“A criança e o adolescente têm direito à liberdade, ao respeito e à dignidade como pessoas humanas em processo de desenvolvimento e como sujeitos de direitos civis, humanos e sociais garantidos na Constituição e nas leis.” É o que estabelece o artigo 15 do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA).

Já o artigo 17 afirma que “o direito ao respeito consiste na inviolabilidade da integridade física, psíquica e moral da criança e do adolescente, abrangendo a preservação da imagem, da identidade, da autonomia, dos valores, ideias e crenças, dos espaços e objetos pessoais.”

Na teoria, poderíamos dizer que tudo seria lindo. Que crianças e adolescentes teriam acesso a direitos básicos, como moradia, alimentação, educação e proteção contra qualquer tipo de violência. Mas, nos últimos meses, temos visto uma realidade completamente alheia ao que determina a lei. E isso pode ser refletido em números: Goiás registrou 5,8 mil denúncias de violência e maus-tratos contra crianças e adolescentes no primeiro semestre de 2026. Isso representa uma alta de quase 40% em relação ao mesmo período de 2025, quando foram registradas 4.168 denúncias.

Os dados nos levam a questionar o que está acontecendo com a sociedade atual, que, em vez de proteger, tem violentado cada vez mais crianças e adolescentes. E as consequências tendem a ser severas.

Em fevereiro deste ano, um policial militar agrediu um adolescente de 16 anos em Caçu, no sul do Estado. Vídeos mostram o momento em que o menor é brutalmente agredido com socos e tapas. O jovem estava sentado com um grupo de amigos que realizava manobras arriscadas com motos sem placa. Houve uma abordagem. E, até aqui, a atuação do policial estaria dentro de sua função. Afinal, a polícia, além de proteger o cidadão, tem o dever de manter a ordem pública.

O problema começa quando o adolescente, sem esboçar qualquer reação ou resistência, recebe um tapa no rosto enquanto estava com as mãos atrás da cabeça. Em seguida, o policial desfere socos na barriga e mais dois golpes no rosto do menino.

No mês passado, um lutador foi preso por agredir um adolescente de 17 anos em uma quadra esportiva no Jardim Goiás, em Goiânia. A violência foi registrada pelas câmeras de videomonitoramento. O jovem foi imobilizado e recebeu diversos socos após uma discussão entre ele e o filho do lutador durante uma partida de futebol.

“Mata-leão”. Esse foi o golpe aplicado pelo agressor. O adolescente chegou a perder a consciência e ficou imóvel no chão. Pessoas tentaram interromper as agressões, mas sem sucesso.

A violência, porém, não teria ficado restrita àquele episódio. Após o caso se tornar público, outras denúncias surgiram. Pais relataram que os próprios filhos também teriam sido agredidos pelo lutador em um shopping no Setor Bueno. O investigado alegava que agia para defender os filhos de situações de bullying.

Na semana retrasada, uma criança de 10 anos foi encontrada em um cenário de completa insalubridade em um apartamento no Setor Faiçalville. O menino estava trancado em um quarto, sem acesso a comida ou água potável, em um ambiente tomado por lixo, alimentos estragados, forte odor e garrafas cheias de urina.

A criança, que é diabética, apresentava um nível de glicose tão elevado que o aparelho utilizado para medição sequer conseguiu registrar a quantidade de açúcar no sangue. Ela precisou ser internada em uma Unidade de Terapia Intensiva (UTI) devido à gravidade do quadro.

A justificativa apresentada pelos responsáveis — se é que podem ser chamados dessa forma — foi a de que a criança permanecia trancada para não ter acesso a alimentos em razão de uma suposta compulsão alimentar e, assim, evitar o aumento da glicemia. A mãe não estava em casa quando o caso foi descoberto pelas autoridades e agora deverá responder por abandono de incapaz.

Na mesma semana, a Polícia Militar passou a investigar um caso envolvendo um integrante da corporação flagrado agredindo um adolescente de 16 anos dentro de uma loja de autopeças em Catalão. A violência também foi registrada pelas câmeras do estabelecimento. O policial pressiona o jovem contra a parede, depois o joga no chão, grita perguntando se ele faz parte de uma facção criminosa, manda que deixe a cidade e chega a apontar uma arma para sua cabeça.

O militar alegou que agiu daquela forma porque o adolescente estaria olhando para ele insistentemente. A família afirma que o jovem sofreu lesões nas costelas e ficou com o rosto sangrando.

Quatro casos de violência contra crianças e adolescentes. Agressões físicas. Maus-tratos. Humilhação. Abalos psicológicos que levarão anos para serem superados. Feridas que dificilmente cicatrizarão por completo. O fato de serem identificados com facilidade não intimidam quem pratica a violência.

Tudo isso nos leva a uma reflexão: por que quem deveria proteger está maltratando? Onde está a empatia? E, principalmente, por que a violência recai justamente sobre quem se encontra em situação de maior vulnerabilidade?

Traumas. Um adulto utilizar da força física para imobilizar um adolescente que discutia com seu filho da mesma idade demonstra um destempero gigantesco. Um desentendimento que deveria ser resolvido entre dois jovens transforma-se em uma agressão brutal e injustificável. Da mesma forma, um agente do Estado utilizar a autoridade conferida pela farda como instrumento para intimidar e praticar violência é absolutamente inaceitável.

Uma mãe manter o próprio filho trancado sob a justificativa de impedir que ele se alimentasse para controlar a diabetes é algo difícil de compreender. A criança foi submetida a uma situação de completa insalubridade, cercada por lixo, sem acesso adequado à água e à comida, e acabou justamente no hospital pelo problema que, segundo a mãe, ela tentava evitar. Decisão completamente equivocada. Nem um animal deveria viver em condições como aquelas.

Como ficam essas crianças e adolescentes no futuro? Por que o Estado tem se mostrado, em determinadas situações, tão omisso? Como funciona o acolhimento e o acompanhamento dessas vítimas? E, principalmente, por que o Estatuto da Criança e do Adolescente continua sendo tão desrespeitado?

Os reflexos da violência na vida de uma pessoa são devastadores. É desencadear um medo atrás do outro. Medo de ficar sozinho, de confiar nas pessoas, de quem se aproxima, de quem fala. Em muitos casos, a vítima pode até reproduzir a violência que sofreu. O ciclo se perpetua.

A dor física costuma diminuir com o tempo. As marcas psicológicas, nem sempre. A sociedade parece que normalizou essa situação. E isso mostra que estamos cada vez mais doentes por dentro. Passamos a banalizar esse mal e tantos outros.

Está mais do que na hora de o que está escrito no Estatuto da Criança e do Adolescente deixar de ser apenas teoria e se tornar, de fato, uma realidade.

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