Certamente, todos os dias você pisa na história material de Goiânia enquanto caminha pelas calçadas sem se despregar do WhatsApp. Essa memória viva está inscrita nos lindos tampões, praticamente indestrutíveis, que cobrem os bueiros do início da capital. Eles contam a história da pavimentação das ruas, do sistema de coleta de esgoto e do serviço de telefonia da cidade.

As tampas dos bueiros de Goiânia são obras de arte e testemunham o quanto foi tardio o processo de implantação da infraestrutura urbana. Os mais antigos datam de 1963 e marcam o início do serviço de coleta de esgoto e de drenagem de águas pluviais

Industrializadas em ferro fundido, as tampas dos bueiros de Goiânia são verdadeiras obras de arte e testemunham o quanto foi tardio o processo de implantação da infraestrutura urbana da nova capital de Goiás. Os mais antigos datam de 1963 e marcam o início do serviço de coleta de esgoto e de drenagem de águas pluviais.

Tampa da Saneago é verdadeira obra de arte Foto Marcio Fernandes 2026 1300
Tampa da Saneago é uma verdadeira obra de arte | Foto: Marcio Fernandes/2026

Entre o batismo cultural de Goiânia, em 1942, e o início da década de 1960, os primeiros marcos de instalação do equipamento urbano essencial no Centro e no Setor Oeste atestam o atraso de uma capital feita de ruas de terra, esgoto a céu aberto e falta de energia elétrica.

O nada em meio ao incontrolável adensamento urbano. Para se ter noção, no início de 1960, a população era de 153 mil habitantes. Em 1970, saltou para 389 mil.

Marco da pavimentação do Setor Oeste de 1973 Foto Marcio Fernandes 2026
Marco da pavimentação do Setor Oeste de 1973 | Foto: Marcio Fernandes/2026

Os tampões contam histórias incríveis, desde lugares que hoje têm um dos metros quadrados mais valiosos de Goiânia até áreas decadentes do Centro e do Bairro de Campinas.

 Na esquina da Rua 1 com a Rua 29, bem na calçada do Bosque Buritis, existe um tampão que marca a pavimentação de uns lugares mais nobres da cidade.

O saneamento chega ao centro de Goiânia apenas nos anos 1960 Foto Marcio Fernandes 2026
O saneamento chega ao centro de Goiânia apenas nos anos 1960 | Foto: Marcio Fernandes/2026

Meio erodido pela ação de feirantes, que o transformaram em estacionamento de Kombis, o marco registra 1973 como a data em que o Setor Oeste foi pavimentado.

As tampas de bueiro de esgoto e de águas pluviais confirmam o emprego de planejamento. Ao contrário do que se faz hoje, nos anos 1960 e 1970, a rede de saneamento era implantada antes da pavimentação para evitar dois custos com a mesma obra

A obra de arqueologia urbana tem a assinatura da Pavicap (Superintendência de Pavimentação e Obras da Capital), criada pelo prefeito Iris Rezende, por intermédio da Lei nº 3.354, de 7 de fevereiro de 1966.

Ele, que era tocador de obras, assistiu ao prefeito nomeado Manoel dos Reis e Silva (1970-1974) inaugurar a grande iniciativa que tirara da lama um bairro que nasceu para ser nobre.

As tampas de bueiro de esgoto e de águas pluviais confirmam, particularmente, o emprego de planejamento que havia à época. Ao contrário do que faz a maioria dos prefeitos hoje, nos anos 1960 e 1970, a rede de saneamento era implantada antes da pavimentação para evitar dois custos com a mesma obra.

Desarrumada tampa da malfadada TELEGOIÁS Foto Marcio Fernandes 2026
Desarrumada tampa da malfadada Telegoiás | Foto: Marcio Fernandes/2026

Tudo começa no governo Mauro Borges (1961-1964) e depois tem seguimento no Regime Militar. Pioneiro no planejamento estratégico em Goiás, o governador Mauro Borges elaborou um Plano de Desenvolvimento Econômico (1961-1965) tão avançado — embora extremamente estatizante — que hoje seria um modelo do que se chama compliance.

Basta observar o quanto as obras tinham andamento ao se verificar os tampões de 1964, 1969 e 1973 espalhados pelo Centro e pelo Setor Oeste. Não havia obra parada e tudo estava entregue para o pagador de impostos com qualidade. Quando foi preciso trocar a tampa de um bueiro instalada em 1963?

Tampa da DETELGO com desenho arquitetônico de Goiânia Foto Marcio Fernandes 2026
Tampa da Detelgo com desenho arquitetônico de Goiânia | Foto: Marcio Fernandes/2026

Enquanto a nova capital comia a poeira das ruas, o setor de telefonia, por incrível que pareça, foi o único que apresentou maior evolução no início de Goiânia, período em que a cidade e todo o Brasil Central ainda eram ligados pelo telégrafo e pelo rádio.

Da Detelgo, há dois tampões de proteção do sistema de fiação telefônica subterrâneo no centro. Um de 1966, muito bonito e limpinho, adornado com círculos concêntricos e oito ângulos para expressar o desenho urbanístico de Attílio Corrêa Lima

O início de tudo é o Decreto-Lei 7.486 de 17 de maio de 1943, assinado pelo interventor Pedro Ludovico Teixeira. A iniciativa deu início ao Serviço Telefônico de Goiânia, a princípio restrito ao Centro e ao Bairro de Campinas.

Nos anos seguintes, a telefonia em Goiás passa por vários e desnecessários ajustes de burocracia institucional, mas toma corpo com algum investimento privado e com a preponderante presença estatal como empreendedora e gestora do sistema.

Por meio da Lei 2.792 de 11 de novembro de 1959, foi criada uma empresa de economia mista chamada Cetelg (Centrais Telefônicas de Goiás S/A). A Cetelg durou, no papel, exatamente um ano.

A COTELGO foi uma das várias empresas estatais de telefonia Foto Marcio Fernandes 2026
A Cotelgo foi uma das várias empresas estatais de telefonia | Foto: Marcio Fernandes/2026

O governador José Feliciano Ferreira, o mesmo que havia criado a S/A por canetada, revogou a existência da empresa, de acordo com a Lei 3.179 de 11 de novembro de 1960. No ato legislativo, o indeciso governador criou então uma autarquia chamada Deco (Departamento Estadual de Comunicações).

Autarquia com nome de cunhado indesejado na noite de aniversário da sua mãe, o Deco também durou pouco, exatamente um ano e três dias. Em 14 de novembro de 1961, a Lei 3.999 — que conferiu a nova estrutura administrativa para dar execução ao Plano Mauro Borges — em seu artigo 53 troca o nome do Deco por Detelgo (Departamento de Telecomunicações de Goiás).

Da gloriosa Detelgo, encontrei dois tampões de proteção do sistema de fiação telefônica subterrâneo no centro da cidade. Um de 1966, muito bonito e limpinho, adornado com círculos concêntricos e oito ângulos para expressar o desenho urbanístico de Attílio Corrêa Lima.

Das tampas que encontrei na capital de Goiás, a da Telegoiás é a mais desarrumada e fica no fim da fila das mais lindas da cidade, inclusive uma da Saneago, que não perde em nada para as sofisticadas da Europa. Elas foram feitas com muita má vontade

O outro, um ano mais velho, é um retângulo decorado com padrão geométrico de losango, mas está imundo por conta do serviço dos pombos, entre outros maus elementos da cidade.

Em 1968, o sistema de telefonia sofreu outro arranjo institucional. A Detelgo, por meio da Lei 6.910, teve o seu patrimônio absorvido por uma nova empresa denominada Cotelgo (Companhia de Telecomunicações de Goiás S/A).

Nas ruas do centro, uma linda tampa do sistema operacional subterrâneo de 1972 conta no chão a história da empresa. É justamente neste ano que ocorre a mais importante reestruturação do sistema de telecomunicações do Brasil até a privatização, em 1998.

Por meio da Lei nº 5.792, foi criada a estatal Telebrás (Telecomunicações Brasileiras S/A), com a finalidade de controlar toda a política de gerenciamento das telecomunicações nas mãos da União.

Como consequência, as empresas dos Estados, exceto as privadas, se tornaram subsidiárias da Telebrás. No Estado, a Cotelgo se torna Telegoiás (Telecomunicações de Goiás S/A). Definitivamente, ela não mora na boa lembrança de quem nasceu nos anos 1960, pois o Sistema Telebrás era um desastre estatizante.

Conheci o telefone nos lápis de merchandising da alfaiataria do meu avô. Em casa, nós passamos a ter telefone em 1969, às vésperas do Milagre Brasileiro. Me lembro perfeitamente de ir com meu pai de Opala buscar o aparelho na casa de um senhor no Setor Coimbra.

O filho do infeliz insolvente, que precisou liquidar um ativo sentimental e valioso, chorava na despedida do telefone negro e discagem expedita.

Eu me comovi, mas naquele momento só imaginava chegar logo em casa para ouvir e falar ao mesmo tempo à distância e quanto isto iria melhorar minha vida.

Das tampas que encontrei, a da Telegoiás é a mais desarrumada e fica no fim da fila das mais lindas da cidade, inclusive uma da Saneago, que não perde em nada para as sofisticadas da Europa. Elas foram feitas com muita má vontade.

Tem a logomarca da empresa visivelmente maldisposta no desenho da tampa. Como se ela tivesse sido chutada pela antipatia coletiva que havia da empresa.

Antes da privatização, isso em toda a década de 1980 e até meados de 1990, ter um telefone era coisa cara e rara. Podia custar até 3 mil dólares nas lojas de câmbio negro instaladas na cidade.

Simplesmente, a Telegoiás não atendia à demanda e você ficava nas mãos do mercado paralelo e ainda tinha de declarar a linha no Imposto de Renda.

Que bom que todo mundo hoje tem telefone no ambiente de livre mercado no qual sobra trapaça das empresas ante a baixa regulação estatal. O importante é você andar atento ao imediato de uma mensagem do WhatsApp enquanto pisa, sem nenhum problema, na história da cidade.

Marcio Fernandes, jornalista, é articulista do Jornal Opção.