário evitar prejuízos maiores à sociedade. O interesse individual, nesse caso, não pode se sobrepor ao coletivo. Fica a reflexão.
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