Ideologia: este artigo começa trazendo o significado dessa palavra, que pode ser entendida como um conjunto de ideias, valores, crenças e visões de mundo que orientam a ação social e política de indivíduos ou grupos. Na política atual, o termo ganhou cada vez mais espaço porque a defesa da moral e dos bons costumes, muitas vezes baseada em concepções individuais, usurpou o espaço do debate de propostas em prol de uma comunidade.

Atualmente, o Brasil conta com dois personagens que duelam nesse processo: Jair Bolsonaro, que, mesmo estando preso, ainda desempenha um papel importante no processo eleitoral, e Lula da Silva. Com isso, dois partidos também estão no cerne dessa disputa: PL e PT, que abarcam dois fenômenos políticos e ideológicos: o bolsonarismo e o lulopetismo.

Em 2026, as eleições são gerais, ou seja, vamos eleger deputados federais, estaduais ou distritais, senadores, governadores e o presidente da República. Consequentemente, os fenômenos eleitorais descritos no parágrafo anterior tendem a influenciar quais serão os vitoriosos.

Mas será que todos os personagens postos nessa disputa representam, de fato, os interesses de Lula da Silva ou de Jair Bolsonaro? Trazendo esse recorte para Goiás, temos os nomes de Luis Cesar Bueno, do PT, cuja escolha foi marcada pela demora e até mesmo pela resistência à sua candidatura, e Wilder Morais, do PL, que, para muitos, está apenas “surfando” no efeito bolsonarista para tentar alavancar sua candidatura. Seu projeto é, pois, mais pessoal do que partidário.

Entretanto, a relação do empresário com integrantes do partido, do qual é o presidente estadual, sempre passa por instabilidades. E isso, a pouco mais de 20 dias das eleições, pode trazer um efeito negativo para a campanha de Wilder Morais, que já estaria sendo sentido nas intenções de voto. Nem nelas o senador consegue ter estabilidade: na pesquisa mais recente, divulgada pelo Paraná Pesquisas, o candidato do PL registra apenas 15% da preferência do eleitorado goiano.

À frente das câmeras, alguns nomes até defendem Wilder Morais, mas basta o “rec” ser acionado novamente, sinalizando o fim da captação, para o discurso mudar. Dinheiro não é problema para o empresário. Inclusive, há quem diga que ele só foi escolhido como candidato como forma de gratidão pelos “favores” que teria promovido a nomes do alto escalão do PL.

Interlocutores de dentro do partido falam em constantes desavenças. A mais recente envolve o apoio público que o prefeito de Anápolis, Márcio Corrêa (PL), declarou ao candidato à reeleição pelo MDB, o governador Daniel Vilela. A situação culminou na abertura de um processo para decidir sobre sua expulsão da legenda. Entretanto, dentro do próprio partido, a decisão não tem sido digerida de forma unânime.

Alguns argumentam, inclusive, que a atitude não faz sentido, tendo em vista que o prefeito da terceira maior cidade de Goiás apoia as campanhas de grandes medalhões da legenda e de Flávio Bolsonaro à Presidência da República.

Em recente entrevista ao Jornal Opção, o candidato ao Senado Gustavo Gayer, do PL, pontuou o trabalho que Márcio Corrêa tem feito para ajudar na eleição de candidatos bolsonaristas. Major Vitor Hugo, do PL, que almeja retornar à Câmara dos Deputados, também destacou o trabalho desenvolvido pelo prefeito para ajudar em sua eleição e afirmou que chegou a aconselhar Wilder Morais a não levar o processo adiante.

Gayer foi mais incisivo ao dizer que o tratamento dado a Márcio Corrêa foge da isonomia, tendo em vista que há prefeitos que permanecem na legenda e anunciaram apoio a Daniel Vilela, como Carlinhos do Mangão, prefeito de Novo Gama; Dr. Luis Otávio, de Cristalina; e Alzemar Neto, de Campo Limpo de Goiás.

Vale relembrar que, dos 26 prefeitos eleitos pelo PL em 2024, 14 já migraram para a base governista. Entre os prefeitos que trocaram de legenda, seis migraram para o União Brasil, partido que integra a coligação Para Goiás Seguir em Frente, de Daniel Vilela. São eles: Simone Ribeiro, de Formosa; Daniel Júnior, de Bom Jesus de Goiás; Dr. Conin, de Indiara; Jacó Rotta, de Cabeceiras; Dr. Victor, de Santa Fé de Goiás; e Wivviane Duarte, de Gameleira de Goiás.

Inclusive, muitos desses prefeitos reclamaram da falta de diálogo e de espaço dentro do partido, destacando que nunca foram chamados para uma reunião partidária. A reclamação ultrapassou o âmbito municipal e atingiu até mesmo a deputados federais eleitos pela legenda. Um exemplo é Daniel Agrobom, que destacou que também não tinha trânsito positivo dentro do PL e decidiu migrar para o PSD. A justificativa foi semelhante, o que reforça a percepção de que Wilder Morais não tem demonstrado força suficiente para colocar ordem na própria legenda e construir uma unidade em torno de seu projeto. Falta-lhe espírito de liderança e estadismo.

E como não mencionar a deputada federal Magda Mofatto, nome historicamente ligado ao bolsonarismo e que já declarou diversas vezes que Wilder Morais escolheu um momento inoportuno para se candidatar? Por sinal, a parlamentar tem denunciado que é boicotada, não pelo bolsonarismo, e sim pelo wildismo, em encontros do PL.

Ainda nos bastidores, há quem diga que Wilder não representa o bolsonarismo nos moldes em que o movimento foi apresentado à sociedade. O empresário não tem o tom agressivo que fez Jair Bolsonaro conquistar uma parcela de seus admiradores e propaga de maneira mais sutil um dos principais lemas da direita: “Deus, Pátria e Família”. Segundo um deputado do PL, “Wilder Morais age como um quelônio, mas parece acreditar que tem alma de lebre — à espera de que os bolsonaristas lhe entreguem a vitória. Só que ele não faz a sua parte”.

Ser, estar e dizer não são a mesma coisa. Ser bolsonarista pressupõe confiar e seguir fielmente os princípios que tornaram esse movimento conhecido. Estar no mesmo partido de Bolsonaro não torna alguém automaticamente bolsonarista, assim como dizer que é aliado de Bolsonaro não transfere as características do ex-presidente para determinado candidato.

Se compararmos a situação de candidatos efetivamente próximos a Bolsonaro em outros Estados, chegamos à conclusão de que Wilder Morais ainda não conseguiu obter a “carteira de bolsonarista” necessária para ser identificado pelos eleitores como o representante do movimento capaz de chegar ao Palácio das Esmeraldas.

Tarcísio, Jorginho e Moro: todos líderes

Tarcísio de Freitas, apesar de estar no Republicanos, foi ministro do governo Bolsonaro e mantém uma relação política construída desde aquele período com a família do ex-presidente. Com 49% das intenções de voto, segundo pesquisa do instituto Datafolha, conta com grande possibilidade de liquidar a eleição já no primeiro turno.

Jorginho Mello, de Santa Catarina, também ocupa uma posição confortável para vencer as eleições já no dia 4 de outubro. Segundo a Quaest, conta com 50% das intenções de voto. Sergio Moro também está na dianteira na corrida pelo governo do Paraná, com 37%. Em Goiás, Wilder Morais não tem obtido o mesmo êxito.

Isso demonstra que até mesmo uma parcela do eleitorado goiano considerada bolsonarista-raiz não estar se identificando com Wilder Morais. O próprio partido parece não reconhecer no empresário uma liderança capaz de unificar os diferentes projetos em busca da vitória, e a impressão que se tem é de que cada integrante está trabalhando para garantir seu próprio lugar ao sol.

Fica a percepção de que Wilder Morais entrou nestas eleições mais por um capricho do que, propriamente, para levantar e conduzir a bandeira da direita em Goiás. O PL do Estado, de acordo com alguns de seus candidatos mais relevantes, está órfão de liderança. Eles sugerem que o presidente do partido é mais parecido com um tucano — sempre em cima do muro — do que com um membro ativo do PL. Talvez por isto Wilder Morais mantenha conexão — supostamente estreita — com Marconi Perillo, o candidato a governador pelo PSDB.

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