Nilson Jaime
Nilson Jaime

Tocandira: o exótico e doloroso ritual de passagem masculina dos povos Sateré-Mawé, ‘filhos do guaraná’

Durante dez minutos, crianças e adolescentes de oito a doze anos colocam as mãos em luvas de palha contendo dezenas de formigas tocandira, com mais de dois centímetros. Suportar a dor de centenas de ferroadas infligidas em vinte ocasiões ao longo de duas semanas, constitui o ritual de passagem do adolescente para a vida adulta

Jovem Sateré-Mawé durante o ritual da tocandira | Foto: Reprodução

De acordo com dados do Instituto Brasileiro de Geografia Estatística (IBGE, 2016), existiam no Brasil, em 2010, cerca de 900 mil indígenas, divididos em 305 etnias, que falavam pelo menos 274 línguas. Essas populações se distribuíam pelas regiões Norte (37,4%), Nordeste (25,5%), Centro-Oeste (16%), Sudeste (12%) e Sul (9,2%). Dentre elas os Sateré-Mawé, com duas particularidades que os tornaram bastante conhecidos no Brasil e no exterior: uma de natureza econômica e outra de ordem ritualística.

Os Sateré-Mawé são povos originários do Brasil, região do médio Rio Amazonas, ocupando atualmente o Território Indígena Andirá-Marau (cerca de 100 aldeias e 13.350 indígenas, dados de 2014), na fronteira dos estados do Amazonas e Pará; e um pequeno grupo da etnia Munduruku, habitantes do Território Indígena Coatá-Laranjal, na mesma região amazônica. Seu nome provém da língua Mawé, pertencente ao tronco Tupi. As gerações atuais falam também o Português. 

O fruto do guaraná tornou-se Indicação Geográfica (IG) das terras Sateré-Mawé | Foto: reprodução/Fapeam.am

Dentre o legado dos Sateré-Mawé está a domesticação de “Paullinia cupana”, o guaraná (“waranã”, no Tupi), planta trepadeira da família Sapindacea, conforme relatos do padre jesuíta luxemburguês João Felipe Bettendorff (1625-1698), em 1669, e do naturalista alemão Carl Von Martius (1794-1868), que visitou a região em1819. Esse fruto é tido como sagrado, segundo várias versões, pela tradição ancestral indígena. Por uma delas o fruto do guaraná seria o olho da jovem indígena Cereçaporanga, morta com o amado após queda de uma árvore atingida por raio. Por outra, Tupã mandara plantar os olhos de uma criança indígena para, dos frutos da planta, fornecer energia a quem os consumissem.

Os frutos do guaraná produzem uma bebida estimulante, são colhidos na selva, secados em potes de argila, desidratados, defumados e comercializados em forma de grão, pó, ou bastão, denominado “pão de waranã”. Devido à vocação socioeconômica desses povos, os Sateré-Mawé são denominados “filhos do guaraná”. No ano de 2020 o Território Indígena Sateré-Mawé foi reconhecido pelo Instituto Nacional de Propriedade Industrial (INPI) como Indicação Geográfica (IG) para o guaraná nativo, primeira IG no Brasil utilizada por um povo indígena. Uma IG é conferida a produtos que, por seu local de origem, possuem valores intrínsecos próprios e peculiares, a exemplo dos presuntos de Parma, dos champanhe ou dos vinhos do porto.

A Tocandira

Formiga ‘Paraponera clavata’ – tocandira – maior do mundo, usada em ritual pelos Sateré-Mawé. Foto: Wikipedia

Outra particularidade desses povos, além da economia de subsistência dependente do guaraná, é a realização de um ritual de passagem da fase infantil para a adulta, denominado “ritual da tocandeira” ou da “tocandira”. Esses nomes são alusivos à espécie de formiga “Paraponera clavata”, única do gênero “Paraponera”, pertencente à subfamília Paraponerinae – anteriormente classificada como Ponerinae –, dentro da única família das formigas (Formicidae).

Essa formiga primitiva, semelhante a vespas, é endêmica da região amazônica atlântica, até às florestas tropicais da América Central. É considerada a maior do reino animal, com operárias atingindo até 25 mm de comprimento. A tocandira possui coloração preta ou vermelho-escuro e é dotada de potente mandíbula e vigoroso aguilhão, podendo morder e picar ao mesmo tempo. Contrariamente às abelhas, que só conseguem ferroar única vez, a tocandira confere dezenas de ferroadas, à semelhança das vespas.

Popularmente essa formiga é também denominada tocanera, tocantera, tocainará, tocanquira, tocanquibira, tocandeira, tocandera, chia-chia, naná, tec-tec. Etimologicamente o nome advém do Tupi (“tukã’di” = “fere muito”). É conhecida ainda como saracutinga, tracutinga, tracuxinga, a partir do Tupi  “taraku’ting”, que significa “taracuá” (uma espécie de formiga) com o elemento de composição “tinga” (branco). Daí, tracutinga significa “taracuá branca”.

O ritual da tocandira

O ritual da tocandira é constituído de várias etapas, que inclui as fases de reclusão, obediência, purificação e oferenda, culminando com a introdução das mãos do iniciando em luvas cheias de formigas “Paraponera clavata”, com até 60 espécimes em cada luva. O ritual tem a simbologia de evidenciar que o menino virou guerreiro, estando pronto para guerra, para a defesa da família e da tribo. Assim, somente os que passarem pela iniciação receberão a atenção das jovens indígenas a fim de constituírem uma nova família. Outro objetivo do ritual da tocandira seria conferir imunidade a inúmeras doenças, segundo acreditam os Sateré-Mawé. Durante a cerimônia preparatória, o candidato e um grupo de indígenas já iniciados dançam, ingerem guaraná e o tarubá – bebida leitosa fermentada, feita à base de mandioca –, símbolos da etnia. Os indígenas acreditam que as bebidas energizam o corpo, preparando-o para a dor que se seguirá. 

De acordo com a pesquisadora de culturas indígenas Joelma Monteiro de Carvalho (2019) (“Ritual de Passagem –das terras indígenas às áreas urbanas dos Sateré-Mawé”, Editora da Universidade Estadual do Amazonas, 2019. 168 páginas) na fase de reclusão o jovem candidato é submetido a uma dieta restritiva, com alimentação “à base de farinha, formigas torradas, castanha de caju, castanha-do-pará, castanha de sapucaia, caça, frutas e verduras”, a fim de se preparar física e psicologicamente para o grande dia, seguindo orientação do Tuxaua (cacique). Evitam alimentos “remosos”, como carne de peixes lisos (surubim, por exemplo), suínos ou qualquer animal que tenha unhas fendidas.

A segunda fase consiste na obediência ao deus Tupana (“mãe do trovão”), se submetendo ao ritual da tocandira, a fim de conseguir a posição de guerreiro. Durante dez minutos, crianças e adolescentes de oito a doze anos colocam as mãos em luvas de palha contendo dezenas de formigas tocandira, com mais de dois centímetros. Suportar a dor de centenas de ferroadas infligidas em vinte ocasiões ao longo de duas semanas, constitui o ritual de passagem do adolescente para a vida adulta. Os candidatos são sempre do sexo masculino, virgens, e devem decidir participar por vontade própria, sem pressão externa. O ritual se repetirá por sete dias seguidos, devendo completar vinte ciclos de introdução das mãos nas luvas, após o que o iniciado se considera um homem completo, com compromissos e atributos de um adulto. Passar pelas fortes dores das picadas das formigas, se submetendo a sofrimentos atrozes, é uma forma de cumprir dever para com o deus Tupana. O ciclo de vinte vezes pode ser completado em até duas semanas, ou ao longo de várias outras, de acordo com a vontade e a resistência do candidato. 

A dor lancinante que se segue é atenuada com dança e canto, utilizados para dispersar a peçonha inoculada pelas formigas e aliviar a dor. As picadas geram edema, vermelhidão e rubor, pela dilatação vascular e intensa dor, que dura por até 24 horas. Desnecessário repetir que o ritual se repete até completar o ciclo de vintes sessões. A seleção natural ao longo de dezenas de gerações seria a causa da provável prevenção dos hipotéticos casos de morte por choque anafilático. A hipótese do naturalista inglês Henry Walter Bates (1825-1892), que relata em seu livro “Um naturalista no Rio Amazonas” (Editoras Itatiaia/Edusp, 1979) tratar-se de ‘’um teatro” dos indígenas, já que teriam imunidade natural adquirida ao longo da vida, não os isenta da necessária coragem, já que a dor e o inchaço são reais, livrando-os, contudo – felizmente –, do risco de morte, devido à provável resistência adquirida. 

A luva asaáripé, usada no ritual da tocandira, com dezenas de formigas peçonhentas. Foto: Wikipedia

A terceira fase é de purificação, através da catarse provocada pela dor seguida do uso de uma bebida com ervas para purificar o candidato. A quarta fase é de oferenda, onde o agora guerreiro oferece uma caça à jovem indígena que dançou com ele durante o ritual. Essa jovem, de no mínimo dez anos, simboliza que o iniciado já pode se casar, não necessariamente com a moça a quem a caça é ofertada. 

Na plataforma YouTube há vários vídeos sobre o ritual da tocandira, alguns com voluntários que desejaram passar pela experiência. Em um deles, o biólogo e documentarista Richard Rasmussen, do programa Mundo Selvagem, produzido pela National Geographic, visitou Sateré-Mawé do Tarumã-Açu, nas cercanias de Manaus. Desejoso de passar pela experiência, conseguiu deixar as mãos nas luvas de tucandeiras por cinco minutos. Em seguida foi hospitalizado no Hospital de Medicina Tropical do Amazonas com dores e febre (assista o vídeo o final).

Carvalho (2019) apresenta uma síntese do ritual da tocandira realizada em terras indígenas (TI), levemente diferente dos acontecidos na periferia da capital manauara. Segundo aquela autora, são características do ritual nos TI: a) realizam-no como manifestação cultural política e social; b) ocorrem nos meses festivos de abril, novembro, ou quando necessário; c) há atuação do Pajé, Tuxaua e cantador; d) o ritual dura de 7 a 14 dias, podendo chegar a vinte dias, até se completar o ciclo de vinte sessões; e) há a ingestão de um rumitório – bebida à base de ervas –, para purificar o organismo do iniciado; f) as crianças são conscientizadas pelos pais desde tenra infância, sobre a importância da iniciação; g) o candidato se submete a uma dieta e coloca as mãos nas luvas com dezenas de formigas tocandira; h) após o ritual o iniciado oferece a primeira caça a uma jovem indígena; e i) com o ritual, desenvolve-se crença de ser recompensado com saúde, tornar-se bom caçador, bom esposo e bom pai.

Ao abrir a lata ou garrafa de guaraná, urge lembrar a existência de povos que mantêm o ecossistema propiciador dos frutos olhiformes do “waranã”, na Amazônia, há milhares de anos. O fruto de “Paullinia cupana” carrega uma simbologia de cuidados dos povos Sateré-Mawé, cujas crianças se tornam homens e guerreiros após receberem centenas de picadas das formigas tocandira. São os filhos e guardiões do guaraná, que preservam sua cultura e tradições com dor, fé e resiliência.

Assista ao ritual da tocandira com Richard Rasmussen

5 respostas para “Tocandira: o exótico e doloroso ritual de passagem masculina dos povos Sateré-Mawé, ‘filhos do guaraná’”

  1. Avatar fleurymar de souza disse:

    Com certeza, é um ritual que está muito acima de nós mortais, que não temos a fibra dos índios. Mas o que importa aqui é registrar a importância de mais um de seus bons e elucidativos textos. Saudações.

  2. Avatar Idelson Borges Pereira disse:

    Muito bom o registro escrito por Nilson Jaime sobre o ritual do nosso povo indígena a respeito da “tocandira”.

  3. Caríssimo Nilson Jaime, a cada novo artigo cresce em mim a admiração que tenho desde os tempos de exaustivo trabalho de pesquisar redação de ‘Família Jai(y)me’. Genealogista e historiador, além de sua refinada formação de Doutor em Agronomia, abre com exímia dedicação mais uma porta de saber – a Antropologia. Parabéns! Muito sucesso é o que lhe desejo nessas andanças pela cien.

  4. Avatar Jacira Rosa Pires disse:

    Maravilha de texto e pesquisa Nilson. Uma face do nosso lindo Brasil pouco divulgada. Parabéns. Como diz o Rasmussen, você é o cara.
    Um grande abraço.

  5. Avatar Lenora Barbo disse:

    Parabéns, Nilson Jaime! Seus textos abordam aspectos peculiares da nossa cultura e trazem sempre muito conhecimento. A cada novo Periscópio, uma grata surpresa!

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